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Clara Rizzo é diretora da Casa Fernando Pessoa. A Feira do Livro de Poesia vai ter lugar de 19 a 24 de março, no Jardim da Parada, em Campo de Ourique. Pergunto-lhe: fazem falta as feiras com foco especial na poesia?
Muito obrigada pelas perguntas, pelo interesse. Tanto quanto sabemos, esta é a única feira que tem o enfoque especial na poesia, a única feira do livro exclusivamente de poesia. Somos caso único. E diria que sim, que fazem falta, e os editores com quem colaboramos dizem o mesmo, porque os livros de poesia, se reparar, têm pouco espaço nas livrarias, pouca visibilidade, são um circuito composto por muitas editoras que são editoras independentes, editoras pequenas, de forma que ter possibilidade, durante estes dias de feira, terem o espaço e a possibilidade de se darem a folhear estes catálogos é muito positivo para a dinamização do circuito e para prezar o trabalho destas editoras.
E o que é que diz a quem diz que em Portugal não se lê poesia?
Também se diz muito que Portugal é o país dos poetas, portanto, o que se diz também tem muito que se lhe diga. As tiragens das edições de poesia, de facto, são mais pequenas do que as tiragens dos livros de ficção. É uma natureza também que faz parte da essência do texto poético, que tem outra exigência, tem outra resistência. E o que nós também fazemos na Casa Fernando Pessoa, não só nesta altura do ano, mas ao longo de todo o ano, porque faz parte dos nossos principais objetivos, é uma promoção da leitura, nomeadamente a leitura da poesia, e passar a palavra e passar a ideia de que a poesia não é necessariamente hermética, difícil, exclusiva de pessoas que já são muito experimentadas na leitura, mas que pode ser uma porta fácil de abrir para chegar a textos com que as pessoas se relacionam muitas vezes de uma forma muito afetiva. Nem sempre a leitura da poesia é uma leitura intelectualizada. Por vezes, perceber o poema passa por sentir uma série de emoções que não são necessariamente as do intelecto.
A Feira do Livro de Poesia, como eu disse, vai começar dia 19, estende-se até dia 24, vai assentar arraiais no Jardim da Parada, em Campo de Ourique, em Lisboa. Perguntava-lhe que destaques há nesta feira do livro.
Esta feira do livro, e acho que é importante dizer para quem nos ouve, é um programa que já fazemos há bastante tempo. Começámos em 2015 e interrompemos apenas nos anos da pandemia, e é uma atividade conjunta que a Casa Fernando Pessoa faz com a Junta de Freguesia de Campo de Ourique. São os nossos absolutos parceiros desde o início. E esta feira decorre no Jardim da Parada, este jardim central do bairro de Campo de Ourique. Os livreiros e editores ocupam umas casinhas de madeira que os moradores já conhecem das edições anteriores. E há, como diz, programação do primeiro ao último dia, para além dos quiosques de vendas de livros. A feira funciona das 14:00 às 19:00 nos dias da semana e das 11:00 às 19:00 no fim de semana, porque vai até sábado e domingo. Para além disso, temos programação a acontecer tanto aqui na Casa Fernando Pessoa, como justamente na biblioteca do Espaço Cultural de Cinema Europa, que é uma biblioteca gerida pela Junta de Freguesia. De destaques, é difícil, nós temos programação para todos os dias. De sublinhar que a biblioteca recebe, acolhe lançamentos de livros dos editores que estão representados na feira, e isso é bastante importante para os editores, que veem assim possível fazer lançamento de livros ou apresentação de catálogos. Tem também lugar um clube de leitura de poesia que fazemos em conjunto com a Junta de Freguesia, também desde o ano passado, e que tem muito sucesso, tem despertado muito interesse por parte das pessoas. É um clube de leitura, mas apenas dedicado à leitura de poesia, como a nossa feira, aliás. Depois, chegando ao dia 21 de março, que é o Dia Mundial da Poesia, esse é o dia central da nossa programação. Na Casa Fernando Pessoa, a entrada é livre, desde as 10:00 até às 18:00, que é o horário de funcionamento do museu. A Casa Fernando Pessoa é um museu de literatura. E ao fim do dia, às 19:00, teremos uma sessão feita por membros do Teatro do Vestido, por várias pessoas do Teatro do Vestido, e é uma sessão que se chama "Quando a Paz Custa a Fazer". E é uma sessão de leitura de poemas, poemas de guerra e de paz, assim é o subtítulo, ditos pelo Teatro do Vestido, com uma certa encenação, uma certa dramaturgia e, como diz o grupo, um conjunto de poemas sobre guerra e paz, alinhados numa dramaturgia poética e política para uso diário em tempos sombrios, com a conceção da Joana Craveiro. Avançando, o que posso destacar mais, faremos um percurso poético. A equipe de mediação da Casa Fernando Pessoa recebe um grupo no Jardim da Parada e vem percorrendo as ruas do bairro até chegar à Casa Fernando Pessoa, onde fará uma visita orientada. Também no dia 22, sexta-feira, na Biblioteca Espaço Cultural Cinema Europa, haverá uma sessão de poetry slam, que também já integrou o programa da feira do ano passado. Teve também uma participação muito interessante de pessoas que ganham coragem de dizer os seus poemas naquele formato da poetry slam e que estavam, no caso do ano passado, a ler, a partilhar os seus poemas pela primeira vez, o que é algo que requer alguma bravura, não é para todos. E depois chegando ao fim de semana, temos algumas atividades para crianças, oficinas para famílias do lado da Biblioteca do Cinema Europa. E na Casa Fernando Pessoa, temos uma oficina que talvez seja curioso descrever, que se chama "Faça a sua Bandeira".
