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Perguntava-lhe há pouco se a Marginal de Oeiras tem características que podem tornar os ciclistas ainda mais expostos, mais vulneráveis.

Muito obrigado, antes de mais, e obrigado pelo convite. De facto, na Marginal já houve vários casos dramáticos, inclusivamente um há poucos meses, mas não sabemos muito sobre estes casos. Já sabemos o suficiente para saber que é um flagelo. A questão da fuga começa a ser algo que acontece demasiadas vezes em Portugal. E a questão da Marginal, obviamente, tem a ver com a velocidade. A velocidade em Portugal não é um problema só da Marginal, é um problema de todas as zonas urbanas, inclusive das estradas municipais. Temos aqui um problema: a questão cultural em relação à velocidade ainda é um ângulo morto para a cultura da sociedade portuguesa. Eu acho que a questão do álcool, de certa forma, já é condenada, já não saímos de um jantar a dizer que vamos com os copos para casa. Eu acho que já houve aqui alguma mudança de mentalidade, apesar de continuar a ser um problema muito grave, mas em relação à velocidade ainda nos continuamos a gabar que chegamos ao Algarve em duas horas e coisas do gênero.

E pese embora os semáforos de controle de velocidade, que também existem ali na Marginal.

Há a questão dos semáforos. A Marginal já foi muito pior nos anos 80, principalmente porque havia muitos despistes, mas continua a ser miserável em relação à questão das bicicletas e dos peões, porque a Marginal também tem passeios estreitíssimos, e as pessoas precisam da Marginal também para treinar, para lazer e para ir para o emprego. Portanto, não se compreende como é que a Marginal, neste momento, ainda esteja naquelas condições de alta insegurança para ciclistas e peões.

De resto, há mais de 10 anos até, há propostas no orçamento participativo de criação de ciclovias. Há muitos municípios que investem nessas ciclovias. A Marginal de Oeiras não tem, poderia ter ou tem aqui circunstâncias especiais que impedem essas ciclovias?

Obviamente poderia ter. Neste momento, qualquer cidade espanhola que tenha uma marginal, e mesmo cidades europeias, mediterrânicas. As marginais têm sempre condições excelentes para peões, que já temos o paredão, de certa forma, mas também na Marginal devíamos ter uma ciclovia. Isso é óbvio para todos, devia já estar integrado na nossa cultura, na nossa política pública, e não se admite que neste momento esteja a morrer tanta gente na Marginal. Mas quando falo na Marginal, falo de um problema geral. Já se tem feito bastante em termos de segurança, mas comparado com Espanha, por exemplo, que tem uma lei nacional em que 70% das vias urbanas estão a 30 km/h, já há muitas cidades 30 km/h. Inclusivamente, o governo português assinou o Protocolo de Estocolmo há cerca de cinco anos, assinado por 143 cidades, a dizer que quando há ciclistas, peões e carros, temos que reduzir a velocidade para 30 km/h. É algo que vamos ter que tomar muito seriamente, e isto é como prevenção. E depois temos a questão de acontecer, que infelizmente as coisas acontecem, temos que ter também a questão da punição. As pessoas têm que sentir que a fuga não é algo que se admita, é desumano. Está geralmente envolvida a questão do álcool, porque as pessoas esperam quatro horas para se entregar. Portanto, é algo que, em termos de justiça, também vamos ter que ter mão pesada, principalmente retirar a carta a alguns condutores.

Ficam aqui esses seus apelos. Muito obrigada, Mário Alves, por ter estado conosco em direto, da Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta, depois do atropelamento esta manhã de três ciclistas na Marginal, em Oeiras. Dois estão em estado grave.