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É colunista regular do Observador e um dos quatro ases do Fora do Baralho. João Marcos de Almeida escreve muito no nosso site sobre política europeia. O último artigo foi sobre França e hoje a crise política passou para um dos países vizinhos, a Alemanha. A moção de confiança ao governo de Olaf Scholz chumbada, o país vai a eleições dia 23 de fevereiro, daqui a pouco mais de dois meses, num contexto de crise econômica, num país que é tido como o motor europeu. João, boa tarde. Imagino que este desfecho não te surpreenda. As sondagens colocam o SPD de Scholz só em terceiro lugar, dão à CDU, partido conservador da antiga chanceler Angela Merkel, o primeiro lugar, e a extrema-direita da AFD logo em segundo. E agora? Estou aqui a recorrer a esta pergunta porque no teu último artigo sobre França também perguntavas: "E agora, Macron? E agora, Scholz?"

Olá, Vanessa, boa tarde a todos. Antes de mais, antes de ir ao ponto verdadeiro sobre a Alemanha, acho que apesar de tudo, há uma diferença entre a França e a Alemanha. É verdade que há uma crise econômica séria na Alemanha e uma crise diferente da crise francesa, que é mais financeira, de despesa pública do que a alemã. E a crise na Alemanha é, sobretudo, de produtividade econômica, com praticamente crescimento nulo neste momento. Agora, as crises políticas são diferentes, porque enquanto a França parece estar num impasse, com Parlamento fragmentado e sem hipóteses, e com governos fracos, portanto, sem hipóteses de fazer um governo muito forte, com grande apoio parlamentar, a Alemanha ainda não está e já se sabia, como disseste, que a moção de censura ao governo iria passar, que era o mais provável. A maioria no Parlamento alemão já tinha dito que ia votar a favor da censura ao governo de Scholz, mas a Alemanha ainda não está numa situação de impasse político, de não ter uma maioria parlamentar. Vamos ver o que vai acontecer com as eleições. Pode chegar aí, mas também pode não chegar. As eleições em fevereiro, neste momento, a campanha vai começar verdadeiramente no princípio de janeiro, depois das festas. Portanto, vai ser uma campanha de um mês e meio, relativamente curta. E a grande questão é saber, parece claro que a CDU vai ganhar as eleições e, portanto, será o partido liderante da nova coligação. Também parece claro que a CDU não ganhará com maioria absoluta e, portanto, vai precisar de um parceiro de coligação. E essa é a grande questão para as eleições na Alemanha. Quem será o parceiro ou quem serão os parceiros de coligação da CDU?

Isso levava a uma pergunta, João. Podemos ter uma reedição da coligação do bloco central Merkel CDU SPD ou uma espécie de Frente Popular de Esquerda?

Frente Popular de Esquerda não acredito, porque se o SPD e os Verdes forem coerentes com o que dizem, que não fazem alianças com os partidos da esquerda radical, então não acredito, porque nesse caso, eles estão numa posição semelhante à da CDU. A CDU também diz que não fará uma coligação com a AFD. Aliás, a maioria parlamentar mais provável seria uma maioria CDU AFD, mas a CDU já disse que não fará uma maioria com a AFD. Não faz sentido a CDU renunciar a AFD como parceiro de maioria e o SPD e os Verdes aceitarem partidos que são tão radicais como o AFD na extrema-esquerda. E aliás, o novo partido de extrema-esquerda, não me recordo agora o nome, tem o nome da sua fundadora e presidente, aliás, um caso de personalismo político muito raro na Alemanha, mais habitual em França. Esse partido tem exatamente as mesmas posições da AFD, por exemplo, em relação à guerra na Ucrânia, em relação a muitas questões, até imigração, o nacionalismo econômico e a intervenção do Estado. Parece que há um acordo entre os quatro partidos mais ao centro, a CDU, o centro-direita, os liberais de centro-direita e depois dois de centro-esquerda, o SPD e os Verdes, para não fazerem uma coligação com partidos radicais. Mas pode-se reeditar a grande coligação entre a CDU, desta vez liderada por Merz, e um SPD que terá um líder diferente de Scholz, porque o mais provável será Scholz demitir-se perdendo as eleições. Parece ser o cenário mais provável. Então se ficam em terceiro lugar atrás da AFD, demite-se seguramente. Agora, há uma questão muito interessante na Alemanha, que aliás é quase um mistério político. Nos questionários, nos estudos da opinião, a grande maioria dos alemães diz que não quer a solução de grande coligação, não gostam da solução de grande coligação, mas depois votam de modo que haja grandes coligações. Que é uma coisa extraordinária. Não querem a grande coligação, mas a soma dos votos leva a que uma maioria muito provável seja a grande coligação. Mas há outras duas maiorias que podem acontecer e que seriam muito mais benéficas que a grande coligação.

