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Bem-vindos ao Som Ambiente, esta semana dedicado à relação entre o ambiente e a pobreza, e na segunda parte vamos olhar para um fenômeno climatérico típico do verão, mas que está a surgir com mais frequência noutras estações do ano, o calor. Por isso, vamos contar com a ajuda do investigador Ricardo Trigo, que dirige o Instituto Dom Luís, laboratório associado da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e com quem vamos conversar na segunda parte. Som Ambiente com o António Paulo Soares, a Catarina Grill e a Sofia Guedes Vaz. Olá a todos.
Olá.
Olá.
Olá.
E como é hábito, vamos aos sinais. E começamos pelo chamado Pulmão da Terra, a região da Amazônia, sinal vermelho atribuído pelo António. Por quê, António?
João, eu atribuo o sinal vermelho devido às notícias recentes que nos indicam que o número de incêndios na Amazônia aumentaram em relação ao período homólogo do ano passado. Eu sei bem que ainda não é uma informação que nos transmita a área ardida, mas sim os focos de incêndio, mas é um tema recorrente que nos indica que, em termos gerais, continua-se a não combater de uma forma eficaz esta grave ameaça à sustentabilidade do planeta. Mas é um tema que encontra ponto do que se tem discutido na Europa e em Bruxelas, através da estratégia da biodiversidade, em que na Europa tenta-se cada vez mais dar o bom exemplo e garantir uma gestão das florestas primárias e seculares. Continuamos a ver a figura dos agricultores e dos silvicultores afetada por estes maus exemplos do que se passa na Amazônia, em contraponto com o bom papel da agricultura e da gestão florestal europeia.
E o sinal amarelo do programa desta semana é atribuído pela Sofia para a BBC, que vai retirar imagens violentas dos programas de natureza. Tens dúvidas quanto a esta iniciativa, Sofia? Deixa-te com sentimentos ambíguos?
Sim, exato. A questão da natureza nunca é linear. Esta ideia de que nós fazemos parte da natureza ou não fazemos parte da natureza, o que é que nós somos, não é linear. E agora a BBC resolveu fazer uma série de quatro programas, não é tirar a natureza, não é tirar tudo, mas é uma série de quatro programas, a que chamou "Escapadelas Mindful, Respire, Liberte-se, Restaure-se", com a voz de um ex-monge budista, muito suave, muito calmo, para nos levar quase para a meditação e para o relaxamento. Os benefícios para a saúde mental de programas da natureza parecem ser óbvios, dizem os produtores do programa, e portanto, fazia todo sentido haver este tipo de programas, e diz ela que é quase tão bom olhar para a natureza como estar na natureza. E portanto o programa é para dar este sentimento de paz, a ideia de que nos podemos perder nas imagens, acho que vão ser minutos e minutos sempre com ondas a rebentar, esse tipo de coisas. E o meu sinal amarelo para isto, tenho três razões para dar um sinal amarelo a isto. A primeira é que a natureza não é violenta. Nós é que interpretamos os processos dinâmicos da natureza como violentos. São processos de cooperação, de competição, de predação, sim, de domínio de território, mas são processos iguais aos nossos. Aliás, nós também fazemos parte da natureza. Portanto, a natureza não é violenta em si. Deve haver alguns indivíduos violentos, como também há indivíduos violentos humanos, mas não quer dizer que aquilo seja violência. Portanto, é uma maneira de nós olharmos. E isso, logo à partida, acho que está errado. Depois, outra razão, que já várias vezes falámos aqui no Som Ambiente, que é esta ideia da disneylização, a natureza ser uma Disneylândia. Que é um fenômeno que acho que não traz valor acrescentado nenhum à nossa relação com a natureza. E este programa pode um bocadinho acentuar essa tendência, dessa forma naïf de olharmos para a natureza. Mas, de facto, não é sinal totalmente encarnado. É verdade que a natureza pode ser acalmante e as imagens e os sons podem ser relaxantes e potencialmente quanto mais natureza virmos, talvez mais nos preocupemos com ela. E portanto, não deixa de ser bom haver programas sobre a natureza. E portanto, esta é a minha ambiguidade. Sinal amarelo.
E para fechar, sinal verde, Catarina, o teu sinal é atribuído ao pedido de transportes para municípios de baixa densidade.
