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Olá, sejam muito bem-vindos a mais um episódio de "Terapia de Casal". Quem vos fala deste lado, com esta voz amigável e simpática, é Guilherme Fonseca. Eu contraí matrimônio com a mulher que está à minha frente, Rita da Nova, pessoa que anda com alguma dificuldade em encontrar um café onde escrever o seu novo romance.

Olá, tudo bem?

Sempre primeiro cumprimentar as pessoas.

Antes de mais, bom dia a todos os nossos ouvintes.

Todo o nosso auditório.

Todo o auditório. Estamos aqui para mais um programa inacreditável. É verdade, eu já fui partilhando isto em conversas quando vou apresentar livros, sobre o fato de cada livro que eu escrevo ter o seu próprio processo de escrita.

Exatamente.

E o seu próprio, quase que exige uma rotina de escrita própria.

Exatamente.

E eu percebi que este livro em específico, que eu estou a escrever neste momento, quer ser escrito.

Ai, que o livro quer.

O livro quer. Quer ser escrito à tarde e fora de casa.

Ok, o livro pede.

O livro pede, o livro exige.

Ai, o livro pede tarde e pede fora de casa.

Se tu soubesses escrever como deve ser, sentias estas coisas. Como não sabes.

O livro pede.

Como se lê só aquelas cronicazinhas e as coisinhas de humor.

Sabes que há cocós que pedem para serem feitos fora de casa.

Sei bem. Sei bem e eu não me inibo de os fazer todos fora de casa. Podemos não falar de cocó nos primeiros cinco minutos deste episódio?

Olha, tarde demais. Foi há um minuto e quase dois minutos.

E então, tenho tentado ir para cafés.

Sim, senhora. Mas aí é que está a tua luta, não é? Porque tu que és uma mulher bonita e que sempre teve namorados bonitos e que tem um historial, acho eu, romântico indiscutível.

Indiscutível.

Indiscutível.

Eu acho que das melhores a ter historiais românticos.

Sim, o teu historial romântico prova que tu és uma mulher que sabe o que quer e que aproveita o que tem.

Exato.

Agora, eu acho que estás a aprender a lidar com a rejeição com cafés.

E está a ser difícil, não vou mentir. Está a ser muito difícil. Primeiro, já aconteceram vários cenários de rejeição.

Dá-me três.

Que eu vou-te dizer. O primeiro foi: em lado nenhum dizia que era proibido computadores.

E dizem-te que tu não podes ir com o computador.

Eu acabo de comprar, de consumir, porque eu não sou daquelas pessoas que só consomem um cafezinho.

Não, tu vais a um croissant.

Eu vou a um croissant, vou a um matcha.

Tu vais a um suminho. Exatamente.

Eu consumo a sério para poder ficar ali umas horas e se estou muitas horas ali, vou consumindo, porque não me sinto mal. Acabo de pagar, vou para me sentar, retiro a bolsa do computador de dentro da mala e a senhora diz: "Pedimos imensa desculpa, mas nós aqui não podemos aceitar computadores".

E tu já pagaste.

Eu já paguei.

Essa rejeição, eu vou já começar por dizer que é...

Não, e ela ainda me disse outra coisa, que é: "Se quiser, pode ir escrever para a esplanada". Ora, estava um vento e um frio desgraçado, nós sabemos como é que tem estado o tempo, agora está melhor.

Pois claro.

E eu fiquei: "Pronto, não, então vou comer aqui dentro e vou-me embora para outro café".

Claro. Essa foi a primeira rejeição.

Essa foi das primeiras e eu senti, porque depois não é linear. Eu tenho ido para cadeias de cafés que, não estou a falar de Starbucks nem de Padaria Portuguesa, que são os únicos sítios que me aceitam.

Pois, são os únicos sítios que te aceitam, grandes cadeias.

Tenho ido para umas cadeias de cafés mais pequeninas e nalgumas zonas da cidade são na boa com computadores, noutras não são. Eu não sei qual é a regra.

Mas a mesma franchising de cafés mais pequenos?

Exatamente.

Pois, estranhíssimo. Será que tem a ver com a zona de mais turismo, menos turismo?

Não sei. Sei que essa foi a minha primeira rejeição.

Essa rejeição é dura, porque já gastaste dinheiro e és rejeitada a seguir.

Comi um bolinho triste, bebi uma limonada triste e fui triste para uma Padaria Portuguesa.

Muito bem.

Onde me sentei com uma garrafa de água.

Mas na Padaria Portuguesa eles estão-se a cagar.

E até estive ali a mamar da eletricidade deles, que foi mesmo assim.

E bem.

Essa foi a primeira rejeição. A segunda rejeição foi agora esta semana. Eu vi logo que nalgumas mesas tinha o sinalzinho de computador proibido.

Ok, que eu acho justo, se o café não quer, avise. Essa é logo a primeira.

Mas eu sabia que havia mesas que permitiam.

Ok.

Então eu chego e ele vê-me com a mala e diz: "Ah, isso é para trabalhar aqui?" Logo assim.

Vejo para aqui bilharem teclas, é, ó Churchill?

E eu: "Sim, por favor".

Churchill? Não, amigo.

Isto foi na zona de Santos, porque eu ia ver uma apresentação de um livro na Salted Books, então pensei: "Vou escrever para um café lá perto".

Muito bem, vou já para ali.

Pois, eu agora de momento para vir para aqui trabalhar não tenho.

E diz-me bem que estava o café vazio? Eu adoro quando eles dizem essa.

