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Então à nossa. Muito obrigada por ter vindo. Por que que trouxe este vinho, a Torre de 2019?

Eu trouxe este vinho, que é da nossa Quinta da Torre, em Monção, da Casto Alvarinho 2019, porque é o nosso último lançamento, é o nosso vinho topo de gama. Nós concebemos que este vinho só seria lançado alguns anos e teria que ter, no mínimo, cinco anos de estágio em garrafa. Ele fermenta em madeira usada, fica nove meses, depois é engarrafado. Na verdade, este vinho de 2019 foi engarrafado em junho de 2020 e só foi lançado em junho de 2025, ao fim de cinco anos.

Bem-vindos ao Tinto no Branco, um podcast observador. Todas as semanas brindamos com um convidado diferente, sempre uma história de vida, uma vida com história. E ainda, algumas dicas úteis para a hora de abrir uma garrafa. O mundo do vinho português, Tinto no Branco. Eu sou a Ana Sofia Fonseca e comigo está Anselmo Mendes. No mundo dos vinhos, o seu nome dispensa apresentações. Aos 62 anos, é um dos enólogos mais reconhecidos da sua geração e um dos que mais lutou pelo sucesso dos vinhos verdes. Conosco, o senhor Alvarinho. Anselmo, gosta de ser conhecido como senhor Alvarinho?

Sinto-me lisonjeado pelo facto de me chamarem senhor Alvarinho, mas como eu não sou narcisista, só me vejo ao espelho para fazer a barba, pouco mais, às vezes também me sinto um bocadinho incomodado. Mas acho que, na verdade, é um reconhecimento pelo trabalho que eu fiz.

Foi Robert Parker, o guru da crítica de vinhos, quem assim o apelidou.

Sim, há uns anos, há bastantes anos. Na verdade, devia ter sido senhor Alvarinho mais tarde. Eu acho que foi cedo demais. Mas isso depois deu mais responsabilidade também.

O reconhecimento do vinho verde da região dos vinhos verdes deve-se muito a si. Conseguiu transformar a região numa referência nos brancos portugueses. Tem sido difícil?

Muito difícil. Eu costumo dizer que vou a caminho de 30 anos com o meu próprio projeto, mas já antes disso eu trabalhava com os vinhos verdes. Aliás, o meu primeiro estágio foi nos vinhos verdes, foi na Comissão da Viticultura dos Vinhos Verdes, um estágio na área científica. Eu tive que arranjar algumas fórmulas.

Fica uma grande confusão em torno da denominação vinho verde.

Dominava um vinho. Havia um vinho que dominava, que era o vinho doce com açúcar e gás. E esse dominava e não tem mal nenhum existir esse vinho. Agora, o resto era um deserto. Ou seja, vinho verde era tido como um tipo de vinho, quase que não podia sair daqueles padrões. E, na verdade, já tinha havido uma revolução com as quintas, com viticultores independentes. Mas eu comecei o meu projeto e costumo dizer que ando há 30 anos a fazer doutrina sobre alguns dogmas do vinho verde e arranjei uma coisinha muito simples para fazer isso, que foram os quatro dogmas. O primeiro, o vinho verde não é um tipo de vinho, é uma denominação de origem. Há branco, tinto, espumante, rosés, aguardentes, há tudo. Portanto, denominação de origem. O segundo, o nome é enigmático. Mas tem uma história. E a história tem muito a ver, principalmente, com a vinda das culturas da América, principalmente o milho e a batata. E o milho, principalmente, que faz crescer no início do século XVIII a população e, com a terra escassa, as pessoas tiveram que recuar com as vinhas, mas tiveram que produzir mais vinho. Então fizeram latadas, fizeram em enforcado, meteram as videiras pelas árvores, coabitavam com as folhas das árvores e chama-se verde porque as uvas não amadureciam. O terceiro tem a ver com a longevidade do vinho. Diziam: "Vinho verde é para um ano. Ao fim de um ano, acabou". Eu hoje consigo provar que tenho vinhos na minha coleção com 25 anos e perto de 30 anos, e em grande forma. Claro que por trás disto tudo está uma boa viticultura e uma enologia de cada vez minimalista, mas de conhecimento. E o quarto é que não tem que ser necessariamente barato. Arranjei esta fórmula.

