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À nossa. Muito obrigada por teres vindo, Diogo. Por que trouxeste este vinho Manuel Pedro Guedes de 2022?
É um vinho que me diz algo de importante. 2022, porque foi a primeira vindima que fiz na Quinta da Aveleda, como um dos enólogos responsáveis por esta área. E porque Manuel Pedro Guedes é também o nosso fundador e era um homem bastante inovador, com uma visão muito alargada. Eu, de certa forma, inspiro-me nestes pequenos detalhes e acho que é um vinho que está magnífico. Demonstra aqui uma série de características que me enchem e que me preenchem e é feito com duas castas que eu gosto bastante: o Alvarinho, seguramente conhecido por quem nos ouve, e o Loureiro, que é uma casta que me apaixona, que tem um potencial muito grande, no meu ponto de vista.
Bem-vindos ao "Tinto no Branco", um podcast observador. Todas as semanas brindamos com um convidado diferente. Sempre uma história de vida, uma vida com história. E ainda algumas dicas úteis para a hora de abrir uma garrafa. O mundo do vinho português, "Tinto no Branco". Eu sou a Ana Sofia Fonseca e comigo está Diogo Campilho, treinador de futebol e de rugby, apaixonado por equitação. Tem 45 anos e vida no campo. Hoje é diretor de enologia da Quinta da Aveleda, o maior produtor português de vinho verde. Diogo, já imaginaste o que seria a tua vida se não tivesses nascido e crescido no campo?
Não. É uma pergunta engraçada, mas de facto sou um apaixonado pelo campo, sou um apaixonado pela natureza, sou um apaixonado pelos animais. Gosto que me chamem rural e muitas vezes eu próprio intitulo-me rural, porque acho que é engraçado. Muitas vezes tenho com os meus colegas isso mesmo: "Eu sou apenas um ruralito ao pé de vocês, da cidade" e dá-me algum arcaboço, muitas vezes, com alguns pontos de vista diferentes. Mas de facto sou um apaixonado do campo e sempre nascido e criado, e sempre foi, e é, a minha intenção de continuar a viver no campo.
Mas agora vives num apartamento.
Agora vivo num apartamento, que tem as suas coisas boas. Estamos perto de muitas coisas que durante algum tempo a minha família esteve afastada. Eu passo pouco tempo no apartamento, saio cedo e chego tarde e não tenho assim tanta claustrofobia, mas confesso que me dá alguma claustrofobia.
O apartamento ou viver numa cidade?
A cidade, sem sombra de dúvidas. Apesar da cidade eu achar que é fantástico. Temos tudo ao pé, temos arte, temos cultura, temos restaurantes, temos bons vinhos, temos os amigos. O apartamento é as vicissitudes da vida. Bons vizinhos, um apartamento muito agradável, mas confesso que me faz alguma confusão.
Vives no Porto. É verdade que os teus filhos ficaram extremamente impressionados quando descobriram a entrega de comida ao domicílio?
Exatamente. A minha filha, acima de tudo, estava radiante, porque não só lhe entregam a comida que ela quer no Uber Eats, passe a publicidade, mas acima de tudo, porque abre a porta e vê carros na estrada, que era algo que quando vivíamos na Lagoa não acontecia.
Imagino que também pudesses ter sido treinador de futebol. Fizeste o curso.
Eu tirei o curso de treinador de futebol, mas comecei como treinador de rugby. Eu sou um apaixonado de esporte e o rugby é um esporte que eu gosto imenso. Toda a vida joguei, os meus filhos jogam, mas houve uma fase da vida em que eu achei que queria ter as coisas mais organizadas e que dentro da barafunda não me ia sentir bem. E então resolvi, durante o tempo de Covid, tirar o curso de futebol. Tirei, foi fantástico, aprendi imenso e fui treinador de uma equipa em Alpiarça, dos Águias de Alpiarça, com uns miúdos fantásticos, com 14 anos, e foi um ano espetacular.
Diogo, eras o Mourinho do Ribatejo.
Quase. Melhor, até. Fizemos resultados fantásticos, mas acima de tudo tínhamos um balneário muito engraçado, com pessoas todas elas diferentes e com miúdos, todos eles vindos de casas diferentes. São miúdos que hoje em dia estão mais crescidos e foi uma fase muito gira da minha vida.
Como é que é treinar miúdos?
É giro porque eu acho que o desporto, seja o futebol ou seja o rugby, neste caso, é a minha experiência, os miúdos querem chegar, querem fazer o seu desporto e tu poderes trazer, de certa forma, as regras, não impostas, mas eram transmitidas. Mas acima de tudo, os miúdos, ao fim de um X tempo, vinham muitas vezes ter connosco, com os treinadores, que eu não era o único, vinham ter connosco e partilhavam, desabafavam e falavam das notas e falavam de problemas que tinham em casa. E nós, ao fim ao cabo, éramos mais amigos do que propriamente treinadores. É giro porque vês os miúdos em diferentes fases da vida a crescerem. E hoje em dia quando vou ao supermercado, ainda aparece algum ou outro: "Então, mister?" E bateu-me um susto. Mister, que é uma palavra muito usada no futebol e que eu não estou muito habituado, mas é algo que é engraçado. Foi bom, foi uma experiência boa.
