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Em 1951 nascia em Sarilhos Pequenos, um dos jogadores que mais Sarilhos Grandes fez no relvado: Manuel José Tavares Fernandes. Nunca enganou e o destino estava traçado desde miúdo.
Os meus amigos da infância iam brincar aos cowboys e aos índios e eu só queria brincar à bola, jogar à bola.
E o gosto foi-lhe passado pela mãe, que partiu cedo. Manuel Fernandes tinha apenas 10 anos quando se despediu, mas para sempre ficou a promessa e o sonho de jogar no clube que uniu os dois.
Fiz aquilo que mais gostava, que era chegar um dia ao Sporting. Nem que fosse um jogo, eu ficaria feliz.
E fez muito mais do que um jogo. Depois de seis temporadas ao serviço da CUF, Manuel Fernandes chega ao Sporting com 24 anos, em 1975, e o resto é história.
Após jogada entre Jordão e Manuel Fernandes.
Manuel Fernandes que aos 24 minutos da segunda parte com oportunidade, rematava fazendo o três a zero.
Cruzamento de Gabriel e Manuel Fernandes a atirar para o fundo da baliza.
Manuel Fernandes. Teasing his man and he's going on. And yes, it's over the line.
Ao todo foram 12 épocas a vestir de verde e branco, 258 golos em 433 jogos pelo Sporting. Manuel Fernandes, o capitão mais mítico do clube, é o quarto jogador com mais partidas feitas de leão ao peito e o segundo melhor marcador da história da formação de Alvalade. Mas, no meio de tantos golos, houve quatro especiais que nunca esqueceu.
É o Manuel Fernandes! É golo do Sporting! Manuel Fernandes! Manuel Fernandes!
Muitas facilidades e Sporting ali. É golo.
No dia 14 de dezembro de 1986, o Sporting chocava o futebol português e humilhava em Alvalade o eterno rival, o Benfica. Sete a um foi o resultado final, com quatro golos de Manuel Fernandes, todos dedicados à mesma pessoa.
Quando terminou o jogo, o Gabriel pega na bola e diz: "Esta é minha". E eu disse para ele: "Não, essa hoje é minha. Eu já fiz quatro golos. E depois a minha filha Cláudia faz anos e eu quero dedicar esta vitória oferecendo-lhe a bola do jogo", que ela ainda hoje guarda com muito carinho, porque foi um jogo que mexeu comigo e penso eu que com todos os portugueses.
O que não mexeu foi mesmo o recorde. Esses sete a um continuam a ser a maior goleada da história do derby, o dia mais feliz da carreira de Manuel Fernandes. Pela Seleção Nacional não teve tantos, não foi convocado para o Euro 84, nem para o Mundial de 86, o que gerou polémica nacional. Mesmo assim, fez sete golos em 31 jogos com a camisola das quinas. O ponto final da carreira de jogador só chegou em 1989, no Vitória de Setúbal, com o parceiro de sempre e com quem também fez dupla imbatível em Alvalade.
O Jordão foi a pessoa que eu mais gostei. Tínhamos uma relação espetacular.
Com as botas penduradas, seguiu como treinador. Orientou o Estrela da Amadora, o Vitória de Setúbal, mas foi no Campo Maiorense, com o apoio de Rui Nabeiro e no Santa Clara, que conseguiu os trabalhos mais interessantes, com o título de campeão da Segunda Liga e da Segunda B. Ainda conseguiu uma Supertaça como treinador do Sporting, mas a aventura durou pouco, numa das poucas mágoas de leão ao peito.
Sinto-me triste porque penso que se poderia dar uma oportunidade ao Manuel Fernandes de começar uma época num clube como o Sporting e estou convicto de que iria fazer um bom trabalho.
Esse trabalho continuou a ser feito em Alvalade, mas de outras formas: coordenador de scouting, comentador na Sporting TV ou meramente um adepto. Manuel Fernandes nunca esqueceu os leões e os leões também não. Em maio do ano passado, dias antes de ser operado a um tumor, Alvalade gritou o nome de Manuel Fernandes pela última vez numa homenagem antes do derby com o Benfica. O nome que agora vai ecoar para sempre no adeus do jogador com mais jogos da história da Liga Portuguesa.
Obrigado, Manuel Fernandes!