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Seja bem-vindo ao podcast "Sextas Sustentáveis", onde falamos de sustentabilidade, sempre com a ajuda dos profissionais da CMS Portugal. E eis que chegamos ao último episódio. Eu sou o Nelson Ferreira e hoje vou estar à conversa com o Tiago Valente de Oliveira sobre green finance ou financiamento sustentável. O Tiago Valente de Oliveira é sócio de Corporate e M&A da CMS Portugal. Tiago, bem-vindo ao "Observador", obrigado por ter vindo.
Muito obrigado.
Tiago, o que é green finance? Pareceu-me que era um termo até mais ou menos autoexplicativo.
É sim, de facto, é um termo autoexplicativo e apesar de ser uma expressão inglesa, é a mais comumente utilizada. A sua tradução para português é financiamentos sustentáveis. E no fundo, o que incluímos nesta expressão de green finance? Incluímos as diversas formas de financiamento de projetos que têm algumas preocupações ambientais e sociais. Nos instrumentos financeiros mais tradicionais, o retorno financeiro é a principal preocupação. Nestes instrumentos que estão abarcados pelo green finance, nós temos preocupações também ambientais e sociais que andam de mãos dadas com a preocupação de retorno financeiro.
Tem alguma coisa que ver com descarbonização da economia, que é um termo que eu sempre gostei, que nunca percebi muito bem.
Tem sim. No fundo, também tem que ver com isso, ou seja, nós temos formas de financiar os projetos que visam realmente chegarmos à descarbonização da economia e nós em termos de métricas que temos estabilizadas, um pouco generalizadamente, foi muito interessante porque nós temos Portugal a ser pioneiro na definição de uma métrica de descarbonização e, portanto, de neutralidade carbónica, ou seja, nós termos uma emissão carbónica que é compensada com outras formas de captação, do resultado ser zero, é essa a origem da neutralidade carbónica. E nós tivemos Portugal a ser pioneiro e a assumir esse objetivo de neutralidade carbónica. E depois também temos métricas europeias e mais comunitárias, para essa neutralidade carbónica ser atingida até 2050.
Exato, há aqui todo um contexto europeu e até nacional que torna isto mais urgente. Claro que as alterações climáticas e as preocupações ambientais estão, de facto, na ordem do dia, mas quando olhamos para o impacto das empresas, há aqui objetivos, metas a cumprir.
Sim, no fundo, eu acho que as coisas estão todas relacionadas, ou seja, nós temos, de facto, uma consciência coletiva de que efetivamente os recursos têm limites e que temos que mudar alguma forma no nosso consumo. E as empresas também são um pouco pressionadas por essa consciência coletiva. E o que temos aqui são a definição de um conjunto de métricas, como disse muito bem, seja ao nível nacional, seja ao nível europeu. Temos o European Green Deal, temos o roteiro para a neutralidade carbónica. Tudo isto são diferentes métricas e diferentes etapas para realmente alcançarmos esta neutralidade carbónica, que se define até 2050, com prazo já de 2030 intermédio para uma determinação, um decréscimo de emissão de gases com efeito estufa bastante significativo.
E falava também num contexto nacional. Creio que é a partir de 2016, isto se coloca também no nosso país.
Exatamente, como lhe disse, nós fomos pioneiros mundiais. Em 2016, nós damos nota ao mundo que queremos atingir esta neutralidade carbónica em 2050 e depois só em 2019, três anos depois, é que o European Green Deal, um pacto ecológico europeu, assume também idêntico objetivo. É curioso ver que nesta matéria em particular, nós até fomos um cadinho ao contrário do costume, fomos nós os pioneiros e depois vieram os seguidores, neste caso, a definir idênticas métricas.
Sabemos mais ou menos como está o cumprimento destas metas, se estamos no bom caminho, se estamos muito atrasados?
Eu diria que ainda não temos uma mensuração desse nível de objetivo à data de hoje.
Porque se por um lado tivemos um cadinho, quase de esperança, com o Acordo de Paris, também depois temos muitas notícias a dizer ou que não vai ser cumprido ou que países saltaram fora, literalmente, desse acordo. Isso dificulta o cumprimento destes objetivos.
Muitíssimo. E esse é, de facto, um dos grandes desafios que nós temos no tratamento destas questões. Este ano até vai ser um ano, diria, chave, para vermos em que sentido é que podemos evoluir. Porque a verdade é que nós em 2024 temos metade da população mundial em eleições. Temos 76 países com eleições, incluindo o nosso, mas temos players muitíssimo relevantes a terem eleições. Os Estados Unidos, veremos como é que evolui. Entre o vermelho e o azul, a ver se o verde não fica para trás. Vai ser muito interessante.
Pelo menos um candidato que é verde. Que diz que sim.
Ou um deles que deixa aqui o verde.