Tinhas muitos pais aos gritos na bancada?
Não, graças a Deus que não. Porque um dos acordos que eu fiz, entre aspas, com o presidente do futebol do Desportivo dos Águias de Alpiarça foi: temos que arranjar um diretor desportivo para que esse diretor desportivo seja a ponte entre os miúdos, entre os pais e o treinador, porque senão, em vez de treinarmos futebol, tínhamos que estar a falar com os pais e não era algo que nós queríamos.
Ainda sofres pelo Benfica?
Muito. Sou um doente pelo Benfica. A equipa da Aveleda sabe que eu sou um benfiquista ferrenho. Eu pensava que ia encontrar uma empresa só com benfiquistas, mas não. A maioria de adeptos do Porto é superior ao do Benfica, mas é algo que todos os dias na cantina ou que todos os dias de manhã quando bebemos um café, é sempre um assunto que vai à baila. Adoro o Benfica Não vejo, infelizmente, hoje em dia, os jogos no estádio, que era algo que eu gostava de fazer, porque estou longe, estou no Porto, mas é algo que eu gosto imenso.
Criaste uma equipa de futebol na Quinta da Avelêda.
Todos juntos, mas foi dado um grupo de WhatsApp, que hoje em dia é gerido pelos meus colegas. Eu hoje em dia tenho jogado menos, mas sim, acho que jogar futebol une as pessoas. Eu acho que o desporto é muito importante na nossa vida e eu sou um defensor disso. E o futebol, acima de tudo, é o desporto mais praticado por pessoas e, portanto, ajuda. E ajuda também a envolver as pessoas de diversos departamentos, eu diria, quase que a lutar por uma causa comum. E, portanto, eu acho que une as pessoas.
Então foi uma política.
Nada disso. Eu acho que, acima de tudo, foi aprendermos a estar uns com os outros fora do trabalho, que eu acho que é importante. Acho que o trabalho é intenso, a exigência é alta e nós exigimos e é-nos exigido, mas eu acho que se nos conhecermos também fora do trabalho, noutros momentos, eu acho que as empresas têm a ganhar com isso. E, portanto, não foi a pensar nisso, aliás, nada disso, mas eu acho que nos ajuda, porque haver uma história que depois um dia mais tarde, num momento de mais dificuldade devido ao trabalho, ser usada como sentido de humor, eu acho que une laços.
É verdade que no teu escritório tens um porquinho mealheiro?
Tenho um porquinho mealheiro, porque eu acho que é importante. É um porquinho que já foi mais engordado do que é hoje em dia. Foi uma das coisas que eu trouxe para a Avelêda, no meu escritório, e que brinco com isso. Acho que as pessoas digam bom dia e boa tarde. Eu acho que é sempre importante, quando alguém não diz nem bom dia, nem boa tarde, pôr uma moedinha no porquinho, acho que ajuda a lembrar que é sempre importante dizermos bom dia e boa tarde. E portanto, é um porquinho que hoje em dia está menos gordo, porque as pessoas hoje em dia já sabem, é uma regra que nós ali na Enologia temos, mas eu acho que é importante, no dia a dia, estas empresas terem este lado humano, e a Avelêda tem, e portanto, eu acho que é importante.
Passaste a infância inteira na Herdade da Lagoalva. Como é que foi crescer ali?
Foi fantástico.
Quais são as memórias que guardas desse tempo?
Brincar até mais não, de chegar a casa e quase com a sujidade do pó entupir a banheira. Uma coisa gira que eu estava em Lisboa, portanto, ia e vinha todos os dias para Lisboa. Santarém, Lisboa, fazia uma hora, uma hora e meia, não havia autoestrada, portanto, vínhamos de carro pela Nacional até Vila Franca, e depois em Vila Franca é que entrávamos na autoestrada. E sempre que havia vacas, nós na Lagoalva temos vacas, e portanto, sempre que as vacas estavam na pastagem e vinham para ser vacinadas ou desparasitadas, era um momento de alegria, porque era um rebuliço, fecha portões, os carros param, portanto, aquilo quase que era um evento na cidade. Nesses dias, eu nunca ia às aulas, eu chegava a casa e dizia: "Amanhã há vacas". E o meu pai e minha mãe diziam: "Estás descansado que amanhã não há aulas para ninguém". Eu guardo estes momentos como: "Às vezes, não, tens que ir às aulas, que és obrigado". Era o contrário lá em casa, que era: "Amanhã há uma coisa gira aqui. Amanhã não há aulas". Portanto, eu aproveitava estes momentos como se o dia fosse nunca mais acontecer.
