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Então à nossa. Obrigada por teres vindo. Por que trouxeste este Herdade do Rocim Ânfora 2024?

Este é o Herdade do Rocim Ânfora tinto. Estamos no verão e eu resolvi trazer um tinto. O branco parecia-me demasiado evidente, mas sobretudo porque este tinto mostra o que pode ser o Alentejo ou, na minha opinião, o que é o verdadeiro Alentejo. É um tinto alentejano com 12 graus de álcool, feito de vinhas velhas. Temos castas como o moreto, a tinta grossa, a trincadeira. É um tinto que de alguma forma põe em causa todos aqueles preconceitos que temos sobre os vinhos tintos alentejanos, que são vinhos muito robustos, com 14, 14,5 de álcool, com barrica, feitos de Syrah e Cabernet Sauvignon. Com este vinho tentamos desmontar exatamente essa ideia.

Bem-vindos ao "Tinto no Branco", um podcast observador. Todas as semanas brindamos com um convidado diferente, sempre uma história de vida, uma vida com história e ainda algumas dicas úteis para a hora de abrir uma garrafa. O mundo do vinho português, "Tinto no Branco". Eu sou a Ana Sofia Fonseca e comigo está Pedro Ribeiro. Passou de adolescente rebelde a enólogo inquieto. Hoje é CEO e responsável pela enologia da Rocim, o novo nome da Herdade do Rocim, que produz quase 1,5 milhão de garrafas por ano. O Alentejo é o seu quartel-general, mas faz vinhos um pouco por todo o lado, desde as bandas de Leiria ao Algarve, Douro, Dão, Bairrada e até Açores. Pedro, muito obrigada por estares aqui, ainda mais em plena vindima. Quando é que começaste a vindimar?

Este ano até começámos um pouquinho mais tarde. Foi no dia 30 de julho. Normalmente nós começamos um bocadinho mais cedo. Normalmente, quer dizer, nos últimos anos. Mas este ano começámos no dia 30 de julho com uma base de espumante, que queremos que tenha bastante acidez, bastante frescura, e já vamos nos tintos e prevejo acabar rapidamente, porque de facto estamos nesse percurso de vinhos com menos álcool, mais frescos e mais elegantes, que também conseguimos fazer no Alentejo.

O que já te aconteceu nesta vindima?

Por acaso está a correr bastante bem. As vindimas têm sempre alguns percalços. Normalmente, quando se iniciam, existem sempre alguns percalços. Mas de facto nós, na Rocim, neste caso na Herdade do Rocim, no Alentejo, na Vidigueira, temos uma equipa já bastante oleada e bastante preparada e já encaramos a vindima não como um estresse, mas como a melhor altura do ano.

Não apanhaste nenhum susto?

Não, nenhum susto. A não ser há duas semanas, que esteve bastante calor no Alentejo e foi uma semana e meia de 40 graus, 42. E eu estava a ver as nossas uvas a irem para um ponto que nós já não queríamos. Mas está a correr tudo bem. Estamos a colher agora as uvas tintas e estamos muito entusiasmados.

Na tua opinião, este será um bom ano de vinhos?

Eu ao longo destes 20 anos aprendi a não falar antes do tempo, porque de facto os vinhos surpreendem-nos muito. Muitas vezes os vinhos nascem de uma forma esplendorosa e depois acabam por não ser tão vibrantes mais à frente no tempo. E outros que nascem mais tímidos e mostram-se grandes vinhos com um pouco mais de tempo. Por isso, não tenho ainda expectativas. Os brancos, para já, estão bastante equilibrados, frescos, minerais, e acho que vão crescer, mas não sei.

A vindima é o momento-chave do teu calendário?

A vindima é o momento mais importante na produção de um vinho, sobretudo o timing da vindima. Eu hoje em dia encaro o meu papel como enólogo, mais do que temperaturas de fermentação. Para mim, o papel mais importante é a altura da vindima, o timing exato da vindima. Durante esta altura do ano, eu passo muito tempo nas vinhas a provar uvas, a comer uvas, para perceber qual será o timing exato para a colheita, para termos todo aquele equilíbrio que nós procuramos.

Pedro, hoje és CEO e enólogo. Quando te olhas ao espelho, quem é que vês?

Eu sou um enólogo puro e duro. Não tenho a menor dúvida disso. Mas para mim um enólogo é muito mais do que as pessoas imaginam, de alguém que está fechado na adega a provar vinhos e a tomar decisões sobre os vinhos. Um enólogo é alguém que desenha um produto do princípio ao fim, que idealiza um produto, que neste caso é o vinho, que passa pelo vinho propriamente dito, mas também pela imagem, pela história, pelo conceito que quer contar, pelo desenvolvimento da marca, do branding. Por isso, para mim, isso é um enólogo. E um enólogo também tem que saber de contas, porque o negócio é um negócio de paixão, sem dúvida. Se não fosse, estaria noutra área qualquer, mas as contas também são importantes, claro.

