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Rui Pedro Antunes, ficaste mais clarificado depois de ouvir este discurso ou também estás baralhado?
Sei qual é a estratégia de Nuno Melo, ou aquilo a que se vai agarrar para motivar as tropas. E o que me parece que é? Todo esse ponto de crítica ao Partido Socialista vai também terminar num ponto de uma crítica ao primeiro-ministro de estar com os olhos em Bruxelas. Os olhos em Bruxelas é daqui a dois anos. Portanto, é o fim deste ciclo que agora inicia. Nuno Melo põe esperança nas hostes para não desmobilizarem, porque senão começam a ir para outros partidos, como já têm ido para o Chega e para a IL, e diz-lhes: "Atenção, o presidente está bem informado", como disse a Raul de Sousa, "sabe que António Costa poderá ir para a Europa, António Costa está com o coração na Europa, já não quer saber de Portugal, esperem aí, porque daqui a dois anos vai haver eleições e nós vamos para lá mais cedo do que achamos. Não vai ser uma travessia no deserto, quatro anos e meio, vão ser dois". Isto é um ponto de vista de estratégia política em que ele termina precisamente o discurso desta forma e nesse aspecto, eu acho que ele define aqui uma espécie de motivação adicional após 90 anos de CDS.
Acho que ias começar o segundo ponto da tua análise.
O segundo ponto era para ir um bocadinho ao encontro daquilo que o Miguel tinha dito, que apesar de eu achar que a estratégia é correta, em vez de uma análise macro, há vários pontos micro de pequenas bandeiras. Ele vai ter que as ter, e muitas já estão no Chega, outras na Iniciativa Liberal. Não sabemos hoje que CDS é que é este CDS de Nuno Melo, se é do CDS do Twitter dele, que anda sempre atento à ideologia de género, se é um CDS mais europeu, no sentido que até Margarida Bentes Penedo o acusava de ir para determinadas agendas, que ele já explicou que tem que ser o clima, porque para ir buscar fundos comunitários é preciso fazer a transição digital e para o climático. E, portanto, ele já deu essa justificação. Depois há ali também uma questão de tom, que o Miguel já esteve aqui a falar mais das medidas, que eu acho que Francisco Rodrigues dos Santos parecia que estava sempre a ralhar com alguém. Parecia que estava sempre zangado. E Nuno Melo aparece aqui com um bocadinho com uma postura de charming man, que até antes de atacar a Ana Catarina Mendes, diz: "Peço desculpa".
Pede-lhe desculpa.
"Amiga Ana Catarina, não me leva a mal, mas eu agora vou criticar o governo, porque sou da oposição, certamente compreende". Ainda nesse aspecto de elogiar a escola pública, de elogiar o Serviço Nacional de Saúde, também diz que António Costa é muito bom, porque o que ele diz é o seguinte: "Bom, os portugueses votaram em António Costa, aqui ninguém enganou ninguém, António Costa tem maioria absoluta". Depois ainda diz: "António Costa era um grande presidente de câmara". Depois puseram lá o Fernando Medina. Portanto, ele tem sempre aqui uma espécie de ponto de até elogiar ou dizer que Costa é a grande figura do governo, o que também tem sempre essa perspectiva. Uma outra coisa curiosa relativamente a estas reações, é ver estes partidos que também beneficiam, de certa maneira, da queda do CDS para, de alguma forma, darem aqui uma opinião meio vazia, meio branca sobre o CDS. Eu acho que aquilo que o representante da Iniciativa Liberal, creio que é Miguel Rangel, disse foi o que havia num tweet. Portanto, é sempre nesta onda de muitas felicidades, ou mesmo o próprio Salvador Malheiro a dizer: "Bom, o próximo líder do PSD depois logo decide se faz ou não..."
Porque um CDS mais forte também prejudicará esses partidos.
Eventualmente, sim. Por acaso, um ponto curioso é que o CDS e Nuno Melo têm essa perspectiva, e falava conosco há dias, já no fim de uma entrevista, mas em registo informal, embora não era em off, que de facto o CDS também cresce muito quando o PSD cresce. Portanto, aqui, de facto, há uma grande competição direta com a Iniciativa Liberal e com o Chega, que o CDS tenta combater, porque de facto precisa muito dessas novas bandeiras. Agora, há aqui uma postura muito agregadora de Nuno Melo, de querer conseguir unir o partido todo. E era aquilo que dizia que era esse grande desafio do CDS. Para que serve o CDS? Nós estamos ali a ver nos ecrãs, o CDS faz falta a Portugal, mas faz falta a que tipo de eleitores? Ele disse que havia esse espaço vazio, indo mais à parte política, ideológica, do campo ideológico, entre a IL, que está à esquerda do PSD, e que de facto ele lembrou que no Parlamento Europeu e em vários parlamentos na Europa, parlamentos nacionais de outros países europeus, os liberais estão, de facto, à esquerda do PPE, dos partidos filiados do PPE, e ele quer ocupar esse espaço.
É que esse espaço parece que ninguém quer.
E ele não diz que está à direita do Chega. Ele diz é que o Chega está à direita do regime. E, portanto, entre a direita do regime e a direita do CDS também há espaço para ocupar e quem se posiciona à esquerda do PSD. Portanto, entre a direita do PSD e aqueles que estão à direita do regime, cabe o CDS. E é aí que ele se quer sentar nessa altura. Acho que tem este desafio de tornar, como diria Pires de Lima, o CDS sexy. Tem aqui este charming man, um bocadinho, se calhar, mais sexy platina, porque estes jovens do CDS, que eram jovens há 15, 20 anos, tornaram-se quadros que passaram pelo governo neste tempo de Paulo Portas, tiveram experiência governativa, tornaram-se deputados. Enquanto Francisco Rodrigues dos Santos metia Francisco Lapaine Guimarães, Francisco Tavares, Francisco Camacho, Miguel Matos e Miguel Barbosa, e tinha essas pessoas para reagir. Amanhã, quando alguém quiser uma reação, até pode dizer: "Bom, vamos lá ver reagir. Não, não vamos pedir ao CDS porque não tem bancada parlamentar". E Nuno Melo diz: "Mas eu tenho aqui Assunção Cristas para reagir, mas eu tenho aqui Pedro Mota Soares para reagir, mas eu tenho aqui Cecília Meireles para reagir". E os jornalistas vão dizer: "Não, não queremos". Então, mas é um ex-ministro. "Ah, mas tenho aqui António Pires de Lima", vamos imaginar que voltava, "para reagir". Então, o antigo ministro da Economia, não quer. "Tenho aqui Paulo Núncio para reagir aos impostos." Não querem ouvir. É que é o antigo secretário de Estado dos Assuntos Fiscais. E, portanto, eu acho que todo este gravitas político que o CDS volta a ganhar, porque estas pessoas afastaram-se, não ajudaram Francisco Rodrigues dos Santos, pode ser uma grande mais-valia para aquilo que será o palco mediático que o CDS vai ter. E se o Adolfo, o Mesquita Nunes, o Francisco Mendes da Silva, o próprio António Pires de Lima e outros não voltarem ao partido, mas começarem a ajudar o partido nesses espaços mediáticos que têm, então pode ser que haja aqui um futuro para este partido. Vamos ver se há ou não.