Essa fórmula. E tem andado a explicar.

Pelo mundo fora. E acho que resultou. Quando eu comecei, acima de €10, não havia nenhum vinho. Hoje encontramos acima de €50, quatro, cinco vinhos, entre €30 a €50, uns 12 vinhos. E portanto, há aqui uma revolução que aconteceu e eu sinto-me muito satisfeito por fazer parte dela.

O seu papel nessa revolução fez com que fosse agraciado com a Ordem de Comendador. Alguém o trata por Comendador?

Não, eu até brinco quando me dizem Comendador, eu digo que sou mais encomendador, preciso mais de encomendas. Não de encomendas, mas de encomenda. Foi surpreendente para mim, porque não estava à espera. Várias pessoas do vinho foram reconhecidas e acho que as que foram reconhecidas foi realmente uma geração, quer de produtores, quer de enólogos, que mudaram o vinho em Portugal.

Continua a gostar de andar pelo campo a passear no meio das vinhas?

Sim, claro. Na minha vida de produtor tenho que viajar muito para vender vinho. Agora já tenho o acompanhamento do meu filho, que está há seis anos comigo, na área da gestão e do marketing.

80% da sua produção é para-

É para o mercado externo Agora o que eu gosto de fazer é mesmo andar nas vinhas e na adega também. É o meu registo. Eu gosto de vinho, mas gosto essencialmente de plantas. Gosto muito das videiras, mas também gosto de outras plantas. Sempre fui muito assim desde criança. Aliás, o meu sonho era ser agricultor. Quando tinha seis ou oito anos, pensei: "Vou ser um agricultor mais evoluído que os meus pais e os meus avós".

Que já eram agricultores?

Que já eram agricultores, também tinham vinha e nós começávamos a trabalhar seis anos de idade, quando se ia pra escola, ou sete, já ajudávamos nas tarefas do campo.

O que fazia?

Tratava dos animais, apanhava erva, cortava milho. Aos 12 anos já fiz um ensaio na altura dos milhos híbridos, que já produziam mais. Eu via os compassos, como é que aquilo funcionava, com mais rega, menos rega.

É verdade que com sete, oito anos tinha a mania de andar a medir as plantas que encontrava no campo?

Isso é uma história muito engraçada, porque entre a casa dos meus pais e dos meus avós são mais ou menos três, quatro quilômetros. E eu demorava imenso tempo, mas como na altura não havia telemóveis, eles desconfiavam: "Este rapaz perde tanto tempo, o que se passa?" Então a minha mãe metia um bilhetinho e punha a hora que eu saía e depois a minha avó registava. Eu tinha uma sacolazinha, ia ver a hora. Eram tipo cinco horas para fazer três quilômetros. Então o que eu fazia? Eu tinha uma régua e media as plantas. Passava dali oito dias e pensava: "Por que aquela cresce?" Tudo que está por trás do crescimento da planta. Depois já lhe metia água numa e noutra não, para ver a diferença. E divertia-me um pouco com as plantas e é o meu fascínio.

Isso foi uma escola.

Foi. No fenômeno de uma planta crescer, há mais que vários compêndios desde Biologia à Fisiologia. Há muita coisa que depois acabei por estudar em Agronomia e continuo a estudar.

Os seus pais e os seus avós já eram agricultores. Aprendeu muito com eles?

Aprendi bastante.

Há alguma lição que lhe fique na memória?

O meu pai foi imigrante, mas era também agricultor. Teve que emigrar pra França, mas depois voltou.

A vida na altura não era nada fácil.

Não era fácil. O meu avô era como eu. Eu acho que esta veia de experimentalista, todos os meus vinhos são fruto de uma experiência. Confesso que poucos planos houve de marketing e planos de negócios, mas o meu avô gostava e às vezes fazia coisas. Às vezes engarrafava o vinho e fazia um licor com açúcar para depois ganhar gás dentro da garrafa. Fazia cidra. Era um experimentalista, era um curioso também. Ensinou-me muito como fazer vinho, explicava as castas e aquelas coisas todas. E isso também teve influência na minha vida.