Falavas agora das vantagens de estar em todas as fases da produção do vinho, mas às vezes levanta problemas acumular as duas funções. Por exemplo, o CEO a dizer ao enólogo: "Tens de gastar menos nesse vinho" ou "Tens de o lançar já no mercado".

Eu acho que isso é o mais importante num projeto, pelo menos da nossa dimensão. Naturalmente, tenho que confessar que hoje em dia a Rocim já atingiu uma dimensão, e prevejo que continue a crescer, em que os papéis de cada um dentro do projeto estão mais definidos. Mas eu sempre gostei de cruzar toda a gente e envolver toda a gente em Em todas as áreas do negócio. Naturalmente, o CEO ou quem está à frente de um projeto, tem uma visão muito mais completa de negócio se conseguir ser enólogo, mas também conseguir ser gestor. Muitas vezes isto são coisas intangíveis. Por que eu vou comprar a tal barrica se com outra barrica mais barato eu se calhar conseguia fazer não tão bom, mas intermédio, ou em vez de usar a tal ânfora do tal produtor, que é caríssima, usava uma outra ânfora que já tenho cá em casa. Mas eu acho que é neste equilíbrio que nascem projetos saudáveis.

Quem é que toma a decisão, o Pedro CEO ou o Pedro Enólogo?

São os dois. É exatamente esse equilíbrio do Pedro CEO e do Pedro Enólogo que a Rossim tem crescido e tem se desenvolvido.

Qual é o maior desafio que o futuro traz ao vinho?

Hoje em dia, eu digo isto muitas vezes, a economia é algo que não me assusta, não me assusta particularmente, porque a economia é cíclica, temos altos, temos baixos, e nos últimos anos temos sentido exatamente isso. Tivemos o Covid, em que todos nós do mundo vinho pensamos, ali em março, abril, maio de 2020: "Bem, o nosso negócio acabou, os restaurantes estão fechados, isto é o fim". E depois em 2021, foi uma explosão de vendas, um crescimento inacreditável. Por isso, a economia em si não me preocupa tanto. Claro que estamos atentos, naturalmente, sempre às variações. O que me preocupa é esta mudança de hábitos. No fundo, há aqui quase um puritanismo em relação ao álcool, que de fato é verdade, nós vivemos 30 anos da nossa vida. No meu caso, tive a sorte de ser quase toda a minha carreira, em que sempre ouvimos dizer que o vinho, e sobretudo o tinto, fazia bem ao coração, fazia bem à saúde, e de repente, de um ano pra outro, tudo mudou e já não é assim. E esse vai ser, sem dúvida, o principal desafio do nosso negócio.

As pessoas vão beber cada vez menos, mas se calhar também melhor.

Sim, eu acho que sim. Nós já sentimos isso. E sobretudo com os vinhos da marca Portugal, os vinhos portugueses, nós já temos uma procura de uma primeira liga de importadores, ou seja, os mercados estrangeiros já são clientes mais sofisticados que procuram os vinhos portugueses, já não procuram apenas os vinhos de primeiro preço. Claro que nós temos sempre este drama, que pra mim é um drama, de sermos associados à boa relação qualidade-preço, good value for money. Muita gente defende que isto é muito bom, eu acho que esta imagem é péssima pra nós.

Gostavas que os vinhos fossem mais caros?

Eu acho que era fundamental que os vinhos portugueses fossem mais caros, para todo o ciclo do produtor de uvas ao viticultor, ao negócio do vinho pudesse ser mais saudável. Era importante que nós conseguíssemos fazer esse caminho, que estamos a fazer, as coisas mudaram muito nos últimos anos, mas ainda há muito pra crescer nesse sentido.

Falávamos de que as pessoas, em geral, bebem menos, ou seja, já não há tanto o hábito de beber todos os dias como acontecia há uns anos. E os enólogos?

Os enólogos também. Eu conto sempre uma história. Um grande amigo meu, enólogo também, encontramo-nos no Douro e foi uma grande festa. Resolvemos ir almoçar pra celebrar a nossa amizade e colocarmos a conversa em dia. E no princípio do almoço, esse meu amigo, meu colega de profissão, perguntou-me se eu me importava de não beber vinho. Isto há 10 anos era impensável. Dois amigos enólogos encontram-se no Douro, vão almoçar e não bebem uma garrafa de vinho? Era impossível. Hoje em dia, ele fez-me essa pergunta e eu, sinceramente, também não me importei, porque ia ter um dia mais complicado, mas de fato há esta mudança.

