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"Dom Donald e o seu pequeno mundo" é o artigo assinado esta quinta-feira no site do Observador pelo Alexandre Borges, o nosso colunista do dia. Muito bem-vindo, Alexandre.
Olá, obrigado.
Este Dom Donald não é o Pato Donald, mas também gosta de dinheiro, não é?
Isso eu não tinha pensado nisso. O Donald gosta de dinheiro, mas não tem nem um chavo. O tio é que tem, apesar de tudo. Provavelmente, este Donald não tem tanto quanto diz que tem, mas provavelmente tem mais. Sim, este título é mais-
Desculpe, só dizer que quem tem dinheiro é o Tio Patinhas.
Era isso. O tio do Donald.
Exatamente.
Mas foi importante isso, para quem não acompanha a saga do Carl Barks. Mas sim, este título aqui, no caso, a referência é ao Dom Camilo e o seu pequeno mundo, que até é uma personagem maravilhosa, que se calhar até não merece tanta comparação, a personagem do Giovanni Guareschi. Mas lembrei-me, claro, por me parecer que de facto há uma certa pequenez no mundo de Donald Trump.
O artigo vem a propósito da reabertura da Catedral Notre-Dame, em Paris, cinco anos depois do incêndio, e contou com a presença de Donald Trump, Volodymyr Zelensky e, claro, Emmanuel Macron. Identificas alguns símbolos neste evento, um deles a Coca-Cola pedida por Donald Trump. É mais do que o Zune ou o que separa o presidente da marca.
Exatamente. Para mim, é um defeito eventualmente profissional, mas acho que tudo é símbolo e tudo deve ser entendido como tal, mesmo quando os protagonistas não têm consciência disso, de cada vez que aparecem, tudo, de facto, passará uma mensagem e será interpretado. Eu acho que neste caso, nenhuma das pessoas em questão é ingênua nesse trabalho, portanto, eu penso que até é tudo bastante pensado. Mas sim, nas imagens apanhámos um bocadinho desse início do encontro, quando o Macron está a receber Donald Trump e Zelensky, e ouvimos as palavras deles. Eu acho que tem muita graça estes momentos, não sei o que é que você acha, mas acho que tem muita graça estes momentos em que nós vemos, antes da porta da reunião privada entre os grandes chefes de Estado e de governo fechar, há sempre aquele momento em que pessoas que muitas vezes se odeiam de morte ou na melhor das hipóteses não se conhecem, se recebem. Quando o primeiro-ministro recebe Pedro Nuno Santos à porta da residência oficial, estas coisas, e eles se riem sempre, param para a fotografia, trocam ali umas palavras e eu interrogo-me sempre sobre o que é que eles estão a falar durante aquele bocadinho em que parecem super conhecedores um do outro. E aqui, neste caso, ouvimos esse diálogo. Ouvimos Macron dizer: "Ah, um prazer tê-lo cá x anos depois", não sei o quê. E depois diz: "O que é que toma?" Muito educadamente, como bom anfitrião. E Trump demora um bocadinho e diz: "A Coke". E de facto, isso precipita ali muitos gostos. Acho que Macron usa a reabertura de Notre-Dame num momento terrível politicamente para ele, mas em que nunca dá um sinal de fraqueza e usa este momento tentando ainda continuar na crista da onda e mostrando e falando, no fundo, do seu caráter visionário de quando prometeu a toda a gente no dia do incêndio que a catedral estaria reconstruída em cinco anos e toda a gente dizia que ele era louco. E portanto, tenta usar um símbolo nacional e usar isto como grande medalha que traz ao peito e fator de congregação. Há Zelensky, que tem este lado profundamente admirável, mas que eu acho que também não é inocente e é bem feito. Quer dizer, Zelensky aparece sempre a estas coisas vestido quase camuflado e com uns sapatos para ir de caminhada e que parece que é sempre isto. Parece que ele acabou de sair da trincheira e assim que acabar aquele