O vinho é para inventores?

Sim. Eu tenho uma frase que é sobre a questão do conhecimento e da arte. O vinho é arte, mas só depois de muito conhecimento. Quem pensa que é só arte, assim como quem pensa que minimalismo é que é ótimo, minimalismo também só se faz com muito conhecimento. Portanto, a base está no conhecimento.

Em todas as artes é assim.

E depois vem a arte.

Irrequieto e inovador são palavras que parece que rimam consigo. É preciso desassossego interior para fazer vinho?

É preciso misturar, é preciso congregar. Claro que isto é um negócio, mas depois é preciso perceber o que é este negócio do vinho, que na verdade não é uma bebida, é um produto cultural, mas que é a expressão da terra, a expressão mais pura do que vem da terra. Eu acho que se há produto neste mundo da agricultura, o vinho lidera essa parte cultural. O azeite está próximo, mas o vinho lidera mesmo. E digamos que tem magia. Os franceses têm um termo que é no fundo equacionar, "mettre et aegles" mas equacionar estas vertentes todas e conceber um vinho e afiná-lo leva muito tempo. Eu fui fazendo ao longo da minha vida muitas experiências e para mim a diferenciação, o sentir que agora, por exemplo, neste momento que eu estudo é mais as parcelas da Quinta da Torre, que são 50 hectares. E o que eu quero perceber é o que é que cada textura de solo diferente, o que é que imprime a planta, que efeito tem sobre a planta e depois a planta sobre os frutos e depois sobre o vinho. E portanto é tudo isto que faz com que haja uma diferenciação e o que é ótimo é quando a gente está a provar um vinho e pode nem adivinhar a região, mas pode dizer assim: "Este vinho tem aqui algo que nos leva mais para uma zona mais quente ou para uma zona mais fresca, ou para um solo mais argilocalcário, ou para um solo mais granítico".

O vinho tem que ser a expressão da terra.

Se o vinho deixar de ser a expressão da terra, deixa de ser um produto com essa vertente cultural e passa a ser uma bebida como outra qualquer.

Na verdade, continua a ser o miúdo que media plantas aos sete anos. Nessa altura, como é que era a escola primária?

A minha escola primária chovia dentro. E era muito frio. Não havia ar-condicionado, nem havia aquecimento. E havia uma professora que era muito rigorosa e dava umas reguadas, era uma coisa.

Ainda apanhou umas reguadas?

Apanhei. Eu era bom aluno, mas apanhei porque me ria dos meus colegas quando eles apanhavam uma reguada e depois também levava. Mas era uma escola um bocadinho de aldeia. O clima não ajudava, muita humidade, muito frio.

Muito frio.

Mas isso preparava-nos. Eu, quando depois de em casa dos meus pais fui viver com a minha avó e com o meu tio, que era padre, eu vinha mesmo um bocadinho rude. Depois fui para uma escola assim à terceira classe, um bocadinho mais-

O que é que quer dizer que vinha assim um bocadinho rude?

Rude, muito agrícola, muito preparado com os miúdos. Éramos duros uns com os outros. Não se falava de bullying, mas era o espírito de sobrevivência. Depois fui para uma escola que era melhor, que estava já com mais condições e tornei-me um bocadinho uma fera. Os miúdos até quase tinham medo de mim. Eu era rijo.

Era rijo lá?

Era um bocado, também. Mas foi uma boa experiência.

Como é que o seu tio padre via essa rebeldia?

Isso não foi fácil conviver, porque ele era um padre conhecido, uma pessoa intelectual, na área da música, na área da literatura, e tudo o que acontecia, às vezes era mais fácil dizer que era o sobrinho do senhor reitor. Era fácil meter as culpas no sobrinho do senhor reitor. "Quem é que fez aquilo?" "Foi o sobrinho do senhor reitor". Depois o meu tio convivia um bocadinho mal.

Castigava-o, não?

