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Filipe Garcia é analista de mercados financeiros e é também economista. Filipe Garcia, nesta altura, o rublo, a moeda da Rússia, continua a valorizar. É uma tendência que já tem vindo a mostrar nos últimos dias, se calhar até nas últimas semanas, ao contrário, talvez, do que esperava, pelo menos a União Europeia e os Estados Unidos, depois da aplicação das várias sanções económicas à Rússia. Filipe Garcia, começo por perguntar: por que o rublo continua a valorizar? Por que continua com esta tendência crescente do próprio valor da moeda?
Bom, nós temos, antes de mais, de perceber se existe verdadeiramente um mercado para o rublo. O mercado de uma moeda, enfim, o mercado em geral, seja de uma moeda ou não, funciona com base na oferta e na procura. E aquilo que nós vemos neste momento é que não parece que seja um mercado que esteja a funcionar porque não há propriamente oferta de rublos. Ou seja, continuam a ser impedidos os investidores que têm dinheiro em rublos ou ativos em rublos de os vender, seja nas bolsas, seja em termos de obrigações. Continua a haver controles de capitais que impedem, a partir de determinado montante, a venda de rublos para outras moedas. E, portanto, não obstante realmente parecer um movimento até difícil de entender, um bocadinho contranatura, aquilo que eu diria é que não é propriamente um mercado funcional e, como tal, o preço não parece refletir aquilo que são os fundamentais da moeda. Creio que a comparação com o euro, por exemplo, e com a tendência de queda que o euro tem tido este ano, que até tem corrigido nas últimas horas, mas é uma tendência clara de desvalorização, sobretudo face ao dólar, desde o início do ano, não é comparável, por quê? Aí sim, temos o mercado perfeitamente funcional, com todos os intervenientes que querem comprar e vender, a poderem fazê-lo. No caso da Rússia, não é assim. Os investidores estrangeiros que têm ativos russos não podem, mesmo que queiram, alienar esses ativos e transformar esses rublos em dólares. Ora, não havendo oferta de rublos, não há como o preço cair. E eu creio que isso é o que justifica que a cotação do rublo se esteja a manter mais forte e creio que é até, embora aqui esteja a ser bastante especulativo de minha parte, creio que é até uma manobra de comunicação, uma manobra de propaganda da Rússia, no sentido de dizer que a sua moeda está cada vez mais forte, quando, na verdade, não existe um mercado propriamente dito.
Filipe Garcia, quando diz que não há uma oferta do rublo, é esta a expressão, certo?
Sim.
Quando diz que não há uma oferta do rublo, isso quer dizer exatamente o quê? Não há moeda a circular?
A escassez da oferta de rublos no mercado cambial, neste caso, significa que não há intervenientes no mercado com capacidade para vender rublos. Ou seja, internamente, continua a economia russa a funcionar com base na sua moeda, como antes, e não há nenhuma dúvida acerca disso. Há uma obrigatoriedade de comprar rublos para fazer a aquisição de gás e de petróleo, e isso provoca uma procura por rublos perante essas condições. Mas falta aqui um outro dado, que é o dado da oferta. Dado que não há a possibilidade de que, nomeadamente, investidores estrangeiros possam vender rublos, ou mesmo os nacionais, os mesmos russos, têm fortes limitações na conversão da sua moeda em moeda estrangeira, se quiserem fazê-lo, acaba por haver aqui uma situação em que o lado da oferta não está a funcionar, ao contrário do lado da procura que está a funcionar. Isto desequilibra totalmente o mercado. Portanto, eu diria que este é um mercado que está muitíssimo intervencionado e cujos preços não expressam as forças de mercado.
Se bem que também há a alternativa da China, enquanto mercado para a Rússia, e agora a própria Índia também tem fortalecido essas trocas comerciais com a Rússia. Será que estes dois grandes países podem ser aqui uma alternativa para que este crescimento do valor do rublo se torne um bocadinho mais fundamentado?