Como é que vinhas para Lisboa? Já percebi que era de carro, mas como é que vinhas? Quem é que vinha?
Era uma pessoa que trabalhava na Lagoalva e que vinha a Lisboa porque havia alguns escritórios em Lisboa e portanto, havia sempre correio para levar, para trazer. Portanto, vinha eu e a minha irmã. A minha irmã ficava nas Escravas, eu ficava no Saurão de Brito. E portanto, ao final do dia, depois íamos. Saíamos de casa às 06h10 todos os dias e chegávamos a casa às 19h30 todos os dias.
Nunca viveste em Lisboa?
Não, depois numa fase mais à frente, quando começámos com exames e temos que estudar um bocadinho mais, eu diria, passámos a ficar em casa da minha avó à quarta-feira. E portanto, aí já a meio da semana já não íamos para a Lagoalva e ficávamos em Lisboa. Mas eu sempre que podia, ia para a Lagoalva. Até mesmo durante os fins de semana, quando havia festas, eu preferia ir para a Lagoalva e estar a brincar com os meus amigos e nas minhas cobaiadas, do que provavelmente vir para uma festa em Lisboa, que eu achava uma seca.
Como é que os teus colegas de escola te viam? Eras o Betinho do campo?
Não, hoje em dia, eventualmente, acho que pode sempre haver esse cognome, mas naquela fase, não. Eu acho que até era um bocadinho engraçado, porque eu era quase que o tal que vinha do campo para a cidade, portanto, até era um bocadinho visto ao contrário. Hoje em dia, se calhar, essa já é a expressão que eu sempre achei que não existia, mas se calhar até acontecia. Mas eu era aquele que não vivia em Lisboa e, portanto, todos os outros viviam em Lisboa.
Sempre soubeste que querias trabalhar no campo?
Sempre soube que queria trabalhar no campo, mas não sabia em que área. Sabia que queria agronomia no geral, que queria algo relacionado com o campo, mas não sabia. Entretanto, o meu pai depois, nos 12º anos, nos exames nacionais: "Porque não Enologia? Porque não vinhos? Temos vinho na Lagoalva, não há ninguém na família, há aqui uma boa hipótese, por que não?" E assim foi, fui para Vila Real.
Que memórias guardas dos tempos da universidade?
Algumas não posso dizer, as que eu posso dizer...
Tens medo que os teus filhos oiçam o programa.
O que eu gostei de Vila Real foi os amigos que eu fiz para a vida. Vivíamos nove numa casa, somos hoje em dia muito amigos, os nove. E portanto, foi chegar a uma cidade e foram quatro anos fantásticos. Longe de um pai e de uma mãe, que toda a vida me deram a liberdade total, mas acima de tudo, poder viver coisas que eu de outra maneira não vivia. Ou seja, o amanhã haver aulas era algo que não me passava pela cabeça, quase que era impossível amanhã haver aulas. Os horários era algo que a mim não me perturbavam muito e portanto, quase que todos os dias havia festa se quiséssemos, porque nove pessoas a viver numa casa, era impossível haver exame nos nove no mesmo dia. Havia sempre azo para podermos ter várias imaginações e várias ideias.
Acabas o curso de Enologia E o teu pai tem uma herdade com quase 700 hectares. Tinhas o destino traçado?
A herdade não é do meu pai, é do meu pai e dos meus tios, era da minha avó. Não era uma questão de ter o destino traçado, mas tendo tirado Enologia e vivendo toda a vida na Lagoalva, tendo feito o meu percurso, porque quando eu acabei a universidade, tive a sorte de ter ido para a Austrália, fiz três vindimas lá e havia aqui uma série de fatores que podiam coincidir com a minha passagem, como aconteceu na Lagoalva, e poder ficar na Lagoalva, onde fiquei 18 anos com muito orgulho e tudo indicava que poderia continuar e ficar na Lagoalva.
É difícil trabalhar com a família?
Não é difícil. Eu acho que tem mais vantagens do que desvantagens. Eu acho é que muitas vezes acontece é o lado emocional sobrepõe o lado racional. E por vezes é difícil. Houve algumas fases da minha vida em que tive alguma dificuldade em saber gerir, porque se hoje algo corre mal, porque tem que correr, à noite estás a jantar ou tens um Natal ou tens uma Páscoa. E há aqui algumas sensações, um mix feelings, que por vezes para mim eram difíceis de digerir, numa fase da minha vida. Depois com os anos e com a tarimba, isso passa. Mas eu acho que há mais vantagens do que desvantagens, repito.
A tua saída da Herdade da Lagoalva surpreendeu muita gente. O que te fez bater a porta?
