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Então à nossa. Obrigada por ter vindo. Por que trouxe este Castas Escondidas de 2020?
É a última edição, é o bebê mais novo. Castas Escondidas, a primeira colheita foi 2018, esta é a terceira. A ideia é mostrar que o Douro é enorme. Há 40, 50 anos começaram a se estudar as castas, escolheram-se aquelas que se achavam que eram realmente as melhores e que realmente produzem vinhos de grande qualidade, mas se calhar esquecemos um bocadinho as outras. E a ideia foi mostrar que o Douro não são essas variedades e foi utilizar as outras que estão um bocadinho mais esquecidas ou escondidas, daí o nome Castas Escondidas. Castas como a Touriga Fêmea, a Tinta Francisca, o Bastardo, o Rufete, a Tinta Amarela ou algum Mourisco. Tem vinhas velhas. E mostrar que o Douro é uma imensidão de castas e que é possível fazer vinhos com perfis diferentes, com caráter diferente, mas com a alma do Douro. E ao mesmo tempo, protegemos um bocadinho o que é o património do Douro.
Bem-vindos ao "Tinto no Branco", um podcast observador. Todas as semanas brindamos com um convidado diferente. Sempre uma história de vida, uma vida com história. E ainda algumas dicas úteis para a hora de abrir uma garrafa. O mundo do vinho português, Tinto no Branco. Eu sou a Ana Sofia Fonseca e comigo está Luís Sotto Mayor. Em miúdo, o que mais queria era jogar à bola. Depois, seguiu as pisadas do pai e fez-se enólogo. Há 36 anos que o Douro é a sua vindima e quase aposto que já todos provámos um vinho com a sua assinatura. Diretor de Enologia da Sogrape, cabe-lhe a responsabilidade dos vinhos do Porto e do Douro, entre os quais o mítico Barca Velha, Quinta da Leda, Legado, Papa Figos, Planalto e Esteva. Luís, quem não o conhece bem, não o imagina a correr, a levantar uma cadeira de rodas de madrugada. Guarda esta imagem e tantas outras suas, sempre de olho no outro. Solidariedade é uma forma de vida.
Eu sinto-me um privilegiado na vida. A vida tem-me sido, graças a Deus, Nossa Senhora tem-me protegido e tem-me dado tudo aquilo que eu ambicionava atingir. O ser enólogo, conseguir fazer aquilo que gostava. E temos que olhar para os outros que não conseguem. Não podemos ser egoístas, temos que sair de nós próprios e ir ajudar a quantidade enorme de pessoas que necessitam, que não têm aquilo que nós temos. E por isso procuro ser solidário. Não sei se posso dizer o que é que faço como voluntariado. Eu sou visitador nas prisões. A vida não me permite ir todos os fins de semana, mas ainda no fim de semana passado fui visitar os meus amigos que estão presos em Custóias. Muitos deles não têm visitas, não temos nada e nós vamos lá, eu e os meus colegas, dar um bocadinho de alento para o conseguirem ultrapassar uma fase difícil da vida.
O Luís faz isso há muitos anos, porque eu já o ouço falar de visitar reclusos há muitos anos.
Desde 2012, por isso há cerca de 13, 14 anos, mas há quem faça há muito mais tempo do que eu.
Luís deve ouvir histórias. O que é que leva para casa?
Levo o ensinamento. E não é aquela frase feita, que recebo mais do que levo. Mas é verdade que às vezes há histórias de vida tão difíceis e ver muitas vezes o ânimo de alguns, de vontade e de conseguir criarem bom ambiente dentro da prisão, que é o que eu costumo dizer muitas vezes, que saímos mais ricos da prisão do que quando lá entramos. Mais ricos porque percebemos que levamos ali alguma coisa e muitas vezes sentir um dever feito. Há coisas que nos tocam, como por exemplo, há presos que não têm visitas, porque são de Trás-os-Montes, são do Alentejo, são de onde são e a família não tem possibilidades de os ir visitar. E eu lembro-me de estar a perguntar a um, estou a dizer: "Entre eles que têm disputas, aquele não tem visitas?" Ele diz: "Tem, sim, senhora". E eu perguntava: "Tenho-os a eles". Isso a nós é gratificante ver que ir lá, o sacrifício que fazemos, ganhamos, mas também damos alguma coisa àquela gente que está ali.