Há mais cuidados com a saúde.

Há mais cuidados com a saúde, e ainda bem. Acho também, e a nossa sociedade está a caminhar muito pra aí, que de posições extremadas. E se alguém que bebia álcool, ou bebes álcool ou não bebes álcool. Tenho muitos amigos que bebiam álcool de uma maneira equilibrada, de repente deixam de beber álcool completamente, porque ouviram dizer que o álcool faz mal à saúde.

Por falar de saúde, eu ouvi dizer que eras um bocadinho hipocondríaco.

Sim, eu há uns anos, há muitos anos, li um livro que era "A Doença e os Seus Sintomas" e então a partir daí fiquei um bocadinho hipocondríaco, mas vivo bem com isso. Gosto de estudar sobre isso.

Quando o teu filho fica doente, vais a correr para o doutor Google?

Não o doutor Google, mas tento não acreditar no que os médicos dizem da primeira vez. Isso irrita alguns médicos.

Pedro, o Alentejo e mais propriamente a Herdade do Rossim, é o teu epicentro.

Sim, o Alentejo, deste universo de quase 1,5 milhões de garrafas que estamos a vender por ano, o Alentejo há de ter 1,1 milhão, 1,2 milhões garrafas, ou seja, é o grande volume do negócio. É, no fundo, o nosso quartel-general. E depois, naturalmente, os outros projetos são projetos não tão expressivos em termos de números, mas que estão a crescer. Sobretudo destacava a região de Lisboa e a região do Douro, que estão a crescer em volume e em posicionamento. Mas sim, o Alentejo continua a ser o nosso quartel-general.

Quando se fala em vinho de talha, fala-se muito de ti e da Rossim. É verdade que decidiste apostar no vinho de talha durante uma viagem de avião?

Sim, isto foi em 2010, 2011. Eu estava a voltar dos Estados Unidos, de Nova York E de repente, em Nova York, eu percebia junto dos sommeliers que eles já não estavam tão interessados em vender o grande château da vida, da grande marca de Bordéus ou de outras grandes regiões do mundo, mas estavam mais interessados em mostrar aos seus clientes um vinho da Eslovénia, de um produtor obscuro, que tinha uma história interessante para contar.

Em descobrir.

Em descobrir. E eu, no fundo, no regresso, no avião, tive uma espécie de epifania de algo que nós tínhamos na nossa região. Não era nada que tivéssemos que criar. Existia lá, com uma densidade histórica enorme, tem 2000 anos de história, que precisava apenas ser desempoeirado e contado ao mundo. O que é certo é que hoje em dia grandes restaurantes do mundo, de Nova York e de outras grandes cidades do mundo, têm os nossos vinhos de talha e muitos deles apenas esses vinhos de talha nas suas cartas. E não nos podemos esquecer que a Rocim produz 1,5 milhões de garrafas, mas vinhos de talha estamos a falar de 50 mil. E mesmo assim, somos dos maiores produtores de vinho de ânfora do país, sem dúvida.

Até o enólogo intervir, como é que era feito o vinho da talha, na Rocim?

O vinho da talha era feito pelo nosso caseiro, também é Pedro, é o senhor Pedro, eu sou só Pedro, ele é o senhor Pedro. É o nosso caseiro, que já está na Herdade do Rocim há muitos anos, que aprendeu a fazer vinho de talha com o seu pai, com o seu avô, e sempre fez vinho de talha para consumo local. Toda a gente, com o resto das nossas uvas, que nós não queríamos para os nossos vinhos convencionais, o senhor Pedro fazia as suas talhas. Nós temos uma antiga adega de talhas, com perto de 200 anos, e ele fazia os seus vinhos de talha para vender às pessoas locais que iam lá e enchiam o garrafão. A data da vindima era sempre a mesma, era sempre já no final da vindima, já quando as temperaturas estavam mais frescas, porque as talhas, como sabemos, não têm sistema de refrigeração. Mas, sobretudo, porque aquela altura estava definido que era no final de setembro, princípio de outubro, que se apanhava as uvas para o vinho de talha. A minha principal mudança como enólogo, quando comecei a intervir nos vinhos de talha, foi exatamente sobre o timing de vindima. E passamos de colher as uvas em final de setembro, princípio de outubro, muitas vezes, para o princípio de agosto. Ou seja, esta foi a principal mudança, porque todo o processo manteve-se exatamente igual.

O senhor Pedro ficou muito zangado?

Não, o senhor Pedro confia em nós como enólogos. Os locais ficaram um bocadinho tristes, porque nós começamos a engarrafar todo o vinho de talha e não podiam ir encher os seus garrafões, que era quase uma instituição cultural ali da região.