Não foi bater a porta, foi mais sim abrir outra porta. Eu acho que é um prisma diferente. Tinha 40 anos, 41. Achava que tinha feito muitas coisas na Lagoalva, umas bem feitas, outras mal feitas, mas poder aprender com outras pessoas, poder ver outras realidades, poder começar, diga-se, de certa forma, do zero, enchia-me de desejo e assim foi. Eu acho que quando nós saímos, temos que sair bem dos sítios onde fomos bem tratados. E isso aconteceu-me na Lagoalva. Falei com o meu pai, como é óbvio, foi a primeira pessoa, falei com os meus tios todos, um a um, e não houve ninguém que não me desse uma palmadinha nas costas e a dizer: "Boa sorte, acho que mereces". E cá estamos, se alguma coisa não correr de forma tão positiva.
Como é que o teu pai reagiu à tua saída? Não deve ter sido fácil para ele.
Eu acho que não foi fácil. Eu acho que de certa forma, orgulho, porque é um caminho que viu eu fazer junto dele e crescer. A Lagoalva continua e está bem entregue na área de Enologia, mas custou-lhe porque tinha um filho ao lado, tinha uns netos ao lado e ver partir este filho, entre aspas, esta família de saca às costas para uma nova aventura. E depois com o seu lado, não digo duro, porque o meu pai não é duro para quem o conhece, mas de certa forma, ver um filho sair, mas deixar ele ficar. O meu pai manteve-se na Lagoalva, mas às vezes ali eu acho que é um mix feelings também e é algo que a vida ajuda a digerir, mas não tenho dúvidas, tem orgulho no trabalho e no caminho que eu tenho feito.
O habitual é vermos jovens que se licenciam em Enologia, vão viajar, trabalhar em outras adegas e depois assentam na adega da família. Estás a abrir um precedente.
Eu fiz isso. Fiz também durante esse período que voltei e que fui para a adega da Quinta da Lagoalva, também tive a sorte de poder trabalhar no Alentejo, em duas outras adegas, como consultor, se assim se possa dizer. Mas eu adoro inventar, eu adoro procurar, eu adoro estudar. Quando há um assunto que eu não sei, e existem muitos, eu gosto de fazer perguntas, eu gosto de fazer telefonemas. Não era que eu tivesse estagnado na Lagoalva, repito.
Ou seja, já te têm perguntado: "Ó Diogo, como é que tu fizeste? Será que eu devo fazer o mesmo?"
Claro que sim. Há muitas conversas engraçadas. Abriste a caixinha de Pandora e agora é mais fácil para mim dizer ao meu pai que vou fazer o que tu fizeste, do que chegar com essa ideia iluminada a casa. Eu acho que são fases da vida, eu acho que são oportunidades que aparecem, são conversas que surgem, são ideias que convergem, são culturas onde nós achamos que nos vamos identificar. E quem não arrisca, não petisca. É muito o que eu digo. Eu acho que é importante.
E assim chegamos ao final da primeira parte. Regressamos já de seguida para continuar a conversar com Diogo Campilho, diretor de Enologia da Quinta da Aveleda. Haverá ainda tempo para saca-dúvidas, o momento certo para conhecer o que precisa para brilhar na hora de sacar a rolha. Até já. Bem-vindos de volta ao "Tinto no Branco", um podcast Observador. Eu sou a Ana Sofia Fonseca e aqui comigo está Diogo Campilho, diretor de Enologia da Quinta da Aveleda. Daqui a pouco teremos saca-dúvidas, o espaço em que todas as semanas partilhamos dicas úteis para a hora de abrir uma garrafa. Mas antes, vamos começar pelo vinho que Diogo Campilho nos trouxe, Manuel Pedro Guedes, de 2022. O que este vinho acompanha bem?
Este é um vinho, que eu digo muitas vezes na brincadeira, que é um vinho quase que se mastiga. Um vinho branco muito elegante, é um lote de duas castas, do Alvarinho, 80% e cerca de 20% Loureiro. O Alvarinho esteve um bocadinho a madeira, uma madeira muito subtil, só para lhe dar alguma complexidade, que eu acho que um vinho neste patamar necessita de um toque ligeiro a madeira.
É o vosso topo de gama.
É o nosso topo de gama. É um vinho que nós não fazemos todos os anos, só quando a equipa da Enologia dá o O agrémã de que a qualidade e o estilo é isto que nós pretendemos. Estamos a falar de 562 garrafas no total, que foram praticamente tão esgotadas, o de 22.
Uma caixa lindíssima.
Uma caixa muito bonita, com uma imagem fantástica. Eu acho que também é a imagem da Aveleda pelo rigor, pela excelência, pela inovação, é algo que nós nos pautamos muito. E é um vinho em homenagem ao nosso fundador, ao nosso criador, eu diria, uma pessoa fora de série, que fez um trabalho muito interessante na Aveleda, um visionário, como nós dizemos.
