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O Hamas acabou de confirmar que não vai participar na assinatura oficial do acordo de paz, que vai se fazer representar pelos mediadores, pelo Qatar e pelo Egito. Como é que vê esta posição do Hamas? É algo simbólico, pode complicar a segunda fase de negociações? O que acha que pode estar por trás disto e o que pode acontecer?

Não sei. Realmente, é difícil interpretar essa ausência, mas isto significa, muito provavelmente, que não reconhecem qualquer tipo de valor a este acordo que não seja recuperarem os prisioneiros. Portanto, isto poderá ser um mau sinal para a segunda fase.

Mas então, devido ao Hamas também estar a denunciar hoje que colonos israelitas estão a atacar agricultores palestinianos, isto também pode significar que talvez o Hamas esteja a tentar se pôr no mesmo nível, na mesma posição que Israel?

Eu não sei como interpretar a ausência, porque vamos lá ver, o Hamas aceitou esta primeira fase do acordo e agora vamos avançar para as negociações da segunda fase. Eles já anunciaram que não estão dispostos a desarmar, que seria um dos aspectos importantes nesta segunda fase. Eles disseram, inclusivamente, que só se iriam desarmar perante o futuro Estado palestiniano, enquanto que o acordo fala da possibilidade de um desarmamento ser feito no contexto do envio de uma força internacional para Gaza. Portanto, tudo indica que aquilo que muitos esperavam que pudesse acontecer, e pareceu-me sempre bastante fantasioso que seria o Hamas renunciar à luta armada e transformar-se num movimento político, não parecem estar a dar sinais de que o queiram fazer. Eles querem continuar a existir enquanto movimento de libertação através da luta armada e representantes legítimos do povo palestiniano. Portanto, possivelmente isso explicará esta ausência da assinatura do acordo de cessar-fogo, que no fundo é apenas a primeira fase desse mesmo acordo. Agora, não sabemos exatamente a razão de ser dessa ausência, se será algo conjuntural, mas o seu líder nas negociações, Al-Aya, foi quem sobreviveu àquele ataque no Qatar e poderia ter representado o Hamas. Agora também é preciso dizer outra coisa, que o Hamas, ao contrário da autoridade palestiniana, é um movimento muito horizontal. Eles neste momento nem sequer têm um líder claro, como chegaram a ter no passado com o Sinwar. Portanto, têm representantes no exílio, representantes nas prisões, representantes em Gaza e é um movimento que neste momento está muito disperso nas suas lideranças, que nem sequer são conhecidas na sua totalidade. Portanto, é difícil ler o Hamas neste momento e perceber aquilo que eles querem fazer, porque verdadeiramente não têm uma estrutura hierarquizada neste momento, é um movimento que está muito disperso. Portanto, é sempre muito difícil ler seja o que for no Hamas neste momento.