Não, se fosse os meus pais, se calhar levava um castigo. Ele percebeu sempre melhor. Aliás, algumas coisas que ele percebeu muito bem. Eu e uma minha irmã, que moramos juntos, porque nós éramos sete. E um dia, eu já tinha 12 anos e o meu tio tinha três volumes. Ele tinha muitos livros de imensos autores, principalmente portugueses. Desde as obras do Alexandre Herculano, Júlio Dinis, Fernando Pessoa. E tinha lá três volumes da Enciclopédia da Sexualidade. E eu achava: "O que o meu tio tem isto, que é padre?" Mas mais tarde percebi. Eu ia buscar o livro, lia aquilo tudo.

Lia às escondidas.

Claro, e depois metia lá. Na verdade, ele comprou-o para nós. Muito à frente. Depois as pessoas que conheci, pessoas muito interessantes.

Ainda sabe tocar piano?

Não, o meu tio forçou-me muito a tocar piano.

O seu tio padre?

Padre. Porque ele tocava e realmente depois havia um colega meu de infância que também ele lhe ensinou música e ele tocava violino. Eu até gostava, fazia parte de um orfeão que ele dirigia, mas eu queria só tocar sem ser por pauta e ele era muito disciplinado. "Não, tocar, toca-se por pauta". Eu depois desisti.

Como faz os vinhos, também sem pauta?

Na verdade, eu depois de estudar muito a pauta, esqueço a pauta, mas é tal história, é conhecimento. O conhecimento é importante.

Primeiro é preciso saber escrever na pauta.

Exatamente.

E assim chegamos ao final da primeira parte. Regressamos já de seguida para continuar a conversar com o enólogo Anselmo Mendes, que tornou a região do Vinho Verde uma referência. Haverá ainda tempo para saca-dúvidas, o momento certo para conhecer o que precisa para brilhar na hora de sacar a rolha. Até já. Bem-vindos de volta ao "Tinto no Branco", um podcast "Observador". Eu sou a Ana Sofia Fonseca e aqui comigo está Anselmo Mendes, um dos enólogos portugueses mais conceituados, também conhecido como Senhor Alvarinho. Daqui a pouco teremos saca-dúvidas, o espaço em que todas as semanas partilhamos dicas úteis para a hora de abrir uma garrafa. Anselmo, este vinho que nos traz hoje, a Torre de 2019, deve ser bebido a acompanhar que refeição? Qual é o prato que recomenda?

Eu antes de recomendar o prato, recomendo uma coisa que eu acho extremamente importante. Dificilmente um vinho se bebe sozinho. Normalmente, o vinho é para partilhar. E depois, no que diz respeito a harmonizar o vinho, eu acho que este vinho vai muito bem com peixe no forno, até, por exemplo, um arroz de pato. Também vai bem com alguns mariscos, mas os mariscos merecem outro tipo de vinho. Este é um vinho que tem profundidade, tem complexidade. Para além disso, também a harmonização com as pessoas. Quando nós partilhamos um vinho com uma pessoa ou vamos receber alguém, temos que escolher o vinho para essa pessoa. Nós podemos tornar uma pessoa que é mais sombria, podemos escolher um vinho que o torne um pouco mais sociável. Sabe que o vinho, às vezes, há uma coisa que é qualidade absoluta quando nós avaliamos um vinho, mas o momento que o provamos, com quem estamos, também com que comida o fazemos, isso pode enaltecer ou pode desvalorizar o vinho. E digamos que essa parte se torna importante do ponto de vista científico. Quando as pessoas dizem que carne com tinto é porque tem mais proteína. E o vinho tinto tem os taninos que No fundo, nós quando comemos alguma coisa que tem tanino ficamos com uma boca rugosa. Ou seja, esse tanino imobiliza, por assim dizer, a proteína que lubrifica a nossa boca. Então nós sentimos rugoso porque perdemos essa lubrificação, essas proteínas que se juntam com os taninos. E daí que esse encontro do tinto faz sentido, mas os brancos também têm algum tanino. E por isso é que também casam bem com o peixe, que também alguns têm muita proteína e que também pode ser tinto. Eu costumo dizer, desde que não haja incompatibilidades, que são aquelas coisas que não dá. Por exemplo, o branco com doce de ovos, fica a boca metálica. Ou estamos a beber um vinho e tem uma comida que tem muito vinagre, também não casa bem. Isso são as incompatibilidades. Depois, eu acho que há aqui uma amplitude tal de um prato para muitos vinhos e um vinho para muitos pratos, que nos permite de não pensar muito. Às vezes nós, enólogos e produtores, complicamos o vinho e às vezes cansamos as pessoas também. Temos que descomplicar as coisas.

