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Junta-se a nós em direto neste jornal das 20h, Marcos Farias Ferreira, especialista em Relações Internacionais, professor do Instituto Superior de Ciências Políticas e Sociais da Universidade de Lisboa. Boa noite, professor. Agradeço a disponibilidade para estar conosco em direto neste jornal. Começo por lhe perguntar se esta falta de consenso era já expectável ou se acaba por ficar surpreendido.

Olá, boa noite. Obrigado pelo convite. Não fico nada surpreendido. Os acontecimentos dos últimos dias só podiam levar a esta conclusão. Nós tivemos à volta da mesa no Cairo um conjunto de Estados envolvidos na questão ou preocupados com a solução da questão, mas com perspectivas muito diferentes sobre o que há a fazer tanto no curto como no médio prazo. Ou seja, tanto quanto à questão humanitária e o que é preciso fazer para aliviar o sofrimento e a tragédia que está a acontecer na Faixa de Gaza, como também em relação a como o conflito deve ser tratado em relação às suas causas mais profundas. E portanto, dificilmente haveria a possibilidade de um mínimo de consenso que possibilitasse uma declaração. Mesmo estando presente o secretário-geral das Nações Unidas, que tem essa função diplomática de aproximar posições, mesmo assim não foi possível.

A ausência do principal aliado de Israel neste conflito, os Estados Unidos, e também a ausência de outros líderes mundiais, também já diminuía, à partida, as expectativas sobre os resultados desta cimeira de paz?

Claro, mas em primeiro lugar, eu acho que o facto de Israel não estar presente na conferência certamente limitaria muito a possibilidade de chegar a resultados tangíveis. Ou seja, é Israel quem está a bombardear a Faixa de Gaza e, portanto, por exemplo, em relação à questão humanitária, um cessar-fogo é essencial para a distribuição da ajuda humanitária. Não estando presente nenhum responsável político, nenhum decisor israelita, por essa via já a limitação é muito grande. Não estão presentes outros atores importantes. O Irão, por exemplo, não esteve presente. Mas, por exemplo, do lado norte-americano, esteve presente uma diplomata de carreira. Não esteve presente nenhum alto dirigente decisor do Departamento de Estado ou da Casa Branca.

Antony Blinken, não é? Que tem sido bastante interventivo neste conflito.

Claro, ao contrário das representações dos restantes Estados, que se fizeram representar por altos dirigentes. E portanto, isto também mostra um pouco o distanciamento da Casa Branca relativamente àquilo que poderia ou quereria que resultasse desta cimeira.

Marcos Farias Ferreira, queria também ouvi-lo sobre a abertura da passagem de Rafah, o corredor humanitário que abriu esta manhã. É uma das notícias que marca o dia relativamente a este conflito. Entrou ajuda humanitária finalmente em Gaza ao fim de 15 dias, mas é suficiente?

Para termos uma medida, eu durante o dia ouvi vários números, mas para termos um pouco uma noção, uma referência daquilo que significa esta ajuda, por exemplo, estes 20 caminhões que entraram são obviamente muito insuficientes. Os números que eu tenho ouvido ao longo do dia é que por dia, a ajuda humanitária em Gaza antes de 7 de outubro era na ordem de 100 caminhões. Ou seja, 100 caminhões de ajuda humanitária por dia face a estes 20, que não são por dia, que entraram de uma vez, a passagem fechou. Esta referência é importante por quê? Para percebermos que a Faixa de Gaza tem vivido durante os últimos 18 anos sustentada em ajuda humanitária. Ou seja, o regime que existe em Gaza é um regime de dependência humanitária, de dependência da ajuda humanitária exterior e, portanto, isto deve nos fazer refletir sobre aquilo que está a acontecer em Gaza hoje em dia. E portanto, em relação ao que está a acontecer, certamente a entrada destes caminhões é um aspecto importante, resultou certamente de algum tipo de pressão do presidente Biden nos últimos dias, mas é obviamente insuficiente. E outra coisa, mostra bem como a ajuda humanitária está a ser politizada, está a ser utilizada como instrumento, como moeda de troca nas negociações entre os diferentes países. E isto é intolerável, porque todos os princípios, todas as boas práticas da ajuda humanitária negam que isto possa acontecer, ou seja, as boas práticas da ajuda humanitária são contrárias à sua politização. A ajuda humanitária deve ser independente de todas as negociações políticas, deve ser neutral, deve ser imparcial e deve ter como objetivo único o alívio das populações. Por outro lado, nestes 20 caminhões não houve, por exemplo, água potável, o que é escandaloso, porque uma das necessidades essenciais da população neste momento é água potável. Mais uma vez, o abastecimento da água, o acesso à água potável tem sido um dos grandes problemas em Gaza e muito em virtude dos obstáculos que Israel coloca à entrada de material, por exemplo, para reparar ou para construir sistemas de abastecimento de água. Outro aspecto importante é o combustível. O combustível é essencial e também não entrou nestes 20 caminhões e é essencial para o abastecimento e para outro conjunto de operações. Isto acontece por quê? Porque Israel colocou uma série de restrições que têm receio que, por exemplo, o combustível seja utilizado para outras atividades, designadamente o Hamas.

Marcos Farias Ferreira, só mesmo para terminar e apelando aqui ao seu poder de síntese, que previsões podemos fazer para as próximas horas? É sempre difícil fazer previsões, até porque o conflito tem se desenrolado de forma imprevisível, mas por exemplo, nas últimas horas ouvimos aqui o porta-voz do exército israelita avisar que as tropas israelitas vão intensificar os ataques a Gaza nas próximas horas, já a partir desta noite.

Isso já está a acontecer. Ou seja, ao mesmo tempo que entrou esta ajuda humanitária, essas operações no sul da Faixa de Gaza já foram intensificadas. E outro aspecto da ajuda humanitária é que também deve abranger as populações no centro e no norte da Faixa de Gaza, o que é uma limitação importante. Quanto às previsões, eu acho que vamos tentar, por parte das Nações Unidas e de outros atores, que esta ajuda humanitária se intensifique mesmo não havendo cessar-fogo humanitário, ou seja, que depois destes 20 caminhões possam entrar outros e possa entrar água, mas certamente o mais importante é que Israel não desistiu da sua ofensiva terrestre, marítima e aérea. E, portanto, o grande paradoxo é este: estamos a falar de ajuda humanitária, mas num contexto em que certamente mais cedo ou mais tarde, e condicionado pelos objetivos e interesses israelitas, uma grande ofensiva ainda vai acontecer e vai agravar certamente o desastre humanitário.