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Dou as boas-vindas ao publisher do Observador, José Manuel Fernandes, a quem digo outra vez boa noite, agora para analisar as palavras do secretário-geral socialista. Concordas com esta análise do Rui Pedro Antunes, que a primeira conclusão que se pode tirar daqui é que não vai haver eleições, de certeza?

Concordo. Aliás, eu tinha sugerido que provavelmente era isto que ia acontecer. Nenhum partido neste momento está interessado em eleições. Provavelmente o Partido Socialista é o que está menos interessado em eleições e Pedro Nuno Santos, em particular. Eu até arrisquei uma previsão, evidentemente daqui até o final de setembro muita água passará debaixo das pontes e nós com os dias estamos a ver, nem precisamos de esperar semanas, basta às vezes esperar horas para sermos surpreendidos. Mas seja lá como for, tudo indica que o Partido Socialista tem boas condições para ter um bom resultado nas eleições autárquicas, porque pode recuperar algumas Câmaras grandes e muito dificilmente deixará de manter a presidência da Associação Nacional de Municípios e, portanto, vai ter um bom resultado aí quase certeza. Pedro Nuno Santos vai poder reclamar a vitória e não lhe interessa estar agora a entrar numa eleição pelo meio disto. Para o Partido Comunista, o partido não está com o mesmo tipo de apertos que tinha o Chega e que o levou a tentar desviar as atenções. E eu penso que hoje André Ventura já deve ter batido com a cabeça na parede não sei quantas vezes a dizer: "Que estúpido que fui, que precipitado que fui", porque ele esperava mais 15 dias e colocava o Partido Socialista numa posição muito mais complicada de não votar a moção de rejeição, porque a situação seria diferente. Agora ouvimos André Ventura e ele estava a tentar transformar coisas que não são crimes em crimes, estava a tentar transformar explicações em suspeitas. E não estou a dizer que esteja tudo explicado e que não vão aparecer mais casos. Estou a dizer é que muitas das ilações tiradas por André Ventura iam muito para além daquilo que nós conhecemos. O Bloco também não está no seu melhor momento para ir para eleições. Portanto, aquilo que se depreendia da estratégia daquilo que o primeiro-ministro tinha dito, vamos ver se há confiança, o Parlamento é que tem que dizer se há ou não confiança, ele vai tirar essa ilação da não aprovação de uma moção de censura. Não é a mesma coisa que a aprovação de uma moção de confiança. Todos sabemos isto, mas vai ser isso que vai ser dito. Do ponto de vista da autoridade política do primeiro-ministro, do desgaste político e do tempo que ele vai muito provavelmente ter que continuar a dar a estes problemas, porque nós já sabemos, vai haver de certeza mais noticiários sobre esta matéria, quase certeza. Isto vai prolongar-se mais alguns tempos. Pode ser que surja alguma coisa que nós não conheçamos ainda e que seja realmente comprometedora. Pode ser que não. Veremos. Agora, do ponto de vista da relação com os cidadãos e da cidadania achar que ele está acima de qualquer suspeita, já não recupera essa imagem. Isso obviamente enfraquece politicamente o governo, enfraquece a capacidade do governo de tomar medidas, sobretudo tomar medidas que possam ser mais complicadas. E nós vivemos um tempo em que muito provavelmente é isso que é necessário. Nós temos pela frente a necessidade, por exemplo, de aumentar as despesas com defesa. E para aumentar as despesas com defesa, não há muitas alternativas. Não se vai buscar o dinheiro, o dinheiro não cai do céu. É preciso fazer opções e há muitos problemas em muitos lados para se imaginar que é fácil fazer opções cortando aqui ou cortando acolá. Num país como Portugal, isto leva mais rapidamente à paralisia do que à ação. Com o governo politicamente diminuído, não creio que vamos ter uma governação muito efetiva nos próximos tempos.

