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E começa agora o novo episódio do "Português Suave". Eu sou o João Costa e Silva, conto sempre com aquilo que já é consagrado o maior ninja da língua portuguesa. Eu acho que já muita gente te conhece assim, Marco, não é? Prova disso são os e-mails que nós recebemos muitas vezes.
Hoje até vamos ter uma mensagem que alguém me trata assim.
Exato.
Será uma mensagem sobre o mirandês, lá para mais do Afonso. Vamos ouvi-la no final. Mas antes disso, temos aqui mais umas dúvidas. Este é o último episódio de agosto, ou seja, com o formato diferente das dúvidas. Para a semana voltamos ao normal com as nossas rubricas habituais.
E com as tuas sugestões de livros, também vão continuar.
Exatamente. Mas, para já, continuamos aqui a tentar responder nesta maratona de verão a todas as dúvidas que recebemos dos nossos ouvintes.
Antes de irmos às dúvidas, como é que foram as tuas férias? Eu sei que foste ver o eclipse, não foi?
Foram muito variadas. Estive em Bragança a ver o eclipse naquele 99,9%, mas os meus filhos já me disseram que querem ver o eclipse a 100% para o ano. Por isso, para o ano vamos ter de andar a navegar pelo sul de Espanha. A navegar? De carro. Para vermos o eclipse a 100% que vai ocorrer em Espanha para o ano. Também andámos em vários lugares do país, fomos ao Algarve. Por vários motivos, foram umas férias muito variadas.
Sim, porque um ninja também precisa de descanso.
Em Peniche, exato. Estive nas Berlengas, foi um agosto agitado.
Muito bem.
E bom.
Boa, isso é o mais importante. Vamos começar com as dúvidas. Vamos ouvir a Susana Matos. E depois temos outra dúvida relacionada com esta, mas já explicamos. Vamos aí, vamos ouvir.
Bom dia, meu nome é Susana Matos, sou de Leça da Palmeira e venho aqui pôr uma questão: por que agora toda a gente usa o verbo meter, em vez de pôr, e também colocar, em vez de pôr? Porque mete-se likes, mete-se sal na sopa, mete-se os sapatos ou colocar sal na sopa, também acho um bocadinho formal demais. Por que caiu em desuso o verbo pôr? Obrigada.
Então, João, nós também recebemos aqui a mensagem da Maria do Céu, que nos diz praticamente a mesma coisa, faz-nos uma pergunta sobre o verbo meter, por que agora está em todo lado. Portanto, esta resposta serve para a dúvida da Susana e da Maria do Céu. A verdade é que julgo que estamos perante um daqueles casos que já falámos aqui, em que nós começamos a notar algo e de repente esse algo aparece-nos em todo lado, mas não quer dizer que, na verdade, quando vamos olhar para a língua, que tenha havido uma transformação real. Eu sei que muitas pessoas têm esta impressão de que o verbo meter está muito mais metido nas nossas conversas, e é muito difícil medir, na verdade, a frequência, porque nós não temos um registo de todas as conversas do país. O que nós podemos ver é tentar perceber se isto já existia antes e tentar, por certas pistas, enfim, responder o melhor possível.
Tu reparas muito nisso, Marco, por acaso, se as pessoas usam mais meter ou pôr ou colocar?
Mesmo a pessoa que esteja atenta, é muito difícil ter noção, de fato, da frequência ser maior ou menor. A partir do momento em que nós começamos a notar.
Eu só comecei a pensar nisso quando apareceram estas questões.
Exatamente. E aí é como aquele fenômeno do novo carro. Quando nós compramos um carro novo, de repente parece que vemos o nosso carro em todo lado, porque é a nossa atenção que muda, não necessariamente a realidade. Eu não estou a dizer que não há aqui um fenômeno, só estou a dizer que fui tentar ver que sinais é que nós podemos, de fato, ver ou saber ou analisar. A utilização de meter já é muito antiga, é um verbo mais informal, e por ser mais informal, às vezes nota-se precisamente por isso. Mas olhando, por exemplo, para as obras do século XIX, aparece meter, mesmo já com o sentido mais metafórico, não meter na gaveta, mas com outros sentidos. Por exemplo, nos Maias aparece: "Que enquanto a mim, ele vem se meter na política". Depois, o bispo, de Quaresma, n'Isto é uma Relíquia: "Recortou este pedaço do farol para o meter entre as folhas". Aqui já é um uso mais habitual, mas depois também temos: "Uma algazarra de meter medo". "Vou meter as mãos no fogo", disse Garret no Marco de Santana. Portanto, os nossos clássicos já usavam meter com muitos sentidos e de forma bastante frequente. Nós podemos encontrar centenas de usos destes nos clássicos do século XIX. Agora, será que houve alguma transformação nos últimos tempos? Não é fácil saber. Eu usei aqui uma espécie de truque, que é olhar para as pesquisas do Google nas últimas duas décadas, porque o Google não é a resposta definitiva, mas permite-nos ver se as pessoas, nas últimas duas décadas, pesquisaram mais pôr, colocar, meter, se houve alguma transformação. E na verdade, não. Os três continuam com frequências muito parecidas. Pesquisei várias formas, no passado, no presente, e estes três não houve grande mudança nas últimas duas décadas. Portanto, continuamos a usar meter, pôr e colocar. Agora, a verdade é que, por vezes, as pessoas notam mais o meter, porque é mais informal e pode arreliar um pouco quando nós estamos num contexto menos informal. Não sei se isto faz sentido. São os únicos dados que eu consigo dar. Eu não estou a garantir que não houve uma transformação, mas parece-me que é mais a nossa atenção, quando alguém começa a perceber Que há o uso de "meter" fora das situações que consideraria normais, acaba por notar mais esse verbo, e esse verbo parece que de repente está em todo lado, quando não parece ter havido uma grande mudança. É o que eu posso dizer.
