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Então à nossa. Obrigada por teres vindo. Por que trouxeste este Carvalhas Vinhas Velhas de 2021?

Muito boa tarde. Este Carvalhas Vinhas Velhas 2021 representa para mim um grande símbolo, que é a forma de eu me sentir grato por aquilo que hoje sou. De facto, pela forma como a Quinta das Carvalhas proporcionou-me, as pessoas, o projeto em si, proporcionou-me uma experiência muito grande. Hoje grande parte daquilo que eu sou e sei, devo em parte às pessoas que trabalharam comigo na Real Companhia Velha, nas Carvalhas, e também ao projeto em si. Por isso é uma grande gratidão para mim trazer aqui este vinho.

Bem-vindos ao "Tinto no Branco", um podcast observador. Todas as semanas brindamos com um convidado diferente, sempre uma história de vida, uma vida com história. E ainda algumas dicas úteis para saber mais na hora de abrir uma garrafa. O mundo do vinho português, Tinto no Branco. Eu sou a Ana Sofia Fonseca e comigo está Álvaro Martinho Lopes. É um dos nomes mágicos da viticultura em Portugal. Com as raízes e o coração no Douro, sabe como poucos dos socalcos desta região, uma das mais antigas do mundo. Aos 53 anos é diretor de viticultura da Quinta das Carvalhas e da Quinta de Sidó. E aventura-se nos seus próprios vinhedos, na guitarra e na harmónica. Álvaro, além do vinho, trouxeste um fular caseiríssimo, a guitarra e a harmónica. Não vamos acabar o programa sem te ouvir tocar e cantar, mas antes gostava de te ouvir falar. Muita gente diz que o vinho se faz mais na vinha do que na adega, mas o nome do viticultor não vem no rótulo. O que achas disto?

Não sinto muita ciumeira, porque de facto o viticultor e o enólogo têm que fazer uma parelha. Há uma menos visibilidade da viticultura, mas hoje penso que esse aspecto não se nota tanto. Acho que hoje a viticultura está na moda, todos nós sabemos que o vinho se faz na vinha. A gente ver o nosso nome ou não ver o nosso nome, para mim, no caso pessoal, não é muito relevante.

Já tivemos os enólogos superstar, os chefs superstar, qualquer dia vamos ter os viticultores superstar.

Por que não? Se a música for um veículo, por que não? Aí nesse aspecto já estou um pouquinho à frente.

Música é contigo. O vinho é um trabalho de equipa?

É um trabalho de equipa. É fazer uma interpretação pura daquilo que é a natureza da cultura da vinha.

Viticultor é uma profissão que nem todos conhecem. Explica-me o que um viticultor faz ao certo.

O viticultor eu diria que é uma pessoa que consegue olhar para a vinha com o propósito de entender toda a biologia que a acompanha, todo o seu perfil fotossintético, metabólico, associado ao clima, ao solo, à geologia do solo, à insolação. Portanto, um viticultor, no fundo, pretende introduzir mais ciência para tentar entender aquilo que nos parece óbvio, mas não é muito óbvio. E portanto, a ciência dá-nos respostas muito mais precisas. E o viticultor o que faz é associar a ciência à natureza da cultura da vinha.

A viticultura tem evoluído muito?

A viticultura tem evoluído muito e neste passo de evolução ficamos a entender que muitas das coisas que se faziam no passado, porque no passado havia um ingrediente importante que era tempo, havia tempo para pensar, tempo para observar. Muitas das coisas que hoje fazemos, depois de evoluirmos e de aplicarmos a ciência, estamos nos a repetir. Isso em muitos procedimentos. Posso citar: andamos 30 anos a implementar um sistema de poda, por exemplo, que é o sistema de poda em cordão. O sistema de condução em cordão é um sistema ótimo para uma folha de Excel, mas se nós analisarmos com o olho clínico de um viticultor, apercebemo-nos de que o cordão é ótimo para a mecanização, para a insolação, para maximizar os trabalhos, nomeadamente trabalhos de dedos e de mãos, porque está tudo concentrado no mesmo nível. Mas a videira responde mal ao cordão. Portanto, hoje no Douro consigo ver vinhas com 30 anos, velhas. Vinhas tão velhas.

