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Susana Batista, presidente da Associação de Creches e Pequenos Estabelecimentos de Ensino Particular. Saiu hoje a notícia, citada no Jornal de Notícias, de que as creches estão a ter alguma dificuldade em lidar com a pandemia. Não é algo que afete apenas as creches, como é óbvio, mas há aqui mesmo casos de creches que têm de fechar portas devido à falta de pessoal. Susana Batista, como é que esta situação está a ser lidada? Que medidas é que podem aqui ser tomadas para resolver a situação?

Olá, muito bom dia. É assim, nas creches onde isso está a acontecer, efetivamente, a solução não é fácil. Está a acontecer que realmente a educadora e a auxiliar, logo por coincidência, não podem ir trabalhar porque testaram positivo. Até são normalmente pessoas que estão assintomáticas e testaram positivo, eventualmente algumas crianças também. E quando assim é, não existe uma equipa disponível para poder ficar numa sala sem equipa, não existem pessoas, não existem nem recursos para poderem ficar com as crianças, o que torna a situação extremamente complicada porque as crianças da sala que mesmo tendo em contacto direto com as educadoras e as auxiliares infetadas, eventualmente até com outras crianças, agora de acordo com as novas normas, já não ficam em isolamento. Desde que façam o teste negativo, as crianças já podem voltar novamente à creche. O que acontece é, não havendo recursos, só se a educadora não estiver disponível e não houver mais recursos dentro da instituição, não há capacidade para manter aquela sala aberta, as salas vão ter que fechar. E aqui coloca-se o problema depois é como é que os pais vão poder ficar em casa com as crianças, quando as crianças não estão infetadas e por isso não têm um apoio para ficar com as crianças, não existe quer o isolamento profilático. O que é que os pais fazem para poderem realmente ficar em casa com as crianças? Isto é extremamente complicado de gerir neste momento. Isto é um dos problemas que nós estamos a sentir em algumas creches em que isso acontece. Outro problema que também estamos a sentir é a dificuldade em convencer alguns encarregados de educação a testar os seus filhos que tiveram em contacto direto com um caso positivo. De acordo com as novas normas, agora já não é obrigatório o isolamento profilático dos contactos diretos, desde que façam o teste e o teste seja negativo. Acontece que as crianças que estão assintomáticas e que eventualmente possam ter estado realmente em contacto direto nas últimas 48 horas com um caso positivo na sala, devem fazer o teste. São essas as recomendações da Direção-Geral de Saúde. E são essas as indicações que os diretores dos estabelecimentos dão aos pais. Só que alguns pais, como as crianças estão assintomáticas, não apresentam sintomas, não querem fazer o teste. E aí que torna-se complicado gerir, porque as crianças não podem estar no estabelecimento sem ter a certeza que, de facto, não estão infetadas, tendo em conta que tiveram contacto direto com uma criança infetada. E aqui se coloca depois a dificuldade em gerir esta situação.

E nesses casos, o que é feito? As crianças acabam por fazer o teste depois quando chegam lá à creche ou é-lhes barrada essa forma de entrada?

Não, a questão é exatamente essa, é que não é obrigatório, não pode ser obrigatório legalmente fazer o teste. Ou seja, as pessoas não podem obrigar ninguém a fazer um teste. Como alguns diretores estão a tentar gerir a situação é não deixar a criança entrar, e depois às vezes têm algumas dificuldades em gerir isso depois com os encarregados de educação. Mas o que tentam explicar é: se a criança teve contacto direto com uma pessoa que testou positivo e não quer fazer teste, então fica em casa. Fica em casa sete dias para ter a certeza que, caso estivesse infetada, não venha a contagiar outras crianças, dado que os pais se negam a fazer o teste. E claro que isso é uma situação extremamente complicada, porque depois os pais também não querem que isso aconteça. Ou seja, do nosso ponto de vista, era extremamente importante neste momento e face à existência destas novas regras, haver um esclarecimento global a nível do país, na comunicação social, onde fosse, e uma sensibilização também aos encarregados de educação sobre a necessidade de testarem crianças numa situação destas, mesmo sendo assintomáticas.

Doutora, há pouco falávamos também no caso dos pais que não tendo o filho ou a criança infetada, não conseguiam depois também ficar em casa a cuidar dela. Presumo que aqui neste caso, em que os pais não queiram fazer o teste à criança, o caso seja semelhante. Que solução é que pode passar aqui aos pais, principalmente naquele primeiro cenário em que os professores infetados obrigam as creches a fechar e os pais têm que arranjar forma de faltar ao trabalho?

Isso é uma situação que nós não temos solução. E é para essa situação que nós queríamos alertar as autoridades, que numa situação em que realmente os estabelecimentos não tenham forma de ter a creche aberta, poderem realmente passar-se uma declaração de isolamento profilático à turma que teve em contacto direto com o educador e com a auxiliar, no fundo, são as pessoas que acompanhavam as crianças, numa situação dessas para os pais poderem realmente se manter em casa com as crianças, porque caso contrário, não há solução. E de facto, isso não está a acontecer neste momento. Neste momento, realmente, como se tenta facilitar, e eu compreendo com alguma lógica, que a turma não tenha que ficar toda em isolamento, o problema que aqui se coloca é como é que as creches gerem isto, se depois os pais não têm forma de poderem ficar em casa com as crianças. Uma das coisas que os delegados de saúde estão a dizer às creches é que realmente é um problema das creches, é um problema dos estabelecimentos, da direção, e são eles que têm que resolver o problema. Uma das soluções que têm feito é que as pessoas trabalhem em espelho. Ora, isso numa creche é impossível. Não se consegue trabalhar em espelho, porque uma sala tem que ter sempre um educador e uma auxiliar. Trabalhar em espelho significaria qualquer coisa como ficar só uma pessoa lá e outra ficar em casa, e isso não se pode fazer. Aliás, legalmente nem é permitido haver só apenas uma pessoa numa creche, tem que haver sempre duas pessoas. E trabalhar em espelho podia também significar contratar mais pessoas, mas nós não podemos contratar o dobro das pessoas. É financeiramente impossível e insustentável para conseguir trabalhar em espelho numa creche. Por isso, essa solução não é viável, não é uma solução. Daí que nós preconizávamos que houvesse realmente da parte das autoridades uma compreensão em relação a essa situação e pudessem as crianças que tiveram contacto direto e fosse impossível manter a sala aberta, poderem realmente optar pelo isolamento profilático durante o período dos sete dias, que é aquele que está estabelecido, para toda a turma poder regressar com a normalidade possível.