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Ora, nesta altura junta-se a nós Paulo Homem, é actor, dobrador, deu a voz a Chandler Bing em 1998 numa breve passagem pela RTP em que a série foi dobrada em português. Paulo Homem, muito bom dia, muito obrigado por se juntar a nós neste jornal das 11 da Rádio Observador. Estamos a falar há 25 anos. Que memórias é que tem de dar a voz a esta personagem tão marcante da comédia televisiva?

Já lá vai muito tempo. As memórias são um bocadinho diversas. Para já, a grande memória que eu tenho é de ter trabalhado com o João Penric como director de actores de dobragens, que nunca tinha trabalhado antes. Eu estava a fazer dobragens há quatro ou cinco anos nessa altura. Eu não tinha noção do impacto que a série tinha. Aliás, cá em Portugal ainda não tinha, mas foi complicado fazer uma série que era muito conhecida e acho eu com muito boas intenções. A Maria Lida, que é quem estava à frente da RTP nessa altura na programação, quis fazer um grande alarido, um grande furúnculo sobre a dobragem da série: "Vamos dobrar uma série fantástica em português pela primeira vez." E em Portugal nós não estamos muito habituados, continuamos ainda hoje a não estar muito habituados a dobrar material para adultos. E foi feito tanto barulho que a série acabou por ser bastante mal recebida, na minha opinião. Acho que se tivesse sido uma coisa mais discreta, hoje em dia, se calhar tínhamos mais hipótese de ver mais coisas para adultos dobradas ou pelo menos ter a possibilidade. Hoje em dia, com a tecnologia é muito fácil das pessoas escolherem o som dobrado ou o som original.

Claro.

O barulho, o grande hype que se fez acerca do "Friends". Como depois as pessoas que têm opinião, e agora têm-se mais, porque agora toda a gente na internet, toda a gente dá opinião. Mas na altura, quem dava opinião nos jornais e nas rádios era mais purista: "Agora estragar a série, uma série destas vai-se estragar dobrada em português." O que aconteceu foi que a série foi completamente trucidada, a versão portuguesa. As primeiras emissões, os primeiros episódios passaram no horário nobre, saíram rapidamente para a madrugada e depois passou a série original bastante mais tarde.

E na altura fez, como dissemos, a personagem de Chandler Bing, que foi imortalizada pelo Matthew Perry. Acha que daquilo que conseguiu trabalhar, entre aspas, com aquilo que lhe deu o Matthew Perry, foi importante para o sucesso desta série, a personagem que o Matthew Perry fez?

Todos eles eram muito importantes. A série é realmente genial, muitíssimo bem escrita, e todos eles eram muito importantes para a série, porque conseguiam ter características muito diversificadas. E é assim que se consegue um bom produto de ficção, é quando as características das personagens são diversificadas e todas elas interessantes à sua maneira. As personagens eram tão fortes que eles praticamente ficaram presos a estas personagens. As meninas lá conseguiram ter uma carreira um bocadinho para além da série. Eles quase desapareceram. Sei que o David Schwimmer fazia bastante teatro, mas o Matthew Perry especialmente. Mas o Matthew Perry também teve outros problemas de saúde e de coisas que o puseram um bocadinho de lado. O Matt LeBlanc fez umas coisinhas aqui e ali, mas eles praticamente desapareceram. Elas conseguiram levantar-se um bocadinho. Cá em Portugal, as nossas meninas, as que dobravam, Maria João Luís e a Cristina Carvalhal, fora a Ana Madureira, que fazia a tradução e que não sei o que é dela, mas a Maria João Luís e a Cristina Carvalhal também conseguiram ter mais destaque do que nós, os rapazes, e são umas grandes senhoras do teatro e da televisão hoje em dia.