Para quem não sabe, explica-nos o que é isso.

É um sistema de condução implementado, antigamente dizíamos que era poda CIE, que é muito fácil de fazer, muito fácil de podar. As pessoas mesmo que não entendem muito da definição de carga, controle de vigor, aquilo é muito fácil de fazer, mas a maior parte das videiras não gosta. E portanto, hoje eu estou a voltar ao passado, estou a reintroduzir novamente os sistemas de condução tradicionais, nomeadamente o Guyot Simples. Estou a começar a reintroduzir novamente nas novas plantações o sistema radicular, que é o Rupestre ou Tilóide, que foi abandonado nos últimos 20 anos. Por quê? Porque estas duas combinações, o sistema radicular e o sistema de condução em Guyot, faz com que a vinha se proteja muito mais com o elevado índice de aridez que vimos assistindo nos últimos anos. Basta olhar para as vinhas velhas, são podas resultantes do Guyot, e hoje temos vinhas com 90 anos, muitas vezes mais saudáveis Quando olhamos para vinhos com 40 anos.

Aliás, estamos a beber um vinho feito com vinhas velhas.

Este vinho que nós estamos aqui a beber é um vinho que vem de duas vinhas, uma vinha que tem 112 anos nas Carvalhas e outra com 97, todas a cota baixa e numa exposição norte-nascente.

A videira é a tua grande preocupação.

A videira é a minha grande preocupação. O controle do vigor, a manutenção das vinhas velhas é muito difícil por ser vinhas tradicionais, difíceis acessos.

Não entra lá máquina?

Não entra máquina, custos elevados de operação. Nós gastamos cerca de 750 horas por hectare, por ano, para produzir menos de três toneladas de uvas, por vezes duas toneladas. Portanto, para produzir esta garrafa de vinho, nós tivemos que usar talvez três a quatro videiras. Quatro capaz de ser um exagero, mas três certamente sim. Contando que cada videira produza cerca de 300 gramas, corresponde mais ou menos a três ou quatro cachos, ou às vezes menos.

Numa garrafa, três videiras.

Sim, numa garrafa, três videiras. Não se pode comparar a região do Douro com outra, nesse aspecto e noutro.

E não se pode achar que um vinho é caro.

Não, os nossos vinhos, os vinhos Douro são baratíssimos.

Para o trabalho que dá.

Para o trabalho que dá.

Muitas vinhas têm estações meteorológicas. São uma grande ajuda.

É, a estação meteorológica é uma grande ajuda. Ciência. Quanto é que choveu ontem? 12 milímetros ou 17? A nossa percepção não dá. O número de horas de sol, a temperatura média, a temperatura máxima, a velocidade do vento. Tivemos vento? Secou a videira? Portanto, a estação meteorológica dá-nos informações preciosas para tomadas de decisões.

Para os enólogos, a vindima é o momento-chave, o momento mágico do ano. Para ti, qual é?

O viticólogo tem um período bastante preocupante, que é entre maio e julho, onde temos três operações muito consumidoras de mão de obra e de preocupações e associamos isso aos tratamentos fitossanitários. Além disso, hoje em dia, com a redução de uso de herbicidas, em muitas vinhas quase a zero, associamos uma outra operação que é o controle do coberto vegetal. É um período de maio até julho, com muita intensidade, com muitas operações a fazer num curto espaço de tempo.

Em agosto podes ir de férias descansado.

Agora nem tanto, porque em agosto já começamos com as vindimas.

Como é que decides que está na hora de começar a vindima?

São dois parâmetros muito interessantes. Primeiro, o controle de maturação, que é feito de uma forma abrangente, todas as parcelas, todas as castas. Temos o histórico das análises físico-químicas, isto é, o açúcar, a acidez, o pH, mas depois, nas grandes parcelas para fazer os grandes vinhos, temos que fazer a chamada prova de bagos. A prova do bago, a prova do sabor, do equilíbrio, da densidade, da fruta. E tudo isso vai ser decisivo para vindimar amanhã, ou daqui a dois dias, ou daqui a uma semana.