Pouco a pouco, há cada vez mais municípios com baixa densidade populacional que oferecem transporte a pedido aos seus munícipes. E estes veem assim reforçada a sua mobilidade sem terem que recorrer ao transporte automóvel privado. E Idanha-a-Nova avançou agora com este programa, que também já decorre noutros municípios, por exemplo, na zona do Médio Tejo. E esta é uma medida que é adequada às características destes territórios. Dos grandes centros urbanos, como a Grande Lisboa, onde o ano passado a aposta foi, e bem, na redução tarifária dos transportes públicos para aumentar a procura, estes territórios de baixa densidade precisam apostar num outro tipo de soluções, como o transporte a pedido. Por isso, é sinal verde para estes municípios de baixa densidade que pensam em soluções adequadas ao seu território e não caem na tentação de repetir as soluções dos outros sem pensar se será o mais adequado para as suas populações e também para o meio ambiente.
Qual a relação entre pobreza e ambiente? É este o tema da primeira parte do programa desta semana. Talvez a face mais visível desta relação seja o fato de os mais pobres serem as maiores vítimas das alterações climáticas. Catarina, começo por ti, o que te apraz dizer sobre este assunto?
Primeiro, reforçar que isto é mais do que as questões climáticas, tem a ver também com o ambiente enquanto provedor de recursos naturais, que são a base biofísica das nossas sociedades e da nossa economia. Eu acho que aqui é importante enquadrar esta questão da relação entre pobreza e ambiente como sendo uma relação que é bidirecional. O ambiente afeta a pobreza, portanto, como eu disse, fornece os recursos que permitem a subsistência das pessoas mais pobres, e estou a falar em termos globais, não especificamente do caso de Portugal, afeta também a saúde das pessoas e também influencia a sua vulnerabilidade, portanto, aos riscos climáticos, riscos de desastres naturais, etc. Por outro lado, a pobreza também afeta o ambiente. Força as pessoas pobres a degradar o ambiente para garantir a sua subsistência, encoraja também os países a promover o crescimento econômico às custas do ambiente e também induz muitas sociedades a reduzir as suas preocupações ambientais, incluindo não canalizar os recursos suficientes pra preservação ambiental. Eu acho que isso, no fundo, dá um enquadramento destas questões. No caso de Portugal, e eu acho que também é importante vermos estas questões, não só em termos da comparação entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento, mas também pensando dentro de cada país, e aqui especificamente Portugal, como é que a questão tanto dos comportamentos ambientais como também da pobreza e do ambiente se influenciam mutuamente.
E chegaste a alguma conclusão, já? Ou deixamos pra uma segunda ronda?
Deixamos pra uma segunda ronda.
Vamos ouvir a Sofia.
Sim, eu queria começar por dizer que acabar com a pobreza é o primeiro objetivo do desenvolvimento sustentável, e como a Catarina disse, a pobreza está ligada ao ambiente de várias maneiras. Para já temos que diferenciar a pobreza nos países em vias de desenvolvimento, e nos outros países. E de fato, a ideia da depleção dos recursos naturais que existe nos países em via de desenvolvimento, está muito ligada à pobreza, nomeadamente apanharem lenha para se aquecerem e para fazerem a sua comida, que são processos muito difíceis, ou sobrepesca, uma série de coisas. E depois é a pobreza nos países ditos ricos. Essa é outra ligação com o ambiente, também para dois lados, porque a pegada ecológica das pessoas mais desfavorecidas é muito menor do que a das pessoas mais ricas. E em contrapartida, também há aquela ideia de que os produtos mais biológicos, mais ambientais e mais sustentáveis são mais caros e, portanto, as pessoas mais desfavorecidas também não podem aceder a eles. Portanto, de fato, aqui não há só uma linha, há várias. Há também esta ideia da injustiça entre os vários países, nomeadamente agora falando das alterações climáticas, como depois na segunda parte do programa se calhar falamos disso, e também tu já falaste, João, que é esta ideia de que uns poluem e os outros sofrem. E são os países mais pobres que estão a sofrer com as alterações climáticas provocadas pelos países mais ricos, os refugiados que existem, que não são de guerra, são econômicos, e os refugiados econômicos, a maior parte deles, são refugiados ambientais. São refugiados econômicos por destrutões que vêm nomeadamente de alterações climáticas. Portanto, isso também é de uma grande injustiça e faz mossa nas relações internacionais. E depois a ideia de que o consumo sustentável, de fato, obriga a uma certa austeridade, que nós hoje em dia achamos negativa. Enquanto a minha avó, quando dizia: "Ah, ele é muito austero", isso era um grande elogio, agora pra nós é quase um complexo, e isto é uma coisa que nós temos que também ultrapassar.