Diogo, a Quinta da Aveleda continua a ser muito conhecida pelos vinhos verdes. Antes de ires para a Quinta da Aveleda, tinhas o hábito de beber vinho verde?
Pouco. Bebia essencialmente alguns Alvarinhos e achava que o estilo de vinho verde era um estilo que eu gostava, mas que não me preenchia, porque achava que por vezes faltava algo para acompanhar as refeições. Era uma região que eu conhecia mal. Hoje em dia conheço bastante bem. E de facto, o portfólio de vinhos que a região oferece a um consumidor é brutal, desde rosés a brancos, com madeira, alvarinhos, a varietais. É uma região riquíssima, com solos ótimos.
E ao contrário do que muitas vezes se diz, acompanha muito bem uma refeição.
Top. E não é sempre a refeição que nós achamos que tem que ser refeições muito pesadas porque a acidez é muito elevada. Eu acho que isso não é verdade. Nós temos vinhos que acompanham qualquer tipo de refeição. Este, não tenho dúvidas que podia acompanhar perfeitamente um bom prato de carne no forno. Não me escandalizava nada. Não temos que ir sempre para aquela velha teoria, brancos com peixe e tintos com carne, que é algo que eu, graças a Deus, não partilho essa ideia. Mas é uma região que acompanha qualquer tipo de prato e são vinhos muito robustos, eu diria.
Há pouco falávamos da tua saída da Herdade da Lagoalva para a Quinta da Aveleda e de como isso foi difícil. Tinhas o hábito de tomar café todos os dias com o teu pai às 11:00. Às 11:00, ainda te lembras disso?
Lembro, porque eu não sou um animal de hábitos, mas gosto das coisas, de uma certa forma, planeada. E às 11:00, eu bebo muito café, bebo café a mais, bebo para aí 13 cafés por dia e é algo que eu gosto. Não me faz bem, toda a gente me diz isso, portanto não precisas de fazer essa cara. É algo que eu estou a tentar reduzir, mas eu acho que o beber café é ali um quarto hora para pararmos, olharmos para trás e olharmos para a frente, o que está bem feito até agora, o que temos que fazer melhor e onde é que temos que arregaçar mangas. Eu acho que é bom pararmos às vezes e olhar.
Sim, o beber café é muito mais do que o simples ato de beber um café.
Exatamente. Paramos. Nós temos muito o hábito na enologia, na Aveleda, quando todos chegamos, bebemos sempre um café. E acho que é importante perceber como é que estamos e como é que vai ser esse dia. Acho que ajuda a reunir ali as tropas.
Estás numa redação de um jornal, toda a gente bebe café o dia inteiro.
Exatamente.
Por falar em família, és primo da poeta Matilde Campilho.
Exatamente.
Já leste os seus livros?
Alguns, mas eu confesso que percebo pouco do que está escrito. Somos primos diretos, é filha do meu querido tio Miguel, portanto nascida também e criada na Lagoalva e é uma pessoa que eu gosto bastante, mas que de facto a leitura muitas vezes é difícil de entender, prefiro que ela me explique do que eu lê-los.
Não és dado a poesia.
Sou, eu acho que o vinho tem uma certa parte de poesia. Eu acho que aquelas provas que nós fazemos muito técnicas, cheira a isto, sabe a isto e é bom para, eu acho que os vinhos depois quando começas a beber, a provar, a teres os copos ideais, a teres a temperatura ideal, eu acho que podes começar a divagar um pouquinho à volta. E muitas vezes há aquela pergunta, que eu digo sempre na brincadeira, "off the record", que é a pergunta de 1 milhão de euros, que é: "Então este vinho vai durar quantos anos?" E nós dizemos com ar muito sério: "Este vinho, pela estrutura que tem, pelos taninos que tem, sensivelmente entre os 10 e os 15". Mas quer dizer, se não for bem armazenado, se não for, pode durar só cerca de seis meses. Mas existe aqui uma certa poesia à volta dos vinhos, que eu acho que é importante. Eu acho que o trabalho do enólogo é muitas vezes também ser um bocado poeta, que eu acho que é importante.
Continuando na família, foste pai aos 20 anos.
Fui pai aos 20 anos do meu querido filho Manuel, que tem 25 anos hoje em dia. Grande atleta, focado, bom aluno, acabou o curso a semana passada.
Parabéns.
Obrigado. Tirou Agronomia e enche-me de orgulho. Estou a dever um jantar, temos que jantar os dois, ainda não tive tempo.
Mais um enólogo na família?
Não. Gosta de vinhos, mas não. Eu acho que vai ser um bocadinho mais para a área da agronomia no geral, talvez uma certa parte florestal. Também é uma pessoa que gosta de campo.