Havia mesas vazias. Aliás, o primeiro café onde me rejeitaram, não me deixaram ir lá para dentro, eu era a única pessoa no café.

Pois.

Pronto. Entretanto, vou ao meu mapa, outros cafés que eu tinha guardado e felizmente encontrei um cafezinho ali em Santos que se chama Ele e Ela e vou fazer a publicidade, que eles foram muito queridos.

Muito bem.

Foi uma menina muito querida que eu cheguei e disse: "Posso fazer-lhe uma pergunta?"

Antes de comprar ou de entrar.

"Vocês aceitam que eu fique aqui a escrever umas horas?" E ela disse: "Claro que sim. Tem consumo obrigatório".

Claro, mas isso também faz todo sentido.

Claro que sim. E tinha de fato lá um coisinha que eu só depois é que vi a dizer, para estar com o computador, consumo obrigatório de € 10.

Justo.

E eu disse: "Muito obrigada". Sentei-me. As pastries eram muito boas. Ela foi muito querida e eu disse: "É que eu não me estou a conseguir concentrar dentro de casa, só consigo escrever fora". E ela disse: "À vontade, sente-se. Eu também sou assim para estudar, percebo perfeitamente". Muito querida. Agora, está difícil de encontrar esses-

Pois o que é que se passará com os cafés portugueses?

Não aprendemos nada que hoje em dia as pessoas podem trabalhar em qualquer lado.

E quem sabe se um dia não é um desses cafés que quer uma estátua de Rita Danova numa mesa com um computador a escrever.

Tipo Fernando Pessoa.

Quem sabe? Ninguém sabe o futuro. Esses cafés não querem ficar imortalizados dessa maneira. Foi aqui que Rita Danova escreveu o seu quarto romance sobre um barco que afunda e no fim só há um espaço para um, numa porta. Estou a estragar um bocado a tua história. Desculpa.

Estás.

Desculpa. Que agora estraguei um bocado a experiência às pessoas que iam ler o livro.

Vai-se chamar "Titanic", as pessoas não sabem, mas é sobre um barco que de facto aconteceu.

Mas é uma história um bocado recôndita, as pessoas também não têm mesmo só não a pena. Depois tu vais explicar. Mas não é um bocado triste isso? Porque é que os cafés têm essa resistência? Eu percebo cafés que são no centro da loucura de movimento e de turismo e não querem pessoas paradas com o computador à tarde toda.

Mas eu também não queria estar num desses.

Claro, mas têm que avisar. E eu não me percebi que em Lisboa havia tanta dificuldade com computadores num café.

A cada café que eu entro, eu levo uma rejeição.

Vou te dizer uma coisa, eu tenho que elogiar as pessoas que nos ouvem agora.

É verdade.

Posso? E que isto nem parece muito meu, mas eu vou fazer isto. Eu perguntei às pessoas onde é que costumavam ter a sua reunião de condomínio e se era na garagem ou não. Primeiro, vais ter que engolir as tuas palavras. A garagem é o sítio mais normal do mundo para fazer.

Achei que não. Calma, Quim Barreiros.

Ponho o carro, tiro o carro, à hora que eu quiser, na reunião de condomínio. Essa é a primeira. Segunda-

Por acaso está aqui uma música que o Quim Barreiros não fez: reunião de condomínio.

No codomínio. Eu domino o codomínio na garagem. Está aqui uma cena.

Quim Barreiros, estás a dormir na curva.

Segundo: hall de entrada do prédio. As pessoas responderam muito hall de entrada do prédio, que é muito engraçado para fazer shaming às pessoas que chegam do trabalho e que estão a sair para ir jantar e não foram à reunião de condomínio. Portanto, as pessoas responderam aí muito bem. Queria agradecer a todas as pessoas que me deram razão a mim, que dizem que é normal na garagem.

Tiveste razão, muitos parabéns.

Fora de Lisboa, tu não tens tanto este problema, nem no Porto, nem noutras cidades. Já foste para Aveiro, já foste para Coimbra, já foste para Guimarães, Braga.

Permitiram-me sempre.

Os cafés estão sempre abertos a tu te sentes com o teu computador para trabalhar. Lisboa tem um problema.

Repara, eu pergunto sempre: importa-se que eu me sente aqui um bocadinho a escrever? Não há aquela lógica de vou ficar aqui.

Vou enganar estas pessoas.

Não.

Como é que se chama aquele café em Braga onde eu fiquei a trabalhar e tu foste ter um café com as tuas amigas?

Não é um café, é uma livraria, que é a Centésima Página, que tem café.

Pronto, exato.

Aí também já me deixaram.

Este tipo de sítios. O que eu ia dizer? Pessoas de Lisboa que tenham cafés ou conheçam cafés, por favor, escrevam aqui nos comentários deste episódio.

Por onde é que eu posso ir trabalhar?

Por onde é que a Rita pode ir fazer a sua pesquisa sobre este barco que afundou. Porque é muito engraçada esta história, porque saiu da Europa e ia para a América.

É. E a história de amor que havia ali, que as pessoas também não conhecem. Também é uma história de classes, na verdade, não é só uma história de amor.

Sim, porque ele era pobre e ela era rica. Essa história é muito bonita.

E ele tinha muito jeito para o desenho, até uma altura em que ela diz assim: "Pinta-me como uma das tuas meninas francesas".

Pois é, isso é muito engraçado.

É uma história mesmo muito bonita. Havia um colar também. Já estou a revelar muito.

