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Muito boa tarde, Renato Paiva. Obrigado por aceitar o nosso convite. Começo por lhe perguntar: tendo em conta aquilo que foi o último ano e meio, de muitas dificuldades, muitos desafios do ponto de vista da aprendizagem, até que ponto a capacidade de aprendizagem dos alunos foi ou não alterada neste tempo que passou?
É uma boa questão, que acho que ainda estamos a aferir. Isto porque a perceção de qual o impacto destes últimos dois anos, algumas evidências já se tornaram muito claras, mas outras vão começar a surgir no entretanto. Repare, acho que é importante olharmos com muita atenção nos inícios do primeiro ciclo, em quem já começou este ciclo de ensinos e, sobretudo, que teve dois anos de pandemia com alguma, não só intranquilidade, mas uma instabilidade entre o presencial e o online. E estamos a falar no primeiro e no segundo ano, que são basilares para toda uma criação de uma estrutura de base naquilo que são depois os avanços em termos de ciclos de ensino. E quem vai começar agora o segundo e o terceiro ano e que teve este início do primeiro ciclo muito conturbado, vamos ter que efetivamente ter um olhar muito mais atento e mais resguardado para salvaguardar aquilo que possam ser umas bases sólidas nesse sentido.
E daquilo que vai falando já com alunos e professores, quais são os principais pontos em destaque? Principais dificuldades que se vão adivinhando para os próximos meses?
Sobretudo com os reforços naquilo que são as aprendizagens basilares da leitura e da escrita. Porque precisamos de treino, precisamos de proximidade e nestes dois últimos anos não tivemos tanto isso. Ou seja, esta aquisição foi mais atribulada. E se há meninos que têm diferentes timings para essa aquisição da leitura e também, obviamente, da escrita, com essa dificuldade, às vezes, na imprevisibilidade entre o passar pelo presencial ou passar ao online. E no online é muito mais difícil conseguir trabalhar meninos que não tinham tanta autonomia e precisavam de muita ajuda e estavam numa fase muito inicial e que agora vão, obviamente, neste regresso presencial, emergir algumas dificuldades que vão ter uma principal atenção com estas características que, à partida, vão emergir. Mas depois não só, repare, quando olhamos mesmo para meninos mais velhos, toda esta limitação naquilo que foi o contacto, a socialização, de problemas também emocionais que possam também vir, merece um olhar nosso, obviamente, muito atento. E tentar perceber de que forma é que os próprios alunos perspectivam este ano escolar, porque se nos dois últimos anos houve muita instabilidade, se temos ou não temos aulas presenciais, se vamos pra casa, se a coisa funciona ou não funciona. E houve, efetivamente, aqui duas realidades muito distintas. Um primeiro confinamento onde fomos para casa muito rapidamente e com uma preparação muito incipiente e mais atabalhoada, portanto, foi muito repentino. E depois tivemos um reinício do ano anterior que já teve uma preparação muito mais cuidada, muito mais atempada e com os professores já com outra experiência naquilo que era uma realidade de ensino à distância. E este último correu significativamente melhor pela generalidade das situações que conheço. Obviamente que não é 100% um ideal, mas efetivamente foi muito diferente daquilo que foi os problemas sentidos naquele primeiro confinamento, onde fomos levados a ir para um ensino à distância muito repentinamente e sem grande preparação. Efetivamente, esta perspectiva de como é que vai ser este ano escolar e esta incerteza, se voltamos a confinar, se não voltamos a confinar, se vamos ter as mesmas condições para acesso ao ensino superior em termos de exames ou não, leva aqui algumas incertezas e algumas angústias que em diferentes níveis, obviamente, no ensino, se possam também manifestar.
Deixa eu perguntar-lhe uma coisa, Renato Paiva. Numa altura em que até já se sabe que vai haver esta semana uma nova reunião do Infarmed e em que todos esperam também que sejam dados esses passos em frente no processo de desconfinamento. Este desconfinamento progressivo, com este cenário, a situação se vier a mudar, pode haver aqui algum tipo de problema? Pergunto-lhe também o cenário que adivinha, se assim se mantiver este ritmo de desconfinamento, é de que haja uma espécie de normalização do ritmo da aprendizagem depois de algumas dificuldades registadas no ano passado?
À partida, sim, tudo se prepara para que assim aconteça. Ou seja, já houve diretivas, obviamente, para planos de recuperação muito específicos, que as escolas têm autonomia para se organizarem à medida que vão também emergindo as dificuldades. E as dificuldades possam ser diferentes de contexto para contexto, de agrupamento para agrupamento. E é isso que é necessário ir estando atento, que à medida que vamos normalizando aquilo que se considera normal, de alguma forma, naquilo que era o dia a dia das escolas, que se vão reajustando tudo aquilo que eram restrições. Obviamente, que os miúdos foram sentindo e algumas delas foram muito vívidas e muito fortes, sobretudo na privação do contacto, naquilo que tinha a ver com, dou-lhe um exemplo muito característico: os recreios, que eram muito típicos dos miúdos brincarem uns com os outros, estarem confinados não só em bolha, mas muitas das vezes restritos ao tipo de brincadeiras em si, ao tipo de contacto que poderiam ter, foi altamente castrador. E os miúdos sentiam que um espaço, muitas das vezes, que era apropriado para eles e eles sentiam como: "Aqui é a nossa organização," também lhes foi vedado. E este conjunto de regras que foram mais limitativas, houve muitas crianças e também adolescentes que os sentiram de uma forma muito forte.