Precisamente disso, distribuir bandeiras com versos de vários poetas, de Adélia Prado, André Tedde, Natália Correia. Perguntava-lhe se o objetivo é inundar as janelas com poesia.
Esse é o grande objetivo, que o bairro de Campo de Ourique fosse um bairro que falasse através destes versos nos dias em que decorre a feira. E esta iniciativa, que se chama Poesia Estendida, e que é igualmente feita por nós e pela Junta de Freguesia de Campo de Ourique, tem também já alguns anos. Foi a forma que inventamos, a forma que encontramos de continuar a celebração da poesia no mês de março, durante a pandemia, quando não podíamos andar na rua. Então começamos a distribuir estas bandeiras com versos curtos, impressos para as pessoas pendurarem à janela e a pessoa na rua, ou o vizinho, ou vizinha da frente podem ler esse verso. E é uma maneira de nos darmos um verso. E é uma iniciativa que já vai sendo conhecida aqui no bairro e não só. Temos muitas pessoas que acorrem para levantar as suas bandeiras e se passear agora por Campo de Ourique, vai encontrar as bandeiras da edição da Poesia Estendida deste ano, mas também bandeiras das edições anteriores que ficam nas janelas ao longo de todo o ano, que é algo que nos agrada muito ver. E os poemas, como disse, são de vários autores, Pessoa, heterónimos de Pessoa e outros poetas. E a escolha dos poemas é feita também através de um processo participativo. Por volta de dezembro, fazemos circular um questionário ou um formulário, melhor dizendo, o formulário online, onde as pessoas podem sugerir versos com uma determinada extensão, para depois ao imprimir terem leitura. Não podem ser versos muito grandes. Identificam-se, identificam a autoria do poema, o livro onde o poema se pode encontrar e depois fazemos aqui uma seleção dos versos que nos parecem mais potentes e mais interessantes para imprimir nas bandeiras. Também gostamos muito de explicar como é que chegamos a estes versos e não a outros. E é desta forma.
Isto é, o Dia Mundial da Poesia, sabemos, é uma efeméride, mas também há que usar esse dia para dar visibilidade aos poemas e à poesia. Isto também para quem não lê, pegue num livro. É também esse um objetivo, não é?
Sim, esse pode ser considerado um objetivo, que faz parte da nossa vontade de dizer que a poesia não tem que ser só para algumas pessoas que estudem literatura ou que não estudem literatura, mas que sejam habituadas e capazes de decifrar o poema. O poema pode ser lido, decifrado e apropriado de uma série de maneiras. Não é necessariamente difícil e às vezes encontramos um pequeno verso que diz exatamente aquilo que nós gostaríamos de dizer ou aquilo que estamos a pensar. E essa é também a força da poesia, é ter uma linguagem que é concisa, mas que é potente, que guarda em si esta força detonadora de uma série de ideias, de uma série de sensações. E isso é a base do nosso trabalho, posso dizer. Deixe-me só também acrescentar uma nota sobre mais um programa interessante da Feira do Livro. Aliás, dois. Teremos o recital de poesia sobre Natália Correia. E é interessante também falar das mulheres escritoras e das mulheres poetas que, pelas circunstâncias que conhecemos, convém ou importa continuar a destacar e a valorizar. E para fechar o programa da feira, no domingo, dia 24 de março, vamos fazer um programa aqui na casa que se chama Pessoas do Bairro, que é um programa que gostaríamos que fosse de proximidade e consiste em algo muito simples: convidar pessoas do bairro que sejam conhecidas pela sua profissão, ou que sejam figuras públicas, ou que sejam residentes, ou que trabalhem no bairro e tenham grande contato com os fregueses de Campo de Ourique, e fazer uma conversa muito informal sobre as preferências de leitura dessas pessoas. Porque muitas vezes percebemos que quando alguém fala de maneira entusiasmada, de uma maneira às vezes fascinada, sobre um livro que tenha lido, é isso que motiva a pessoa que nos ouve a querer ler esse livro. Ou seja, apesar de toda a sofisticação que temos e que conhecemos, este passo à palavra sobre: "Tens mesmo de ler este livro", ainda funciona.
A comunidade ainda faz os livros sair das prateleiras.
Circularem. Faz. E o convidado para esta sessão de domingo será o Luís Alves, que é um homem discreto, mas que é uma figura conhecida do bairro há muito tempo, que é o livreiro da Livraria Ler, uma livraria que já pertencia ao seu pai, que fica no Jardim da Parada, com quem também colaboramos e que felizmente aceitou o nosso convite. E então ouviremos quais são os livros preferidos do Luís Alves. Vamos perceber por quê. E talvez as pessoas que assistam tenham vontade de sair da sessão e folhear esses mesmos livros.
A Clara também é uma pessoa perfeita para eu fazer esta pergunta. Um dia sem poesia é um dia perdido?
Não, não é um dia perdido. Há tantas coisas que nos fazem ganhar os dias. Coisas às vezes pequenas, pequenas alegrias, pequenos gestos, mas a relação com a poesia pode ser transformadora. A leitura da poesia pode ser transformadora. A literatura, a boa literatura, tem essa capacidade de transformar quem lê, de transformar as pessoas que leem. São maneiras de vermos pelos olhos de outras pessoas, experimentarmos vidas que não são a nossa, conhecermos outras histórias a que não temos acesso diretamente, pessoalmente. E a poesia fala de uma maneira muito particular. Pode ser muito iluminadora em alguns casos