Anselmo, leva quase 30 anos a explicar a região dos vinhos verdes e a inovar nos vinhos portugueses. Como é que convive com a idade?

Mal, muito mal. Não muito mal. Eu às vezes ainda penso que estou com 30 anos ou que estou no início da carreira. Mas eu tenho esse espírito de estar sempre em evolução. Eu nunca estou satisfeito com o que faço e, portanto, mesmo quando dá início à vindima, quando nós fazemos o planeamento da vindima e eu tenho estagiários e os meus colaboradores, o que mais me chateia mesmo a sério é eles não terem ideias para fazer coisas novas, porque eu estou sempre a querer como melhorar, como acrescentar mais alguma coisa. Portanto, esse inconformismo para mim é importante, porque é o que me faz sentir mais jovem. Mas claro, a idade não perdoa, está lá sempre. Isso aí não se consegue vencer, o ter aqueles anozinhos. Agora, como é que contrariamos isso? Contrariamos isso estando sempre ativo e a querer fazer coisas novas.

Acompanha as inovações, por exemplo, usa a inteligência artificial?

Já uso. Não são muito tecnologias, são mais tecnologias ao nível desta indústria do vinho e destas coisas todas. E da vinha. Mas eu detesto é não estar atualizado. Isso é que é mau.

Quando é que percebeu que queria ser enólogo?

Bom, eu primeiro percebi que queria ser agricultor evoluído, aos sete, oito anos. Depois no liceu, escolhi todas as áreas de opção que tinham a ver com a parte agrícola.

Aos sete, oito anos já percebia que tinha de acrescentar alguma inovação àquilo que os seus pais e avós faziam?

Sem dúvida, eu queria ser agricultor, mas queria ser muito mais evoluído do que eles. Já queria perceber os fenômenos já um pouco científicos, mas porque é que eles faziam assim e não é de outra forma. E foi sempre algo que eu lutei com a minha mãe e com o meu avô.

Dava-lhe escape da cabeça.

Bastante. Mas como era trabalhador, como trabalhava, para eles tudo bem. Depois no liceu, eu tive uma influência grande, até pelo facto de não ir para a UTAD de Vila Real e vir para Lisboa.

Isso já na faculdade?

Não, no liceu.

No liceu.

Um agrônomo que era meu professor de produção vegetal e tinha se formado em agronomia, ele achava que eu que tinha jeito, e eu queria ser mesmo agrônomo, queria ir para Agronomia, mas podia ir para Vila Real também. E ele disse-me uma coisa muito importante. Eu: "Se calhar vou pra UTAD, pra Vila Real". E ele disse-me: "Esquece a UTAD. Tu já moras no meio rural. Portanto, tu precisas de ir pra Lisboa pra aprender agronomia e também aprender outras coisas".

Como é que foi descer à capital para um miúdo que vem do campo?

Sim, eu cheguei cá com 17 anos e custou-me um bocadinho no início, mas foi rápido. Aliás, o primeiro ano eu ainda ia assim de 15 em 15 dias, eram oito horas de viagem de autocarro. Mas no segundo ano eu já só ia no Natal e na Páscoa.

Muita paródia.

Nós saíamos de Agronomia, eu vinha pra Alfama, eu especializei-me na Mouraria, Castelo. Eu tinha amigos meus de Lisboa, das Avenidas Novas, de Benfica, que não percebiam nada de Lisboa, da verdadeira Lisboa. Nós tínhamos era pouco dinheiro. E às vezes arranjávamos uns biscates. Eu tinha um amigo que trabalhava no Cénico Direito e ajudava lá a montar uns palcos para ganhar algo. Aliás, ele depois vai pro Teatro Aberto e depois acabei por ter uma casa enorme eu sozinho.

E o Anselmo também fazia biscates?