Não e a ideia que tu tiveste de começar a história atualmente com a senhora mais velhota.

Sim, já velha. Ela até diz no início: "It's been 84 years". Ela diz em inglês, que ela é espanhola e fala inglês, mas eu vou pôr em português.

Atenção, tenho pena das pessoas não conhecerem mais esta história e acho que é uma história muito gira para o teu livro.

Vai ser maravilhoso. Acho que as pessoas vão ficar um bocado chateadas comigo no fim, vão dizer: "Se calhar havia espaço na porta para os dois".

Não estragues. As pessoas logo veem essa coisa da porta.

Mas isto faz eu o quê? Esta semana vou para uma biblioteca, porque as bibliotecas aceitam-me.

E tem café e tem pastries.

Não, não tenho que pagar nada.

Mas como é que papas? Também precisas de um açúcarzinho para pôr a cabeça a funcionar.

Mas olha, pronto, as bibliotecas aceitam, mas eu gosto muito de trabalhar em cafés, porque é mais movimentado. Ou seja, eu não gosto tanto do silêncio, prefiro que haja confusão à minha volta.

Eu não me importo que haja confusão à minha volta. Eu consigo concentrar-me num sítio com muita gente à minha volta, desde que eu não esteja a ouvir o barulho. Eu tenho que pôr ou os loop ou pôr música nos fones. Eu não consigo estar a ouvir .

Ajudas é muito "Max and Noise", é o que eu vou dizer aqui. Quem conhece " Dropout" sabe.

Isso são os barulhos do café.

Mas eu não me importo e até prefiro, porque isso ajuda-me a entrar num flow criativo.

Exatamente. Queria só dizer isto e entretanto estamos aqui há 10 minutos a falar da tua dificuldade em ir para cafés escrever.

Sim, é um problema de primeiro mundo.

Não, sem dúvida nenhuma, mas é um problema que tu estás a ultrapassar e passa-se qualquer coisa em Lisboa.

É a merda do Moedas. É a merda do Moedas, que também é sempre o problema. Não tem ali, ele estava a fazer destas.

Tu disseste Moedas.

Moedas.

Tu disseste Moedas, Carlos Moedas.

Grande nome, Carlos Moedas. Estás a rir, mas agora já vais chorar com o tema que eu tenho a seguir.

Trouxeste merdinhas. Por falar em chorar, eu tenho esse tema também.

Também tenho um problema aqui para nós conversarmos.

Então, bora.

Eu vou ter de pôr o dedo na ferida, Guilherme. Portanto, vais ter de ser forte.

Enfia.

Eu vou dar-te a mão enquanto te digo isto. Dá cá a mãozinha, estou a dar a mão.

Estou a ouvir.

Tu esta semana falhaste-me.

Então.

Pronto. Então, a tua mãe fez anos esta semana.

Pois fez.

E o Guilherme, como bom filho que é, marcou um restaurante.

Eu já sei para onde é que tu vais. Tens toda a razão. Rita Danova, o que queres que eu te diga?

Eu quero conversar sobre perceção de tempo, é só isso.

Ok.

Quero que exploremos isto. Isto ainda é terapia de casal

Exatamente, estamos aqui a fazer terapia.

Nós estamos aqui a fazer terapia.

E eu acredito que seja um problema que outros casais também atravessam.

Pronto.

E eu acho que isso é importante nós estarmos aqui.

Casais ou até relações de amizade.

Exatamente. Ou familiar, no meu caso também é familiar.

Pronto. Eu acho que vem da tua família.

Exatamente.

Então, a mãe do Guilherme fez anos esta semana, muitos parabéns.

Um grande beijinho para a Maria Helena Evangelista.

Fomos almoçar uma cabidela aqui ao pé de nossa casa.

Exatamente.

É um restaurante que é a sete minutos a pé de nossa casa.

Exatamente.

Fomos todos, o Guilherme marcou o restaurante para a 13:00 e começa mal aqui, porque o Guilherme marcou o restaurante para a 13:00 sabendo que tinha, nessa manhã, uma gravação de uma coisa.

Exatamente, fui gravar um podcast.

Longe de Lisboa.

Sim, um bocadinho.

Relativamente longe.

Quase 40 minutos.

Pronto. Começa mal aqui. Começa logo mal na hora.

À velocidade que eu vim, meia hora de Lisboa.

Começa logo na hora. Pronto. Entretanto, toda a gente se atrasou. E como íamos almoçar cabidela, era preciso avisar o senhor.

Quando chegássemos ao restaurante, dizer: "Olhe, pode fazer".

Pode fazer, porque demora meia hora a ser feito.

Exatamente.

Então era preciso que alguém estivesse no restaurante, não só para garantir a mesa, como para quando fosse a meia hora de toda a gente chegar, dizer: "Pode, sim, senhor, começar a fazer a cabidela".

Vai, mata aí essa galinha.

Quem é que esteve no restaurante desde a 13:00, que foi a hora marcada?

Até 13h40.

Até 13h40. Rita da Nova.

Pois foi.

Rita da Nova, que antes de sair de casa pegou num livro porque já sabia que ia esperar.

Pois claro, e bem.

Agora, não sou eu que tenho de me precaver com um livro para estar à espera 40 minutos por alguém.

Pela minha família, na verdade, porque tu estiveste à espera de toda a gente. Eu cheguei atrasado. Avisei atempadamente que iria chegar atrasado.

Não avisaste atempadamente. Avisaste era 13:00, Guilherme.

Não, mas já tinha avisado que tinha uma gravação antes.