Há pouco ouvimos aqui também o Rui Pedro Antunes dizer que obviamente o primeiro-ministro não sai reforçado deste caso, sai fragilizado e que obviamente não gostará de ter passado por isto ou preferiria não ter passado por isto. O que pergunto, José Manuel Fernandes, é: e Pedro Nuno Santos? Sendo certo então que o governo sai fragilizado, Pedro Nuno Santos também acaba por ter que fazer várias decisões difíceis e sempre a acabar por optar por não derrubar o governo. Achas que Pedro Nuno Santos podia até preferir que estes casos não tivessem rebentado?

Não, isto acontecia sempre à oposição. Um governo que se vai desgastando, eu costumo dizer que não são as oposições que ganham as eleições, são os governos que as perdem. E muitas vezes perdem-nas precisamente porque vão cometendo erros. No caso concreto deste governo, houve expectativa, promessas eleitorais que indiscutivelmente foram cumpridas. O primeiro-ministro procurou recordá-las na sua comunicação, mas há muitas áreas da governação onde há muitos problemas, continua a haver muitos problemas e sabemos que é muito difícil resolver esses problemas, não é em meses, é em anos. Há problemas para anos, sobretudo na área que talvez porventura a área mais complicada seja a área da saúde, mas também na área de educação e com uma capacidade diminuída de atuar noutros domínios. Vamos ver. Nós temos uma pressão que em Portugal eu suspeito que vai continuar a aumentar, que já percebemos que noutros países já se tornou na preocupação número um das populações. Essa pressão chama-se imigração. É um tema que não estava na nossa agenda política, não estava nas preocupações dos portugueses, mas tem vindo a entrar na preocupação dos portugueses e também aí aquilo que o governo tem feito já é diferente do que fez o governo anterior, como é óbvio. As pessoas continuam inquietas. E sabemos que, para os partidos mais populistas, pode ser um filão, quer para os populistas de esquerda, que acham que deve entrar tudo, quer para os populistas de direita, que acham que não deve entrar ninguém. Porque são os discursos mais fáceis. O difícil é que entrem as pessoas que nos fazem falta e que essas pessoas que nos fazem falta não causem problemas com os portugueses e com os que cá estão. E essa parte difícil não se vai resolver de um momento para outro. Nós sabemos que foram tomadas medidas para a regularização dos imigrantes, mas estão a levar muito tempo a perceber se estão a funcionar bem. Tudo isto são problemas. Eu não sei se todos os portugueses são como eu, não são de certeza absoluta, mas eu nas últimas 24 horas não me apeteceu pensar muito nem na casa, nem na empresa do Montenegro. Aquilo que me tem preocupado é o que se passou na Casa Branca há 24 horas. Isso sim, é que me deixou bastante inquieto e não sei se por distância, se por outra razão qualquer, também sei que na reunião de amanhã em Londres, Portugal não vai estar. Mas vão estar alguns países pequenos, sabemos que são países que ficam mais perto da linha da frente. Vão estar os Bálticos, a Chéquia, países da nossa dimensão, vão lá estar. Nós não estamos. Espanha vai estar, mas Espanha é um país maior, podemos sempre usar esse argumento. Eu gostava que estivéssemos. Não basta ter lá o António Costa, porque o António Costa, por Portugal, já não arrisca nada, por assim dizer, não vai representar Portugal naquela reunião. Vivemos tempos difíceis e perigosos, mas ao mesmo tempo também interessantes. Vamos ver como é que isto evolui. Eu fico, pessoalmente, mais uma vez, isto não é uma questão de análise política, é uma questão de opinião, eu apesar de não estar satisfeito com o pouco espírito reformista deste governo, que está quase ao nível do anterior no que diz respeito à capacidade de mudar um pouco o que o país é, eleições nesta altura, com as complicações do mundo e com as outras eleições que temos aí pela frente, sinceramente, para ficar mais ou menos tudo na mesma, que era o que se previa, não creio que ganhássemos nada com isso. Por isso, vamos ver se não temos mais surpresas vindas do lado de eventuais trapalhadas que ainda estejam escondidas, já não é no baú como as prosas do Pessoa, mas nas caves do Montenegro, até porque as casas, pelo menos a casa de Espinha grande, tem seis andares. Portanto, deve ter seguramente uma cave.