Muito bem. António?
Eu quando me ponho a pensar nesta questão do ambiente e da pobreza, realmente acho que é muito claro para qualquer um de nós perceber que quando estamos a falar de pessoas que estão na pobreza ou no limiar da pobreza, que o ambiente é de longe uma das prioridades mais diminutas que estas pessoas têm. O que eu acho é que realmente há aqui uma causa-consequência da vivência destas pessoas e da forma como elas interagem com o seu dia a dia. Eu, por exemplo, da experiência que tenho e do meu dia a dia de viver e trabalhar no campo, eu relaciono-me e estou diariamente com muitas pessoas que não se consideram pobres, mas que têm recursos muito diminutos, que têm pensões e reformas baixíssimas e que têm salários mínimos e pouco mais do que isso. E são pessoas que se adaptam um bocado à sua vida de subsistência. São pessoas que têm hortas, que têm galinheiros, são pessoas que se deslocam muito raramente, aliás, porque a grande parte delas não tem meio próprio de locomoção. Ou seja, aqui no dia a dia do campo, a pobreza até pode estar associada, infelizmente para estas pessoas, a uma forma positiva de ambiente, porque a pegada ecológica é, de facto, muito pequena para estas pessoas. Quando estamos a falar no impacto da vivência das pessoas, quando falamos da pobreza em meio rural ou do limiar da pobreza, estamos a falar num impacto danoso para o ambiente, muito pequeno. Agora, há outras formas de pobreza e há a pobreza das zonas urbanas, em que é muito mais difícil controlar este impacto positivo na pegada ecológica. Mas, de facto, eu creio que hoje em dia, se falarmos em Portugal, temos esta diferença do que é uma pobreza de meio rural versus uma pobreza de meios urbanos, não pela ação direta das pessoas, mas por uma ação transversal e indireta. Agora, realmente temos aquilo que a Sofia e a Catarina já falavam, quando estamos a falar de países desenvolvidos e países subdesenvolvidos, realmente é muito complicado conseguir sequer pensar que se consegue controlar os impactos ambientais das pessoas que realmente precisam de viver e precisam de comida para viver e precisam de alguns rendimentos, em que de facto é impossível pensarmos que o ambiente é uma prioridade para estas pessoas. E isso é um problema.
Até porque há outros problemas associados, não é? São países, já por si só, com estruturas económicas muito fragilizadas, sofrem de outros problemas endémicos, como, por exemplo, sobre a população. Mas queria só regressar a Portugal, porque Catarina, ficou o teu pensamento em suspenso. Estavas a falar da relação entre pobreza e ambiente no contexto português.
Sim, eu ia dizer que não encontrei propriamente muita literatura sobre este assunto a que referi, referente especificamente ao caso português, e é pena, porque acho que seria um tema interessante de aprofundar. Mas queria pegar aqui numa coisa que a Sofia disse, a questão da austeridade, e de como ser austero era visto como uma coisa positiva e agora já não é. Acho que também é um bocadinho fruto dos tempos da Troika, que a austeridade ganhou, de facto, um contorno muito negativo. Mas eu acho que em vez da austeridade, se calhar é mais importante falarmos em suficiência, em termos do consumo, o que nós precisamos de consumir para termos uma vida digna, e que não seja uma questão da opulência e de termos mais do que aquilo que precisamos ou que conseguimos efetivamente utilizar. E eu queria também falar aqui de uma outra coisa, que saiu um estudo interessante há dois ou três dias no Reino Unido, que mostra como as crianças que têm menos acesso a espaços verdes têm um QI inferior às crianças que têm acesso a espaços verdes. E eu acho que a pobreza no acesso à natureza, é uma pobreza não só material, mas às vezes também cultural, de nós culturalmente não procurarmos ir para espaços verdes, mesmo fora dos centros urbanos, não estou a falar só dos parques urbanos. Acho que isto também é uma questão que tem sido pouco falada e que não deixa de ser interessante. Há uns anos, a Luísa Schmidt e a equipa dela fizeram um relatório com o apoio da Missão Sorriso do Continente, em que mostrava que durante o período da Troika, a única atividade de lazer que tinha aumentado, tinha sido o usufruto dos espaços verdes públicos. Ou seja, as pessoas procuravam formas baratas de ter momentos de lazer. E, de facto, em termos de acesso gratuito, se tivermos os meios para nos deslocarmos, é importante poder beneficiar destes espaços. Mas também fica a questão se todos temos os meios para usufruir desses espaços ou não, e se esses espaços estão ao dispor de toda a população. E acho que isto também é um outro ângulo interessante da ligação entre pobreza e ambiente, e pobreza e natureza.