É preciso empatia.
Sim, é preciso empatia. Às vezes é difícil. Nós não perguntamos o motivo por que lá estão dentro. Às vezes eles explicam-nos, contam-nos e há coisas muito duras. E há outros com que, devo dizer, verdadeiramente criamos empatia. Criamos empatia e criamos amizade.
O Luís tem um currículo cheio. Faz o mítico Barca Velha, o Quinta da Leda, o Esteva, o Planalto, criou o Papa Figos, o Legado. Consegue passar uma semana sem ver alguém a beber um vinho seu?
Olhe, nunca pensei desse ponto de vista. Fazemos o vinho para se beber o vinho e trabalho numa empresa e a empresa precisa de vender o vinho para pagar aos trabalhadores e a mim incluído. Trabalho na Sogrape desde 1989. Fora isso, não penso nisso, penso no vinho mais do que um negócio, penso no vinho como cultura, como modo de vida.
Mas faz parte da sua rotina entrar num restaurante e ver alguém a beber.
Sim, e devo lhe dizer que prefiro entrar num restaurante E ver uma mesa a beber um vinho feito por nós e quando acabam essa garrafa, pedem outra garrafa do mesmo vinho. Para mim, isso é melhor e mais reconfortante do que ganhar uma medalha de ouro num prêmio qualquer ou 90 e muitos pontos numa revista da especialidade. Porque o vinho é cultura, o vinho é tradição e depois o vinho é gastronomia, o vinho é um alimento. E o que nós temos que produzir um vinho, é uma preocupação que temos quando produzimos um vinho, é criar um produto que vá para a mesa para acompanhar uma refeição. Quando fazemos o lote, levamos umas amostras para a mesa ou às vezes até levo para casa para ver como é que o vinho está, como é que acompanha a refeição, se faz aquilo que é preciso, que é para ser um complemento. Se achamos que não está bem, voltamos atrás e refazemos o lote.
Quando é que decidiu ser enólogo?
O meu pai foi enólogo.
Dos primeiros enólogos.
Foi dos primeiros. Meu pai talvez tenha sido o primeiro português, que eu me lembro, a estudar para fora, estudar para França. Foi na altura com um amigo, o Fernando Vanzeler. Trabalhou bastante tempo numa casa de vinho do Porto e depois por vicissitudes da vida acabou por deixar e nunca mais trabalhou em enologia. Mas eu nasci e cresci numa quinta, nos arredores do Porto, onde se produzia vinho. E a magia da vindima, para mim, sempre foi uma coisa mítica, sempre foi um período que eu adorava. Verem preparar as pipas, a vindimar, a verem o fazer empolagar, a pisar. Sempre foi uma coisa que me despertou imensa curiosidade.
Como é que vai parar à Enologia da Ferreira?
Quando voltei de França, estive uns tempos em Lisboa a trabalhar na João Pires, mas o meu sonho era o Porto. E o meu pai falou com um dos administradores da Ferreira e eles disseram para eu ir lá um dia entregar o meu currículo. E eu num fim de semana fui lá deixar o currículo. Passado uns meses, estava numa feira e aparece um dia o José Maria Soares Franco e combinamos um almoço aqui em Lisboa. E ele convidou-me, disse: "Olha, precisamos de aumentar a equipe. Se estiver disposto a ir para cima..." Era o que eu queria ouvir. Fiz as malas e fui para cima. Devo dizer que me aconteceu uma coisa, que fiz a mala, devo ter estado aqui há bastante tempo. A minha namorada, que hoje em dia é minha mulher, ia me levar ao comboio, paramos em casa de uns primos meus. Quando voltei ao carro, tinham me roubado a mala. De maneira que voltei para cima.
Sem mala.
Sem mala, sem nada.
Lembro-me de me ter contado que no primeiro dia de trabalho, quando vai para a Ferreira, vai tão nervoso que quase atropela um homem.
Quase atropelo um homem. Ia a arrancar, estava distraído ou nervoso, já não sei o que é que foi. Quase que eu atropelo uma pessoa que tivemos ali um bocado um momento, não diria de conflito, mas assim um bocado difícil. E quando entro na Ferreira, depois, das primeiras pessoas com quem me cruzo é com essa. Mas devo dizer que ficamos muito amigos.