Sim, mas uma coisa é avisar se tens uma gravação antes, outra é dizeres provavelmente vou chegar atrasado, que não foi isso que tu disseste.

Não, eu quando falei da gravação eu disse logo.

Guilherme, não disseste. E eu até vou dizer aqui a hora a que tu disseste "estou a ir, estou atrasado".

A que horas é que foi? Vocês não estão a ver, mas a Rita está com o dedinho, com o indicador a apontar para o ar, como quem está a dar um ralhete.

Guilherme, à 13h15 diz, 13h14: "Acabei agora, estou a ir, chego em 28 minutos".

Exatamente. E cheguei em 28 minutos.

E a tua irmã diz a essa hora também, ou cinco minutos depois, chego em 13.

E a Ana Eva, o que é que disse?

Disse só que estava atrasada.

Pois. Tu foste a única pessoa que chegou a horas ao almoço de anos da tua sogra.

Exatamente. E por minha causa, vocês comeram a cabidela a horas.

Pois foi.

Porque o que eu devia ter feito, e é o que eu farei numa próxima, primeiro é não vou.

Também há essa.

Fico com a mão para lá. Quando toda a gente estiver, eu chego. E depois é, vou, isso sim, esperar que toda a gente chegue e digo: "Pode começar a fazer a cabidela". E vocês esperam meia hora.

Como tu esperaste também. E bem, acho que tens toda a razão.

Por que eu trago este tema? Não quero ter razão, estou farta de ter razão.

Claro.

Eu quero mudança.

São muitas horas a ter razão.

Eu quero mudança.

Claro.

Eu sei que para ti é uma coisa nova, as pessoas deram-te razão com a questão da garagem e é um gostinho que ao início, pronto. Mas depois ter razão é um fardo que uma pessoa carrega, percebes? Pronto, que é, eu quero falar sobre percepção de tempo, porque é uma coisa que eu acho que tem muito impacto na nossa relação.

Ok.

Que é, já falámos aqui, mas eu queria explorar mais. Nós dizemos, é para estarmos lá à 13:00. E na tua cabeça, à 13:00 é a hora que tu estás a sair de casa. E eu gostava de saber por que isto acontece.

Então, eu acho que há um grau de injustiça no que tu estás a dizer.

Morzinho.

Eu estou bastante melhor dos meus atrasos. Eu tenho chegado a tempo praticamente a tudo. Até conversei com a minha terapeuta sobre isso e foi uma coisa que eu estou a trabalhar com ela. É verdade, sem dúvida nenhuma, que eu me continuo a atrasar para algumas coisas e que é uma coisa que me deixa tão desconfortável a mim como deixa as pessoas que estão à minha espera.

Certamente não deixa tão desconfortável a pessoa que esteve 40 minutos sentada.

Isso é um caso específico, também não vale a pena estarmos aqui a pessoalizar numa história, estou a falar no geral, é uma questão de comportamento, não é uma questão de exemplos práticos, um exemplo A ou B. Mas às vezes, de facto, o atraso não tem a ver comigo, mas maior parte das vezes eu tenho mesmo um engano de tempo.

Não calculas bem o tempo.

Calculo mal. Há coisas que, e maior parte delas dentro de casa, gestão aqui de casa, que é do género: "Tenho que lá estar às 11. Ok, então se calhar vou tomar banho às 10h30". E nunca é às 10h30, porque entretanto um gato vomitou, vou apanhar um cocó, vou buscar a toalha.

Mas tomar banho às 10h30 para estar num sítio às 11.

Pois, exato. Já está errado.

Já está errado de início.

Pois, tens toda a razão.

Já está errado de início.

Tens toda a razão. Eu acho que é tudo mais perto. Acho que é tudo mais fácil de chegar e de ir.

E se eu soubesse que tinhas uma gravação naquele dia de manhã, que podia atrasar, que podia não sei o quê, por que não marcar um almoço para mais tarde?

Pois, eu percebo.

Vocês não têm noção, muitas vezes, já estou eu à porta de casa a dizer: "Já estou despachada".

Pois. Eu sei que tu não queres ter razão, mas tens.

É que muitas vezes chegamos atrasados e eu que estou pronta e calculei bem.

Mas também não atrasamos por tua causa. Não estejas a ser assim, como se todos os atrasos fossem culpa minha.

Certo, mas a maioria dos teus atrasos são porque tu calculaste mal o tempo, não é porque aconteceu qualquer coisa.

Sem dúvida nenhuma, 90% dos meus atrasos são porque eu calculei mal o tempo. Eu acho que meia hora dá para mais do que dá

Mas então que já tiveste tantas experiências que não dá.

Mas por isso é que eu estou a melhorar. Eu estou a chegar menos vezes atrasado às coisas. Estou melhor.

Mais ou menos.

Estou melhor. Imensas vezes na noite de stand up eu sou o primeiro a chegar. Eu estou a começar a levar a sério, por exemplo, marcações em restaurantes. Eu sei que depois do que tu contaste, isto parece otaku o que eu estou a dizer. Mas marcações em restaurantes, eu sinto-me mal de as pessoas estarem à espera da mesa ou de não estar já tudo na mesa, etc. Eu sinto-me mal. E então marcações em restaurantes e espetáculos, por exemplo, sabes que eu sou paranoico de chegar a horas. Esse tipo de coisas, eu faço um esforço e eu tenho que fazer para o resto também. As pessoas não têm a obrigação de estar à minha espera, como eu não deixo marcações de mesas e espetáculos à espera.