Muito bem, estamos quase a chegar ao final da primeira parte. Tempo para a música de elevador. É uma escolha do António Paulo Soares, a propósito de uma lei que acaba de ser aprovada na Alemanha e que vai obrigar, entre outras coisas, os donos dos cães a passear os animais duas vezes por dia. Por que isto para ti, António, é música de elevador?
É música de elevador, porque eu acho que continuamos numa senda em que é óbvio que a política tem dado mais importância ao bem-estar animal, mas eu acredito, e estou plenamente convicto disso, que se continua a legislar sem analisar e sem pensar nos efeitos destas leis a curto, médio e longo prazo. E esta novidade da Alemanha é mais um desses exemplos em que, claramente, legislar com atitudes proibicionistas ou penais, como é este o caso, pode muitas vezes ter um efeito contraproducente e até ser uma consequência Muito forte para o abandono dos animais de estimação e criar um efeito bola de neve que certamente não vai favorecer em nada o bem-estar animal e muito menos os animais propriamente ditos. Senão, vejamos, segundo aquilo que nos é dito desta lei e os relatos dos donos de cães alemães e do Clube de Canicultura Alemão, que reagiram a esta notícia, parece que esta lei, à partida, parece não ter em conta a idade, o tamanho ou a condição de saúde dos animais propriamente ditos. Impõe-se então uma lei que obriga as pessoas, no meio da sua vida, no meio dos seus empregos, a terem que obrigatoriamente passear os cães duas vezes por dia, no mínimo uma hora por dia, independentemente das diversas condições e das diversas situações. É uma novidade que vem na senda, como já tinha dito, de propostas de lei segundo critérios de especialistas em bem-estar animal, que não têm em conta esta harmonia entre os deveres que são obrigatórios e necessários para com os animais e a capacidade de quem os tem de cumprir estas leis demasiado restritas e que afunilam estas obrigações e eu penso que vão potenciar o abandono. E tenho a grande certeza que se isto fosse em Portugal, seria drástico e seria realmente um grande problema. Em suma, acho que continua-se a apostar no erro da repressão, em vez da sensibilização e da educação. Isto é que é uma grande falha dos tempos modernos e desta cada vez mais a importância que a política está a dar, e bem, ao bem-estar animal, nomeadamente os animais de companhia.
Curta pausa no Som Ambiente, regressamos já a seguir. Até já. Segunda parte do Som Ambiente, convidamos o investigador Ricardo Trigo, dirige o Instituto Dom Luís, laboratório associado da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e tem dedicado parte da sua carreira ao estudo das ondas de calor. Ricardo Trigo, obrigado pela disponibilidade e bem-vindo ao Som Ambiente.
Obrigado a vocês pelo convite.
Começava pela pergunta mais básica de todas, mas que faz sentido: o que são ondas de calor?
Ondas de calor, eu julgo que toda gente tem a noção intrínseca que é que corresponde. Tipicamente, são períodos relativamente curtos. As definições variam três, cinco dias no mínimo, até períodos que se podem prolongar por mais de três semanas. Por exemplo, em 2003, na famosa onda que provocou grandes incêndios e uma grande quantidade de mortalidade excessiva em Portugal e em toda a Europa Ocidental, aí estávamos a falar de uma onda de calor da ordem das três, quatro semanas. Portanto, varia e corresponde a estes períodos relativamente contidos no tempo, onde a temperatura média, mas em particular a temperatura máxima, está muito por cima daquilo que é usual para essa zona. Ou seja, uma onda de calor não significa obrigatoriamente que a temperatura tenha que estar acima de 40 graus numa determinada zona. Por exemplo, 40 graus em Sevilha durante uma semana como temperatura máxima, pode não significar uma onda de calor, mas certamente vai significar em Lisboa e vai ser a onda de calor do século se se verificar no Porto uma tal temperatura. O que isso significa? Que estes valores de temperatura muito elevada têm que ser relacionados com aquilo que é típico observar em cada um dos locais que estamos a considerar.