encontro, volta para lá. Acho que faz muitíssimo bem. É claro que ele poderia vestir um fato e aparecer nestas coisas, não teria o mesmo impacto. Portanto, acho que faz muito bem em não o fazer e passa a mensagem certa, passa quase uma mensagem de que ele sabe que não pode faltar a estes encontros ou compreende a importância mediática deles, mas aproveita cada instante, cada frame da imagem para passar a sua mensagem, dizendo que coisas muito mais sérias estão a acontecer noutro lugar do mundo. E finalmente temos Trump, que diz que de facto pede uma Coca-Cola quando está no Eliseu, que é uma coisa que a mim pessoalmente me desgosta, que é o que dizia da iconografia, que só penso que estamos em França, quer dizer, que é o lugar do máximo bom gosto possível também em matéria de vinhos, de champanhes, de conhaques, mesmo que ele não beba, que não bebe, como sabemos, Donald Trump não bebe. Nem que fossem águas, porque até nas águas os franceses são miudinhos, pede uma cola. E eu acho que isto, de facto, nunca é inocente em Trump, acho que é uma bandeira americana, é a McDonald's, é a Coca-Cola, é a Nike, são aqueles tênis dourados que ele fez com a bandeira americana e que andou a vender durante a campanha para angariar fundos. Eu até percebo que isto seja o tipo de coisa que suscite uma certa admiração que as pessoas que gostam do Donald Trump veem, que é: "Toma lá vocês aí a pinocados com o seu meleque e eu peço uma Coca-Cola. Não quero saber nada das tuas coisas e tal. Sou assim, um homem real, um homem simples e um tipo que defende o seu território." E, no entanto, para mim, o que fica é isto: alguém que passa essa imagem não compreendendo que o mundo mudou e a própria América mudou, que nem os negócios se fazem ainda dessa forma. E por várias vezes ao longo dos últimos anos, e em particular, naturalmente, durante o primeiro mandato de Trump, esta, que é uma das maiores empresas do mundo, sentiu necessidade de se demarcar e mesmo de se opor a algumas daquelas que são as políticas bandeira de Trump, particularmente na sua lógica protecionista. Responsabilizando diretamente Donald Trump e a sua administração pelo encarecimento dos produtos da Coca-Cola durante a primeira administração, por causa do aumento das tarifas à China. Muitíssimas empresas americanas não só não produzem tudo o que a América precisa, mas mesmo aquelas que produzem aquilo que a América precisa têm de ir buscar componentes ou matérias-primas a outros lugares, nomeadamente à China, portanto, isso encarece. Depois, também se opondo à lógica do muro e do discurso anti-imigração latino-americana, particularmente do México, que é onde está a maior fatia de consumidores de Coca-Cola do mundo. E na altura lançaram garrafas e latas com nomes de pessoas latinas e fizeram campanha por esse sentido global de o meu irmão, o meu próximo, o meu semelhante. E depois com uma série de marcas que fizeram um abaixo-assinado pedindo à administração Trump que reconsiderasse a sua posição acerca do Acordo de Paris, por causa dos danos económicos que teria à empresa.
Há mais coisas que separaram Donald Trump da Coca-Cola do que o Zune.
Exatamente. Apesar das 12 Coca-Colas que eu bebo diariamente.
Sim, já que o teu artigo tem como ponto de partida a reabertura da Catedral de Notre-Dame, o que te pareceu Portugal estar representado, não pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, mas sim pela Secretária de Estado da Cultura, Maria de Lourdes Craveiro?
Acho estranho, confesso que não sei as razões. Imagino que existissem, porque o Marcelo não é pessoa de perder estes momentos, não sei como é que se diz em francês, mas de networking. Os franceses às vezes adotam as palavras inglesas.
"Connexion."