O que eu sinto muitas vezes, enquanto pessoa que chega cedo às coisas e que muitas vezes espera pelas outras pessoas, é que há um pôr e dispor do meu tempo, dos outros em relação ao meu tempo.

Tens toda a razão.

Porque muitas vezes até é preferível tu, se percebes que vais estar atrasado, e às vezes percebes que vais estar atrasado 40 minutos antes do momento, porque estás a levantar do sofá e ainda vais ter de ir tomar banho e ainda vais ter de pegar no carro e ainda são 25 minutos até lá, portanto, isto já está tudo errado.

Ya.

É mandar uma mensagem. "Olha, acho que vou chegar um bocado atrasado".

Mas eu aviso sempre.

Mas avisas à 12h45.

Porque estava numa gravação com o telefone em modo voo. Das outras vezes todas eu aviso.

Avisas à hora. Avisas à hora que era suposto.

E esse caso, estás a fazer-me ir buscar um exemplo específico em que eu estava com o telefone em modo voo e quando acabou a gravação, assim que desbloqueei o telefone, mandei uma mensagem.

Mas muitas vezes acontece isto, que é à hora que vai chegar atrasado, à hora que estava combinado, é que tu dizes que vais chegar atrasado.

Não, eu aviso.

Mas avisas muito perto. É o que eu estou a dizer, avisas muito perto da hora e a pessoa já lá está.

Pois, ok. Está bem, mas aviso. Eu aviso antes, se vou chegar atrasado.

Avisas um minuto antes de ser a hora.

Não, não aviso.

"Olha, desculpa, vou chegar um bocado atrasado".

Não, não é um minuto.

Guilherme.

É 10.

É 10. E a pessoa já lá está.

"Olha, vou chegar um bocado atrasado. Olha, só para avisar".

Eu gostava que tu trabalhasses isto.

E vou trabalhar. E estou a trabalhar. É uma coisa que eu já falei com a minha terapeuta, uma vez que ia atrasado à terapia e ela não ficou muito contente.

Pois. Por quê? Porque achou que 10 minutos dava para tomar banho e ir até ao consultório.

Sabes qual é o problema da terapia?

É perto de casa.

É muito perto de casa. Eu estou lá em quatro minutos de carro. E esse é um grande problema, porque eu conto com esses quatro minutos e às vezes chego lá e não tenho aquele lugarzinho que costumo ter à porta e já não são quatro, são 10.

Pois.

E depois já me estragam completamente tudo.

Pois.

E as pessoas não têm obrigação nenhuma de estar à minha espera e eu sinto-me mal das pessoas estarem à minha espera.

Pronto.

Eu não sou o centro do universo e as pessoas não têm que revirar o seu dia para estar à espera de um dock de Guilherme Fonseca. E eu peço desculpa por isso.

Pronto, estás desculpado. Estás desculpado, mas para a próxima faz melhor.

Sim, senhora.

Muito bem.

Tenho mais um tema antes de irmos em emails.

Ok.

Que é o "Hamnet" estragou-me.

Pois.

O "Hamnet", o filme, porque entretanto nós já falámos dos filmes todos dos Oscars. Os Oscars foram ontem. Em princípio, as pessoas estão a ouvir isto e a Jessie Buckley já ganhou o Oscar de melhor atriz.

Pois, nós não sabemos, estamos a gravar domingo de manhã.

Estamos a gravar domingo, portanto, é logo à noite os Oscars, vocês é que já sabem os resultados. Vou te dizer que se a Jessie Buckley não ganhou o Oscar, eu acho que vou a Hollywood pegar fogo lá ao sitiozinho onde aquilo é, que eu já não me lembro do nome, do sítio onde são os Oscars.

Dolby Theatre.

Dolby Theatre, exatamente. Eu vou lá pegar fogo àquilo, com o Conan lá dentro e tudo, não me quer saber. Porque acho inacreditável, o "Hamnet" estragou-me, porque tu não estavas cá num dia da semana e eu aproveitei e disse: "A Rita já viu o filme, eu vou ver o filme aqui em casa". Sim, é verdade. Fiz piratarias.

Piratarias?

Fiz piratarias porque era o último filme que me faltava dos Oscars e eu peço desculpa, mas eu tinha que ver e não tinha possibilidade de ir ao cinema e peço desculpa. Pronto. Também, dos 10, eu paguei para ir ver sete ao cinema, portanto também não me lixem. E então, eu chorei com o filme, como eu não chorava há anos. Há anos que eu não chorava daquela maneira, eu soluçava de uma maneira. E fiz uma coisa que eu não te contei para te contar aqui.

Ok.

Que foi: eu vi o "Hamnet", que obviamente é um filme feito para chorar, sem dúvida nenhuma, é um filme feito para chorar. Aquilo é um drama e o objetivo é pôr o dedo mesmo ali, que regorte naquele botão para te fazer chorar. Chorei. E depois tive um jantar. Saí de casa à tarde.

Chegaste a horas?

Cheguei a horas a esse jantar.

Ok. Põe-te a sós comigo, então.

Sabes por que eu cheguei a horas a esse jantar? Por acaso, agora, já que estamos a falar disto, porque eu ia a um aniversário antes, do nosso produtor Nuno Pires. E quando eu vou sair de casa para ir ao aniversário do Nuno Pires, o Nuno Pires diz: "Olha, eu tive que vir a casa, eu não estou lá, no meu aniversário". Eu disse: "Olha, então já não faz sentido ir, porque eu depois tenho um jantar a seguir". E, portanto, cheguei a horas ao jantar, porque o que eu tinha antes não aconteceu.

