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Hermano Sanchez Ruivo, eu começo por perguntar em relação a estes ataques: que carga é que o ataque ainda tem, a memória dos ataques ainda tem na população francesa?

Infelizmente, como outros eventos, se eu pensar no 11 de setembro, é impossível cada um de nós não se lembrar onde estava nesse 13 de novembro. Primeiro, porque é algo que surgiu muito rapidamente, muito rapidamente compreendeu-se que havia algo muito grave que estava a acontecer, até porque quando as primeiras informações saem para a rua, de facto, ainda está a decorrer os reféns e a entrada da polícia. E para um povo como o povo francês, aqui esteja muita esperança também de Paris, que infelizmente já tinha vivido atentados. Eu lembro-me quando jovem adulto vivi os atentados de 1995, compreendemos, compreendi, naquela altura, que estávamos a entrar numa nova era, uma era de terrorismo e de terror, de barbaridade, mas porque havia o sentimento que as nossas democracias eram alvo e, portanto, o que ficou depois do horror, do que se descobriu, do terror que isso implicava, foi sobretudo a compreensão que o nosso modelo parece fantástico e de facto tem muitas vantagens, não é aceite por todos. E nós podíamos imaginar que todos gostariam ter a mesma vida que nós. Não, de facto, vivemos em França consequências de dramas que estão a ocorrer fora. Portanto, o que ficou foi trazer para nós, para os nossos jovens, para a nossa vida. Relembro Bataclan, a sala de concertos, os diferentes cafés e restaurantes onde uma parte essencialmente mais jovem passa ou passava essas noites, era realmente trazer para a nossa maneira de viver algo que mexe muito conosco ainda agora e ninguém esquece.

Acaba por ter ainda essa marca e, entretanto, agora com este julgamento que começa amanhã, quais é que são as expectativas por parte também da sociedade francesa para esta primeira sessão do julgamento?

Durante os primeiros anos, nós temos o trabalho, não só as câmaras, mas de maneira geral, os professores, todo o trabalho que é feito pela educação, de relembrar, de não esquecer, em parte, o que aconteceu. Agora, depois dos primeiros dias, das primeiras semanas de incompreensão, por quê assim, por quê com tanta força, compreendemos nós, entretanto, por quê. As expectativas sobre um julgamento como esse que vai começar agora para encerrar em maio de 2022, é claramente o que nós esperamos de uma democracia, o que nós esperamos de uma justiça, que haja a possibilidade de se compreender, de se colocar perguntas, de conseguir ter respostas, embora seja difícil, porque os principais acusados há claramente pessoas que não querem falar, ou pelo menos até aqui não quiseram falar. Portanto, o que nós esperamos é um trabalho de memória, é um trabalho de melhor compreensão, é um trabalho também de questionar como é que os nossos serviços estão ou não adaptados a essa evolução. Nós temos confiança na polícia e nos serviços que estão dia após dia a lutar para impedir novos atentados. No entanto, é uma preocupação que a população deve ter, mas não a pode ter sozinha, depois questione, e aí é que a fratura francesa está em grande, como é que nós podemos, devemos, conseguimos ainda admitir a diferença, sabendo que de vez em quando pagamos isso muito caro, porque é essa a fraqueza da democracia, da mesma forma que é a força, é nós fazemos o que achamos bem e respeitando as leis, onde outros claramente abusam de algumas das facilidades que nós podemos dar para justamente fragilizar as nossas democracias.

E já que falou da possibilidade de novos ataques, eu aproveito por relembrar que os ataques na altura, em 2015, foram reivindicados pelo Daesh, pelo autoproclamado Estado Islâmico. E aproveito também por lhe perguntar, tendo também em atenção aos últimos acontecimentos no Afeganistão, que também envolveram, de certa forma, o Estado Islâmico. Portanto, eu pergunto, Hermano Sanchez Ruivo, neste momento, sente seguro de que um novo ataque terrorista deste género é completamente impossível em Paris ou na União Europeia?

Um novo atentado não é de maneira nenhuma impossível em terras da Europa, e obviamente em terras francesas e em capitais que estão expostas por várias razões, porque elas representam também, como Paris, e ainda menos porque nós sabemos que são várias ondas. Em 2015 já tínhamos vivido Charlie Hebdo, vivemos depois o Bataclan e o Stade de France, e sabemos muito bem que isso tem explicações com realidades que são vividas fora, realidades que nós não conseguimos resolver fora e a culpa em parte também é nossa. Portanto, sim, quando sentimos agora, depois da Síria, o fracasso do Afeganistão, quando nós pensamos que territórios inteiros estão completamente abertos a que justamente as equipas terroristas se possam preparar, se possam equipar, tenham o tempo e a ajuda, o apoio para poderem atuar, obviamente que é fonte de preocupação. Mas também a essa preocupação temos que nós responder pelas capacidades que a sociedade tem de reagir, mas também, e é a minha posição muito forte, é como é que a União Europeia tem cada vez mais, depois da Europa da Saúde, depois dessa Europa que é capaz de encontrar soluções em conjunto do plano de recuperação, como é que ela também pode imaginar uma Europa da Defesa e uma Europa da Defesa aos ataques do terrorismo. Sabendo que, e eu acho que isso não deixa de ser evidência, até que nós tivermos essa fraqueza de não resolver, de não participarmos na resolução de problemas como estamos a viver no Afeganistão, na Síria, ou para nós, em França, sabemos também qual é a ligação e as pontes que existem com a África, onde o Estado Islâmico está bastante bem implementado, até que nós não participarmos dessa resolução, continuamos a ter os mesmos problemas. E alguns países vão pagar mais caro pelo que são, mas ninguém está ao abrigo, nem Portugal, nem França, nem qualquer outro país democrático instalado neste mundo.