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Conosco, em direto, está António Costa Pinto, professor do Instituto Universitário de Lisboa, especialista em Ciência Política, a quem agradeço desde já a disponibilidade para estar conosco em direto neste jornal, numa altura em que começam a sair as primeiras projeções. As sondagens apontam para uma viragem de Itália à extrema-direita. Não faltam exemplos de sondagens que não se verificaram depois. Qual considera que vai ser o caso destas eleições? Boa noite.

Muito boa noite. É provável, evidentemente, que os Irmãos de Itália sejam o maior partido do centro-direita. Convém salientar que a fluidez na representação partidária da direita em Itália é muito significativa e algumas tensões também existem, nomeadamente entre a Liga de Salvini, os Fratelli d'Italia, portanto os Irmãos de Itália, e o agora mais pequeno partido de centro-direita de Berlusconi. É provável que sejam estes partidos a formar um governo de coligação, mas é muito importante saber qual será a distância entre o primeiro partido e o segundo partido. Quer à esquerda, quer à direita, existe evidentemente concorrência política, pois também aqui em Itália ela existe entre este partido de direita radical populista e este mais de extrema-direita da senhora Meloni.

Através da Rai podemos ver que as primeiras projeções dão conta de que o centro-direita consegue entre 41% a 45%, e o centro-esquerda entre 25% a 29,5%.

Convém depois verificar melhor até que ponto, neste caso, o centro-esquerda poderá ou não, mas é muito duvidoso que o consiga. Se por acaso, aliás, o centro-esquerda ganhasse estas eleições, seria obrigado a fazer uma coligação, um acordo parlamentar com partidos da direita populista. A cena política em Itália é muito fluida, convém salientá-lo. Isto não significa a tomada do poder pela extrema-direita em Itália. Significa, evidentemente, que um partido de extrema-direita, pela primeira vez, poderá nomear a primeira-ministra e ser o partido-chefe de uma coligação de centro-direita, com todas as consequências que isso dá.

Que consequências?

A primeira consequência de que todos falam remete, sobretudo, isto para a política europeia, não para a política italiana, é a conquista do poder por um partido eurocético, por um partido cuja potencial primeira-ministra é simpatizante de Orban, por um segundo partido que, por exemplo, nunca apoiou o esforço da NATO, neste caso, e da União Europeia de apoio à Ucrânia. Mas evidentemente nós também sabemos da experiência passada italiana que, por vezes, a chegada ao poder impõe uma dinâmica de moderação e que a maior parte dos italianos, por exemplo, não são eurocéticos. É, portanto, muito complexo pensar imediatamente que a Itália alterá as suas posições, por exemplo, perante a União Europeia.

E perante a guerra na Ucrânia?

Perante a guerra da Ucrânia é pouco provável. Aliás, a Giorgia Meloni justamente salientou várias vezes, para assegurar evidentemente a sua vitória eleitoral, que apoiaria o esforço da NATO na Ucrânia, e a Itália é evidentemente um país da NATO e diminuiu as suas posições eurocéticas. No entanto, existe eventualmente uma coligação relativamente instável. Por exemplo, Salvini, sob esse ponto de vista, convém não esquecer, era o partido mais importante da direita radical. Se ficar em segundo lugar poderá causar alguma instabilidade sob esse ponto de vista.

A instabilidade na governação em Itália, de resto, tem sido, como também o senhor já disse, uma constante nos últimos anos. Deverá também ser esse o cenário de uma coligação de direita e extrema-direita?

É provável que existam tensões. Evidentemente que sobretudo entre a Liga e os Fratelli d'Italia existe uma rivalidade natural. Mas repare-se, e isto é muito significativo e eu creio que para um observador internacional, a política italiana é por vezes relativamente estranha e complexa. Convém não esquecer que uma parte do eleitorado italiano se situa à esquerda do eixo político. Existem compromissos a fazer no Parlamento e tanto quanto nós podemos observar, esta coligação não tem uma maioria absoluta no Parlamento, pelo que reformas significativas num sentido mais de acordo com o programa da direita radical populista não poderão ser realizadas.

De acordo com as projeções da Rai, que recupero, a coligação de direita, que inclui os Irmãos de Itália, de Meloni, também a Liga de Salvini e a Forza Italia de Berlusconi deverá conquistar uma margem entre os 41% e os 45% dos votos, uma maioria na Câmara dos Deputados.

Uma maioria na Câmara dos Deputados, mas o sistema eleitoral italiano mudou outra vez. E portanto, é muito importante saber, para já, o que é que essa percentagem representa em termos de número de mandatos parlamentares Quer no Senado, quer no Parlamento. Convém também dizer que, ao contrário do que muitos pensam, as duas câmaras têm poderes muito semelhantes. Não se trata de uma democracia bicameral em que o Parlamento é completamente dominante e o Senado não é. Temos que esperar pela conversão em mandatos, tendo em vista que o número de deputados diminuiu em Itália.

António Costa Pinto, foi presidente da Associação Portuguesa de Ciência Política. As suas obras também têm incidido muito sobre o autoritarismo e o fascismo. Dizia há pouco que apesar das raízes protofascistas ou mesmo fascistas, ou simpatizantes desse regime dos Irmãos de Itália e do partido, que foi um tema nesta campanha. A chegada à governação poderá de alguma maneira suavizar as posições? Será essa a tendência a seguir em Itália e noutros países que venham a passar pelo mesmo?

Poderá suavizar. No entanto, não vale a pena iludir uma dinâmica que acabou também de se verificar na Suécia, em que um pequeno partido neonazi, verdadeiramente neonazi, evidentemente fazendo grandes alterações ao seu programa político, tem hoje também 20%. E é verdade que aquilo a que nós podemos caracterizar, por exemplo, os Irmãos de Itália, é claramente um partido pós-fascista, ou seja, é um partido mais à direita, inclusivamente da Liga de Salvini. Mas o passado da democracia italiana também já fez dissolver movimentos neofascistas que tiveram inclusivamente 10, 12, 16% em eleições e que acabaram unidos no partido de Berlusconi. A situação é relativamente fluida. Convém sempre salientar que o passado muitas vezes diz-nos pouco sobre o presente.

Obrigado, António Costa Pinto, professor do Instituto Universitário de Lisboa, conosco em direto, especialista em Ciência Política, a ajudar-nos a perceber os meandros complexos da política italiana. Itália hoje a votos para escolher um novo governo. Para já, os resultados são ainda projeções. Vamos ao longo desta noite informativa aqui na Rádio Observador acompanhar a par e passo esta eleição que vai determinar um novo governo em Itália, uma das maiores economias da Europa