Fiz na altura pra ganhar algum, mas não muita coisa. Nós tínhamos mesmo muito pouco dinheiro e nós íamos ao Pica-Pau, aos Restauradores, subíamos ao R Auto Fado Vadio, da Tia Sabina, onde bebíamos umas ginjinhas e pronto. E depois já íamos bem quentes, ela corria conosco, ali à meia-noite. Corria conosco e com os fadistas e com os guitarristas. Depois descíamos ao Cais do Sodré, onde havia três bares, três discotecas que eram próprias dos estudantes, o Shangri-lá, o Tóquio e o Jamaica. O resto é o que a gente sabe. E depois acabávamos no Cacau da Ribeira, onde nos juntávamos pessoas que vinham da Cova da Beira trazer fruta, pessoas que vinham daqui da zona de Lisboa, de Torres Vedras, do Oeste, digamos, que também vinham trazer. Juntavam-se Os estudantes, as prostitutas, tudo no Cacau da Ribeira era fantástico.

E que biscates é que fez para ganhar dinheiro?

Ajudava a montar os palcos. Não fazia parte, o teatro não era o meu forte, mas ajudava esse amigo meu a fazer algumas coisas e depois quando ele recebia, nós íamos ali na Rua Washington, havia um senhor que era de São João da Pesqueira, íamos comer umas favas e bebíamos cada um uma garrafa de vinho. Era mundial. Nós também não tínhamos muita regra para o dinheiro, ou seja, quando tínhamos, gastávamos.

Quando veio para Lisboa, foi morar para uma casa ali para o pé da Feira da Ladra. É verdade que havia uma horta perto de sua casa?

Nas traseiras do quinto andar, havia uma horta que tinha um pessegueiro, tinha damascos e era um espaço que tinha horta, mas que estava abandonada. E tinha videiras também. Eu no primeiro ano tomei conta daquilo, claro. Depois comecei a ter menos tempo para a parte da agricultura.

Ao longo das últimas décadas não tem parado de inventar. Qual é que considera a sua principal inovação?

São várias, mas a primeira foi disruptiva. Eu comecei em 87 a fazer os meus primeiros ensaios. Ainda praticamente nem trabalhava numa empresa, ainda estava a fazer o meu estágio. Comecei logo a experimentar fermentação em madeira, que era uma heresia fermentar Alvarinho em barricas. E comecei e nunca mais parei com as barricas. Fui aprendendo até hoje nisso, mas essa foi a minha primeira. A segunda foi algo que custou-me muito, foi quando eu lancei o meu projeto em 98, comprei uma pequena propriedade. Compramos. E começamos a fazer vinho debaixo de casa em 98. Compramos em 97.

Porque a sua mulher também é de agronomia.

Também é agrônoma. Eu costumo dizer que ela é mais agrônoma do asfalto, porque foi criada em Lisboa e fez agronomia da parte de indústrias comigo também.

É ela que toma conta das contas?

Neste momento é o departamento financeiro.

Muito importante.

Extremamente importante.

Fazer vinho é um bom negócio?

Eu acho que é, desde que se consiga conciliar a paixão e a razão. Mas essencialmente é um negócio de risco e é um negócio de muito capital. Ao contrário de outras coisas agrícolas que são culturas anuais, em que nós podemos mudar a variedade de um ano para o outro, que se correu mal, mudamos. A vinha tem logo um grande investimento e depois é um negócio de tempo. Eu tenho, aliás, um vinho que se chama Tempo, por isso mesmo. E por quê? Porque eu em 2001 decidi, pensei: "Por que o vinho branco se faz prensagem direta das uvas e não se faz como um tinto? Por que não fermenta com os engaços, com as cascas, com as películas?" E fiz um vinho de curtimenta total. E lancei em 2001 esse vinho. Não vendi uma garrafa. Era incompreensível o vinho para as pessoas. Ou diziam que estava muito amarelo, que era muito oxidado, tinha muitos taninos.

Ficou muito triste?