Hoje o vinho de talha está na moda. Foi preciso muito marketing?

O marketing é preciso para tudo. Há muitos produtores que dizem e acusam a Rocim: "A Rocim é muito marketing." Eu acho graça a esta crítica, porque eu sempre ouvi, desde sempre, que o que falta aos vinhos portugueses é marketing. E depois quando há um projeto que aposta no marketing, nós somos acusados que a Rocim tem muito marketing. E de facto, somos uma empresa que apostamos bastante no marketing. Aliás, nós temos um departamento de marketing com três pessoas em permanência, o que para uma empresa da nossa dimensão de vinhos é notável. Esta nova era dos vinhos de talha, em que os produtores de vinho começaram a vestir a camisola do vinho de talha, foi uma coisa mais ou menos lenta, porque havia muitos produtores que não acreditavam nisto e que, de alguma forma, até ridicularizavam o vinho de talha. O vinho de talha era visto como um vinho das pessoas do campo, um vinho em que não havia grande enologia, e de facto não há, e de alguma forma, no início, não era muito valorizado.

Quando tens de explicar a alguém o que é um vinho de talha, como é que o fazes?

Há várias maneiras de explicar. Há a maneira técnica, que diz que a ânfora tem a porosidade, que permite a entrada de oxigénio, que de alguma forma transforma o líquido mais pronto a beber. Há também o formato da talha, que promove movimentos de convecção. E depois podemos ter uma visão mais holística e mais romântica da coisa, que de alguma forma simula o ventre materno e que, no fundo, lança os vinhos para o mundo. A ânfora tem exatamente isso, é uma tecnologia milenar.

Ânfora de barro?

Ânfora de barro.

E hoje até temos o Ânfora Wine Day.

É um evento que nos enche de orgulho. Em 2018 tivemos uns 20 participantes, produtores de vinho de ânfora de Portugal e alguns estrangeiros, e estávamos à espera de 200 pessoas, 300 pessoas. Tivemos 800 pessoas logo na primeira edição. Culminou o ano passado com 52 produtores de vinho de ânfora do mundo inteiro, da Geórgia, Arménia, África do Sul, Estados Unidos, França, Itália, Espanha.

Vamos ter o Ânfora Wine Day replicado noutros países.

Quando nós criamos o Ânfora Wine Day, era criar um caráter internacional deste método de vinificação e comunicar este método de vinificação de uma forma internacional. E temos convites para organizarmos Ânfora Wine Day noutras geografias.

Como por exemplo?

Brasil, África do Sul.

E assim chegamos ao final da primeira parte. Regressamos já de seguida para continuar a conversar com Pedro Ribeiro, CEO e enólogo da Rocim. Haverá ainda tempo para saca-dúvidas, o momento certo para conhecer o que precisa para brilhar na hora de sacar a rolha. Até já. Bem-vindos de volta ao "Tinto no Branco", um podcast observador. Eu sou a Ana Sofia Fonseca e aqui comigo está Pedro Ribeiro, CEO e enólogo dos vinhos da Rocim, o novo nome da Herdade do Rocim, que agora completa 18 anos. Daqui a pouco teremos saca-dúvidas, o espaço em que todas as semanas partilhamos dicas úteis para a hora de abrir uma garrafa. Mas antes, tempo para regressarmos ao vinho que Pedro Ribeiro hoje partilha conosco, este Herdade do Rocim Ânfora de 2024. Pedro, qual é o prato perfeito para este vinho?

Este vinho é um tinto, é o Ânfora Tinto. Também temos a versão em branco, mas é um tinto com características muito especiais. É um tinto alentejo, de Vidigueira, uma região mais fresca dentro do Alentejo, e é um tinto feito de vinhas velhas. Temos o Moreto, Trincadeira, a Tinta Grossa. Nestas vinhas velhas, nós conseguimos colher a uva já equilibrada com menos álcool. Ou seja, é um tinto do Alentejo com apenas 12 graus de álcool. Eu desafio os nossos ouvintes a encontrarem muitos vinhos alentejanos tintos com 12 graus de álcool. Não será fácil. Este tinto, por ter menos álcool, mas também bastante acidez e bastante frescura, é um tinto muito versátil. Nos Estados Unidos, até há uma expressão que pode não ser muito positiva, mas eu acredito que é positiva, que é o "chillable reds", um tinto que você pode refrescar. E este Ânfora é exatamente isso, é um tinto que pode ser refrescado. Então, por poder ser refrescado, é muito versátil. Pode ser bebido com pratos mais leves, mas também como tem alguma acidez e alguma rusticidade, até pelo método como é feito, pode aguentar também pratos mais robustos.