Qual é a sua primeira imagem da sala de provas?
Primeiro que eu conseguisse me orientar na Ferreira, não foi muito fácil, com aqueles túneis. E a sala de provas para nós era uma miragem, um local de culto, quase, em que só depois de muito sacrifício é que podíamos chegar. E assim era. Às 11 da manhã, eles fechavam-se lá, era o Zé Maria, o Manuel Vieira, o senhor Fernando Nicolau de Almeida, que ainda ia todos os dias à prova, e havia um provador antigo, que era o senhor Adelino. Estavam ali os quatro a provar e depois abriam a porta e nós entrávamos e explicavam-nos o que é que se passava. Passado um ano, ganhei coragem e pedi para estar presente, estar dentro da sala de provas e ouvir num canto. Para mim, isso foi uma coisa extraordinária.
Hoje é responsável pelo mais mítico dos vinhos portugueses. Como é que lida com isso?
Acho que com naturalidade. Eu não nasci dentro de uma pipa, mas se tivesse nascido, acho que não seria de admirar.
O Barca Velha nunca lhe tirou o sono.
Não, nunca me tirou o sono. O Barca Velha é um amigo, é um irmão e sabe que eu gosto dele, ele gosta de mim, por isso nunca me tirou o sono, nunca tive a mínima preocupação. Repare, eu comecei a trabalhar com 20 e poucos anos na empresa, 24, 25. Tirando aquele período em que só podia entrar na sala de provas depois de provarem, comecei a perceber e a ouvir e comecei a perceber, desde logo, quais eram as características e o caráter do vinho. Depois, comecei a ser eu próprio a fazer, a produzir o vinho. É evidente que na altura tinha que ter a bênção do Zé Maria, por isso comecei desde os meus 20 e poucos anos a pôr a mão na massa, digamos assim. Era eu que vinificava já as uvas.
Foi o primeiro vinho tinto português a receber 100 pontos pela Wine Enthusiast.
Sim, foi o primeiro vinho de mesa português a receber 100 pontos por uma revista estrangeira da especialidade.
Lembra-se como é que recebeu a notícia?
Lembro-me, foi em 2008. Lembro-me de estarmos na Provain e aparecer lá o editor, era o Roger Voss, que era o editor-chefe da-
Da revista
...e ele explicou-me porque é que queria dar 100 pontos ao vinho. Tive que guardar aquilo pra mim, porque ainda era segredo, mas realmente vim d'alma cheia. Mas continuo a dizer, melhor do que isso é chegar a um restaurante e ver que as pessoas bebem os nossos vinhos e pedem outra garrafa. É pra isso que vinho é feito.
O Barca Velha é uma referência e há mercados onde é idolatrado. É verdade que no Brasil já lhe pediram autógrafos na rua?
Não foi bem pedir autógrafo, reconhecerem-me na rua, é verdade. Mas isso é por causa do vinho, não é por causa de mim. É por causa do vinho.
Foi no Brasil que fez a maior prova de Barca Velha de sempre.
Foi no Brasil que fiz a maior prova de Barca Velha. Devemos ser as únicas pessoas, ou das poucas pessoas no mundo, que tivemos a oportunidade de provar até hoje todos os Barca Velhas e todos os Reservas Especiais. É porque a prova não foi só Barca Velha. Foi Barca Velha e foi Reserva Especial. Na altura eram 19 Barca Velhas e 17 Reservas Especiais. Todos eles extraordinários, todos eles ainda com alma, todos eles ainda com grande caráter. Eu devo dizer que houve um em particular que me marcou, foi o 1954, que estava extraordinário. 1954, provado em 2019, por isso um vinho já com 60 anos na altura, o vinho estava extraordinário. Inclusive o 1952, o primeiro, eu lembro, era uma magnum, o vinho estava extraordinário. Tive pena de não estarmos a aproveitar o vinho como deveríamos.
Esse é que o levei ao cinema, Zora.
Foi por um motivo muito simples. O vinho veio de Portugal pro Brasil, era uma magnum, e chegou na manhã do evento. Não teve tempo, estes vinhos mais velhos precisam de tempo pros sedimentos irem pro fundo e ser devidamente decantado. Estava ligeiramente turvo, mas estava de uma qualidade extraordinária. Mas o 1954 estava absolutamente incrível.