Como é que foi ser pai aos 20 anos?
Foi um "mixed feelings", foi: "E agora, como é que é?" Tive um apoio incondicional dos meus pais. Estava no segundo ano da universidade e portanto ainda tinha ali muita coisa para fazer e para me acontecer, mas tive um apoio grande. Eu acho que com trabalho, com sorte e dedicação, acho que as coisas tendem a correr bem.
Em casa, é verdade que tens o lema de que à mesa não se envelhece?
É, já vem de minha casa, casa dos meus avós, casa dos meus pais e em minha casa isso acontece. A refeição eu acho que é importante. Acho que é importante pararmos meia hora para estarmos juntos, ter um bom copo de vinho e contarmos um pouquinho o que fizemos. E acho que as conversas são isso mesmo. Acho que se estivermos entretidos à mesa, de repente, podemos nos levantar rapidamente às 18:00 e sentarmos à mesa às 20:00. E acho que à mesa não se envelhece. Envelhece, sim, a fazer coisas mal feitas ou em correria. Eu acho que estarmos à mesa nos ajuda. Ajuda-nos a pensar, a refletir, a partilhar, e eu acho que isso é importante.
Ainda te emocionas nas vindimas?
Sim. Eu digo muito: "Há quantos anos estás aqui?" "Estou há oito vindimas." "Há quantos anos estás aqui?" "Estou há quatro vindimas." Eu acho que a vindima, para mim, é quase que o janeiro. Eu acho que a vindima é uma prova de fogo, é uma prova de superação, é uma prova de amizade e de espírito de entreajuda. Claro que me emociono, claro que me irrito, claro que me chateio, claro que se chateiam comigo, claro que andamos com os nervos à flor da pele, porque apanhamos hoje, apanhamos amanhã, vai chover hoje, choveu ontem, as uvas não estão boas, o vinho não está mau, a prensa está avariada. É uma adrenalina fantástica e as vindimas são um momentáreo.
Quando mudaste da Herdade da Lagoalva para a Quinta da Aveleda, sentiste que era um risco muito grande?
Para te ser sincero, eu não pensei nisso. Eu pensei que era o que tinha que ser e fui muito bem recebido na Aveleda. Nunca tive a sensação de que vens de uma outra empresa, agora vens para aqui, vamos ver. Não senti isso.
E sentiste que estavas a passar para um Boeing?
Senti que estava a passar para uma empresa muito grande, bem estruturada, em que as pessoas estão muito bem organizadas, em que existe uma série de processos.
Curiosamente, também é uma empresa familiar.
Exatamente. Já me identificava e identifico-me muito com os valores da Aveleda, porque de facto sinto isso. Sinto os donos perto, a cantina, os departamentos, a comida, o café. Identifico-me muito com os princípios e com a cultura da empresa, que eu acho que é fundamental. Mau seria ter mudado e chegar lá e dizer: "Afinal, não era isto que eu quero." Isso ia ser bastante pior.
E foi difícil?
Sim, claro. Não digo que seja um mar de rosas. Quando mudas, há sempre coisas que estavas habituado e que são diferentes ou há coisas que são diferentes e que tu vais ter que mudar, mas eu acho que o trabalho de equipa é importante e isso existe. Tenho uma boa equipa, que me ajuda muito.
Estudaste Enologia na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Este curso trouxe uma nova vida aos vinhos portugueses.
Trouxe. É uma universidade que me diz muito. Tive a sorte e o prazer deste ano de fazer o Vinho Alumni, que é um vinho que os alunos vão fazendo e são convidados para o fazer. Foi-me passado esse testemunho por um grande enólogo, Tiago Garcia, e vou fazer este ano. É uma universidade que eu gosto bastante, que tem investido bastante na investigação e por onde já passaram uma série de colegas meus, mais velhos, e que trouxeram, de certa forma, muita complexidade à Enologia. Há outros cursos de Enologia, não vou discutir qual é o melhor e o pior. É o que é, mas é um curso que eu acho que mudou muito e numa zona, de facto, onde o vinho tem um papel muito importante, que é a zona de Vila Real.
Hoje em dia, há uma relação entre os vários enólogos das diferentes marcas ou não? Há uma entreajuda ou não? Ou há uma competição?
Não, eu acho que existe sempre uma mini competição saudável, mas acima de tudo existe um espírito de entreajuda muito grande. Existe esclarecimento de dúvidas, existe telefonemas, existe pedires de ajuda. Há uns anos atrás não havia. No Tejo isso havia pouco e foi algo que nós conseguimos mudar e sinto isso hoje em dia.
Não tens problemas em pegar no telefone, ligar alguém e dizer: "Olha, a minha prensa avariou, posso..."
