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Francisco Pereira Coutinho, Angela Merkel lança hoje um livro chamado "Liberdade", onde conta histórias dos 16 anos em que governou a Alemanha e a antiga chanceler alemã admite que perdeu reputação em países como Portugal, Grécia e Itália durante a crise do euro. Queria lhe perguntar se este desgaste da imagem da política alemã ultrapassa a reputação de Merkel ou se, por outro lado, essa reputação mantém-se intacta, apesar destas questões relacionadas com a intervenção externa nesses países.

Eu acho que a reputação de Merkel está muito afetada, não apenas por isso, mas também pela circunstância de as suas políticas adotadas durante 16 anos, e ela foi reconduzida várias vezes pelos alemães, se terem revelado francamente más para a própria Alemanha, mas também para a Europa em geral. O governo alemão cai muito recentemente em resultado de uma disposição constitucional que ela impôs que diz respeito à limitação de gastos públicos. No fundo, aquilo que ela impôs a uma série de países, inclusivamente Portugal, durante o período da Troika. Ora, aquilo que se discute neste momento na Alemanha é justamente revogar essa disposição constitucional para apoiar a Ucrânia. E, portanto, as políticas de Merkel revelaram-se, de facto, nefastas para a Europa e também para a própria Alemanha, com um modelo económico absolutamente insustentável, baseado nas exportações para a China, na defesa pelos Estados Unidos e de um pacifismo em relação à Rússia que se revelou absolutamente desastroso.

Então este livro pretende também limpar um pouco essa imagem que fala ou é apenas um livro de memórias?

É uma tentativa de justificação de políticas que a médio longo prazo, se revelaram profundamente erradas, apesar do momento em que Merkel sai do poder, ela continuava a ser uma política profundamente popular e a Alemanha, de facto, desenvolveu-se bastante durante o seu consulado. Só que ela não fez as reformas que eram necessárias e vem agora justificar aquilo que se está a passar neste momento, porque o seu legado, visto retrospectivamente, é terrível, porque deixou a Alemanha profundamente dependente da energia russa, aliás, autorizou a construção de um gasoduto já depois de 2014, da agressão russa à Ucrânia com a anexação da Crimeia. Deixou um país em condições económicas e geopolíticas extremamente difíceis. No fundo, este livro é uma tentativa de justificação de Merkel das políticas que adotou durante os 16 anos em que esteve em funções. E foram políticas que lhe garantiram sucessivamente a sua reeleição, mas políticas de curto prazo, e esse é que é o drama. De facto, ela não pensou a médio e longo prazo as consequências da ação ou especialmente da inação, no contexto europeu e no contexto nacional e até internacional. E, portanto, deixa neste momento a Alemanha como uma espécie de doente da Europa, com a economia completamente estagnada e num contexto de guerra na Europa extremamente difícil.

Francisco Pereira Coutinho, queria lhe fazer só uma última pergunta. Neste livro são 700 páginas, são muitas histórias que estão contadas, mas aquelas que são públicas já na comunicação social são episódios que conta com vários ministros europeus no tempo da Troika e também episódios com Donald Trump e Vladimir Putin e esta abertura sobre os dois chefes de Estado, um em funções e outro que foi agora reconduzido, de certa forma também não deixa de ser curioso vir contar estas histórias agora neste momento.

Essas sim são histórias que sim, têm bastante atualidade, porque Putin continua em funções e Donald Trump vai regressar. E aparentemente, eu não li ainda o livro, só foi publicado hoje, Merkel mostra algum desdém em relação a Donald Trump, confirmando as histórias que toda a gente já conhece sobre a personalidade de Donald Trump. E em relação a Putin, também confirma essa ideia de que é um autocrata. Ela expressava-se em russo, conseguia falar com Putin na língua materna de Putin, mas ainda assim, as impressões que tem sobre estes dois líderes são bastante negativas.