E em Portugal, elas são cada vez mais frequentes, as ondas de calor?
Portugal não foge ao esquema que está subjacente ao clima mediterrâneo de uma forma geral. O que isto significa? Nas últimas décadas, cinco, seis décadas, tem-se verificado um aumento da temperatura média geral de toda a zona do Mediterrâneo e da Europa, mas que no caso da Península Ibérica e em grande parte também da península da Itália e dos Balcãs, esse fenômeno da temperatura média é amplificado no verão por períodos cada vez mais consistentes destas ondas de calor, em função de alguma falta de precipitação. O que isto significa? Quando temos menos precipitação, particularmente durante os meses da primavera, os solos ficam mais secos e quando chegam os períodos de verão, junho, julho, muitas vezes aquilo que seriam temperaturas da ordem dos 37, 38, para falarmos de valores típicos muito quentes para Lisboa, podem atingir valores mais típicos da ordem dos 40, 42 ou, como ocorreu no início de 2018, onde todo o território português teve sob a influência de uma onda de calor, Lisboa bateu o recorde de 150 anos, tendo atingido 44 graus. Se não houver períodos secos, essas temperaturas tendem ficar um pouco mais controladas e não atingirem valores tão extremos.
Há já um padrão, é possível identificar já um padrão, uma periodicidade do aparecimento de ondas de calor em Portugal e também na bacia do Mediterrâneo?
Não. Padrão temporal, eu diria que não. Aquilo que se verifica, e que talvez grande parte dos ouvintes não tenha Percepção de que os fenômenos estão ligados é um padrão espacial em que aquilo que nós vemos constantemente ocorrer em ambientes do tipo mediterrânico, como seja toda a bacia do Mediterrâneo, que lhe dá o nome e esse tipo de clima, mas que também inclui a Califórnia, e é pensar no que se está a verificar atualmente na Califórnia, grande parte do Chile, uma parte da ponta sul da África do Sul e também uma parte da Austrália. Todas estas cinco regiões estão a sofrer este mesmo tipo de situação amplificada pelas alterações climáticas, ou seja, um pouco menos de precipitação. E quando eu digo um pouco menos, pode ser apenas menos 10%, que já é suficiente nestes ambientes, em que toda a chuva cai durante os meses de inverno e primavera, de ficarem substancialmente mais secos no início do verão, e também são caracterizados por verões quentes e sem precipitação. E todos eles têm vindo a sofrer, nas últimas décadas, secas de magnitude e extensão que nunca se tinham verificado em tempo histórico, onde temos aparelhos que medem, e mesmo em alguns sítios destes temos a possibilidade de estender a percepção que temos, principalmente das secas, através dos anéis das árvores. Podemos comparar grande parte das maiores secas com secas dos últimos mil anos e percebemos, por exemplo, na Califórnia ou na Austrália, algumas das secas verificadas na última década foram as maiores à escala do milênio.
Portanto, o que está a dizer é o que acontece no sul da Austrália, no Chile, na Califórnia, na região sul da África do Sul, pode ou está a acontecer também em Portugal, é isso?
Em Portugal e no resto de grande parte da bacia mediterrânica, mas em particular naquilo que nós chamamos a parte ocidental da bacia mediterrânica, é verdade. E isso deve-se ao fato de grande parte dos fenômenos de escala global, que condiciona o clima destas regiões, serem exatamente os mesmos. Não sei qual é o grau de conhecimento dos nossos ouvintes relativamente à circulação global, mas temos aquilo a que chamamos uma célula Hadlay muito intensa, em que o ar sobe na zona do Equador, depois expande-se lá em cima em direção a ambos os polos e por volta dos 25 graus, 30 graus norte e sul, tende a voltar para a superfície e é essa zona que corresponde aos grandes anticiclones nos oceanos e aos grandes desertos sobre os continentes. Essa zona onde o ar tende a descer, a subsidir, como nós dizemos, são zonas muito quentes e secas e com o aquecimento global, têm vindo a tender paulatinamente a migrar um pouco mais pra norte, no hemisfério norte, e um pouco mais pra sul, no hemisfério sul. Na prática, isto significa que aquilo que é o clima típico, digamos, de Casablanca, no norte de Marrocos, passado algumas décadas, passa a ser o clima do Algarve e o do Algarve passa a ser o clima da latitude de Lisboa e também na Califórnia, aquilo que era de Los Angeles, passa mais pra perto de São Francisco e sucessivamente. Portanto, são movimentos de algumas centenas de quilômetros, os investigadores andam a contabilizar utilizando vários processos e modelos, mas estamos a falar de coisas de 100, 200 km. Parece pouco, mas é o suficiente para introduzir um clima muito mais seco a latitudes que não se habituaram a viver sob essas condições mais secas.