Ou seja, andas pelas vinhas a provar as uvas.

Eu e o enólogo, neste caso, o Jorge Moreira.

Quem é que decide que vai começar a vindima?

É o Jorge, mas ele ouve muito a minha opinião.

Falavas em equilíbrio. É uma palavra bonita, um estado difícil de alcançar?

É. O equilíbrio não é fácil. Com o tempo, nós vamos apercebendo.

Nas uvas ou na vida?

Na vida, depende das pessoas. É evidente. Eu tento estar o máximo possível equilibrado. Tento, acho que sou uma pessoa equilibrada, sem dúvida, mas às vezes a vida também não corre como nós queremos e andamos um bocadinho mais para a direita, ou mais para a esquerda, mais para norte, mais para sul, mas o ponto de equilíbrio é fundamental para tomarmos decisões importantes. Na vinha, aquilo que eu observo é que, de facto, a idade da vinha faz com que o equilíbrio seja muito mais facilmente alcançável. Isto é, se me perguntarem qual o parâmetro mais importante para definir se uma vinha está equilibrada ou se não está, o nível de produção é importante, a expressão sensitiva é importante, mas o mais importante é o peso da lenha de poda. O peso da lenha de poda dá-nos uma indicação clara do equilíbrio de uma vinha.

Explica-me lá isso melhor.

Para fazer um grande vinho, são várias condicionantes que nós observamos na vinha. Se nós tivéssemos uma cave com 1000 vinhos e se nós pudéssemos escolher os melhores 100 vinhos tintos, eu diria que desses melhores 100 vinhos tintos, mais de 90% desses vinhos, porque há sempre espaço para exceções, seriam oriundos de castas tintas, portanto, longas, de ciclo longo, de regiões quentes, de vinhas que não são regadas, de variedades nativas. E a outra condição, acho muito importante e fundamental, seriam vinhas velhas, que são aquelas que têm mais equilíbrio. E esse equilíbrio pode-se definir pelo peso da lenha. Para fazer um vinho de grande gabarito, de grande longevidade, de grande identidade de lugar, na minha opinião, não pode pesar mais do que 60 gramas. Isto é o tal equilíbrio.

Quando é que te apaixonaste pelas vinhas?

Desde miúdo. Eu nasci em Covas do Douro, uma aldeia vinhateira em que a discussão, os assuntos da família, os assuntos da rua, os assuntos de quando eu era jovem, era vinha. Era uma aldeia vinhateira, em que inevitavelmente o que se falava desde manhã até à noite, de janeiro a janeiro, era vinha, as suas estações, se era altura da poda, falava-se da poda, se era altura da colheita, era altura da colheita, e falava-se sempre os mesmos assuntos na mesma altura do ano, como hoje acontece. Ou se odeia ou se ama. Nós começamos a amar aquilo de uma forma umbilical. Eu gosto da vinha de uma forma umbilical.

Numa aldeia vinhateira, presumo que os teus pais também trabalhassem com vinho.

Com vinho não, os pais trabalhavam com vinha. Nós éramos viticultores na região de Marca de Douro, numa família muito grande. Somos sete irmãos e dependíamos diretamente da vinha.

Continuam todos ligados à vinha?

Quase nenhum.

Como é que eras em miúdo?

Era traquina. Era mesmo um miúdo diabólico. Era muito fora da caixa. Já na altura era muito fora da caixa, era um miúdo muito atravessado. Nasci na década de 70, estou a falar da minha vida no final dos anos 70, 80 até aos anos 90. Era um rebelde, era um rebelde feliz, muito feliz.

Foste o miúdo das plantas e és o homem das plantas.

Sim. As plantas para mim dizem muita coisa. A história do Douro é conhecer a história das plantas.

Ensinam-te também sobre os homens?

Muito. A história das plantas ensina muito. Eu posso talvez perceber como é que um vinho é tão bom e tem tanta longevidade. E isso deve-se, certamente, a que as plantas que o produzem, as vinhas, despertem genes de sobrevivência. E esses genes de sobrevivência só são despertados quando alguma coisa exterior à planta, independentemente das condições climatéricas ou solo, põe em causa a sobrevivência da própria planta. E a resposta da planta é produzir sempre menos, mas produzir com metabolitos, com densidades, com aquilo que nós chamamos qualidade, são ímpetos de resiliência da planta.