Pedro, a Rocim, até há pouco Herdade do Rocim, foi fundada por quem?

Foi fundada pelo meu sogro e pela minha mulher em 2000, se bem que o projeto arranca em 2007.

A Catarina Vieira, viticultora?

Sim, nós dividimos assim o trabalho. A Catarina toma conta da parte da viticultura e de alguns aspetos da produção e eu tomo conta da parte de gestão e de enologia. Normalmente, quando os vinhos são bons, a culpa é do enólogo. Quando os vinhos não são tão bons, a culpa é das uvas, que não foram tão boas. Estou a brincar. Fazemos uma boa equipa e tem corrido bem até agora.

Lá em casa só se fala de vinho?

Não, não se fala só de vinho, também se fala muito de vinho. Eu costumo dizer que nós misturamos o trabalho com o prazer a toda hora, porque o vinho está presente, mas temos outros interesses e falamos de outras coisas.

Como é que se conheceram?

Conhecemo-nos num supermercado, em Beja. Em 2004, 2005, a atividade cultural de Beja passava muito por um supermercado. Estou a brincar, estou a ser irónico. Mas encontramo-nos por lá. Um amigo em comum também estava. Apresentou-nos e começamos a falar a partir daí. Depois fomo-nos encontrando em feiras e depois em 2010 é que ficamos mais próximos.

Essa piada tem alguma coisa a ver com as assimetrias que encontras no interior?

Sim, o interior é uma piada que não tem piada nenhuma. De facto, nós vivemos todos aqui amontoados no litoral e naturalmente isto é uma questão política. É uma questão política porque não há uma aposta séria no interior do país, que está completamente desertificado. Porque há uma opção política para isso. Isto é uma piscadinha de rabo na boca.

Desertificado e envelhecido.

Muito envelhecido. São regiões que não têm votos. Não têm pessoas, não têm votos. Não têm votos, não vale a pena investir. Então não saímos deste ciclo. Eu muitas vezes comento a questão de Elvas e Badajoz. Temos Elvas, que é uma cidade ótima, bonita, e temos Badajoz, que é uma cidade com 150 mil habitantes, com restauração vibrante. São ambas interior. Há aqui claramente questões de aposta política ou não. E nós, que passamos muito tempo no interior, sentimos isso na pele todos os dias. Eu, para ir para Beja, faço esse percurso muitas vezes, tenho uma autoestrada que para antes de Ferreira do Alentejo, mesmo após manifestações dos bejenses, com todo o direito. Estamos a falar de uma capital de distrito que não tem uma autoestrada. Deve ser das poucas do país. E de facto, eu acho que é dramático para quem lá vive. Não ajuda o país como um todo. E estes fogos a que acabamos de assistir, estes incêndios, são prova de tudo isto que estamos a falar.

A Rocim completa agora 18 anos e muda de nome, passa de Herdade do Rocim para Rocim. Isso tem a ver com o crescimento, reflete o crescimento?

No fundo, nós sentimos que estava na hora de comunicar exatamente aquilo que nós somos. A Rocim tem uma parte importante da Herdade do Rocim, mas não é só Herdade do Rocim. A Rocim, no fundo, é o umbrella, é o chapéu, e por baixo desta umbrella temos Herdade do Rocim, no Alentejo, temos o Vale da Mata, na região de Lisboa, temos o Bela Luz, no Douro, e temos o Estrangeiro, no Dão, para além de todas as outras parcerias e colaborações que temos nas outras regiões do país. Por isso, sentimos essa necessidade. Fizemos um rebranding ou uma mudança de imagem. No fundo, criamos, desenhamos uma garrafa para todos os nossos vinhos, que tem a marca Rocim serigrafada. E depois, esta garrafa única vai funcionar como uma umbrella para todos os vinhos e todos os projetos das várias regiões.

A Rocim é ligada ao Alentejo e é lá na região da Vidigueira que tem o seu quartel-general. Mas hoje fazes vinhos de norte a sul do país e ainda nos Açores. Com vinhos de tantas proveniências, o que é que fazes para não perder o foco?

A ideia é exatamente essa, não perder o foco. Nós temos aqui o enólogo, neste caso que sou eu, tem um ímpeto criativo bastante acentuado e a ideia é fazer menos. Toda a gente me pergunta: "E os próximos projetos, a próxima novidade?" A próxima novidade é não fazer mais vinho De facto, eu sinto que agora em termos do país estamos bem representados, estamos nas principais regiões e a ideia é, de alguma forma, não criar mais projetos. Naturalmente, é difícil para mim, há sempre parcerias novas que estão a acontecer.