Deixa-me só fazer uma pergunta muito rápida, António. Isso é uma realidade que nós já estamos a assistir ou é uma realidade que vamos assistir nos próximos anos?
Não, é uma realidade que já estamos a assistir. Essa pergunta é muito interessante, porque mesmo no mundo das alterações climáticas, eu fiz o meu doutoramento há 25 anos, já na altura, no final do século XX, falava-se tipicamente do fim do século XXI como paradigma das alterações climáticas. E esta coisa de se falar de alterações climáticas nos últimos 30 anos, em que temos modelos que, apesar de serem substancialmente melhores do que aquilo que se verificava nos anos 80 ou 90, apontam essencialmente para o mesmo tipo de cenários de alterações, significa que com o passar das décadas, já temos anos suficientes e acontecimentos suficientes nos últimos 10, 20 anos, para verificarmos se aquilo que era previsto nos anos 80, anos 90, está muito longe de se verificar ou bate na mosca. E basicamente aquilo que se verifica, por exemplo, na Península Ibérica, que eu estudei nos anos 90, é que está a ficar mais seca, como se previa, está a ter uma temperatura média mais elevada e a ocorrência de ondas de calor, por exemplo, que era prevista, está a ocorrer praticamente dentro daquilo que era previsto nos modelos, volto a frisar, menos robustos que nós tínhamos na altura, mas suficientemente robustos para as previsões estarem, no essencial, acertadas.
Portanto, já há 25 anos os cientistas já tinham razão. António, faz a tua pergunta, por favor.
Ricardo, eu tinha aqui uma coisa que gostaria de discutir um bocado consigo, que é: eu trabalho na gestão de propriedades rurais e na agricultura no Alentejo, ou seja, estou muito familiarizado, desde muito novo, com o que é ter ondas de calor e ter muito calor durante o verão. O que eu acho que é a percepção que nós temos no nosso dia a dia, é que, nomeadamente no que diz respeito à chuva, nós com as nossas estações meteorológicas que temos nas propriedades, não vemos que no ano agrícola, que a precipitação tenha diminuído em termos de quantidade. O que vemos é que há uma variação nos dias de precipitação e nas quantidades de precipitação, que passou a ser muito menos dias de chuva e chuvas muito mais intensas. E também eu não vejo no dia a dia que haja, por exemplo, aqui em Évora, que é onde eu trabalho, que os verões sejam mais quentes. O que eu vejo é que nas outras estações do ano, essas sim, é que se tornaram bastante mais amenas e com temperaturas superiores ao que era normal. É isso que os vossos estudos e a sua experiência também dizem ou não? É preciso muito cuidado nesse tipo de análise, e se entrarmos em tecnicismos, as suas estações, que está me falando, quantos anos é que têm de dados? Essa questão é fundamental. Se tiverem 20 ou 30, provavelmente não vem muita coisa, mas se tiverem 70, 100, se calhar.
Não. O que eu digo é que estas estações são estações de análise diária e provisional de uma, duas semanas pra agricultura. Ou seja, vamos recolhendo os dados dos últimos 10, 20 anos, do que é que tem sido a precipitação anual.
Pois, mas é que esse período temporal não lhe permite aferir variações substanciais na quantidade de precipitação. Portanto, não é com base em 10, 15, 20 anos que se consegue perceber alterações climáticas. Alterações climáticas implicam sempre séries temporais muito mais longas do que isso.
Mas, Ricardo, o que nós temos assistido no terreno nos últimos tempos é que as chuvadas são francamente fortes e curtas em termos de dias, ou seja, aquilo que chovia em abril, durante o mês inteiro, chove em três, quatro dias, e daí estarmos sempre a falar muito também da nossa preocupação de favorecer o armazenamento de água, porque a água quando chove, se não fica armazenada, vai-se embora e não temos essa capacidade de uso.
Essa é uma das previsões mais simples de fazer nas alterações climáticas, é que as chuvadas vão ser mais intensas.
E mais concentradas.