E além daquilo que se vai passar dentro das quatro paredes dos estabelecimentos escolares, os pais têm aqui também um papel muito importante. Pergunto-lhe isso e até olhando para aquilo que foram os últimos meses, com os pais a serem também aqui um suporte muito importante na altura, por exemplo, da teleescola.
Foram e hão de continuar a ser. Se bem que este registo, à partida, de quem já esteve em ensino à distância e já tem essa experiência Esperemos que não retrocedamos e que não confinemos estes meninos que vão começar o primeiro ano e ainda não tiveram essa experiência, porque em muitos contextos foi basilar e importantíssimo ter os pais a monitorizar.
E esse processo de monitorização pode levar a um aumentar da pressão e ansiedade nas crianças? Este olhar atento dos pais, essa exigência neste ano letivo que agora começa?
Também, mas sobretudo é também manifestar um olhar que devemos ter para com alguns pais que sentiam que não era apenas por boa vontade, mas não se sentiam preparados para aquilo que pudesse ser o apoio que os filhos precisavam. E tínhamos aqui uma dualidade. Efetivamente podíamos ter alunos com necessidades e os pais não conseguirem acompanhar, como também podíamos ter o contrário, que era alunos que não necessitavam desse acompanhamento e tinham pais muito presentes, que esses sim, traziam uma pressão acrescida e uma superproteção, quase como um policiamento naquilo que seria uma responsabilidade deles e que não sentem, obviamente, quando estão na escola e portanto, têm toda uma liberdade e uma autonomia. E as realidades efetivamente foram muito diferentes quando caracterizamos a nível nacional, mas na maioria, eu acho que os pais tiveram um papel importante naquilo que foi o apoio à autonomia daquilo que foi a criação de novas rotinas, dentro daquilo que foi uma experiência diferente do ensino à distância, umas deles com a telescola e com recursos, outras vezes com aulas mediadas por plataformas digitais, outras com outras estratégias que foram tomadas por diferentes professores, mas era todo um reajustar daquilo que foi a dinâmica pedagógica com que cada professor trabalhou. E nisso também os pais tiveram alguma necessidade de se readaptar, de coordenar as situações, que postura seria mais indicada naquilo que era a orientação que iam tendo também de forma coordenada com os professores titulares de todos os seus filhos. E aí tivemos realidades efetivamente muito díspares.
Renato Paiva, deixe-me também perguntar-lhe para terminarmos aqui a nossa conversa, não temos muito mais tempo. Enquanto especialista nesta área da educação, com muita experiência nesta área também do apoio às crianças. A questão, por exemplo, das máscaras, foi uma questão que se falou também do ponto de vista daquilo que podem ser algumas dificuldades da aprendizagem. O facto de os professores terem máscaras, principalmente para as crianças mais pequenas, de menores idades. Neste momento, considera que o facto de haver uma máscara utilizada por um professor dentro de uma sala de aula pode criar dificuldades acrescidas aos alunos?
Eu acho que vai manter as dificuldades que já se sentiram quando os professores a tiveram que usar, porque efetivamente nós com máscara, vivemos muito também de comunicar para além das nossas palavras, pelos nossos gestos e sobretudo pela nossa expressão facial. E o facto de estarmos limitados nesse reconhecimento de expressão facial, não só dos alunos para com o professor, mas do professor também para com os alunos, muitas das vezes a expressão deles dá-nos muitas indicações sobre se os alunos estão a acompanhar, se estão a perceber, se necessitam mais algum apoio, mais algum acompanhamento. E efetivamente foi aqui uma perturbação que tivemos pelo uso necessariamente obrigatório de máscaras por aí. Muito gostaríamos que elas não estivessem presentes e voltássemos a normalizar esta situação, nem que fosse também pelo professor em si, que será muito mais testado que os alunos e portanto terá um controle efetivo em termos de monitorização na sua condição de saúde, que pudesse minimizar, nem que seja de uma forma muito inicial e quanto antes, que pudéssemos retirar esta necessidade de obrigatoriedade de máscaras. Percebe-se, obviamente, que estamos num contexto fechado e a expressão dos aerossóis que possa ser também um fator possivelmente transmissor, mas eu acho que insistindo naquilo que possa ser a monitorização, a vigilância e a testagem, se possam ir minimizando estes impactos para voltarmos a uma normalidade. Eu acho que era fundamental que isso acontecesse quanto antes, efetivamente.