Fiquei um bocado. Tanto fiquei que depois só repeti em 2005, outra vez, e comecei a diminuir a curtimenta. Depois fiz em 2007 e só em 2009 lancei um vinho chamado Curtimenta, mas mais civilizado, com uma curtimenta mais ligeira, só de um dia. E em 2015 resolvi fazer um vinho que se chamava Tempo, com curtimenta total, como fiz em 2001. Um bocadinho mais de êxito.

Bastante mais êxito.

Bastante. Correu muito bem.

É preciso não ter medo de errar. Experimentar, experimentar.

Claro. Mas hoje fascina-me muito a interação da planta com o solo. Claro que não está tudo no solo. As pessoas pensam que o solo é uma coisa inerte e que está ali onde as raízes se agarram. Realmente faz essa função. As raízes estão agarradas numa estrutura que se chama solo, que tem uma textura própria, tem areia, tem limo, tem argila, mas tem vida. E hoje, uma das coisas mais importantes na diferenciação dos vinhos é se um solo tem mais ou menos vida, biodiversidade. E, portanto, neste momento eu estou nessa dos solos. E agora ultimamente, também estou como é que nós conseguimos prolongar uma vindima para mais tarde. Há uma colheita, quando aparecem os cachos, mas depois fazer aparecer uns segundos cachos nas netas dos lançamentos. Há 30 anos nós fazíamos a vindima no final de setembro, princípio de outubro. Agora fazemos no final de agosto, princípio de setembro. E às vezes está muito mais quente. E não há dúvidas que a temperatura tem uma influência, principalmente nos vinhos brancos, brutal.

As alterações climáticas assustam-no?

Assustam-me naquele sentido em que eu penso o que será dos meus filhos e dos meus netos, como é que eles vão conviver com um mundo turbulento, ou seja, a acontecer coisas todos os dias. Aquilo que eu vivi enquanto criança, que tinha o inverno, a primavera, o verão, o outono, ainda existe, mas com muitas perturbações. E isso assusta-me do ponto de vista também do nosso negócio.

Isso tem levado muita gente para a região dos Vinhos Verdes, muitos produtores.

Muitas companhias, aliás, uma delas fez uma parceria comigo, que é a família Siminta E acho que a pensar um pouco nisso, ou seja, provavelmente daqui a 50 anos ainda temos vinho no Minho. Provavelmente algumas regiões mais a sul do país não será sustentável fazer vinho. A geografia do vinho está a mudar. Hoje já se faz vinho no sul de Inglaterra, já há vinhas na Dinamarca, no sul da Dinamarca, da Suécia.

Os produtores do famoso Vega Sicilia também adquiriram uma quinta nova.

Adquiriram do lado de lá, na Galiza, na denominação Rias Baixas, também foi muito importante. Do lado de lá, as grandes companhias como Vega Sicilia, Ramón Bilbao, Rioja Alta, a própria Sogrape também investiu do lado de lá. E do lado de cá, temos a Symington, a Gran Cruz, o Esporão.

Tem dinamizado imensa região.

Cria mais riqueza para os viticultores.

Aumenta o preço do terreno.

Os preços da terra aumenta imenso. Aliás, eu quando comprei a Quinta da Torre, eu entrei para a Quinta da Torre em 2008, como arrendatário e para vender, e só a comprámos em 2016. Mas fui desenvolvendo a quinta, hoje não conseguia comprar a quinta, porque realmente houve uma valorização do terreno e o preço das uvas, dentro do Portugal continental, o preço mais alto é do Alvarinho, que hoje ronda 1.30. Temos outras regiões no país que estão com mais dificuldades, como é o caso do Douro, que eu conheço bem, onde trabalhei bastante, e o negócio do vinho está ameaçado. Mas isto é um negócio de tempo, isto não é para 100 metros, é para maratonas.

Tem três filhos, já anda a pensar na sucessão?

Bom, a sucessão serão os três, serão os meus herdeiros. Agora, o meu filho do meio é quem está comigo no negócio. Entretanto, o meu mais velho, que é médico, é urologista, tem um gosto enorme, já estudou uns livros de enologia. Aliás, eles fizeram um vinho. O que trabalha comigo fez um vinho de Loureiro em 2020, porque ele é realmente daquelas causas. Toda a gente só fala de Alvarinho e toda a gente quer esquecer o Loureiro. Loureiro é uma grande casta. Em 2020 ele fez um vinho que só lançou agora.