Isto também depende muito das pessoas de quem nós nos rodeamos.
Sim, exatamente. Também é essa a questão. Cada grupo social, e quando digo grupos sociais, grupos de amigos, famílias, tem uma frequência diferente. Por isso é que isto é tão difícil e não é legítimo chegar a conclusões definitivas. Eu não podia chegar aqui e dizer: "Ah, sim, é assim" ou não. É muito variável. Os sinais que eu consigo ver são estes: não parece ter havido uma transformação. No século XIX já se usava. Nas últimas duas décadas, nas pesquisas no Google, parece haver uma certa estabilidade nesta utilização destes três verbos. Os três verbos existem, não há nenhum deles que esteja a desaparecer. Agora, claro, e que varia muito, se calhar, uma pessoa em particular está no meio de pessoas que usam muito mais um dos verbos e por isso, se calhar, também vai dar mais atenção a isso.
Muito bem. Olha, temos mais uma dúvida que nos chegou através do WhatsApp do Pedro, não é, Marco?
Do Pedro, exatamente. Deixe-me só ver se consigo aqui ler. É uma dúvida sobre o-
Ele que mora no Reino Unido, em Londres.
Exatamente. Eu vou ler. Diz o Pedro: "Questão para a equipa do Português Suave. Sou português, residente em Londres, Reino Unido, e fiquei cego há um par de anos. No inglês, usamos blind ou sight impaired para descrever tal condição, ao passo que existe a palavra visual, ou visual em inglês, que se refere a algo que pode ser visto, tal como no nosso português. No entanto, quando estou em Portugal, as pessoas insistem em tratar-me por invisual, em vez de cego, algo que me incomoda porque associo o invisual ao contrário de visual. Será correto usar tal termo neste contexto, mas gostaria de ouvir um vosso comentário ao facto deste meu incômodo. Obrigado, Pedro." O que nós temos aqui, e o Pedro identifica, quando uma pessoa está num país e vem ao país de origem, nota, se calhar, mais estas diferenças de que estávamos a falar. Invisual, eu não fui ver há quanto tempo é que é usado, mas faz parte daquilo que nós podemos chamar o ciclo dos eufemismos. Ou seja, quando há uma situação em que a pessoa tem algum medo de diretamente referir a situação, neste caso, a cegueira, há uma tendência social para encontrar eufemismos. E estes eufemismos vão e vêm por modas. Portanto, o invisual tornou-se, a certa altura, uma forma de falar da cegueira, de forma que parecia mais, estou a repetir duas vezes "forma", parecia mais, estamos a falar de repetições, agora numa certa altura.
Exato, nós temos a prestar mais atenção ainda às repetições.
Às repetições. Era uma forma de as pessoas tentarem ser mais respeitosas na sua perspectiva, ao não referir diretamente a cegueira. Mas, na verdade, para uma pessoa que de facto passa por isso, provavelmente, esta tentativa de fugir acaba por ser pior. Eu percebo perfeitamente o incômodo do Pedro. Eu acho que os eufemismos têm o seu papel, claro, mas também não me parece que devamos fugir aos termos mais tradicionais e dizer cego em vez de invisual. Eu percebo perfeitamente o incômodo do Pedro, é isso que eu lhe posso dizer.
E um abraço daqui até Londres, Reino Unido.
Que é um dos meus países, no sentido em que eu tenho lá família, eu tenho lá as minhas sobrinhas e o meu irmão e minha cunhada, que vivem lá, o meu irmão Diogo. Por isso, fica um abraço para o Reino Unido todo, para o Pedro e também para a minha família e para as outras pessoas que nos estejam a ouvir a partir de lá.
Acredito que sejam mais. Vamos à última. É uma dúvida de um jovem de 14 anos, Marco. Vamos ouvir.
