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Carlos Pereira, hoje o suspeito do ataque a Paris, que aconteceu na última sexta-feira, que matou três pessoas, é apresentado a um juiz de instrução e também creio que hoje a comunidade curda volta a manifestar-se em Paris. Como é que estão os ânimos na capital francesa?

Não é o assunto único de debate. Evidentemente, esta é uma época ligada ao Natal, há muita gente de férias, há muita gente a viver em família e, portanto, este não é o assunto único de que as notícias falam. Aliás, os canais normais de informação abordam esta questão em poucos minutos. Agora, é de facto algo com que as pessoas ficam surpreendidas, o fato de haver uma pessoa que devido a não gostar de estrangeiros, está disponível a ir para a rua e matar. E isto se calhar é novo em Paris, mesmo em França. O senhor falou durante estes últimos dias e falou bastante. Ele já contou o percurso dele todo. Ele no próprio dia tinha ido a uma outra terra, a Saint-Denis, onde há muita imigração, é a maior cidade a norte de Paris. Ele tinha ido lá, andou de metrô normalmente, levou armas numa mala e estava disponível para matar lá, só que não viu lá muita gente, veio e resolveu matar em Paris. E isto choca muito as pessoas, devido a razões racistas. Já houve muitos atentados em Paris, já houve uma série de problemas aqui em Paris, mas como este, de ser um ato racista, não há muitos. É mais isto que está a surpreender as pessoas e não tanto o fato de alguém ter disparado na rua, já não é a primeira vez, infelizmente.

E a propósito das manifestações que temos visto em apoio à comunidade curda e a exigir justiça por causa destes três assassínios, temos visto também que acabam por resultar em confrontos violentos. Como é que isto pode acontecer hoje? É previsível que seja como tem acontecido sábado e também na sexta-feira?

Olha, isto também não é uma novidade em Paris. As manifestações, infelizmente, as mais pacíficas do mundo acabam assim aqui em Paris, devido a haver pessoas que vão em geral perturbar o fim de cada manifestação. Aqui foi um caso um bocadinho idêntico, isto é, não tanto devido a haver grupos anarquistas que se aproveitaram, como acontece em muitas outras manifestações, mas devido a haver pessoas que vieram de outros países, que eram curdos, e se vieram é porque são mais militantes, digamos assim, e que aqui muito depressa o rastilho incendiou e começaram também a ter o mesmo comportamento e a ter um comportamento violento. Mas a maior parte das pessoas que manifestaram no centro de Paris, na République, não eram violentas e não tiveram um comportamento violento. Portanto, corpúsculos como estes que se aproveitam de uma manifestação e que depois degeneram, isso infelizmente é uma moeda corrente aqui em Paris em qualquer manifestação. Portanto, isso não surpreendeu também. Evidentemente, a comunidade que estava ali a prestar homenagem a três deles que morreram, ficaram numa grande parte chocados. Eles tinham um serviço de ordem muito organizado, como já não se via há muito tempo em manifestações em Paris. E eles próprios ficaram ultrapassados, porque não conseguiram conter, por um lado, aquela fúria, aquela violência e, por outro lado, pessoas que nem ainda conheciam e, como não conheciam, era mais complicado de contê-los. Eu acho que isso não deve acontecer hoje, pelo menos a comunidade está a prometer que está bastante organizada e que está a tentar controlar estes ânimos, porque isto iria prejudicar a sua própria causa. Eles não querem. Agora, querem, evidentemente, aproveitar politicamente esta situação de forma a poder chamar os problemas que os curdos têm de França e no mundo inteiro, de maneira a que isto seja uma tribuna para eles e irão aproveitar muito, certamente.

Carlos, mas deixe-me perguntar-lhe, porque disse-nos que em Paris as manifestações costumam ter esses grupos que se aproveitam e acabam por acentuar o tom da agressividade, dos confrontos violentos, apesar da comunidade curda prometer ânimos mais controlados, não depende só deles, se há ou não violência com as autoridades.

Exatamente. Sim, e o que se passou foi isso. Aparentemente, houve um caminhão de uns turcos que teriam passado e teriam dito umas coisas quaisquer que eles não gostaram e, portanto, isto foi um rastilho que depressa incendiou e alargou a outras pessoas. Isto já ficou fora do controle do grupo de segurança que estava até ali a gerir a manifestação de uma forma exemplar. Aparentemente, esse foi o rastilho que incendiou aquele grupo de pessoas violentas que se viu, que atacou depois a polícia dizendo que não estavam seguros aqui e a polícia permitiu que, no fundo, houvesse esse atentado. Eles não estavam seguros. Bom, é necessário dizer aqui também que há nove anos atrás houve um caso idêntico, onde três militantes de um movimento militante morreram. E até agora ainda não encontraram uma solução jurídica a este assunto. Entretanto, o suspeito morreu já e esse assunto ficou esquecido. Aliás, eles foram ver o ministro da Justiça por causa disso. E isso é um sentimento de injustiça que é muito fortemente vivido na própria comunidade curda.

Portanto, é uma mágoa antiga. Deixe-me perguntar-lhe também, Carlos, como é que o resto de Paris está a encarar isto? Ou seja, este pode ser mais um dia normal com mais uma manifestação e um caso de peso na justiça, mas é mais um dia normal nas ruas de Paris.

Sim, no próprio dia do atentado as pessoas andavam em Paris, eu passei em Paris, as pessoas andavam normalmente a fazer as compras. Não há que dar essa imagem de que Paris está com medo ou que está parado naquelas ruas onde de facto houve o atentado. As pessoas não estavam lá. Aliás, foi evacuada a zona. De resto, as pessoas viveram normalmente e ainda no dia em que havia a manifestação, o metrô estava a funcionar normalmente, o próprio metrô République estava a funcionar. As pessoas, aliás, saíram pelo metrô République. O metrô funcionava, as pessoas continuaram a fazer compras, continuaram a sua vida normal, como acontece, aliás, ainda hoje de manhã.