"Posso levar aí umas uvas para prensar?" Isso não acontece assim desta maneira, mas: "Não tenho leveduras, hoje é sexta-feira, não me vão entregar. Consegues me entregar?" "Tenho aqui um vinho, tenho aqui uma coisa no laboratório que não me está a dar bem. Posso ir ao teu laboratório e ver se está de acordo?" "Tenho aqui um vinho que eu gostava que tu provasses. Estou na dúvida se é isto ou isto. Ajudas-me?" Isso existe o mais possível. E tem que existir, porque se não existir, ficamos isolados. Eu sou um defensor disso mesmo. Depois, no final, se eu vendo a X e tu vendes a Y, isso é uma política da empresa onde tu estás, mas no dia a dia acho que não faz sentido nós não abrirmos as portas uns aos outros. Não existem segredos, no meu ponto de vista. Existe é fazeres bem.
Essa entreajuda achas que é necessária para o crescimento do vinho português?
Fundamental. O que te interessa ter um vinho bom se depois os outros não têm os vinhos bons? Se tu tens um vinho bom e os outros também têm, vai ser muito melhor a nível de venda, porque um consumidor que bebe um vinho bom português hoje, amanhã vai querer provar o outro vinho, porque também não tem dúvidas que a qualidade lá está e assim sucessivamente.
A Quinta da Aveleda é o maior produtor e exportador de vinho verde em Portugal, se não me engano. Estar à frente de tantos vinhos deve ser uma loucura.
É bom. Tens que pensar muito, mas como eu digo, tenho uma equipa ótima, tenho uma equipa que me ajuda muito, com muita experiência.
Mas, por exemplo, como é a tua semana?
Manhã bebo café quando saio de casa. Dois, que é para ter a certeza que estou bem acordado. E depois divide-se muito entre Penafiel, que é a nossa casa mãe, a Aveleda, ou as outras quintas, ou o Douro, a Bairrada e o Algarve, mas eu diria que 80% é Penafiel. De manhã, no escritório, todos os dias temos sempre uma prova de vinhos ou de benchmarking ou dos nossos vinhos verdes para perceber como é que estão, como é que não estão. Há sempre um lote que é sempre preciso ser feito. E depois muita conversa, muita partilha, muita leitura, muito esclarecimento de dúvidas. Está sempre alguma coisa a acontecer, ou é engarrafamento, ou é um sistema de higiene, ou é a adega, ou é uma máquina. Mas todos os dias provamos vinhos, não tanto como eu gostava, sou sincero. Acho que é algo que a minha equipa me critica com alguma justiça, que era preciso provar mais e perceber como é que muitas vezes o mundo à nossa volta gira, porque se paras e se ficas estagnado, os outros passam por ti. Tu tens que saber o que é que acontece à tua volta.
E passas muito tempo também de quinta em quinta.
É, eu faço cerca de 70 mil km por ano de carro. Ando muito de um lado para o outro.
Mais tempo no asfalto ou na adega?
Mais tempo no asfalto, que é uma coisa que às vezes me dá facadas no coração. Eu adoro estar numa adega.
Gostas do cheiro da adega?
Adoro. Adoro entrar numa cuba, adoro lavar. Para mim, às vezes, a vindima é um libertar, é um back to basics, no sentido em que sou outra vez livre, estou sujo, em que faço, é que testo barricas, é uma coisa que eu adoro. E sinto-me bem. Eu entro numa adega e consigo perceber se há uma bomba que não está a trabalhar bem ou se há uma prensa que não está bem lavada. De facto, tens que saber, tens que perceber, tens que gostar.
Gostas de pôr as mãos na massa.
Adoro pôr as mãos na massa. Acho que é importante. E eu acho que isso é importante para as equipas com quem tu trabalhas reconhecerem-te isso. Acho que é importante.
Já falámos da tua paixão pelo desporto, o rugby, o futebol, falta a equitação. Herdaste essa paixão do teu pai?
Sim, sem dúvida. O meu pai é um apaixonado por cavalos. Hoje em dia não monta todos os dias, mas todos os sábados monta cavalos e percorre Portugal e quase que o mundo de uma ponta à outra para ver, para perceber. Adora. É uma paixão que falas de cavalos com meu pai e brilham-lhe os olhos.
E tu?
Eu também, eu sou um apaixonado de cavalos. Não tenho montado, há um tempo que eu não monto, sensivelmente agora há mais tempo do que eu gostava, mas sou um apaixonado. É um hobby perigoso, de certa forma, porque podes cair, podes te magoar, pode te acontecer um acidente, mas é algo que eu gosto porque és tu, é o teu cavalo, é uma missão, é um objetivo e portanto, é algo que te liberta também. Gosto muito.
Alguma frase, alguma lição do teu pai que não esqueças?
Ajudar os mais fracos, sempre, e estar sempre disponível para trabalhar.
Ainda és descendente do Duque de Palmela. Esta história de monarquia diz-te alguma coisa?