Como é que era o Douro da tua infância?

Era pobre. Pobre e triste. Só dei conta disto muito mais tarde, porque nós estamos embrenhados naquela região e amamos a região, porque a informação que nós temos é que a região do Douro era a melhor região do mundo. É a região mais luminosa, o vinho do Porto é o vinho melhor do mundo e nós amamos a nossa região, porque é a nossa região, como amamos a nossa terra, como amamos a nossa família, os nossos pais, os nossos irmãos, os nossos amigos. Quando em 97 fui chamado pelo Pedro Soares para a Real Companhia Velha, ele fez-me um bem precioso, que foi me oferecer umas viagens lá para fora. E quando eu faço as primeiras viagens, eu começo a ter consciência daquilo que nós somos e daquilo que nós éramos. Quando fui à Ribeira del Duero, em 99, é uma região que ficava a três horas e meia do sítio onde eu trabalhava, onde eu nasci. Fui recebido por uma mulher lindíssima, com um vestido por cima do joelho, flor no pescoço, abriu um portão elétrico com jardins lá dentro, na vinha. Levou-nos para uma sala de provas espetacular, diferentes copos, diferentes estilos de copos, diferentes temperaturas nos vinhos. Eu olhei para aquilo e fechei os olhos e imaginei a minha região assim: nós estamos no século XIX. E percebi logo ali, porque eu era pouco viajado, porque os nossos pais não tinham possibilidades para o fazer, eu venho de uma família humilde, normal, como todos éramos. Ali tão perto de nós e comecei a perceber. Depois fui à Suíça, fui à Alemanha, fui à Itália e aquilo marcou-me muito mais. Realmente a região do Douro, se eu tivesse que arranjar uma cor, eu colocava a cor cinzenta no Douro. Estávamos muito atrasados, tínhamos pouca cultura de vinho. Era praticamente só vinho do Porto. Não se bebia vinho, não se bebia vinho à temperatura correta, não havia cultura nenhuma de vinho. As quintas também. A gente entrava nas quintas, não havia gemer cultural, não havia aquele sentido de propriedade bonita, uma propriedade ajardinada, as vinhas com sustentabilidade, com arrallvamento, cuidados ambientais. As pessoas que trabalhavam conosco eram analfabetas, muitas vezes eram fracas condições de trabalho. E aquilo para mim era sufocante e, de facto, o Douro era aquilo.

E hoje, qual seria a cor que darias ao Douro?

Verde esperançoso. Nós, nos últimos 25 anos, eu não estou a dizer que eu fiz, o Douro fez mais nos últimos 25 anos do que nos últimos 100.

E assim chegamos ao final da primeira parte. Regressamos já de seguida para continuar a conversar com Álvaro Martinho Lopes, homem da viticultura e do Douro. Haverá ainda tempo para o ouvir tocar. Para o Saca-Dúvidas, momento certo para conhecer o que precisa, para brilhar na hora de sacar a rolha. Até já. Bem-vindos de volta ao Tinto no Branco, um podcast Observador. Eu sou a Ana Sofia Fonseca e aqui comigo está Álvaro Martinho Lopes, que muito sabe de viticultura e das singularidades do Douro. Daqui a pouco vamos descobrir a sua faceta de músico. Teremos ainda Saca-Dúvidas, o espaço em que todas as semanas partilhamos dicas úteis para a hora de abrir uma garrafa. Mas vamos começar pelo vinho que o Álvaro nos trouxe: Carvalhas Vinhas Velhas de 2021. Com o que este vinho te sabe bem?

Este vinho sabe-me bem em qualquer altura do ano. Sabe-me bem acompanhar com carnes, queijos, cabrito no forno, um bom costeletão de vitela, carnes fortes, densas. Este vinho é muito complexo.

É maravilhoso.

É maravilhoso, este vinho é espetacular. Tem o Douro.

