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Desde já, obrigada pela disponibilidade, David Amado, deputado do Partido Socialista, aqui agora a ser ouvido na Rádio Observador. Queria começar por perguntar: ontem surgiu uma pequena divergência entre o presidente da Câmara de Lisboa e o ministro da Administração Interna sobre o tema da segurança, porque Carlos Moedas diz que quer reforçar as competências da Polícia Municipal, mas o ministro Luís Neves descarta essa possibilidade. O tema está a levar a uma espécie de choque entre os dois. Queria começar, portanto, por lhe perguntar, David Amado, que análise é que faz a esta situação?

Bom dia, Teresa. Bom dia a quem nos está a ouvir na Rádio Observador. De facto, esta questão da perceção de insegurança tem sido um dos muitos mantras criados por Carlos Moedas ao longo dos últimos anos. Começou, se bem se lembram, quando critica o governo, na altura do PS, pela falta de efetivo da Polícia Municipal. E, de facto, existe uma falta de efetivos da Polícia Municipal para aquilo que são as tarefas normais da Polícia Municipal. Não existe falta de efetivo para aquilo que são as novas competências que não existem e que Carlos Moedas exigia para resolver este problema da perceção da insegurança. Foi criando aqui esta onda da perceção da insegurança e entendeu que politicamente era interessante para ele ir surfando esta onda. Agora, o que no meu entender, Carlos Moedas nunca fez e deveria ter feito era, no âmbito das suas competências, tentar melhorar aquilo que é de facto a perceção da insegurança por parte dos lisboetas. E acho que aquilo que eu li das declarações de ontem do senhor Ministro da Administração Interna também lhe sugere isto, que é preciso gerir esta questão da perceção das inseguranças. Repare, a Câmara Municipal de Lisboa tem competências claras. A Polícia Municipal tem competências do âmbito da fiscalização. Se as realizar, temos mais Polícia Municipal na rua, presente. Tem competências ao nível da iluminação pública. Se as ruas da cidade, se os bairros da cidade estiverem mais iluminados, certamente todos nós não temos tanto essa sensação de insegurança como temos numa rua escura ou num beco que não é tratado, nem é alvo de nenhuma obra. Temos também a nível do espaço público, que é uma competência da Câmara Municipal de Lisboa, e quando falo de espaço público, falo também da mobilidade. Ontem, uma das coisas que o senhor ministro referiu no colóquio organizado pela Câmara foi que sim, que Lisboa poderia ser um exemplo e podia tornar-se um exemplo naquilo que é a segurança rodoviária, e diz que existe nas zonas urbanas de Portugal acidentes com feridos graves, que é muito acima daquilo que é a média europeia. Ora bem, isto é uma competência da Câmara, melhorar aquilo que é o espaço público, melhorar aquilo que é a mobilidade. Eu lembro que no Largo da Graça, uma das ruas mais icónicas da cidade de Lisboa, existem atropelamentos com regularidade e ainda há pouco tempo uma pessoa que perdeu a vida num desses atropelamentos. Isto sim, é competência da Câmara, como é também a questão da instalação das câmaras de videovigilância, que estavam prontas a serem instaladas em 2021 e só no final do mandato passado começaram a ser instaladas e ainda faltam 64 dessas câmaras que estavam prontas, preparadas para serem instaladas em 2021. Agora, também há aqui outras coisas no âmbito da prevenção que eu penso que o município de Lisboa poderia ter aqui uma intervenção mais eficaz, nomeadamente aquilo que é a prevenção de alguns fenómenos de violência. Nós temos assistido nos últimos anos a alguns fenómenos de violência, nomeadamente na noite e com jovens. A Câmara Municipal de Lisboa poderia e deveria ter criado programas junto das escolas, em eventos com muitos jovens, sensibilizando e criando aqui essa capacidade de formar, de dar essa informação, de ter essa intervenção preventiva naquilo que são essas situações muito específicas. Também há aqui situações em que eu acho que a Câmara tem estado no bem naquilo que é a relação com a Polícia de Segurança Pública, que é quem tem a responsabilidade, e sim, eu acho que não há nenhum lisboeta que não queira que a Polícia de Segurança Pública tenha as condições para efetivar o seu trabalho. Ainda há pouco tempo, a Câmara Municipal de Lisboa assinou um protocolo de recuperação de seis ou sete esquadras com a PSP. Nós entendemos que é uma medida positiva. Se o valor que está afeto a esse protocolo é suficiente para as obras necessárias, é outra questão, mas cá estaremos nós, enquanto oposição, para avaliar aquilo que é feito ou não. Também entendemos como positivo os programas que foram pensados, já em executivos liderados pelo Fernando Medina, e que foram executados no mandato passado, em que já foram atribuídas cerca de 20 casas em bairros municipais a polícias de Segurança Pública para poderem habitar em Lisboa. Este programa de criação de casas para polícias, neste caso da Segurança Pública, e para outras profissões essenciais para a cidade, acho que é uma competência da Câmara e é algo que a Câmara faz de positivo. Agora, em relação também à questão da segurança, e acho que era importante, e o senhor presidente da Câmara poderia ter um papel também importante, que eu nunca o ouvi falar, se calhar também é refletir se o modelo de organização da PSP em 2026 é o adequado, tendo em conta a realidade que existe na cidade e na área metropolitana de Lisboa. Se é o adequado. A última reforma que houve do modelo de reorganização do dispositivo da PSP, salvo erro, foi em 2011, 2012, que foi pensado, que foi estudado. Provavelmente, a Câmara também deveria ter um papel na reflexão e na criação desse novo modelo. Agora, deixe-me dizer, esta questão de criar aqui o mantra da perceção da insegurança e de dizer que a única solução para isto é que a Polícia Municipal tenha mais competências, quando já toda a gente percebeu, inclusive o antigo presidente da Câmara Municipal do Porto, que essa não é a soluçãoNão faz muito sentido e acho que o que ontem o senhor Ministro da Administração Interna fez foi muito claro. O senhor Presidente da Câmara de Lisboa tentou nos últimos anos surfar esta onda da percepção da insegurança e ontem o senhor Ministro da Administração Interna, de forma muito séria e muito serenamente, como juiz dessa prova de surf que o senhor Presidente da Câmara tentou fazer, deu-lhe uma pontuação muito fraca. Nem dois pontos lhe deu, que é a pontuação mais fraca no surf. Penso que foi o que aconteceu ontem. Em relação aos mantras de Carlos Moedas e à forma como ele coloca todas essas situações para ter benefício político, os exemplos são mais que muitos. Deixe-me dar-lhe o exemplo daquilo que aconteceu em 2021. Se bem se lembra, havia um problema, não era uma percepção da insegurança, mas havia uma insatisfação com a construção de algumas das ciclovias da cidade de Lisboa. Carlos Moedas não foi de modas. Disse que em 2019 teriam morrido 26 pessoas em acidentes em ciclovias na cidade de Lisboa, o que foi com vários polígrafos e que factualmente foi desmentido, e disse também que iria terminar com a ciclovia de Almeirim de Reis. Nem terminou com a ciclovia de Almeirim de Reis, nem morreram 26 pessoas em 2019, mas Carlos Moedas conseguiu os seus propósitos na altura, que foi criar esta sensação que era preciso terminar com as ciclovias e criar nas pessoas e nos lisboetas na altura a vontade de votarem nele em 2021, e conseguiu. Agora, estes mantras que Carlos Moedas tem criado não são bons para a cidade. A cidade tem que ser governada, tem que ser gerida no âmbito das suas competências. Quando não se efetivam as competências que tem, quando não se resolvem os problemas de espaço público, da mobilidade, da iluminação pública, não se criam programas de prevenção, e logo dizer que o que é preciso é mais polícia e que a culpa é dos outros, não é minha, que a responsabilidade não é minha, não me parece uma forma muito correta de gerir a cidade, mas é o que temos tido nos últimos anos.