Gostas desses desafios.

É, e de facto, às vezes pode não parecer muito racional, mas acaba por ser, porque isto cria um burburinho à volta da marca e há sempre um interesse à volta da marca.

Lá está o teu lado virado para o marketing.

Marketeiro, como dizem os brasileiros.

Passas a vida na estrada.

Passo. Eu faço muitos quilómetros. Vivo entre Leiria e Beja e com a Herdade Rocim no Alentejo. Acompanho naturalmente também os vinhos nas outras regiões. Por isso passo muito tempo na estrada, muito tempo em aviões. A Rocim vende em 52 países diferentes. Nós temos uma equipa de exportação, mas alguns mercados são acompanhados por mim, outros eu vou lá uma vez por ano, outros duas. Por isso, passo muito tempo na estrada e muito tempo em aviões.

Estão muito a apostar no mercado africano.

O mercado africano foi crescendo naturalmente, tal como o mercado brasileiro. O mercado dos Estados Unidos, até recentemente, por razões que todos conhecemos, estava a correr muito bem, agora está ligeiramente mais brando, mas o mercado africano e o mercado brasileiro são mercados que estão a nascer, que estão a crescer para o vinho, a perceber o vinho e são mercados que estão a ter resultados ótimos para nós. Não que nós tenhamos feito mais nada do que fazíamos antes.

E com grande potencial de crescimento.

É isso. Na Europa, pelas razões que já falamos aqui, de saúde, de economia, do que for, as pessoas estão a beber menos vinho, estão a testar outras bebidas e nestes mercados nós sentimos que o vinho está com grande potencial.

Tens a tua casa em Leiria. É para viver a meio caminho.

Leiria tem essa vantagem. Lá está, ao contrário do interior do país, temos três ou quatro autoestradas que passam ao lado e de facto é bastante interessante para nos deslocarmos no país. Para além disso, existem outros negócios que estão lá e faz sentido estarmos por perto. A escola do nosso filho também é lá e por isso, no fundo, vivo entre Leiria e Beja. Não parece muito prático, mas para mim, depois de todos estes anos, já acaba por ser.

É também onde a Catarina tem origens.

As raízes dela, claro.

Estão a fazer vinho nessa região com o projeto Vale da Mata, que era do avô da Catarina.

Sim, é uma vinha que a Rocim recuperou numa aldeia muito peculiar, que é a aldeia das Cortes, ao pé de Leiria, que tinha uma grande tradição na produção de vinho e que ao longo dos tempos, nos últimos 20, 30 anos, foi-se perdendo. Eu acredito que nós, provavelmente, não somos os únicos, mas existe mais um ou dois produtores de uva e de vinho ali na região. E é uma região bastante particular. Eu no início confesso que era uma região que eu tinha alguma dificuldade em entender. São vinhos mais selvagens, até pelo caráter mais frio da região. Mas de facto, temos conseguido produzir vinhos muito bons. São dos meus vinhos preferidos do projeto Rocim, com uma frescura, com uma elegância, com uma energia e que o mercado, ano após ano, tem vindo a reagir muito bem.

Também fazes vinhos no Algarve, outra região pouco reconhecida. Tem-te surpreendido?

Sim, o Algarve tem-me surpreendido bastante, tem características muito interessantes, sobretudo a vinha com quem nós temos a nossa joint venture, que é a Quinta da Pedragosa, em Lagos. É uma região, todos nós sabemos, quem já fez férias em Lagos, que é frio, ventoso, ou seja, é bom para o vinho. Não temos ali excesso de calor, não temos excesso de maturações. E tem-me surpreendido bastante. Vinhos com bastante frescura, bastante elegância, um perfil bem diferente daquilo que eu imaginava.

Qual é a região que mais te tem impressionado?

Eu não sei se devia dizer isto, mas o Dão é uma região inacreditável. Todos estes nossos esforços, que na Rocim visam a frescura, este lado Atlântico, que nós temos de uma forma transversal em quase todo o país, até na Vidigueira o temos. Os ventos do Atlântico é longe, mas chegam lá. Nós no Dão temos exatamente uma frescura, uma precisão nos vinhos que conseguimos de uma forma menos esforçada do que noutras regiões.

Agora para abraçar um novo projeto, seria em Portugal ou fora?

Em Portugal eu acho que nós já estamos em praticamente todas as regiões. Temos algumas perspetivas para algumas regiões lá fora. Temos uma espécie de um projeto que poderá nascer eventualmente, mais ou menos cedo, no sul da Inglaterra, uma colaboração, outro na África do Sul, por isso temos aqui algumas coisas em vista.

Já a pensar nas alterações climáticas.