Eu creio que o facto de a China e a Índia estarem a comprar à Rússia um conjunto de bens, sobretudo energia, em primeiro lugar, já acontecia no passado. Em segundo lugar, também deriva dos grandes descontos de preços que estão a ser praticados neste momento. Ou seja, a Rússia, como tem agora maior dificuldade em colocar produtos no Ocidente, procura compensar essas perdas de negócio junto dos seus parceiros mais a Oriente. Mas isso não é feito sem um sacrifício de preço. E, na prática, significa que a China e a Índia têm o interesse em comprar da Rússia, porque compram mais barato. Se isso é capaz de fazer fortalecer o rublo, eu tenho bastantes dificuldades em ver isso dessa forma, porque o preço dos ativos energéticos continua a ser definido em dólares. Mesmo que seja pago em rublos ou noutra moeda qualquer, o preço continua a ser definido em dólares e eu continuo a achar que é muito difícil falar de valorização do rublo quando não temos o mercado funcional. Não há, neste momento, facilidade em fazer operações cambiais em rublos como havia antes da intervenção. E se há coisa que nós sabemos nos mercados é que os preços são tão ou mais fidedignos quanto melhor o mercado funciona. E como o mercado não está a funcionar, no sentido que não há uma plena liberdade ao nível dos movimentos de capitais, então o preço também provavelmente não pode ser considerado correto e por isso é que eu desconfio muito desta cotação do rublo. É verdade que ela existe, é verdade que ela aparece nos gráficos, nas tabelas, mas tenho muitas dúvidas que se o mercado estivesse liberalizado, isto é, se houvesse A possibilidade de todos os agentes económicos que quisessem vender rublos o fizessem, tenho muitas dúvidas que o câmbio estivesse nos níveis atuais.
Já que disse que esta pode ser uma manobra de marketing da Rússia, vamos dizer assim, mas apesar de tudo, mesmo que seja uma manobra, essas coisas têm sempre algum impacto nos mercados, não é? Portanto, Filipe Garcia, em termos práticos, o que isto pode significar para o euro e para o dólar?
Eu sinceramente não acho que esta cotação tenha um significado por aí além no mercado internacional de divisas. O rublo não vai passar a ser uma moeda de reserva por causa disso, aliás, pelo contrário, tendo em conta todas as limitações que existem hoje de controle de capitais e também das sanções à Rússia, não parece que haja uma preferência por rublos de nenhuma maneira. E em rigor, também é uma moeda que tem pouca expressão, mesmo antes de toda esta invasão e todo este conjunto de sanções, era uma moeda que não tinha uma liquidez por aí além e sobretudo nunca teve grande influência no mercado internacional de divisas. Por isso tudo é que me parece que esta valorização do rublo tem muito mais um efeito de propaganda do que propriamente um efeito real.
E já agora, só mesmo para terminar. Já se tem falado também, a par desta guerra que está agora a acontecer, até mesmo de uma certa Guerra Fria que está a acontecer entre Ocidente e o Oriente, que venha a ser a China a sair como a grande vitoriosa. Será que podemos esperar um crescimento maior, se calhar daqui a não tanto tempo quanto isso, da moeda chinesa?
Eu creio que deste conflito, e claro que tudo dependerá como ele evoluir e terminar, neste momento nós podemos retirar um vencedor mais claro, que são os Estados Unidos, porque neste momento estão a ver um rival histórico a enfraquecer todos os dias e que estão também a conseguir canalizar as suas exportações de gás para a Europa, que antes não conseguiam fazer. E portanto, por essa via, toda aquela ideia de que os Estados Unidos estariam em decadência, o seu papel no mundo estaria colocado em causa e o da própria NATO, fico com a sensação de que neste momento está a ver tudo ao contrário. Estamos a ver um reforço da hegemonia dos Estados Unidos numa série de ângulos. E o outro vencedor poderá vir a ser a China. Ainda não é, porque a China está neste momento perante uma desaceleração económica importante, mas poderá vir a ser a China, sobretudo, se conseguir, através das suas relações mais privilegiadas com a Rússia, ter acesso a um conjunto de matérias-primas, não só energéticas, a um preço mais baixo. E se nós tivermos uma situação em que a Rússia venha a ficar um país mais fraco depois de tudo isto, também acaba por ser positivo pra China, que se afirma como a outra superpotência. E creio que a grande questão é um pouco essa, o que vai muito provavelmente resultar deste conflito é o reforço do poder das duas maiores superpotências deste momento, que são os Estados Unidos e a China.