Uma vez liguei-lhe como uma bomba. O mistério da garrafa desconhecida. Tinham me falado, a garrafeira Estado d'Alma, sobre a existência de um Barca Velha de 1955. Parecia verdadeiro, mas essa colheita não existia, não fazia parte da história do Barca Velha. Lembra-se disso?
Lembro perfeitamente. Lembro de me falar e lembro-me do proprietário das garrafas ir ter comigo, mostrar as garrafas e eu olhando pra elas, não tinha nada aquilo que eu pudesse dizer que poderia que fosse uma falsificação. Aliás, quem é que iria falsificar um ano que não existia? Eu disse: "Olhe, a mim parecem-me verdadeiras, mas vou ter que ver aqui, ver se encontramos alguma coisa". Falei com várias pessoas, o senhor Fernando Nicolau, isto já foi após o senhor Fernando Nicolau de Almeida já não estava há muito tempo, o Zé Maria, que também já tinha saído. Portanto, também não tinha a mínima recordação.
Eu falei com o filho do senhor Fernando Nicolau de Almeida, com o Vito, ninguém sabia.
Ninguém sabia. Até conseguimos encontrar algumas referências a Barca Velha 55, mas nunca como venda, como oferta. Por algum motivo, o senhor Fernando Nicolau de Almeida não quis vender o vinho. Não sei o que é que se teria passado. Nós provamos o vinho depois no Brasil, no Rio de Janeiro, o 1955 estava na prova. Digamos que foi talvez dos Barca Velhas dos anos 50, era o menos bem-sucedido.
Talvez por isso ele não o quis pôr no mercado.
Talvez por isso ele não o quis pôr no mercado. Enfim, é a única explicação que temos. Infelizmente, o senhor Fernando Nicolau de Almeida escrevia pouco, porque se tivesse escrito mais, o seu legado seria, assim é fabuloso, seria um legado fora de série. Excêntrico, mas um homem extraordinário.
E assim chegamos ao final da primeira parte. Regressamos já de seguida para continuar a conversar com Luís Sotto Mayor, uma das principais vozes da enologia em Portugal, responsável por vinhos como Barca Velha e Papa Figos. Haverá ainda tempo para saca-dúvidas, o momento certo para conhecer o que precisa, para brilhar na hora de sacar a rolha. Até já. Bem-vindos de volta ao Tinto no Branco, um podcast observador. Eu sou a Ana Sofia Fonseca e aqui comigo está Luís Sotto Mayor. Diretor de Enologia na Sogrape, assina vinhos como o mítico Barca Velha, Legado e Esteva. Daqui a pouco teremos saca-dúvidas, o espaço em que todas as semanas partilhamos dicas úteis para a hora de abrir uma garrafa. Mas antes vamos começar pelo vinho que Luís Sotto Mayor nos trouxe hoje. Assim, de repente, Luís, qual é a comida perfeita para este Castas Escondidas?
Este vinho tem, como todos os vinhos que nós produzimos, mas este particularmente, porque tem um perfil mais suave, muito elegante. É um vinho muito gastronômico.
O que aconselha?
Eu gosto muito de acompanhar estes vinhos com caça, mas este vinho é mais abrangente Pode ir desde peixe a carne, mas, por exemplo, um bacalhau cozido com grão, com este vinho, é muito bom.
Luís, ontem quando pensava nesta nossa conversa, dei-me conta de que nos conhecemos há mais de 20 anos. Tudo começou por causa do Barca Velha, quando eu andava a pesquisar para escrever o livro.
Lembro-me de irmos para o Douro fazer uma visita, irmos à Leda e jantarmos.
Exatamente.
Beber Barca Velha, já não sei que Barca Velha era, talvez fosse o 95.
95, de certeza.
95 com arroz de lebre.
Exatamente. E foi numa noite em que o Futebol Clube do Porto jogou. Ainda sofre muito com os arremates do Porto.
Ainda ontem à noite estava no Dragão, no meu lugar cativo, a ver o Porto.
Há paixões que não passam.
Há paixões que não passam.
É verdade que em miúdo só pensava em jogar à bola?
Sempre gostei muito de jogar futebol. Infelizmente, não tinha muito com quem jogar em casa, por isso era na escola e aos domingos, antes da catequese.
