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Adalberto Campos Fernandes, este fim de semana, especialistas em saúde como André Peralta Santos e também Filipe Froes avisaram que, por causa da nova variante Ômicron e da falta de medidas mais musculadas em Portugal, ao contrário do que está a ser tomado em outros países europeus como os Países Baixos, Irlanda, Alemanha. Portugal não estar a seguir este exemplo vai fazer com que vivamos um Natal semelhante ao Natal de 2020. Qual é a sua opinião sobre a atuação do governo? As medidas em vigor são suficientes ou era preciso dar um passo mais à frente?
Muito bom dia. Bom, em primeiro lugar, eu creio que nós estamos num momento difícil, mas não me parece razoável que se esteja a comparar o Natal de 2021 com o Natal de 2020. Não é uma comparação rigorosa, porque há uma diferença significativa em relação, nomeadamente, à taxa de cobertura vacinal, que em Portugal é muito elevada. É certo que nós temos uma variável nova, a Ômicron, sobre a qual não sabemos ainda muito. Sabemos, no entanto, que ela sendo mais transmissível, parece não ser mais geradora de casos de grande complicação, nomeadamente de mortalidade, e parece também que as vacinas que em Portugal foram utilizadas com maior dominância, que foi a vacina da Pfizer, que garante proteção contra a doença. Portanto, eu diria que face ao contexto português, em primeiro lugar, não me parece linear a comparação com o que acontece em outros países onde tiveram outro tipo de abordagem e até de utilização de vacinas, nomeadamente o reino unido e a Holanda. Segundo, que o governo está numa situação difícil, porque naturalmente, não existe aqui uma decisão branca ou preta. As pessoas estão muito cansadas, estão saturadas. A economia dificilmente aguenta mais restrições que não sejam justificadas. E o que nós temos visto, sejamos sérios, é que, felizmente, a pressão sobre os hospitais está controlada e a resposta tem sido acautelada. Portanto, o que lhe posso dizer, em síntese, é que neste momento eu acho que o programa maciço de testagem, com o comportamento que se percebe da parte das pessoas, que está a ser bastante responsável. Eu creio que o governo está a fazer aquilo que é correto, que é prudente, que é adequado e que está a evitar ou está a resistir uma atitude, eu diria, um pouco mais negativa, mais alarmista, e que tem que ser medido o que está a acontecer semana a semana, dia a dia. Eu, bem síntese, diria que acompanho aquilo que o governo está a fazer neste momento, que é um exercício de equilíbrio difícil entre algum desconhecimento relativo à nova variante, mas uma realidade que a realidade portuguesa que é diferente da dos outros países. E, portanto, não acompanho este discurso um pouco mais negativo e um pouco mais sombrio de que nós estamos a fazer as coisas piores do que o ano passado. A realidade é totalmente diferente, pelo contexto a que acabei de referir.
As medidas que estava a referir, como o reforço da testagem, por exemplo, é hoje tema de reunião entre o Infarmed e a Associação Nacional de Farmácias e os laboratórios que fazem estes testes. A resposta aqui no aumento da testagem, face à recomendação dos especialistas para estes testes e da vontade popular das pessoas em quererem fazer testes antes das festas de Natal, também não está a ser muito bem conseguido, porque faltam testes nesta altura nas farmácias e também nos supermercados. Esta resposta deveria ter sido um pouquinho mais acautelada também?