O que o Douro tem de especial?

O Douro é como se fosse uma equação de terceiro grau ou mais. Primeiro de tudo, temos que nos centrar e temos que nos distanciar um bocadinho Na região do Mercado do Douro e afastar um bocadinho da vinha e olhar para o território. Há duas semanas atrás, ou três semanas atrás, em pleno agosto, nós tivemos temperaturas de 40 a 42 graus centígrados. Por vezes até temos 45 graus centígrados. E não nos vamos esquecer que passadas cinco semanas, cinco meses, em dezembro, naquele mesmo lugar, àquela hora, nós temos geada. Temos temperaturas abaixo de zero. Nós, em julho e agosto, temos uns calções, umas mangas curtas, estamos mais frescos, até estamos à sombra. Mas no inverno, quando estamos lá, temos cachecol, temos três mangas, temos um sobretudo, temos umas botas. Mas muitas das plantas que estão no mesmo sítio, não têm possibilidades de mudar de roupa e permanecem no mesmo sítio, muitas vezes com folha permanente, é suportar -2, 0 grau centígrado no inverno e é suportar 45 graus centígrados. Mas associamos depois o clima a um solo inclinado, pH ácido, matéria orgânica não existe, é menos de 0,5% naqueles socalcos, naquelas encostas, e descrevemos sempre a região como condições extremas e parece que estamos a descrever um sítio onde não há vida, não há muita vida, as plantas parece que não gostam daquilo. Mas quando nós nos deparamos com o lugar onde o homem não tocou, onde temos a floresta, a mata mediterrânica, nós ficamos embeiçados, enojados, admirados. Como é que naqueles lugares que nós acreditamos que é tão extremo, nós conseguimos encontrar mais de 1200 espécies de plantas pertencentes a mais de 155 famílias de plantas? Para comparar, se pego no meu carro e vou para Amarante, que fica no limite da região de mercado do Douro, é tudo muito mais suave, pelo menos até agora. Chove talvez mais, alguns solos são muito mais férteis e nós podemos lá encontrar talvez menos de 20% do número de plantas que temos ali no Douro. A grande explicação do Douro é: o que é que uma planta ganha estando naquele território? Qual é o ganho de uma planta? Depois disso, nós olhamos para a vinha com outro olhar, com outro olho clínico, porque a vinha, o que é a vinha? A vinha é uma planta, a vinha é um arbusto, é uma vitácea e, portanto, ela está entre a evolução. A vinha talvez queira ser uma árvore, uma evolução. As plantas é como as sociedades, uma luta de classes. As ervas querem ser arbustos e os arbustos anseiam ser árvores. Portanto, é uma questão de dominância, uma questão de querer ser melhor. E portanto, a região do Douro é uma região que apresenta o território em tridimensão, isto é, nós fazemos parte de uma viticultura de montanha e essa viticultura de montanha corresponde a uma minoria, portanto, cerca de 15% da viticultura do mundo é que é inclinada. Nós temos norte porque temos sul, nós temos sul porque temos norte. E portanto, quando nós olhamos para o território em tridimensão, começamos a imaginar o gráfico cartesiano, mas estamos a ver uma reta do Z que rasga entre o X e o Y e que faz com que tudo seja difícil.

Quando é que percebeste que a viticultura estava na tua bússola?

Nós estamos ainda a entender a viticultura do Douro. Há muito por saber, há muito por explorar. Basta olhar para as mais de 120 castas que nós temos, maioritariamente são nativas. Eu conheço muitas castas, mas eu conheço talvez metade das castas, o que é muito, mas para mim é pouco, eu gostava de as conhecer todas. Mas dos últimos 20 anos, ando com os estudos com o professor Antero e com toda aquela equipa na DVID, a procurar castas. E nos últimos anos, nós demos conta que além das 120, temos mais umas quatro ou cinco castas nativas que são incógnitas. Não existe uma referência ao código genético. Significa que são castas velhas, mas são novas. Significa que a região do Douro tem uma aptidão para a vida biológica que impressiona.

Álvaro, com que idade é que começaste a trabalhar?