Portanto, considera que Carlos Moedas, ao longo do tempo, em vez de tentar combater a insegurança, tem tentado usá-la como uma bandeira. Ou seja, em vez de tentar diminuir, está a tentar que esta aumente, pelo menos aos olhos das pessoas. É isso?

Não acho que ele tente. Não tenta. Aliás, é bastante contraditório. Se bem se recordam, até ficou bastante incomodado quando um dos relatórios dizia que a criminalidade em Lisboa tinha baixado. Se bem se lembram, há um ano ou dois, ficou bastante incomodado com isso, mas ao mesmo tempo dava entrevistas a televisões estrangeiras em que dizia que Lisboa era a cidade mais segura do mundo. O que eu acho é que quando não se combate o problema, quando não se quer fazer parte de um problema, nunca se vai fazer parte da solução. E o que Carlos Moedas faz genericamente na sua governação é não fazer parte dos problemas, chuta sempre os problemas para outras pessoas, aproveita algumas situações que lhe podem ser benéficas politicamente, mas no final do dia, não resolve os problemas da cidade, os lisboetas não estão melhores. E aquilo que aconteceu ontem foi de uma forma muito séria. O Ministro da Administração Interna deu-lhe uma nota negativa nesta onda que ele estava a surfar da insegurança. Espero que ele perceba que se calhar não é o surf a sua melhor atividade desportiva e mude de desporto.