Estão a ver isto. Olha, até um relógio estragado está certo duas vezes por dia, portanto.

Mas o que eu ia dizer? Tive um jantar. Quando cheguei a casa depois do jantar, eu pensei: "Ainda me apetece chorar mais um bocadinho com o filme". E então fui pôr a banda sonora do filme e chorei mais um bocadinho com o filme.

Guilherme, tu estás a ficar eu. Tu estás a ficar eu.

Mas não é giro isto? Porque nunca me tinha acontecido. Eu pensei assim: "Pai, gostei muito do filme".

Mas chorei tudo o que tinha a chorar.

Eu ainda tinha aqui um bocadinho de choro com este filme. E então fui pôr a banda sonora, pus os fones.

E choraste um bocadinho.

E chorei mais um bocadinho aqui em casa, com os gatos a olhar para mim com cara de parvo.

Mas choraste onde na casa?

Chorei aqui.

Descreve. Puseste os fones e foste sentar ou foste andar pela casa?

Fui pesquisar a banda sonora do "Hamnet", fui buscar a música específica que eu queria, que até é uma música que já foi usada em vários filmes, mas é a música da parte final toda do teatro, vou dizer assim para não estragar o filme a quem não viu o "Hamnet". E pus essa música E fiquei com os fones a chorar mais um bocadinho.

Mas onde? Sentaste? Ficaste em pé?

Aqui nesta cadeirinha. E depois os gatos andavam de um lado para o outro e queriam chatear, então brinquei um bocado com os gatos, a chorar, mas ainda tinha aqui meia horinha de choro.

Olha.

E depois fui dormir.

E soube bem?

Soube-me bem, não te vou mentir.

Dormiste bem nessa noite?

Dormi, sim senhora. Acordei com os olhos um bocado inchados no dia a seguir. Mas, miga, soube-me tão bem.

É porque não estás habituado.

Pois é. Mas eu sabia que tu ias adorar isto.

Adorei saber. Já te redime isto para mim dos atrasos, de repente. Todo um encanto novo na nossa relação.

Ya. Nunca me tinha acontecido sentir. Ainda tinha aqui um bocadinho.

Olha que bom.

Eu não chorei tudo com o filme. Sabes quando fazes cocó e pensas: "Eu não fiz o cocó todo. Ainda tinha aqui mais um bocado de cocó e depois vou ter que fazer isso mais à frente". Eu ainda tinha um bocadinho de choro e chorei mais um bocado.

Fizeste muito bem.

Olha, achei que ias gostar de saber essa.

Gostei muito. Vamos a e-mails?

Vamos a e-mails.

Podemos ler o e-mail que recebemos do João Baião.

Pois é, nós temos o e-mail do João Baião, atenção. Deixa-me ver, aqui está. Vamos embora.

"Olá, Gui e Rita. Já sou ouvinte assíduo do podcast e durante o fim de semana andei a ouvir alguns episódios antigos e ouvi um que rondava este tema do crossdressing."

Exatamente, já falámos deste tema.

"E que estava relacionado com lingerie."

Exatamente.

"Então aqui vai o meu problema: sou rapaz e desde 2019 que me descobri crossdresser e comecei a explorar mais roupas femininas, sapatos e também mais algumas coisas relacionadas com o universo feminino. Inclusive criei um Insta à parte para ir publicando algumas fotos minhas."

Ok.

"Ainda moro com os meus pais, por isso muitas roupas que tenho têm de estar escondidas e não costumo usar roupa feminina na rua, apenas quando posso em privado. Acontece que tenho estado solteiro grande parte deste tempo, o que me permitia usar algumas viagens para ter liberdade no uso de roupas, especialmente a nível de pijamas, lingerie e isso."

Sim, senhora.

"Eu comecei a namorar o ano passado."

Ok.

"E tenho estado com um grande conflito interno. Como contar à namorada este meu lado e este meu segredo? Confesso que tenho muito receio da forma como ela pode receber esta informação e de todos os preconceitos e críticas que daí podem vir e no pior dos cenários, ela querer terminar o namoro."

Sim, senhora.

"Por isso preciso da vossa ajuda na forma como poderia abordar o tema ou se ainda é muito cedo ou para não o abordar. Embora esteja com muito medo da reação dela, eu não estou confortável em ter de lhe esconder este meu lado. É só do que não estou a ser 100% autêntico com ela. Um beijinho muito grande."

Essa frase falta aí qualquer coisa.

Falta, mas nós percebemos. "Um beijinho muito grande, João Baião."

Por quê? Porque o João Baião está sempre vestido de mulher.

Exatamente. E depois mandou-nos uma foto da gata dele. Que não está vestida de mulher.

Pois não, está despida.

Está despida.

Está despida de gata. Eu tenho aqui algumas coisas para dizer, sendo que há um handicap muito grande da minha parte para responder a este e-mail, que é: eu nunca passei por esta situação, eu não faço ideia como é que se comunica isto, nem como é que se fala. Nem tu, o quê? Tu vestes-te de mulher todos os dias. Se há alguém aqui que está habilitada para responder a este e-mail.

Não, nem eu tive esse segredo e precisei de o contar.

Tu nunca me contaste que te vestes de mulher?

É verdade.

Por que nunca me contaste isso?

É verdade.

Sendo que roupas são roupas.

É isso.