Não, não me diz nada. Aliás, do lado do Palmela, a monarquia vem do lado de Bragança, que é do lado da minha mãe. Eram duas famílias que não se podiam ver, que era o lado liberal e o lado absolutista. Mas não, não me diz nada. Ou seja, tenho orgulho de quem sou e de onde venho, mas não me leva a outros caminhos por ser quem sou.
Qual é que foi a tua primeira experiência no mundo laboral?
Foi na Austrália, quando acabei o curso, quando acabei o meu estágio em Pegões, fui para a Austrália, para Hunter Valley, e foi espetacular, porque cheguei à adega com uma bata debaixo do braço e de calças de ganga e cheguei pronto para trabalhar. Vou me apresentar ao serviço às 19h30 e de repente olhei e vi era só malucos à minha volta. Uns de calções, uns de botas, uns de t-shirt rasgada e eu a bata escondi imediatamente. Acho que até escondi atrás de uma cuba e nunca mais mexi, ainda deve estar no mesmo sítio escondida. Foi espetacular. Foi o sítio onde eu estive, onde gostei mais, porque de facto, o vinho tem outra cultura, há aqui uma outra força, outra pujança, outra maneira de pensar, que em Portugal hoje em dia caminhamos mais para aí, mas naquela fase era impossível aplicar estas ideias todas que eu tinha visto.
Foi-te muito útil essa experiência.
Foi fundamental. Foi fundamental o trabalhar no laboratório, trabalhar na adega ou na vindima, a dimensão das adegas, das uvas, os quilómetros de onde vinham até chegar até nós, a maneira como faziam os lotes, tudo isso foi fundamental para mim. A verdade é que sais da universidade e pouco ou nada sabes. E portanto, ou tens uma tarimba para conseguir ver e aprender, ou então eu acho que vais ficar estagnado.
Diogo, o vinho português tem futuro?
Muito. Tem muito futuro. As empresas têm apostado muito no mercado internacional. As empresas têm feito um grande trabalho. Os meus colegas enólogos têm feito trabalhos ótimos, uns nas empresas, outros com projetos pessoais. Os viticultores têm feito um trabalho extraordinário, os próprios sommeliers, a restauração. Eu acho que todos nós temos envolvidos em conseguir ter vinhos ótimos. O turismo tem ajudado. Muitos de nós quando viajamos, levamos sempre uma garrafa de vinho português para oferecer a um amigo nosso de fora e as pessoas muitas vezes ficam deslumbradas com o que provam. E acima de tudo, com um fator que eu acho que é importante, que é o preço-qualidade.
Qual é que é o teu grande sonho?
O meu grande sonho é fazer vinhos que cada vez mais vão de encontro àquilo que eu acho que é perfeito, que são vinhos delicados, perfumados, vinhos que encantem e que possam ser bebidos por várias faixas etárias. O meu sonho é fazer bem feito. Acho que é importante.
Imaginas regressar à Lagoalva?
Não penso nisso. Estou bem onde estou, sou bem tratado onde estou e não penso nisso.
O tempo passa a correr e o nosso chegou ao fim. Já a seguir, a rubrica que nos ajuda a saber o que fazer na hora de sacar a rolha. Saca-dúvidas. Diogo, como é que se abre um vinho com lacre em vez de cápsula?
Muitas vezes, temos sempre o problema que vamos sujar tudo à nossa volta. Temos aqui às vezes um problema que é querermos com a parte da faca do saca-rolhas, querer cortar o lacre como se de uma cápsula se tratasse, e muitas vezes isso não é viável, porque vamos sujar tudo. Portanto, o que eu aconselho é pôr o saca-rolhas na rolha e abrir como se de lacre não tivesse e o próprio lacre parte-se quando a rolha sai. É a maneira ideal.
Em que copo é que deve ser servido o vinho verde?
Eu sou um bocado fanático pelos copos. Eu acho que os copos, para mim, não há copos nem de branco nem tinto. Enfim, poderíamos entrar para aí numa discussão, mas acho que um bom copo, seja para um vinho branco, nomeadamente um vinho verde, acho que deve ser um copo largo, um copo grande e depois com uma boca um bocadinho mais afunilada e com um pé fininho, eu diria.
Por que o pé fininho?
Porque eu acho que esteticamente é sempre importante um pé fininho.
E assim chegamos ao fim deste "Tinto no Branco" com Diogo Campilho, diretor de enologia da Quinta da Aveleda. Eu sou a Ana Sofia Fonseca e todas as semanas trago-vos uma pessoa, uma história do mundo do vinho. "Tinto no Branco" passa na Rádio Observador às quintas-feiras, depois das 11 da noite e está sempre disponível em podcast. Siga, partilhe, esteja e brinde conosco. Muito obrigada, Diogo.