Sim, as alterações climáticas, nós não podemos deixar de pensar nelas. Nós vivemos com elas todos os dias e de facto tentar perceber as regiões mais frescas é um caminho, é um trabalho que temos estado a fazer.

Pedro, continuas a gostar de ser do contra?

Acho que faz parte de mim. Faz parte da minha identidade e faz parte também da minha busca por vermos o lado. As coisas não são brancas nem pretas. Nós vivemos agora numa sociedade de verdades absolutas e eu gosto sempre de alguma forma contradizer isto, porque não há verdades absolutas. O que é hoje verdade, amanhã deixa de ser. Hoje em dia nem sabemos bem o que é verdade.

É verdade que no Alentejo sentes-te do norte e no norte sentes-te do Alentejo.

Sim, eu tenho este síndrome do imigrante. No Alentejo sinto-me um imigrante, porque já Apesar de já lá estar há bastantes anos. No início não sentia isso que sinto agora. Quando estou a chegar de carro ao Alentejo, acontece todas as semanas, tenho uma sensação de pertença, mas também quando estou a chegar ao Porto ou à Aveiro, onde eu tenho as minhas raízes, também tenho a mesma sensação de pertença. Por isso é algo estranho, mas de facto sinto-me. No Alentejo olham para mim como o tipo do norte, no norte olham para mim como o tipo do Alentejo. Sempre foi nisto que eu vivi toda a minha vida.

Cresceste na cidade do Porto. Quando é que o campo te chamou?

Eu não sinto que tive propriamente esse chamamento do campo. Houve uma altura que talvez sim, até logo no início da minha carreira, que eu fui viver para Castro Verde, que trabalhei na Herdade dos Grous, mas rapidamente esse lado romântico que nós temos do campo se desvaneceu. Eu gosto do campo. Tenho essa sensação de pertença, gosto da calma do campo, mas não me considero alguém do campo e não sinto que tive esse chamamento. Foi uma coisa que aconteceu naturalmente.

O que te fez seguir Enologia, então?

A Enologia tem esse lado da natureza, mas tem um lado criativo também. Pareceu-me uma combinação interessante e as coisas foram acontecendo naturalmente. Lógico que quando temos 17, 18 anos e temos que decidir a nossa vida e os nossos interesses principais são outras coisas que não o que vamos ser para o resto da vida, as coisas foram acontecendo de alguma forma inconsciente, mas no meu caso eu tive sorte.

E vens de uma família que não está diretamente ligada aos vinhos.

Não está diretamente ligada aos vinhos, por isso foi uma opção pensada e que correu bem.

Como é que os teus pais reagiram quando chegaste a casa e disseste: "Vou seguir Enologia"?

Reagiram bem. Na altura, a Enologia estava a começar a ter um certo charme. Antes tinha ouvido falar nisso, mas na altura estava a começar a ter um certo charme.

O que eles faziam?

Os meus pais são os dois advogados, embora o meu pai trabalhasse com-

Com rolhas?

Com rolhas.

É verdade que foste um adolescente terrível?

Sim, eu muitas vezes brinco que se o meu filho fizesse metade daquilo que eu fiz já vai ser complicado. Acho que não fui um adolescente fácil, mas também tive sorte no caminho que percorri e as coisas não me correram tão mal, mas fiz muitas asneiras, que são típicas dessa altura.

Estudaste Enologia na UTAD. Como é que surgiu a oportunidade de ir estagiar na Quinta do Noval?

Na altura, eu tinha uma professora, que era a Maria Serpa Pimentel, que foi uma professora que me marcou imenso e que indicou várias pessoas para várias quintas, para fazer o estágio, para terem o seu primeiro contacto com a indústria do vinho, e indicou-me para a Quinta do Noval. Comecei no Douro, exatamente.

Como é que foi essa experiência?

Foi uma experiência bastante dura. Lembro-me perfeitamente no primeiro dia que cheguei a casa, não chorei, mas quase que chorei. Era extremamente cansativo. Para um menino da cidade, ter uma experiência de vindimas no Douro é algo pesado. Na altura, as assimetrias regionais eram muito grandes, as pessoas do Douro eram pessoas duras também, naturalmente, e foi uma experiência importante, mas definitiva para o meu percurso.

A seguir vais para a Austrália.

Sim, estive na Austrália um ano e tal. Foi uma experiência ótima. Na altura, estamos a falar de 2003, 2004, ser enólogo da Europa na Austrália éramos muito bem recebidos. Eu lembro-me quando cheguei lá, vivi em McLaren Vale, que era uma terrinha com a lojinha do azeite, a lojinha dos vinhos, a três minutos de praias fabulosas. Foi uma experiência ótima.