Que é o Loureiro do Tiago.

Loureiro do Tiago. E mais tarde, no ano seguinte, o Gonçalo, que é o mais velho, fez um Alvarinho.

O Alvarinho do Gonçalo.

Do Gonçalo. Pronto.

Falta a filha.

Neste fim de semana eu lhe fiz um desafio, porque a primeira vinha que nós temos é uma pequena vinha em Melgaço, em Socalcos. Nós começámos com dois hectares e hoje estamos com quatro quintas em Monção Melgaço, aliás, uma dedicada a tintos. Mas um desafio para a minha filha, que é a Adriana, foi: "Olha, já agora tens que fazer um vinho e vais fazer da primeira vinha de onde nós começámos o nosso projeto". Ela não disse que não, ela tem bom nariz. Desde pequenos que estamos habituados a cheirar vinhos.

Três filhos, dois são médicos. Dão-lhe cabo da cabeça.

Sim, como eu não tenho muitas regras para fazer análises e coisas do género, de vez em quando dizem mesmo. Um dia dá-te uma coisinha e não sei o quê.

Mas quando eles eram miúdos, era pai de ir buscar à porta das discotecas?

Fui buscá-los algumas vezes e grandes chateices. Combinavam comigo às 15h, só me apareciam às 16h.

Anselmo, como é que vê o futuro do vinho português?

Eu não sou muito otimista. Eu diria que sou mais pelo lado pessimista, pensando que vai ser tudo melhor, desde que os empresários do vinho tenham em conta os valores do vinho, os valores da viticultura, do vinho, das denominações de origem. Por exemplo, na região de Vinho Verde, é só uma região. Eu defendo que tem que ter algumas denominações, porque é diferenciado. Monção Melgaço já merece ser uma denominação de origem.

Essa é uma das suas lutas.

É uma luta, mas eu explico sempre isto. A promoção e a certificação continua a ser dentro da grande região. Neste caso, Monção Melgaço seria a locomotiva para daqui a uns anos nós termos uma região que é tão diferenciada, até pelos seus vales, pelos seus rios, ter uma região com muitas denominações de origem. Há quem pense que isso é uma confusão. As pessoas lá fora nem sabem onde é que é Portugal. Isso é errado, porque hoje há mercados, principalmente até os mercados da Escandinávia, que já pedem vinhos Monção Melgaço, quase como se fosse uma denominação de origem.

O tempo passa a correr e o nosso está mesmo a chegar ao fim. Já a seguir, a rubrica que nos ajuda a saber o que fazer na hora de sacar a rolha. "Saca Dúvidas". Anselmo, como é que se sabe se um vinho tem capacidade para ser guardado?

Não é muito fácil. Do ponto de vista do conhecimento científico, há pessoas que dizem que tem que ter mais acidez, mas há vinhos que têm muita acidez e duram pouco. Ou vinhos que têm mais tanino, mas também há vinhos que têm muito tanino ou que têm mais álcool e nada disso, por si só, define a longevidade de um vinho. É realmente um equilíbrio de várias componentes e a principal é uma boa viticultura.

Mas há algum truque para o consumidor perceber?

Eu nos vinhos brancos tenho um pequeno truque. Abrimos a garrafa a 10 graus e deixamo-lo subir até 16, 18. Se ele ainda mantiver aquela frescura, aquela que nós chamamos mineralidade, esse vinho vai ter mais longevidade do que um vinho que quando aquece, fica morto.

E assim chegamos ao fim deste "Tinto no Branco" com Anselmo Mendes, o enólogo que mais contribuiu para o sucesso da região dos Vinhos Verdes. Ainda muita via para conversar. Eu sou a Ana Sofia Fonseca e todas as semanas trago-vos uma pessoa, uma história do mundo do vinho. "Tinto no Branco" passa na Rádio Observador às quintas-feiras depois das 11 da noite e está sempre disponível em podcast. Siga, partilhe, esteja e brinde conosco. Muito obrigada, Anselmo.

Eu agradeço também o convite e mais uma vez muito obrigado.