Quais?

Porque a grande coligação, uma das razões porque os extremos cresceram muito na Alemanha, quer à direita, quer à esquerda, foi por muitos anos de grande coligação liderada pela Merkel. Essa foi uma das razões porque os extremos cresceram. As grandes coligações têm esse efeito negativo nas democracias. As duas coligações prováveis, uma delas é menos provável Mas poderá ainda acontecer, depende muito da campanha, seria entre a CDU e os Liberais, que era a coligação preferida da CDU e do líder da CDU, seguramente, e os Liberais, quando os dois partidos têm maioria, os Liberais são o parceiro preferido da CDU. Aliás, o parceiro que mais anos governou com a CDU. Outra possível, e que seria inédita, é a CDU com os Verdes, que é muito mais possível, se olharmos para as sondagens. Não é nada impossível, não está longe de acontecer. A CDU tem cerca de 32% nas sondagens, os Verdes têm cerca de 12, 13. Portanto, com cerca de 45, 46, eles conseguiriam ter maioria absoluta, em princípio. O que seria uma coligação muito interessante.

Está tudo em aberto ainda, não é, João? E o que nos trouxe até aqui? A guerra na Ucrânia levou a um aumento muito grande na dívida alemã, a economia começou a tropeçar, encaminha-se para o segundo ano consecutivo de recessão. Olaf Scholz é aqui o principal responsável. Que erros cometeu, na tua perspectiva?

O Olaf Scholz é o principal responsável porque era o chanceler. Eu acho que, em primeiro lugar, foi uma questão política mais do que econômica. É a primeira causa da queda deste governo, porque foi sempre muito difícil, desde o início, os três partidos entenderem-se. É muito mais difícil governar uma coligação a três do que a dois. E muitas vezes os Verdes e os Liberais, que tinham posições bastante diferentes. O que não deixa de ser curioso, porque o eleitorado dos Verdes e Liberais é cada vez o mesmo tipo de eleitorado. Eles competem um com o outro em relação ao eleitorado. O eleitorado dos Verdes também tornou-se um eleitorado urbano, de profissões liberais, liberal economicamente, tal como o eleitorado dos Liberais. E depois houve uma questão, que é uma das grandes questões econômico-financeiras da política alemã, que foi os Verdes serem favoráveis a acabar com a regra constitucional de limitação do déficit da despesa pública, e os Liberais são absolutamente contra isso. Ou seja, os Liberais são, nos termos que se costumam utilizar no debate público, muito ortodoxos economicamente e financeiramente, e os Verdes são muito menos ortodoxos. E essa foi a razão imediata que levou ao colapso do governo, porque os Liberais recusaram-se a aumentos na despesa pública que os Verdes e o SPD queriam. E foi isso que levou ao fim da coligação.

O Ministro das Finanças foi demitido, tudo isso.

Exatamente, pelo chanceler Scholz, e o Ministro das Finanças é o líder dos Liberais. Só um ponto em relação aos Liberais para as eleições que aí vêm. Se eles mudassem de líder, não sei se vão mudar, e o mais provável é que não mudem, mas se mudassem de líder, tinham mais hipóteses de ter um bom resultado e de serem um potencial parceiro da CDU. Mas eu duvido que mudem de líder, e isso será mau para eles, porque os líderes ficaram associados a este fracasso, deviam dar lugar a outros que não têm nada a ver com esta coligação. E no SPD acontece exatamente o mesmo, mas o SPD já confirmou que será Scholz o candidato e acho que os Liberais vão fazer o mesmo.

E vamos ver como é que se encaminha o futuro político da Alemanha. Hoje ficamos a saber que o país vai mesmo a eleições antecipadas dia 23 de fevereiro. Muito obrigada pela tua análise, João Marques de Almeida. Ajudaste-nos a olhar para esta aritmética que podemos perspetivar na Alemanha e também a perceber como é que chegamos aqui. Foi o colunista do dia. Estamos de volta amanhã.