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Para analisar estes desenvolvimentos, junta-se a esta emissão António José Telo, antigo director do Instituto de Defesa Nacional. Boa tarde, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite. E vamos começar pelo cessar-fogo. O presidente ucraniano diz que é uma novidade para ele. Já Trump afirma que a trégua foi acordada pelas duas partes envolvidas. Em que é que ficamos? Terá sido o presidente norte-americano a anunciar isto sem ter propriamente a concordância dos dois países para ver se o plano vai em frente ou pelo menos a parte russa poderá ter concordado?
Boa tarde. É uma pergunta muito pertinente, mas de resposta exata, pelo menos rigorosa, difícil. O presidente Trump já nos habituou muitas vezes a anunciar intenções mais do que realidades e anunciar previamente, visando obter objetivos políticos, acordos que ainda não estão firmes nas partes. Portanto, é possível que haja um entendimento em termos de uma negociação e será bom distinguir entre, de facto, um cessar-fogo energético e um cessar-fogo geral. Quando falamos das eleições na Ucrânia, o que o presidente Zelensky diz é um cessar-fogo geral, ou seja, acabam as hostilidades durante 60 dias. O cessar-fogo energético é diferente, que é um fim dos ataques às fontes energéticas do outro lado. Aqui está o grande problema, porque o que é que são fontes energéticas? É normal que a Ucrânia queira incluir aqui todo o tipo de fontes de energia, nomeadamente, por exemplo, os geradores de eletricidade, que para ela são extremamente importantes agora que se aproxima o inverno, nomeadamente para aquecer as casas e as pessoas durante aquele muito rigoroso inverno ucraniano. E é normal também que a Rússia esteja a restringir e tenha um entendimento que é um cessar-fogo energético mais limitado, que diz respeito essencialmente a refinarias, e a refinarias de petróleo e de diesel, enfim, derivados do petróleo. E como tal, é normal, mas isto é especulação, que haja uma negociação em curso para entender o que é um cessar-fogo energético, com a Ucrânia a pressionar que seja todo o tipo de fontes produtoras de energia, e não só produtoras, mas também fontes que transmitem a energia, ou seja, que permitem levar a energia e a eletricidade, nomeadamente desde os centros produtores até aos centros consumidores, e a Rússia a querer reduzir, porque ao que lhe interessa, de facto, é em termos das refinarias e em todo o caso dos oleodutos e gasodutos. Portanto, é normal que isso ainda não haja uma decisão final e que o presidente Trump se tenha antecipado, como ele também normalmente faz. Agora, se isso de facto aconteceu, eu não tenho a certeza, não posso pôr as mãos no fogo para garantir que foi isso que irá acontecer.
Mas estas tentativas de Donald Trump de tentar, de certa forma, aliviar os preços dos combustíveis, tanto com a suspensão das sanções à Rússia como com o pedido à Ucrânia para parar de atacar as refinarias russas, fazem parte da tentativa do presidente norte-americano de mostrar que está a tentar baixar os preços dos combustíveis antes das eleições intercalares de novembro?
Mais do que mostrar que está a tentar, ele já conseguiu baixar os preços dos combustíveis, nomeadamente com o acordo do diesel com a Rússia e com o acordo de libertação das reservas energéticas, inclusive por parte da Europa, a Europa deu uma ajudinha nisso. Isso é muito importante para ele, porque agora estamos na reta final para as eleições e para ele é importante mostrar que existe já um alívio em termos dos preços, e nisso o diesel, o gasóleo, é importante, em particular para os Estados Unidos, que é onde tem mais dificuldades em termos de produção de refinarias próprias. Portanto, sim, este é um dos grandes objectivos de Trump, estas eleições intermédias que irá haver dentro de menos de um mês e que estas vantagens de última hora podem se traduzir em ganhos eleitorais significativos. E essa é uma preocupação central. Agora, ele já conseguiu, ou seja, já há uma redução efetiva do preço de energia nos Estados Unidos, derivados do petróleo, em menor grau do diesel, mas agora com o mero anúncio de que vêm aí os milhares de toneladas de diesel russo, isso vai se traduzir necessariamente num efeito de redução de preço no mercado. Nisso há uma vitória para Trump.
E este anúncio de Zelensky de estar disponível para convocar eleições. Pergunto-lhe se o presidente ucraniano terá sugerido isto porque sabe que a Rússia nunca aceitaria uma trégua de dois meses.
É muito possível que sim, é difícil dizer. Neste momento, a situação é uma situação incerta. Eu acredito que estas diligências americanas estejam a ser feitas com o entendimento prévio entre os Estados Unidos e a China. E a China, como sabe, tem muita importância e muita influência nas decisões da Rússia. E é normal que haja uma pressão forte dos Estados Unidos sobre a Ucrânia, no sentido de aceitar essas condições e que, nomeadamente, esta questão das eleições seja uma questão importante para os Estados Unidos conseguirem o acordo que pretendem com a Rússia. No entanto, o facto de isso acontecer significa que a Ucrânia, na minha opinião corretamente, continua a não aceitar as condições que a Rússia quer impor, que seriam condições da entrega de todo o Donbass, mesmo da parte que não está ocupada pela Rússia e que mesmo assim ainda é significativa, e também em termos da desmilitarização da Ucrânia, o que significa que a Ucrânia ficaria sem garantias de segurança quanto a um eventual, e até previsível se continuar o regime de Putin, futuro ataque da Rússia. Portanto, estes acordos continuam e esta questão das eleições é uma maneira de tentar encontrar um entendimento entre as partes, pelo menos por um passo intermédio. Sobretudo se isto for acompanhado pelo um cessar-fogo energético. O cessar-fogo energético é particularmente importante para a Ucrânia agora que se aproxima o inverno e se, obviamente, o cessar-fogo energético se aplicar o conceito da Ucrânia sobre o que é que isso é.
António José Telo, antigo diretor do Instituto de Defesa Nacional, muito obrigada pela sua análise.
Todo o gosto, continuem com a continuação de bom trabalho.
Obrigada, boa tarde.