"Weekend", "parking", portanto, networking. O Marcelo não é de perder estas coisas, mas não percebo o que é que poderia ter de mais importante na sua agenda. Ou mesmo o Primeiro-Ministro, ou mesmo outra pessoa que, tal como Marcelo, é muito sensível a estas questões, Paulo Rangel, o Ministro dos nossos Estrangeiros e segunda figura do governo, que é também um homem muito culto e costuma ter sensibilidade para este tipo de matéria. Eu acho que a abertura de Notre-Dame era mais do que um evento social para pessoas muito importantes, tinha de facto o caráter simbólico que Macron entendeu. É um momento simbólico que encarna, de algum modo, um espírito da cultura ocidental que está, para todos os efeitos, ameaçado. E que neste momento, umas vezes da forma certa, outras vezes da forma errada, é defendido ou hostiado quase como um conflito entre uma civilização a um tempo, se quiserem, do domínio cultural ocidental, contra uma época em que tudo isto parece ameaçado a múltiplos níveis, em termos religiosos pelo crescimento do Islão, em termos económicos pelo poder chinês, em termos até bélicos e não só pela Mãe Rússia. E é por isso que estão lá todas as pessoas que estão lá. É por isso que está Trump, é por isso que está o Príncipe de Gales, futuro rei britânico, é por isso que estão 40 chefes de Estado e de Governo. Acho bizarro que não houvesse uma figura, com o devido respeito pela senhora Secretária de Estado, mas acho bizarro que não houvesse uma figura mais cimeira na hierarquia nacional.
Por falar em Belém e presidenciais, está a marcar o dia político de hoje a mais recente revista da Armada, inteiramente dedicada a Gouveia e Melo. Também uma ilustração com Gouveia e Melo e o rei D. João II, que é um dos grandes responsáveis pela exploração marítima nacional e que parece estar lhe a apontar o caminho. Vês aqui alguma interpretação política, o almirante a querer comparar-se com D. João II?
Pois, lá está, se tudo é um símbolo, se tudo aquilo que nós comunicamos é um símbolo e é passível de interpretação, então, lá está, mesmo que deliberado ou não, este aqui também só forçosamente, só olhando muito para o lado, só não querendo ver, é que não vamos fazendo interpretações daqui. Como vocês sabem, já aqui falámos, até tenho defendido os espaços onde me parece perfeitamente permitido que uma pessoa como o almirante Gouveia e Melo se candidate, e as pessoas o apoiem e isso seja livre de crítica. Faz-me impressão que se critique imediatamente por ser, lá está, coisas que temos aqui falado. Por ser militar, porque só conduziu com sucesso o processo de vacinação, porque é que as pessoas vão logo atrás destas figuras. Isso acho tudo sinceramente criticável. Acho que os militares não têm menos direitos do que os civis. Acho que, como já vos disse, não é por ele ser militar que desperta o interesse das pessoas, é porque fez algo importante no momento de competência e por ser independente da política, que é uma coisa que as pessoas honestamente apreciam e que os próprios políticos como Marcelo, Cavaco e outros ao longo dos anos tentam fazer, são políticos profissionais que tentam parecer nada ter a ver com a política. E também percebo perfeitamente que as pessoas sintam uma admiração e uma certa empatia com uma figura como estas e não figuras, com o devido respeito por elas, como António José Seguro ou outras pessoas que às vezes nós na bolha mediática achamos que vão empolgar alguém, quando não empolgaram os seus próprios partidos, como é que vão empolgar um país? Portanto, compreendo isto tudo. Agora, tudo isto para exatamente num ponto que também já aqui afloramos algumas vezes, que é: nós não sabemos nada sobre esta pessoa. Ela tem todo o direito de avançar, não sabemos nada sobre ela. A partir daqui é que pode ou não começar o território da crítica e da censura. E eu suspeito que o almirante Gouveia e Melo, ou é muito desorganizado no que vai fazer, ou que cada vez que ele aparecer, só vai perder pontos. Ele vem com um capital grande, de facto, de notoriedade, de confiança e uma imagem de alguém que quase não cometeu erros, mas lá está, ele por todas as razões apareceu e ainda aparece pouco. Agora começa a aparecer mais, porque provavelmente sente necessidade de começar a fazer a sua campanha, como é natural.
E o escrutínio vai ser cada vez maior a partir de agora, e tendo em conta até que está em final de mandato e já sinalizou que não quer continuar e a partir daqui quer candidatar-se a Belém, embora ainda não tenha feito esse anúncio oficial.
Exato.
Muito obrigada, Alexandre Borges, por teres sido o nosso colunista do dia. Bom resto de semana para ti.
Muito obrigado, também para vocês.