É mais avesso ao verde.
Exatamente. E vai ser muito interessante, porque a implementação destas questões depende de uma vontade política. Vai depender também de alguma regulamentação para dar mais credibilidade a este nível de instrumentos, porque nós neste momento os instrumentos são quase auto-labeling, passe aqui a expressão. São indicados como sendo instrumentos verdes, os projetos são indicados como projetos verdes, mas não temos ainda completamente instituído mecanismos que visem controlar efetivamente essas características que permitem qualificar como verde e depois ir acompanhando o projeto ao longo dos tempos. De fato, vai ser um tema muito interessante. Nós temos, por exemplo, um instrumento agora a passar uma prova de fogo que é a CS3D, uma diretiva que já foi aprovada pelo Parlamento Europeu em 2023, mas que ainda está dependente da vontade dos diferentes Estados membros para ser implementada. Esta diretiva é muito relevante. Por quê? Porque esta diretiva vem permitir impor determinadas obrigações para identificarmos o impacto que a cadeia de valor da nossa empresa, por exemplo, tenha ao nível de direitos humanos e no ambiente. Ou seja, eu, enquanto empresa, vou ter que garantir, ou pelo menos identificar, toda a minha cadeia de valor e com base na cadeia de valor, nos meus diferentes prestadores de serviços, fornecedores, ver em que medida é que essas entidades estão a impactar este nível ambiental e social. O facto de a vontade política não ter ainda permitido aprovar ou implementar esta diretiva, fez com que, por exemplo, ainda recentemente, a Bélgica, por questões meramente políticas entre Alemanha, Itália, Bélgica, enfim, diferentes Estados membros, nós tivemos a Bélgica como presidente do Conselho, a reduzir o âmbito de aplicação das empresas sujeitas a estas obrigações para metade. Ou seja, já quase num ato de desespero de: "Bom, isto é melhor aplicar-se a poucas do que a nenhumas e vamos tentar passar o mínimo possível, obter algum consenso político". Esse é um grande desafio, realmente, que nós temos pela frente.
E pelo que percebi também, quase que todos os setores podem fazer alguma coisa para a descarbonização da economia, mas há setores que se destacam também devido ao seu impacto ou ao impacto que têm na sua atividade. Quais são eles?
Sim, nós temos identificado e temos verificado um setor muitíssimo relevante, naturalmente, que é o setor da produção de energia, ou seja, uma substituição das fontes de energia dos combustíveis fósseis para fontes renováveis. Esse tem sido um setor muitíssimo ativo. Temos vindo a verificar que Portugal tem sido realmente um país muito atrativo para investimento, não só nacional como estrangeiro, nesta matéria, com implementação de projetos de grande envergadura, fotovoltaicos, outras fontes de energia renovável. Temos também, de uma forma interessante, visto a floresta portuguesa como podendo ser potenciada através de outras formas de exploração e também tem sido um setor com muitíssima atividade e bastante dinâmico nos últimos tempos. E eu destacaria, por último, o setor da mobilidade e dos transportes também, com uma substituição acentuada do parque automóvel, não só automóvel ligeiro, mas também frotas de logística, já que a área logística também é uma área que pesa muito nessa senda da emissão carbônica.
Olhemos então a transição, nunca se faz sem um grande investimento. Que instrumentos é que dispõem as empresas para alcançar estes objetivos? São ajudadas de alguma forma? Como é que elas lidam com isto?
Sim, nós o que temos é um objetivo para atingirmos este nível de objetivos. Há vários estudos quanto ao financiamento que é necessário para este efeito, mas a verdade é que em termos de ordem de grandeza, estamos sempre a falar de necessidades na ordem das dezenas de milhares de milhões de euros. É muito dinheiro que é necessário para atingirmos estas metas. E a forma de podermos financiar estes projetos, eu talvez resumisse em duas ordens de grandeza. Uma delas são os instrumentos do Estado, programas de apoio específicos que o Estado tem lançado, muitos deles, alguns deles a serem desenvolvidos pelo Banco Português de Fomento. E depois numa esfera mais privada, das empresas, temos visto a emissão de obrigações verdes como uma área bastante relevante. Eu acho que olhando para o nível das sociedades cotadas portuguesas, todas elas emitiram nos últimos tempos grandes volumes de obrigações verdes. Temos também, por exemplo, a criação de fundos capital de risco com objetivos sustentáveis, como uma matéria também muito interessante. Nesta matéria, a CMVM também tem vindo a registar um aumento significativo deste tipo de fundos. Os instrumentos são diversos, não são só para entidades cotadas.
Isso era o que eu lhe ia perguntar, se eram só para grandes empresas.