Muito cedo. Eu saí de casa com 17 anos, 18 anos para estudar. Eu sou de uma família muito grande, humilde, trabalhadora. Os meus pais ensinaram-me os valores mais importantes para a vida, que é a educação, a honestidade, o valor do trabalho, que era muito importante. O valor, como é que nós dispensamos o tempo. A valorização do trabalho foi muito ensinada pelos meus pais e eu saí de casa muito cedo para estudar.

Na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro?

Não, primeiro fui para o Instituto Politécnico de Bragança. Em 89, estive no Instituto Politécnico de Bragança e é um episódio pessoal que eu posso confidenciar, não há segredo nenhum. Os meus pais com muitos filhos, evidentemente que os dinheiros não abundam na década de 80, 90, era do pouco. Nós fizemos como as plantas, as plantas têm uma coisa ótima, têm uma regra ótima que é ajustam as necessidades àquilo que têm. E nós também temos que fazer o mesmo. E nós também vivíamos bem, mas sem excessos. E então há um dia que eu precisava, uma semana, um mês, que eu precisava 30 contos. Eu, como caso de pena do agregado familiar do meu pai, pedi 20, meu pai deu-me 16. Eu tive pena do meu pai. E comecei a trabalhar, comecei a perceber que tinha que trabalhar, tinha que ser independente. Trabalhar em algumas coisas, na viticultura, trabalhar na vinha, ser cantor numa banda. Imagina-me nos anos 90 Com uma camisa com lantejoulas e a cantar nos grupos do baile, a vender sapatos. Fiz muita coisa na vida e isso ensinou-me muito a dar valor às coisas, a relacionar-me com as pessoas, porque é muito importante.

Vendias sapatos como?

Na altura da faculdade, havia algumas sapatarias que estavam a fechar e eu chegava lá, arrematava as botas e os sapatos todos e depois vendia a colegas e amigos meus por cinco vezes mais o preço. Por acaso, numa altura tive sorte com aquelas botas texanas que estavam na moda. Arrematei 50 pares e vendia dez vezes mais caro e ganhava muito dinheiro. Tinha que me desenrascar.

Encontro aí um espírito empreendedor.

Eu gosto de vender e tenho um bocadinho este lado de venda. Eu sinto-me muito feliz quando consigo fazer vendas de vinhos. Isso dá-me um certo prazer.

E cantavas num grupo que tocava em bailes?

Sim, bailes de aldeia. Vidas normais, vidas boas. Tive uma vida ótima.

Entretanto, começaste a tratar das tuas próprias vinhas e a produzir os teus próprios vinhos no Baixo Corgo, por exemplo, Mequia e Mafarrlico. De onde é que veio a ideia de produzir vinhos?

Tudo acontece de uma forma muito natural, porque sendo nós viticultores e fazendo contas para a empresa onde trabalhamos, para a Real Companhia Velha, e fazendo contas também para nós, fazemos um copy e paste. Nós cedo percebemos que sendo nós parte da região, sendo pequenos viticultores, sabemos que não é rentável vender uvas. Eu, como viticultor, tinha que dar a mim próprio também um certo destino àquilo que era o nosso pequeno património vitícola. Também desde muito cedo eu percebi que ser independente, termos a nossa independência económica, é ótimo até para sermos melhores. E então, em 2006, eu comecei a cuidar das propriedades, não no sítio onde eu nasci, em Cova de Douro, mas na Cumieira, no Baixo Corgo. Comecei a arrendar umas vinhas à família. Daí comecei a comprar pequenos bocadinhos. Terminei de adquirir vinhas até o ano passado. Hoje o meu património vitícola são oito hectares de vinha e comecei a fazer o meu primeiro vinho com o Dirk Niepoort. A ele também devo esta gratidão. Várias pessoas eu devo gratidão, ao Jorge, ao Pedro Sousa Reis, ao Jorge Moreira, ao Dirk também. E o Dirk foi a primeira pessoa que eu conheci dos vinhos em 2007, 2008, e tive uma discussão enorme com ele, em casa dele, uma discussão de viticultura. Eu, como estava em casa dele, afrouxei. Combati muito, até que cheguei a uma altura em que íamos passar para a etapa seguinte e ele sabia que não era muito correto. Então eu afrouxei um bocadinho. Passados três ou quatro dias, o Dirk passou por mim no Pinhão, cruzamos o carro e ele disse-me: "Álvaro, ainda estás zangado comigo?" Eu disse: "Claro que não, não estou zangado contigo. Ninguém se zanga contigo". Então ele olhou para mim muito fixamente e disse: "Mano, eu quero fazer um vinho contigo". E comecei a fazer o primeiro vinho, que foi o Mequia. E o Mequia por quê? Porque o Mequia é a parte da produção que nós usamos para pagar um serviço. E eu decidi que aquela produção era para pagar o meu serviço, para ter o meu consolo. O primeiro Mequia nasceu em 2008 com o Dirk. Depois, em 2010, 2011, 2012, nasceram os Mafarricos, com a ajuda do Jorge Moreira e com a Real Companhia Velha, que é onde eu faço os meus vinhos. Tudo muito simples, são quatro referências.