Bom, isso é outra questão. Quer dizer, quando há um excesso de procura, naturalmente que há consequências sobre a oferta. Aspectos positivos: o governo e as autoridades de saúde perceberam bem a importância de trabalhar com o setor social e com o setor privado, o setor convencionado, e perceberam que a mobilização do país para uma resposta coletiva segura passa por este tipo de colaboração. Uma segunda palavra para as farmácias portuguesas, que têm sido extraordinárias. Um contributo capilar a nível do país, uma grande capacidade de proximidade das pessoas e, portanto, isso tem que ser sublinhado como positivo. Evidente que haverá, provavelmente noutros países também, problemas pontuais de rotura, porque a pressão sobre procura, como referi, é muito elevada. Mas esse é o caminho. E eu sinto, e vejo isso até, não só pelo que leio, vejo a comunicação social, mas até pela observação direta, que as famílias estão bastante preocupadas, estão a preparar as festas de Natal com bom senso, com adequação, utilizando o recurso aos testes e fazendo programação para realização de testes de uma forma bastante sistemática. Eu creio que isto é, enfim, dentro dos condicionalismos que temos e de alguma dúvida sobre o comportamento desta nova variante, é aquilo que neste momento se me aparece avisado fazer. Repare, sejamos realistas. A última coisa que o governo quereria ter agora era uma crise sanitária aguda por má preparação ou por má utilização dos recursos, ainda por cima tendo em vista o tempo que estamos a viver, que é um tempo de disputa eleitoral. Portanto, eu creio que neste momento, com total justiça, o governo está a fazer aquilo que me parece ser bastante adequado dentro dos limites de incerteza que existem, que são muito grandes. Mas enfim, Portugal tem esta extraordinária característica, que é um país que adere bem às vacinas Tem uma boa história de adesão pelas vacinas, tivemos uma excelente cobertura vacinal. E agora com alguns cuidados na relação social, com uma autodisciplina relativamente à necessidade que nós temos de proteger os mais vulneráveis e de incentivar aqueles que ainda se não vacinaram a vacinar, eu creio que estamos a bom caminho. Deixe-me só, para não dizer também que está tudo bem e que não há coisas que possam ser melhoradas, alguma nota de preocupação. Esta opção por antecipar ou por fazer as vacinas das crianças, foi a decisão que o governo tomou, mas é preciso ter o cuidado de não acautelar a realização da terceira dose para a população elegível. Portanto, deve ser feito um esforço a nível das autoridades nacionais e também das autarquias, com a colaboração que tem sido reconhecida, para que a população elegível para a terceira dose a faça rapidamente. E depois sempre a preocupação com aqueles que adoecem mais e correm mais risco, que são os mais velhos e os mais vulneráveis. Manteria este caminho, manteria este rumo, sendo certo que pode ser necessário algum ajustamento a prazo, mas com a observação diária do sistema de saúde e do SNS, eu creio que estamos a fazer aquilo que neste momento, no contexto que temos, é o mais adequado.
Portanto, o ponto que levanta maior preocupação é o arranque da vacinação de crianças antes da população mais vulnerável ter completado toda a terceira dose e a dose de reforço, é isso?
Sim. Para mim, do ponto de vista da observação, o ideal teria sido que uma coisa não prejudicasse a outra. Uma opção, fazer a vacinação das crianças, não poderia ou não deve, do meu ponto de vista, impedir, atrasar ou protelar a vacinação dos elegíveis para a terceira dose. Mas eu creio que as autoridades são sensíveis a isso, estão certas de que nalguns pontos do país isso pode estar a acontecer. Corrigido que seja esse aspecto, é menos um problema que teremos que ter nesta equação difícil, diria destas próximas três semanas, que não vão ser fáceis. Mas há também que passar uma mensagem, que muitas vezes naquilo que é dito na comunicação social não é suficientemente explicado. Em 2021, o número de casos, 6000, 5000, 7000, não tem o mesmo significado, não tem a mesma leitura que teria há um ano. pelas razões que eu já expliquei há pouco. O resultado de casos em doença grave ou em internamento é hoje, felizmente, incomparavelmente mais baixo. Isso tem que ser enfatizado para que a confiança nas vacinas aumente, para aqueles que ainda não se vacinaram ou não fizeram a terceira dose percebam que é um verdadeiro seguro de vida. E portanto, a mensagem final é: é preciso comparar aquilo que é comparável e é preciso não massacrar mais as pessoas do ponto de vista do cansaço pandémico, que leva muitas vezes a um efeito perverso, que é o efeito até de afastamento das medidas existentes. Mais pedagogia e menos alarmismo talvez seja aquilo que seja mais adequado neste momento.