Mas eu não vou entrar por aí. O que eu queria dizer: eu nunca passei por isto, mas há uma coisa com a qual eu me consigo relacionar e que se o João Baião mandou este e-mail para nós, eu sinto que ele também quer ouvir a nossa opinião e o nosso lado, sem termos passado por estas coisas. Por muito desconforto que haja em contares à tua namorada que tens esse gosto, que neste caso é crossdressing o nome, tens este gosto por usar roupa feminina, nada é pior do que andares, imagina, anos a esconder que tens este segredo. Ou seja, às vezes mais vale tirar o penso e assumir quanto mais cedo possível à pessoa com quem estás que tens isto, do que o desconforto, a pressão e a assombração que é estares constantemente com essa merda às costas de: "Ela não pode descobrir, e se ela descobre?" Porque repara, pode acontecer ela descobrir uma peça feminina, pode parecer uma traição, não vai perceber que tem a ver com a maneira como tu gostas de experimentar essa roupa. Mais vale seres rejeitado por uma coisa que é tua genuína e que tu abriste o coração e disseste, do que viveres numa mentira. É a minha opinião.

E do que estás a fazê-la acreditar noutras coisas que não são verdade.

Exatamente. Porque maior parte das vezes, no início das relações, uma pessoa sonega ou mente algumas informações.

Adoro a expressão sonegar.

Muito obrigado, sabes que eu tenho ido para cafés escrever e esta é o tipo de linguagem que eu uso. Mas ao início uma pessoa diz: "Não, eu adoro sushi", porque estás em dates e que a outra pessoa gosta de sushi, depois tu não gostas assim tanto de sushi ou uma banda. Eu tipo: "Eu não gosto de Florence + the Machine" e indo eu para casa a correr ouvir Florence + the Machine porque a Rita gostava, para saber o que era.

E aconteceu?

Mais ou menos. Aconteceu uma ou duas.

11 anos ou 12 anos depois. Não, 11 anos, não, porque nós só nos conhecemos há 11.

Estou a exagerar. Mas isso é o tipo de coisa que acontece. Tu tens a versão em esteroides disto, que é: tens uma coisa que não queres esconder, mas também não queres mentir, mais vale assumires logo o que é que és, como é que és, o que é que gostas. E se esta pessoa gostar genuinamente de ti, tem que gostar por inteiro.

Sim, vai compreender.

Tem que gostar do João Baião todo. Não é gostar só do João Baião que não se veste de mulher, porque gosta das roupas ou de se ver com as roupas, etc. E portanto, eu não tenho maneira de me pôr nos teus sapatos, até porque vão ser desconfortáveis, porque são saltos altos e vai-me doer os pés.

Quem sabe, se calhar não. Se calhar descobrias se te pusesses nos sapatos dele.

Pois, se calhar também gostava. Sei lá, não sei. Mas eu nem em roupas masculinas me sinto confortável.

Uma vez tentei fazer te eyeliner e tu ficaste...

É muito desconfortável merdas na cara. Eu no CC era maquilhado com o mais básico dos básicos Era só pôr um pózinho, tirar não sei o quê, ficar um pouco homogéneo na cara, etc. E já era desconfortável. Eu odeio maquiagem, porque depois sente a cara com betume e quer tirar aquilo quando acaba o programa. É muito desconfortável, eu não gosto. E aquela coisa dos lábios, para ficar com os lábios hidratados, que sabia sempre àquela merda que põem na boca, o flúor do dentista. Eu odiava. As senhoras de si que já sabiam, que eu: "Não, isso nos lábios eu não quero, obrigado". Mas isto não é sobre mim, isto é sobre o João Baião. E o que eu disse é o que eu tenho para dizer ao João Baião.

Eu concordo 100% contigo. Acho que há um problema com os segredos, que é quanto mais tempo eles estão escondidos, pior parecem.

Vão ficar cada vez maiores, a pressão é cada vez maior e pior. Quanto mais tarde contas, pior vai ser contar e ouvir, porque imagina que estás casado durante 20 anos e ao fim de 20 anos é que contas ou porque ela descobre. É muito pior do que agora, que descobriste uma pessoa que te ama e que gosta de ti, tu poderes ser rejeitado por causa disso, porque ao menos estás a ser rejeitado quando ainda não há expectativas, não há história, estás a conhecer a pessoa e eu sei que custa, mas será assim uma rejeição tão grande tu perceberes que aquela pessoa não gosta de ti por aquilo que tu és? Porque tu também és o João Baião que gosta de se vestir de mulher. Portanto, mais vale tu começares uma relação mostrando-te por inteiro do que ir-te mostrando aos bocados. É o que eu acho.

Aplaudo esta resposta e podemos passar para a próxima.

Vamos embora.

Tudo corre bem para o João Baião.

Vai correr bem, de certeza. Se não for com esta pessoa, há de ser com outra que goste dele por aquilo que ele é, que é uma pessoa que tem a cueca enfiada no rabo.

Ou não.

Porque as cuecas de lingerie enfiam-se no rabo.

Primeiro, lingerie é roupa interior.

Pronto, eu não sei.

Cuecas de lingerie.

Então, mas não são as cuecas de lingerie.

É quando estás a dizer subir para cima. É um pleonasmo.