E a questão da temperatura, vocês têm essa análise também? Porque eu não vejo, nós não temos, quer dizer, 40, 41, 42 é normalíssimo termos no Alentejo e sempre assim foi. E o que eu acho que começo a ver, eu que estou no dia a dia no campo, começo a ver primaveras mais quentes, outonos mais quentes, e isso é que me parece, a mim, na minha vivência, que tem se notado cada vez mais a questão das alterações climáticas.
Mas pronto, posso lhe garantir que temos as análises feitas pra todas as estações do ano, como naturalmente tinha que ser. É verdade que pode ser que em algumas regiões as estações fora do verão apresentem tendências mais fortes do que o verão propriamente dito. Isso é possível e essas análises estão feitas, mas convém sempre utilizar, e aqui temos muitos dados desde o início dos anos 30 da atual rede e, portanto, podemos utilizar 90 anos de dados facilmente. Não sei se repararam que no fim de julho o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, o IPMA, chamou a atenção que julho de 2020 foi o julho mais quente desde 1931. Portanto, esse tipo de análise em Portugal é muito fácil de fazer, porque há estações constantes, algumas desapareceram, outras apareceram, mas há estações suficientes pra os últimos 90 anos. E, na verdade, o instituto que eu dirijo é uma espécie de IPMA desde metade do século XIX até ligar, em 1930, com os dados do Serviço Meteorológico Nacional da altura. E por quê? Porque este instituto ideal, na verdade, é o Instituto Geofísico Infante Dom Luís, com o nome do infante da altura, foi iniciado a meio do século XIX e tinha por missão coletar todos os dados em Portugal, ilhas e ex-colônias. E, portanto, nós temos anais com dados importantíssimos das ex-colônias e dados também do continente, e estamos a trabalhar para digitalizá-los e poder ver estes fenômenos a uma escala muito mais longa. Isso é importante. Quando nós pensamos em secas, ondas de calor e outros fenômenos, o fazermos a comparação e a análise desses fenômenos à escala de 30, 50, 90 ou 150 anos, tem toda a diferença. O garantirmos, como nós podemos garantir, que as temperaturas verificadas em agosto de 2018, naquela onda de calor fortíssima que afetou todo o território nacional e que chama a atenção que no Alentejo também fez bater uma série de recordes. Portanto, pode ser que verifiquem temperaturas muito elevadas, mas eu garanto que as temperaturas mais elevadas do Alentejo, no verão, foram observadas em 2013 e 2018. Todos os recordes foram batidos. Não é usual observar-se 46 e 46,5 em grande parte do Alentejo. Isso só se verifica nesses últimos anos e parte desse sinal advém já das alterações climáticas.
Nesta altura, os cientistas já podem dizer com segurança o quê em relação à evolução do clima no último século e meio em Portugal?
O clima português acompanha em aspectos gerais da temperatura média o clima global, e depois tem uma série de aspectos que são de caráter regional. E tal como o clima global subiu na temperatura no início do século XIX, depois tem um platô até uma pequena descida e depois uma subida vertiginosa nas últimas cinco décadas, que acompanha todas as estações, talvez mais no inverno e primavera, mas todas elas apresentam valores substancialmente mais elevados no interior do que junto à costa, como é normal acontecer, com a distância aos oceanos, uma diminuição ligeira da precipitação no sul de Portugal e não tão acentuada no norte, de acordo também com aquilo que os modelos de alteração climática preveem, e portanto, estão a bater certo com o que de mais previsível podemos encontrar.
Pois, Ricardo, falando nestas vossas análises a longo termo, que isto pra nós, na agricultura e na floresta, é importantíssimo, nós temos cada vez mais uma adaptação da agricultura e da floresta a novas espécies que se vão adaptando a estas alterações climáticas e estas securas e estas mudanças. Aliás, basta fazer a autoestrada de Lisboa pra o Algarve e chegarmos ali à zona do Ourique
E vermos que o montado que em Ourique antigamente era uma coisa extraordinária, hoje em dia grande parte das árvores de sobro, todos os sobreiros estão secos. Ou seja, nós estamos à data de hoje a adaptar-nos a novas plantas, a novas culturas, a novas árvores que se adaptam. Mas isto é algo que daqui a 20, 30 anos vamos estar a começar novamente do zero, ou isto vai nos dar uma margem confortável para nos irmos adaptando e termos algum sucesso nessa adaptação?
