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Analisamos agora o impacto destes 20 anos de Facebook com o Ricardo Lafuente, presidente da D3, a Associação de Defesa dos Direitos Digitais, a quem agradeço por ter aceitado também o nosso convite. Bem-vindo, Ricardo Lafuente. Indo já direto à sua especialidade, nestes 20 anos, o Facebook contribuiu para diminuir os nossos direitos digitais e a privacidade que temos na internet?
Neste momento, parece um pouco evidente que fez pender a balança um bocado em direções questionáveis. Desde as questões das eleições a questões do vazamento de dados pessoais para o aproveitamento para criar sistemas de publicidade direcionada. Em vários países, também há interferência por parte de entidades com fins eleitorais ou até com fins persecutórios de minorias, no caso no Mianmar e na Índia. Por isso, neste momento, podemos apontar ao Facebook, de facto, uma mudança de paradigma, que em alguns casos foi de facto revolucionário e mudou a nossa forma de comunicar, mas essas mudanças também não foram todas de todo num sentido positivo.
Claro. O Facebook teve o condão também de aproximar muitas pessoas nos últimos 20 anos, até de aproximar pessoas que não se viam há muito tempo. No final destes 20 anos, aqui pesando os dois lados da balança, a questão da privacidade, a questão dos direitos, mas também essa questão da proximidade, juntou toda a gente um pouco mais. O Facebook, nestes 20 anos, na sua opinião, Ricardo Lafuente, deixa um legado positivo ou negativo até agora?
Reconhecerei, e também eu próprio reencontrei uma data de gente na altura, enquanto ainda tinha conta de Facebook.
Acho que toda a gente teve, praticamente.
No entanto, é muito difícil dar aqui um retrato risonho, porque pelo caminho e pela necessidade de tornar o Facebook uma plataforma rentável e que pudesse dar retorno aos investidores, não quiseram ficar por aí como uma plataforma de comunicação e de contacto entre pessoas. Tornaram-se uma plataforma também de distração.
Ficamos aqui sem o contacto com o Ricardo Lafuente, perdemos o contacto com o presidente da D3, da Associação de Defesa dos Direitos Digitais. Creio que agora já é possível, Ricardo Lafuente, deixámos de o ouvir por pouco. Passava já para a próxima questão, até para atalharmos caminho, porque o nosso tempo não estica. Gostava de lhe perguntar, entretanto o Facebook cresceu, criou a Meta, já tem na sua plataforma agregada marcas como o WhatsApp, como o Instagram. Nos últimos anos, nos últimos tempos, Mark Zuckerberg tem promovido mudanças suficientes para melhorar as questões da privacidade, na sua opinião?
Não, de todo não. Creio que, aliás, a tendência tem sido para piorar. Neste momento, está a haver um megaprocesso nos Estados Unidos, justamente pela forma como o Facebook lida com o uso de adolescentes e crianças na sua plataforma, nomeadamente ignorando os riscos que tem tido por parte de aliciamento e eventual abuso. Estamos a falar de milhares de casos, e que está documentado que foi ignorado internamente, em nome de não criar polémicas. E neste momento, estão a retomar uma série de medidas de privacidade, mas apenas porque estão sob fogo. E o precedente que temos é exatamente esse, por exemplo, no caso do Cambridge Analytica, que os dados das pessoas estavam a ser transmitidos para fins de promessa eleitoral e de chegar a eleitorados, mas sem o relatar aos próprios utilizadores. Por isso, o progresso foi claramente no sentido da erosão da privacidade, que se coaduna com o modelo de negócio maximalista, de extrair o máximo possível para obter o maior crescimento possível. Quando já chegamos à população toda, naturalmente que temos de procurar outras formas de crescimento, seja explorando cada vez mais esses dados, ou então expandindo para outras áreas, como disse, WhatsApp, Instagram. Mas depois também falamos das fantasias do Metaverse do Mark Zuckerberg há um ano, agora estamos na inteligência artificial. Também passamos pelas criptomoedas. O Facebook esteve a tentar implementar tudo. Mas a privacidade esteve longe de ser uma preocupação de primeira linha no Facebook. Isso aí, mesmo com as melhores intenções, não se pode, creio eu, postular que o Facebook teve qualquer gênero de ponto positivo para a privacidade das pessoas e das suas comunicações.