Na escola, a paixão pela bola trouxe-lhe alguns dissabores.
Na escola, antes de entrarmos, estávamos a jogar futebol. Às vezes, excedíamos e entrávamos um bocadinho depois e era régua dada para certa.
Uma vez contou-me que tinha uma técnica para entrar na sala nesses dias. Já ia aquecer as mãos.
Quando sabíamos que ia nevar, tínhamos que aquecer as mãos, esfregar as mãos, porque no inverno com as mãos geladas, levar umas reguadas logo não era nada brando, não era nada amigável.
E a régua tinha uma história.
Nós lá em casa tínhamos um carpinteiro, trabalhava lá todos os dias e as professoras pediam para eu levar a régua. E eu dizia ao carpinteiro e ele preparava a régua e eu estava ali a vê-lo aperfeiçoar a régua que eu depois tinha que levar pra escola e muitas vezes fui eu o primeiro a estreá-la também.
Voltemos aos primeiros tempos da profissão. Como é que foi estudar em Dijon?
Custou-me um bocadinho ir para lá sozinho, mas adaptei-me bem. E tinha realmente um professor, o professor Bergeret, que tinha sido professor do meu pai, e quando soube que eu lá estava a estudar, foi ter à universidade comigo e convidou-me para ir almoçar a casa dele. E a partir daí, todos os fins de semana, ia almoçar à casa dele, inclusive cheguei a fazer de babysitter dos netos dele.
Foi o seu primeiro trabalho, babysitter?
Eu trabalhava muito em casa. O meu pai tinha uma exploração leiteira e tinha os funcionários que tomavam conta, mas eles de vez em quando iam de férias. E quem tinha que ir para lá tirar o leite às vacas e dar-lhes de comer era eu e o meu irmão a seguir a mim. Por isso sempre fui habituado a trabalhar desde pequeno e o trabalho nunca me deu medo.
Chegou ao Douro Superior em 1989 e levou consigo a primeira prensa pneumática. Causou logo uma revolução.
Foi. A Sogrape tinha comprado a primeira prensa pneumática a ser utilizada na região do Douro. E tinha uma particularidade, que aqui quando estive no Sul, quando usávamos, era para vinhos de mesa. No Douro, nós fazemos vinho do Porto, que vai a fermentar para dentro da prensa. O que é que acontece? Durante a fermentação, como sabe, há a libertação de gás. Aquilo parecia uma panela de pressão a ferver lá dentro.
Parecia que ia explodir?
Parecia que ia explodir. As pessoas da adega fugiram todas, subiram para os lagares, e fiquei eu e o Carlos Machado lá embaixo a tentar resolver o problema. Parecia ali a qualquer momento que aquilo ia explodir e que iríamos morrer. Quando abri aquilo, a pressão que estava lá dentro era de tal maneira grande que saiu um jato.
Era um miúdo de 26 anos. Como é que as pessoas olhavam para si?
Eu estava ali a aprender. Havia uma ou outra coisa que sabia, mas eles sabiam muito mais de vinho do que eu. Por isso o que eu fiz foi tentar ser amigo deles para que eles me ensinassem aquilo que sabiam, porque ao virmos de uma universidade, nós íamos com alguns ensinamentos, mas não valem nada ali, praticamente nada. Mas enfim, acho que me aceitaram. Ainda hoje alguns deles trabalham comigo e somos muito amigos.
Lembro-me de ouvir dizer que ficava a dormir no mião nessa altura.
Sim.
E de ouvir falar do silêncio. A solidão pesava?
Não. Estamos a falar de 89, 90, 91, 92. Eu passava lá a vindima praticamente sozinho, eu e as pessoas da adega, e eu dormia na casa da administração, passava lá a vindima praticamente sozinho. Diziam que a dona Antônia que aparecia. Eu sempre que aparecesse, que aparecesse nova, não apareça velha.
Nunca lhe apareceu.
Nunca me apareceu. Sempre dormi regaladamente, porque ia tão cansado pra cama que não me preocupava absolutamente com mais nada. Enfim, mas nunca me preocupou a solidão. Aliás, não tive, porque tinha as pessoas da adega comigo e éramos ali uma família.
As pessoas da adega, que muitos deles, nomeadamente os tanoeiros, juravam existir um fantasma no mião, um tal de padre sem cabeça que lhes apertava o pescoço.