Conta-me uma história dessa experiência.

Lembro perfeitamente uma história engraçada. Antes de começar propriamente a primeira vindima, nós íamos sempre à praia, a equipa lá daquela adega, que era a Tintara, e estávamos a ir para a praia, nadávamos, e um dia resolvo pôr uns óculos de snorkeling e fazer snorkeling. Fiz snorkeling e vi tanta bicharada que nunca mais entrei na água na Austrália. De facto, a natureza lá é muito impressionante.

E como é que vens depois parar ao Alentejo?

Quando chego cá, a minha ideia era chegar da Austrália, estar cá algum tempo e fazer uma outra vindima para uma outra geografia. Mas, no entretanto, pensei: "Tenho que fazer alguma coisa". E enviei o meu currículo para um projeto que estava a começar, que era a Herdade dos Grous, estava mesmo a arrancar e começou logo aí. E o que eu pensei que ia ser só mais uma vindima, passou a ser um projeto onde estive nove anos.

E continuas até hoje no Alentejo. É verdade que gostas muito de viajar?

Gosto muito de viajar. Acho que viajar é importante, ter mundo é importante. E fico muito contente do meu filho e da minha mulher partilharem o mesmo gosto. Eu viajo muito em trabalho, viajamos muito em lazer.

Planeiam as viagens?

Essa é mais a minha missão. A minha mulher confia em mim, a Catarina confia em mim, mas para mim, grande parte do gozo da viagem não é só a viagem em si, mas é todo o planeamento dessa viagem. Eu planeio com muita antecedência.

Procuras hotéis, restaurantes.

Para ter uma ideia, nós já estamos a planear a nossa viagem de final do ano e eu já tenho os hotéis mais ou menos definidos, os restaurantes marcados para cada dia. Sou um bocadinho obcecado.

Onde é que vão?

Vamos para a África do Sul e já está tudo mais ou menos alinhado.

Aproveitam sempre para ver adegas?

Sim. O meu filho às vezes acha graça, outras vezes não, mas em quase todas as viagens visitamos uma ou duas adegas.

Gostarias que ele fosse enólogo?

Eu gostaria que ele fosse o que ele quisesse ser. Acho que temos que seguir os nossos sonhos. E é muito importante que ele siga alguma coisa que goste. Ele gosta dos vinhos e Naturalmente ficaria feliz se ele seguisse os vinhos, mas se quiser seguir outra área, ficarei da mesma forma feliz.

Por falar em sonhos, qual é o teu maior sonho?

O meu maior sonho, a nível profissional, estamos aqui a falar disso, é transformar a marca Rocim, que agora é uma marca irreverente, numa marca clássica, num clássico incontornável dos vinhos de Portugal.

O tempo passa a correr e o nosso está a chegar ao fim. Já a seguir, o espaço que nos ajuda a saber o que fazer na hora de sacar a rolha. "Saca-dúvidas". Pedro, o vinho de talha é ideal para que momento?

Não há um vinho de talha, existem vários vinhos de talha. A maneira como cada enólogo interpreta este vinho de talha. Vou falar dos nossos vinhos de talha, dos vinhos de talha da Herdade Rocim, que são vinhos mais leves em termos de álcool, mais ligeiros, por isso são vinhos muito versáteis. São vinhos que funcionam com uma conversa, sem comida, funcionam muito bem, mas também como têm esta frescura, esta acidez e esta rusticidade, conseguem acompanhar pratos mais simples, mas também pratos mais robustos.

O vinho de talha é um vinho de guarda?

No nosso caso, e mais uma vez, lá está, depende muito da interpretação de cada enólogo para o vinho de talha. No nosso caso, como são vinhos com uma acidez bastante marcante, algum tanino da maceração que fazem até ao dia 11 de novembro em contacto com as películas, são vinhos que aguentam muito bem. O vinho de talha foi desenhado, geralmente, para ser consumido no próprio ano, mas nós temos engarrafamentos de vinhos que têm agora de 2011, 2012, e os vinhos estão ótimos, ou seja, são vinhos que envelhecem muito bem.

E assim chegamos ao fim deste "Tinto no Branco", com Pedro Ribeiro, CEO e enólogo da Rocim, até há pouco Herdade do Rocim, com epicentro no Alentejo, na Vidigueira, e vinhos espalhados pelo país inteiro. Eu sou a Ana Sofia Fonseca e todas as semanas trago-vos uma pessoa, uma história do mundo do vinho. "Tinto no Branco" passa na Rádio Observador às quintas-feiras, depois das 11 da noite, e está sempre disponível em podcast. Siga, partilhe, despeja e brinde conosco. Obrigada, Pedro, por teres vindo.

Obrigado.