Eu julgo que não se volta ao zero, e o Alentejo é um bom exemplo, porque aquilo que me refere é relativamente a vegetação natural, mas se nós verificarmos o que aconteceu no Alentejo nos últimos 15 anos, são profundas alterações de caráter artificial induzidas pelo acesso à água do esquema de regadio do Alqueva.
Beja deixou de ser a cidade mais quente de Portugal, não é?
E as oliveiras intensivas, o milho e toda uma alteração da paisagem resulta do acesso à água relativamente facilitado. Mas é verdade que se deixarmos evoluir o clima, a zona prioritária de sobreiros e de azinheiras, eu sei porque há colegas meus da Faculdade de Ciências que estudam essa divisória, tende a favorecer julgo que as azinheiras. Apareceriam mais do que propriamente os sobreiros.
Ricardo, vou meter agora a minha colherada. Tinha aqui uma questão, ainda bem que está também a referir a questão da água, que é: como é que as alterações climáticas estão a afetar a disponibilidade de água em Portugal? E não será um contrassenso estarmos a apostar em regadio que utiliza muita água, quando o que eu presumo que seja expectável é que haja uma diminuição da disponibilidade de água. É mesmo assim?
Por um lado, sim, e por outro lado, também não sei muito bem como fugir a essa necessidade de se ir buscar os recursos que se tem. Mas um rio como o Guadiana está emperrado para mais de 100% do caudal médio, porque nós pensamos em Alqueva, mas as pessoas têm que ter a noção que na zona espanhola existe armazenado o equivalente a dois ou três Alquevas nas grandes barragens espanholas, que aliás depois dispersam grande parte da água para as planícies na zona de Mérida, Badajoz, e já o fazem desde os anos 80. E isso é de tal forma assim que o caudal do Guadiana, que variava muitíssimo, passou a variar muito menos, porque estas albufeiras têm uma tal capacidade de encaixe que em anos de grandes cheias acabam por guardar a água para os anos seguintes. E eu por um lado percebo a pergunta, mas também é muito difícil dizer que o Alentejo ia ser todo de agricultura de sequeiro e voltarmos à total dependência da água que cai do céu. Parece-me que há algum balanço entre uma boa capacidade de armazenamento e de controle interanual. Reparem que muitas vezes o ano é seco, mas o volume da água armazenada no Alqueva permite que haja uma certa capacidade de regadio. Agora, se isso corresponde de forma racional a transformar tudo em plantações de milho e de oliveiras de forma intensiva, não sei se é a melhor solução. Espero que não nos venhamos a arrepender, como em zonas do mar do Aral, que desapareceram com o algodão. Ou na Síria, sabem que grande parte do problema da Síria, antes de começar a guerra no Médio Oriente, já houve secas, eu estudei essas secas de 2007, 2008, 2009, antes dos problemas da Primavera Árabe. E a verdade é que todos os países sofreram problemas muito fortes no Iraque, Síria, Jordânia, Turquia, e só na Síria é que por volta de 2010 já havia um milhão e meio de refugiados climáticos ou ambientais, devido ao uso também do algodão e à falta de água disponível, e portanto a péssimas escolhas do tipo de cultura para a região.
Muito bem, estamos a queimar o tempo. A Catarina tem uma última pergunta. Ricardo Trigo, pedia-lhe que fosse mesmo muito sintético na resposta.
Sim, era só para saber se há estudos sobre os impactos econômicos das alterações climáticas em Portugal, por exemplo, em termos dos custos para a saúde, resultantes das ondas de calor, o abastecimento de água, portão de eletricidade, que eu presumo poderá ser mais fácil com a volta da hidrelétrica.
Houve os primeiros grandes estudos do Projeto SIAM no início do século XXI com o professor Filipe Duarte Santos, que foram coordenados na Faculdade de Ciências, e nós estamos agora a iniciar uns projetos muito grandes com a Agência Portuguesa do Ambiente, APA, onde há uma grande componente econômica de avaliação dos impactos. Portanto, eu espero poder te responder de uma maneira mais precisa daqui a alguns meses ou um ano.
Muito bem, não se esqueça de nos enviar um e-mail quando tiver conclusões. Ricardo Trigo, muito obrigado por ter vindo ao programa desta semana.
Obrigado eu.
Som Ambiente regressa na próxima semana. Catarina, António e Sofia, até lá.
Até lá.
Este programa teve o apoio de Renault Eco Plan.
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