Já te ouvi dizer que são uma produção de garagem.

É uma produção de garagem. São 12 mil garrafas, 15 mil garrafas só. Tem o exclusivo, não é muito.

Conhecendo o Dirk e o Jorge, imagino que vocês se divirtam muito a fazer os vinhos.

Muito. São vinhos de autor, são vinhos de vinha, são vinhos que não temos pressa em fazer. Também se num ano que não correu bem, não se faz. Só se faz mesmo quando acharmos que é o perfil do vinho, que corresponde ao perfil da vinha e que corresponde ao perfil do ano climático. Não quer dizer que seja o melhor dos melhores. Tem que corresponder ao ano climático e à vinha.

O rótulo do Mafarrlico tem um miúdo a correr com um cão.

É, isso é autobiográfico.

Calculei.

É puramente autobiográfico. Eu era assim, era como muitos miúdos. A minha mãe chamava-me Mafarrlico. Mafarrlico era um miúdo travesso, um miúdo que andava sempre na lua, andava sempre em cima das árvores, a conhecer ninhos, passarinhos, plantas e tive uma vida muito feliz quando era miúdo.

Para um viticultor, as alterações climáticas são uma preocupação a crescer.

É uma preocupação diária. A região Demarcada do Douro é das regiões do mundo mais bem preparadas para essa grande catástrofe que é as alterações climáticas.

Quando ouves políticos a dizer que não existem, o que é que tu pensas?

Temos que baixar os pés na Terra e analisar o clima. Eu analiso o clima, tenho gráficos do clima desde o ano 2000 até hoje. Temperatura média, temperatura máxima, temperatura mínima, média das máximas, média das mínimas, a precipitação, a distribuição da precipitação ao longo do ano. O que nós analisamos é que o nível de precipitação tem permanecido quase igual. Temos regimes de precipitação bons, à exceção do ano 2022, que choveu quase metade daquilo que chove em um ano inteiro. Em termos de precipitação, está bom. O que está a alterar é o índice térmico. Temos grandes temporadas, semanas em que a temperatura máxima e a média das máximas sofreu um acréscimo quando comparamos, por exemplo, 97. E isso, 98, 2000, 93, 92. Olhamos para os nossos trabalhos em que, na altura, havia a prática da desfolha. Como é que passados 20 anos a desfolha é uma coisa que não se faz. Por quê? Porque o clima mudou. Hoje ninguém desfolha.

Já ouviste falar de quem anda a comprar vinhas em sítios como Inglaterra? O que achas disso?

Acho bem. Tudo que é experimentação é ótimo. Com o clima a mudar, existem no panorama mundial regiões emergentes e regiões em que tradicionalmente tinham vinho e que eram regiões quentes, hoje em dia, só com o acesso à água e à irrigação é que podem salvaguardar a vida da própria planta. Temos hoje exemplos de que regiões em Portugal como o Douro Superior, muitas vinhas do Douro Superior, se não houver irrigação, o que acontece é que se põe em questão a sobrevivência da própria cultura da vinha. O perigo é enorme.