É verdade. O senhor Ribeiro, que era o encarregado-geral da Ferreira quando eu comecei a trabalhar, conheceu comigo e ele foi conosco ao Douro. Era uma coisa interessante, porque ele não era uma pessoa que bebesse Não era uma pessoa de entrar nos copos. Se entrasse, ainda poderíamos perceber, mas foi sempre uma coisa que achei estranho, porque ele era uma pessoa com os pés na terra, era uma pessoa alegre, divertida, bem com a vida. Nunca achei que ele fosse de crendices. E ele garantia que de noite sentia, você ouviu a conversa, que sentia uma pessoa sentada em cima dele e que lhe apertava o pescoço. Enfim, não sei se seriam sonhos ou o que é que seriam.
Histórias do Douro.
Histórias do Douro, mas a mim nunca me sucedeu.
Ó Luís, lembra-se de irmos uma vez à Meda à procura de uma senhora, da dona Mariana?
Era a ajuntadora das uvas da Meda que iam ser utilizadas para produzir o Barca Velha. Hoje em dia temos propriedades, as uvas são todas nossas. Na altura eram compradas e era ela que fazia a ponte entre a empresa e os lavradores. Lembro-me de irmos a casa dela discutir o preço das uvas e na altura a diferença era cinco tostões para trás, cinco tostões para a frente. Isso nem sei em euros quanto é que isso dará. Se calhar é metade de um cêntimo. Cinco tostões nem chega a um cêntimo.
Mas passavam horas nisso.
Passávamos horas nisso, ela a discutir com a administração da Ferreira, para trás e para a frente, para a frente e para trás, até que passava o filho, que saía e voltava passado umas horas e dizia: "Você ainda está aqui, não sabe porque é que está. Porque é que está a discutir? Vai aceitar o que eles estão a oferecer. Para que está a discutir isso?" E ela começava a rir e seguia. E depois ia com ela ter com os lavradores. Eram vários, eram 10, 11 ou 12. Uns entregavam 500 quilos, outros entregavam 1000, outros entregavam 2000. E tínhamos depois que combinar como é que íamos fazer a vindima daquela gente toda.
É verdade que para não lhe venderem uvas que não queria, chegava a montar guarda à povoação.
É verdade que para evitar que eles vindimassem aos domingos, ia muitas vezes passear, dar uma volta pela Meda aos domingos para ver se alguém estava a vindimar.
Em 2029 faz 40 anos de Douro. Como é que olha para isso?
Estamos a quatro anos de 2029. Espero lá chegar, mas não é uma coisa que me preocupe. Vou vivendo o dia a dia com naturalidade e quando lá chegarmos, fazer 40 anos, logo veremos o que é que se passa na altura, o que é que será a vindima 2029.
Já anda a sonhar com a reforma?
Olhe, eu gosto imenso do que faço. Tenho imensa paixão pelo vinho. Continuo a gostar imenso de ir para a sala de provas, fazer lotes. É realmente o melhor período do dia. Gosto imenso de ir para o Douro. Já não tenho a mesma energia que teria há uns anos atrás, sobretudo hoje em dia, porque as coisas mudaram um bocado. Há outras solicitações que não havia há uns anos atrás. A burocracia cada vez é mais pesada e é isso que não gosto tanto. E isso cada vez é mais intenso e é mais exigente. Mas tudo o resto, quando conseguimos passar isso, é um alívio que nos sai de cima, que nos sai dos ombros e quando chegamos à sala de provas, esquecemos tudo outra vez e no Douro outra vez, e continuamos a ter alegria e a não pensar sequer nessa perspectiva.
O que é que ainda não fez e gostaria muito de fazer?
Olhe, não fiz tanta coisa. Acho que neste momento o que falta é conseguir fazer um grande vinho branco do Douro. Isto para não falar, por exemplo, num espumante. Brancos temos feito, de vez em quando temos feito bons brancos, que se calhar, modéstia à parte, acho que não foram tão reconhecidos como aquilo que é a qualidade do vinho, mas admito que podemos ainda dar um passo maior nesse sentido e estamos a trabalhar nesse caminho. Mas, por exemplo, uma coisa que não sei é se um dia gostaria de fazer um espumante, um bom espumante no Douro. Não sei se ainda irei a tempo, mas é realmente a única coisa que talvez ainda não tenhamos feito, porque já fizemos tintos, temos uma gama enorme hoje em dia de vinhos do Porto, já fizemos colheitas tardias.