Não, eu acho é que as grandes empresas têm recursos que lhes permite antecipar a necessidade de financiamento destes projetos e têm mais recursos à sua disposição e são pioneiros, naturalmente, nesta implementação. Mas temos várias entidades, temos vários clientes não cotados que têm vindo realmente a adotar este tipo de instrumentos, porque efetivamente são instrumentos que vieram para ficar.
As grandes mudanças criam sempre oportunidades E desafios, quais são as que enfrentam as empresas portuguesas?
Sim, sem dúvida. Eu apontaria como grandes oportunidades, para já, esta pressão de consumidores. Naturalmente, a pressão que os consumidores vão colocando nas empresas para um modo de estar e de produzir mais sustentável é, sem dúvida, um fator determinante pro sucesso destas medidas.
A empresa torna-se mais atrativa.
Muito mais atrativa, não haja dúvidas. Depois também destacaria aqui as condições mais vantajosas, ou seja, uma expressão que é muito interessante que é o greenium, que é uma composição.
Parece uma coisa da tabela periódica, Tiago. Greenium. O que é o greenium?
O greenium é uma mistura entre o green e o premium, ou seja, isto está demonstrado, quando o investidor quer investir em instrumentos de financiamento sustentável, está até disposto a que a sua taxa de retorno, o prêmio que tem pelo investimento, seja menor do que o prêmio que deveria ou estaria à espera de receber num investimento dito mais tradicional. Isto acaba sendo muito interessante para as empresas. Uma empresa que recorre a este tipo de financiamentos acaba por ter que pagar menos pelo mesmo financiamento, pelo fato de o consumidor, o investidor, neste caso, estar mais apto a fazer este tipo de investimento. Como lhe dei nota, eu diria que aqui o grande desafio vai ser um desafio político. Temos a questão do CS3D na ordem do dia, a estar agora a ser votada pelos diferentes Estados membros, eu acho que aí vai ser uma grande dificuldade, sendo certo que depois temos aqui um equilíbrio que pode causar algum tipo de dificuldades, que é um equilíbrio entre o greenwashing, aquela prática que a minha colega Sara Rocha já-
Já cá falamos disso neste podcast
...já cá falou. Exatamente. O greenwashing, ou seja, a divulgação que as empresas vão querer fazer das medidas ambientalmente amigáveis, digamos assim, para atrair novos consumidores e para estarem do lado dos consumidores, e aquilo que possa ser considerado excessivo, e uma prática que agora também temos visto tornar-se mais frequente, que é o greenrushing, ou seja, que é a vergonha das empresas. Com medo de que haja realmente a instauração desse tipo de processos e dificuldades de demonstrar que efetivamente a minha embalagem é mais sustentável que a embalagem do meu concorrente, as empresas têm vindo a fazer o quê? A ficar, no fundo, na sombra as medidas que têm vindo a implementar, de facto, para atingir a sua sustentabilidade ou uma sustentabilidade maior. Esse equilíbrio vai ser muito interessante de verificar.
Tiago, estamos quase no final e estamos a ficar com pouco tempo, mas acho que é a pessoa indicada para me deixar três conselhos base para as empresas que queiram implementar na sua atividade green finance.
Muito bem. O primeiro deles seria a desconstrução de todos estes mitos. De facto, isto é uma matéria que é amplamente regulada, que tem muitíssimas siglas, mas a verdade é que nós não precisamos de andar com um glossário no bolso. Há muitos profissionais que já têm trabalhado na área, que têm desconstruído e podem ajudar a desconstruir os mitos criados à volta desta realidade, que é uma realidade que veio para ficar. Um segundo conselho que daria é o de mapear as necessidades, ou seja, qualquer empresário deverá mapear as necessidades de financiamento que tem dentro de casa, para conseguir atingir as métricas a que se propõem ou que vão ter que propor em face desta pressão de consumidores e regulatória, mapear quais são os projetos dentro de casa que até poderiam ser aptos a obter este tipo de financiamentos. E o último conselho é, de facto, começar a agir, porque efetivamente nós temos, a nível coletivo, metas de neutralidade carbônica muito longas, 2050, mas temos já metas intermédias de 2030. 2030 não fica assim tão longe e de facto as metas são ambiciosas e por isso a pressão do mercado vai começar a sentir-se e intensificar-se cada vez mais e, portanto, a ação é necessária desde já.
Muito bem, muito obrigado, Tiago.
Muito obrigado.
Muito esclarecedor. Tiago Valente de Oliveira, sócio de Corporate M&A da CMS Portugal. Ajudou-nos hoje a perceber melhor este conceito de green finance ou financiamentos sustentáveis. E foi, de facto, de sustentabilidade que falamos ao longo dos últimos episódios do "Sextas Sustentáveis", um podcast do Observador em parceria com a CMS Portugal. Todos os programas estão disponíveis no site do Observador, bem como nas plataformas de podcast.