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A Iniciativa Liberal anunciou hoje que gostaria de ver introduzida ou acrescentada às celebrações do 25 de Abril, uma celebração específica para o 25 de Novembro. Você é capitão de Abril, é um dos homens que esteve na revolução. Faz sentido esta sugestão por parte da Iniciativa Liberal?
Faria sentido se não fosse feita com más intenções de deturpação do que foi o 25 de Novembro, porque o 25 de Novembro vai ser comemorado. Eu, aliás, comemoro todos os anos o 25 de Novembro, mas comemoro também o 11 de março e o 28 de setembro. E só faz sentido se olharmos para o 25 de Novembro com o significado fundamental que ele teve, que foi de garantir a continuação da democracia, a continuação do trabalho da Assembleia Constituinte, que acabou, naturalmente, por aprovar a Constituição da República, anulando todas as tentativas, quer à esquerda, que é aquelas que a Iniciativa Liberal quer comemorar, quer à direita, que é aquelas que ela não quer comemorar e que impactadamente algumas forças radicais procuram fazer regressar, que é um novo 28 de Maio. Portanto, para mim, como já tive a oportunidade de dizer várias vezes, se quisermos comemorar o 25 de Novembro, acho muito bem que se comemore, mas com o seu verdadeiro significado, porque eu que comandei as operações no 25 de Novembro, do lado do Grupo dos Nove, que foi quem saiu vencedor, a maior dificuldade que acabei por ter no terreno foi evitar um novo 28 de Maio que as forças extremistas à direita queriam fazer. Portanto, nesse sentido, se é o sentido que querem dar, acho muito bem que se comemore o 25 de Novembro. Se é aquilo que aparentemente pretendem, que é se limitarem a vitória só sobre as forças mais à esquerda, mais radicais, aí já não estarei de acordo.
Quando fala em más intenções, refere-se exatamente ao quê?
A quererem vincar a vitória sobre as forças à esquerda do Partido Socialista e não quererem vincar a vitória sobre as forças radicais que quiseram, na altura, transformar o 25 de Novembro num novo 28 de Maio. Se essa intenção não existir, ótimo. Nada contra a proposta. Agora, se a intenção, como tudo aparenta ser, for essa, já estarei contra este tipo de manifestação de vontade de comemorar um ato em que as forças que não diretamente, mas na prática consideramos que a Iniciativa Liberal e o Chega representam, foram vencidas no 25 de Novembro. E portanto, estão a querer comemorar o quê? A derrota que tiveram na altura? A questão é esta. Eu, como lhe disse, todos os anos comemoro o 25 de Novembro, porque o 25 de Novembro foi a reposição em seu sítio, nos verdadeiros carris do 25 de Abril, mas o 25 de Abril como um ato de libertação, um ato de democracia e não um ato de repressão como seria um novo 28 de Maio.
Vasco Lourenço, este tipo de propostas afasta, de certa forma, na sua opinião, o ônus do 25 de Abril?
Não, é que há forças que, como não têm coragem, não têm condições, para acabar o 25 de Abril, na sua ingenuidade de um ato libertador, que é único na história universal, tentam juntar-lhe outras comemorações. Como digo, comemoremos o 28 de Setembro como derrota da extrema-direita, da direita, comemoremos o 11 de março de 65 como derrota da direita outra vez e comemoremos o 25 de Abril como derrota das esquerdas e das direitas mais radicais. E aí eu estarei de acordo.