Já percebi. A lingerie mete-se no rabo. Vamos ao parecer técnico de quem? Uma Turman, porque ela quer vingar-se. Então aqui vamos ao nosso segundo e último e-mail desta semana. "Olá, olá. Mesmo que faça asneiras, desta vez quero que seja uma asneira com aval técnico. Caros terapeutas", atenção, excelente início de e-mail. "Caros terapeutas, autorizam a que desta vez seja eu a irritar o meu ex-namorado? Já éramos amigos antes de nos relacionarmos. Estivemos um ano e alguns meses juntos e terminámos há uns tempos, porque houve demasiadas interferências exteriores à nossa relação. Família, amigos dele e contextos da vida. O fim da relação foi bastante doloroso para ambos, bem mais para mim, porque ainda estou a ser acompanhada por uma psicóloga a sério. Não que vocês não sejam..." Psicólogos a sérios. Já percebi. É que eu vi aqui o e-mail, não estava a perceber. "Não que vocês não sejam, mas vocês percebem". Não somos, mas tudo bem. Obrigado pelo teu elogio. "O por maior, que é um pormenor de grande importância, é que há situações que nos obrigam a estar no mesmo lugar ao mesmo tempo. Então, nesta nova fase, em que temos de lidar os dois, é ver quem faz asneiras primeiro para o outro poder gozar com a situação". Eu tenho uma opinião sobre isto, mas ele vai dizer. "Felizmente, estou bastante melhor e estou a lidar perfeitamente bem com tudo. É nisto que recordo a pergunta: caros terapeutas, autorizam a que desta vez seja eu a irritar o meu ex-namorado? Nada de muito dramático, só enviar-lhe os 300 reels de uma passivo-agressividade simpática, como por exemplo, um reel a dizer que um homem que magoa todas as mulheres na vida dele é porque a sua verdadeira alma gémea é outro homem. Não quero voltar a falar com ele, só quero irritá-lo. Ficarei de segunda-feira à segunda-feira à espera do vosso parecer técnico. Um abracinho para cada".

Ela ainda gosta dele.

Ela ainda gosta dele.

Ela ainda gosta dele.

Ela ainda gosta dele. Ela ainda gosta dele. Ela ainda gosta dele.

Mandaram chamar o terapeuta de casal para vir dar um parecer técnico. Mandaram vir dar um parecer técnico. Terapeuta de casal disse que ela gosta dele. Ela disse que não gosta dele.

Mandaram vir. Não tenho a graça para dizer. O terapeuta de casal para dar o parecer técnico. Ok, gostaram? Momento musical. Eu acho que ainda há aqui sentimentos.

Claro que há.

Sabes por quê? A razão para mim é estupidamente óbvia. Porque não foram eles a decidir acabar a relação, foram fatores externos. Portanto, de uma certa maneira, ainda parece que há uma esperança se forem eles a controlar a sua própria história.

Como se vem sempre. Eu não quereria irritar um ex-namorado com quem estivesse resolvida.

Rita de Nova. Às vezes é esse tipo de frases que tu queres escrever nos cafés e não te deixam?

É.

Ok.

Eu gosto muito quando tu pões o teu… eu vou tirar uma foto para divulgar este episódio, não mexe. Eu gosto muito quando tu pões o capuz e ficas onde estava, com o penachinho. Deixa-me mostrar às pessoas.

Queria só dizer, estou a ser fotografado neste momento para divulgar o episódio. Portanto, quando forem às stories, é neste momento que eu estou a ser fotografado.

Olha lá, parece o Chicken Little.

É porque ainda não tomei banho.

Estás ótimo, ninguém sabe. Ninguém saberia se não dissesses.

Com este aspeto, as pessoas vão perceber ou este é o aspeto que eu costumo ter. Então não quero saber a resposta. O que eu ia dizer? Claramente ainda há aqui sentimentos, porque eles têm uma dinamicazinha de como é que eu vou irritar o outro.

Exatamente.

Isto é flirt, meus amigos. Esta merda de eu vou te irritar é a minha relação com a Rita há 11 anos.

Isto é flirt, malta.

Tu tens sentimentos. Desculpa lá, mas a tua psicóloga não está a fazer assim um trabalho tão bom se o teu objetivo, perdão, errei na boca, era esquecê-lo, porque tu claramente ainda tens sentimentos. Vocês terem que estar no mesmo espaço.

Não ajuda.

Não ajuda de todo. E pior, como a vossa relação terminou por fatores externos e não por controlo vosso, o que é que acontece? Acontece que vocês ainda têm um "e se". Se nós conseguíssemos, e se não fosse a família, o trabalho e não sei o que é que ela disse ali, que eu já não me lembro das enumerações de fatores externos. E portanto, eu acho que vocês têm sentimentos um pelo outro.

Ou pelo menos ela por ele.

Ou ela por ele. E portanto, eu acho que sim, que deves enviar reels a irritar. Por quê? Porque isso é flirt e tu ainda queres estar com ele, queres mamar-lhe da boca.

E mamar da boca.

Irrita o máximo que conseguires, porque isso dá até um quentinho. Onde? Não vou dizer.

Pronto. E é com esta que nos despedimos. O nosso e-mail é terapiadecasalpodcast@gmail.com, é para onde vocês podem enviar os vossos e-mails com estas questões, como enviou o João Baião e como enviou uma turman. Esta semana fomos muito internacionais, tivemos celebridades de todo o mundo a mandar, desde Portugal até lá fora, a mandar e-mails. Para a semana cá estaremos à hora certa, Guilherme.

Sempre à hora certa. Por quê? Porque se agenda o episódio.

Exatamente, fica logo agendado. Gostaria de poder agendar-te também.

A mim? Para eu estar à hora certa? Impossível.

Fica aqui o meu desejo.

Até para a semana.

Até para a semana.