Olá, Marco e João. Eu sou o Afonso, de 14 anos, e eu tinha uma dúvida pro Ninja. Eu estive em Miranda do Douro hoje e eu tive curiosidade com o mirandês, então eu comprei um livro do Asterix em mirandês e eu descobri enquanto estava a ler, a tentar perceber, descobri que havia uma expressão, que eu fiquei com dúvidas, porque quando nós dizemos a um grupo de pessoas, quando nós estamos, dizemos toda a gente. Em brasileiro, diz "todo mundo" e em mirandês, eu reparei que também se diz "todo mundo". Qual é que é a ligação e por que é igual ao português do Brasil e não ao português europeu? Obrigado, gosto muito do vosso podcast e abraço.
Um abraço aqui pro Afonso.
Um abraço pro Afonso. Fico muito contente que ele não só tenha ido visitar Miranda do Douro, como esteja atento a estas questões da língua.
Sim. E já te reconhece como Ninja, não sei se reparaste também.
Exato. Antes fiquei aqui com o selo de Ninja.
Já estás batizado, no fundo.
Exato. Bem, o que eu lhe posso dizer ao Afonso é que temos aqui mais um caso parecido com o que estávamos a falar antes, de ser difícil, por vezes, analisar a frequência com que nós usamos uma determinada expressão. Porque "todo mundo", hoje, nós associamos mais ao português do Brasil, mas também já foi e é ainda usado em português, aqui em Portugal, portanto, no português de Portugal. Mais uma vez, e já que estive lá a pesquisar nos Maias para a questão do "meter", também fui pesquisar esta e aparece nos Maias: "Vai ser um grande homem, é o que todo mundo disse." Estamos a falar dos Maias, um livro escrito em Portugal, um livro escrito em português de Portugal. Portanto, o que acontece aqui é uma construção antiga que, de repente, neste caso, torna-se menos frequente num dos territórios da língua e mantém-se frequente no outro. Portanto, o associarmos o "todo mundo" ao Brasil É mais porque nós mudámos um pouco a utilização desta expressão e não porque os brasileiros começaram a usá-la mais ou porque a mudaram ou porque a inventaram. Não, ela já existia há muitos séculos em português cá em Portugal e depois foi para o Brasil, ficou por lá e cá começou a ser um pouco menos usada, pelo menos é isso que me parece, tendo em conta que nós associamos mais ao Brasil. O mirandês manteve a expressão, que também não é só portuguesa, também aparece noutras línguas e, portanto, é essa a ligação. Há uma continuidade que neste caso foi quebrada pelo português em Portugal e manteve-se não só no português do Brasil, como também nessa língua irmã que é o mirandês. E obrigado, Afonso, pela atenção e espero que esteja a gostar do "Astérix" em mirandês.
Claro. Queremos saber.
Sim, ele que diga se está a gostar e se consegue compreender bem. O mirandês é uma língua diferente, mas uma língua próxima, que nós conseguimos ler com alguma facilidade.
Muito bem. Marco, e entretanto estava aqui no Spotify, porque nós recebemos também muitos comentários através de lá. O Paulo Lopes, que é um ouvinte assíduo do nosso podcast, disse assim: "Vir a Bragança e não avisar antes. Foi preciso ver o 'Ninja' em direto na televisão." Já viste?
Peço desculpa não ter avisado. Lá estivemos a ver o eclipse. Foi muito curioso. Descobri também por esses dias que nós temos uma palavra tradicional para eclipse em português, que é cris.
Cris, de Cristiano?
Não, só cris mesmo, cris de eclipse. Para o ano falaremos disso quando tivermos o outro eclipse que vai aparecer no início de agosto de 2027.
Exatamente. Bem, nós voltamos no próximo domingo, dia 6 de agosto, e depois vamos continuar com a programação habitual. Ou seja, à quarta-feira, dúvidas, ao domingo, o episódio com a estrutura habitual, com as nossas rubricas, a língua nas notícias. Temos também a sugestão dos livros do Marco, mas já sabe que podem enviar dúvidas para o "Português Suave". O Marco já se esqueceu do número, como é óbvio.
Já. Diz aí.
91 002 41 85. Através do nosso WhatsApp podem enviar áudios como fez o Afonso ou a Susana Matos, mas também temos um e-mail, Marco. Esse tu sabes.
portuguessuave@observador.pt.
Pronto, estamos conversados. E um dia o Marco, com certeza, vai decorar este número. Possivelmente vai escrevê-lo na mão e vai fazer um brilharete e eu vou acreditar que ele sabe de cor.
Estou a planear essa partida, mas ainda não é hoje.
Quem sabe uma tatuagem, mas essa é mais permanente.
Talvez.
Marco, um abraço e até domingo.
Um abraço.