Antes que o nosso tempo chegue mesmo ao fim, vamos ao espaço que nos ajuda a saber o que fazer na hora de sacar a rolha. Saca-dúvidas. Álvaro, ouvi dizer que se tivesses de escolher uma última refeição, seria bacalhau assado na brasa com batatas a murro. Qual é o melhor vinho para este prato?

Este é o meu prato favorito e certamente o prato favorito de muita gente. Um bom bacalhau assado na brasa com batatas a murro, com um bom azeite, com uma boa cebola, é um prato que faz salivar. E é controverso relativamente à escolha do vinho. Na minha opinião, claro. Temos que ser vinhos com densidade, com corpo, com textura. E eu é que não me choca escolher um vinho tinto. Este que estamos a beber, por exemplo, não me choca nada, dá-me um prazer enorme. Mas também se fosse um vinho branco, tinha que ser um vinho com estágio. Por exemplo, o Carvalhas Vinhas Velhas dava em aqui. Um bom vinho encruzado dava em um prato de bacalhau assado na brasa. Sempre vinhos, tanto tinto como branco, mas com corpo, com textura, com profundidade, até porque o bacalhau assado com azeite é um prato com muita dimensão.

E agora mudando de assunto, de onde é que vem a tua paixão pela música?

A música faz parte do meu hobby, é um contrapeso da minha vida profissional, que é uma vida profissional muito intensa, muito apaixonante, muito vibrante até. E a música desde cedo, eu sei tocar guitarra, não de pauta, mas de ouvido. Harmónica vem mais tarde. E a música, eu conheci a minha mulher com música, portanto nós fazemos uma parelha.

Num bailarico de verão?

Também.

É bailarino?

Também, dou um pé de dança. E hoje em dia nós temos um grupo de música tradicional portuguesa, que se chama Ramalha de Oliveira, em que eu e a minha mulher e mais cinco elementos damos show durante o ano inteiro. Damos 20 concertos. Eu fiz a recolha de músicas tradicionais portuguesas, desde norte a sul de Portugal, incluindo a nossa vizinha Espanha e Galícia. Músicas com sentido, com amor, com ternura, com apego à terra, muito tradicional, músicas com muito toque celta. E a música para mim é um balanço e é um prazer também.

É a tal história do equilíbrio?

O equilíbrio, sempre equilíbrio.

Vocês tocam onde?

Tocamos em eventos culturais. Toco em minha casa, no meu armazém, na minha garagem onde tenho os meus vinhos com amigos. Toco sempre ao jantar, com provas de vinhos, muitas vezes. Toco eu sozinho, single, para clientes. Mas o meu grupo toca para eventos culturais, abertura de exposições, auditórias.

Não nos mostras uma música? Não nos cantas uma música?

Posso cantar a minha música original, que fiz há mais de 10 anos, que se chama "A Minha Vinha" e que mais tarde veio dar origem a um nome de um vinho que é Maferreira A Minha Vinha.

O vinho também tem a sua melodia.

Sim, claro. Isso é importante. O cheiro da primavera destas vinhas e olivais. A força da natureza não se esquecerá jamais. Em setembro tenho mosto, em janeiro tenho frio. Muita história já se fez nas encostas deste rio. E é nesta vinha onde eu vivo e o vinho que ela fez. Agora não volto atrás, estou feliz mais uma vez. Lararai. Já tentei fazer outra coisa na minha vida. Só que a roda deu um giro e deixou-me no mesmo lugar. Já mudei o meu telefone e até o meu cartão. Já tentei viver de noite, mas só senti solidão.

Que maravilha, obrigada. E é assim, com música, vinho e folar, que chegamos ao fim deste "Tinto no Branco", com Álvaro Martinho Lopes, viticultor, músico, com a vida no Douro. Eu sou a Ana Sofia Fonseca e todas as semanas trago-vos uma pessoa, uma história do mundo do vinho. "Tinto no Branco" passa na Rádio Observador às quintas-feiras depois das 11 da noite e está sempre disponível em podcast. Siga, partilhe, esteja e brinde conosco. Muito obrigada, Álvaro.

Obrigado eu pelo convite e felicidades para todos.