Há algum vinho de que se arrependa?
Se há algum vinho que me arrependa de ter feito? Não. Também já cometemos alguns enganos. Já fiz alguns enganos e alguns erros.
Faz parte.
Faz parte. Foi isso que nos faz crescer, faz-nos perceber. Há vinhos que, por exemplo, nascem de um engano, como o Vinha Grande Rosé, por exemplo. O Vinha Grande Rosé, posso dizer que foi em 2011 que me pediram para fazer um branco de uvas tintas, como também se faz, mas foi o pior ano que me pediram para fazer isso, que era um ano com tanta cor, com tanta estrutura, que o tentámos fazer, mas o vinho saiu Rosado. A solução foi começar a fazer um rosé e acabou por sair o Vinha Grande rosé, que neste momento é um vinho que nos dá muitas alegrias.
Uma vez disse-me que era mais difícil fazer o Planalto do que o Barca Velha. Por quê?
Não só o Planalto, mas o Esteva e o Papa Figos, porque são vinhos de grande volume e em que nós temos que tentar fazer aquilo que o mercado nos exige e que hoje em dia é um volume muito grande de garrafas. E temos que tentar fazer e manter a qualidade. O Barca Velha, se não conseguirmos fazer, não fazemos. Só fazemos quando temos boas uvas e quando o ano é bom.
Não é em todo...
Se não há, não fazemos e ninguém nos diz: "Não fizeste porque não foste capaz". Eu digo: "Não, não fui capaz, não houve boas uvas". É um vinho que nasce da vinha e se temos boas uvas, fazemos. Se não temos, não fazemos. Os outros temos que fazer todos os anos e temos que manter a qualidade, no mínimo, ano após ano. No ano seguinte tem que ser a qualidade, no mínimo, igual à do ano anterior. Tentamos sempre que seja melhor, mas pelo menos tem que ser igual e é um volume muito grande e é isso que é preciso trabalhar muito e é isso que mais nos preocupa.
Não há entrevista em que não lhe perguntem se sofre muita pressão por parte da administração na hora de declarar um vinho Barca Velha ou não. É sempre uma decisão tensa ou já se habituou?
Não, não é tensa, não é absolutamente nada tensa. Primeiro temos tempo e temos experiência para o fazer. E depois não temos pressão nenhuma, isso é verdade, não temos pressão nenhuma da administração. Neste momento é o Fernando Guedes, Fernando Cunha Guedes, a quem eu comunico a decisão e nunca senti, pelo contrário. A verdade é esta: há um ritual, que é quando tenho uma decisão, comunico. Organiza-se um almoço e durante esse almoço é comunicada a decisão final, se é Barca Velha ou se é Reserva Especial. Quando é Reserva Especial, brincam: "Podia ser Barca Velha, podia ser aquilo, vamos perder dinheiro". Tudo na brincadeira. Agora, a verdade é que quando é Barca Velha... Eu lembro o caso específico do 2008. O 2008 foi e é um Barca Velha extraordinário, mas é um vinho particular, porque é um vinho muito austero, muito recatado. É preciso esperar por ele pra ele mostrar. E 2008 foi um ano bom, mas não foi um ano de um reconhecimento extraordinário. E quando vamos para o almoço e quando eu digo: "Então e qual é a decisão final?" Eles estavam à espera que dissesse Reserva Especial. Eu disse Barca Velha, ficou tudo calado. Olhar pra mim, a provar o vinho, a tentar perceber se o vinho era Barca Velha, se não era, se era, se não era. Por quê? Porque é muito fácil destruir um vinho. Uma má decisão pode destruir um vinho. Por isso, quando a decisão é sobre ser Barca Velha, a grande preocupação do Fernando, dos irmãos e os restantes membros da administração, é olhar para o vinho e tentarem perceber se o vinho realmente tem qualidade pra ser Barca Velha ou não.
Não se pode correr o risco.
Nenhum.
Antes desse almoço, com quem é que partilha a decisão? Nem com a Rosarinho lá em casa?
Às vezes levo pra casa e pergunto o que é que acham do vinho. Às vezes levo, mas a decisão depois é só tomada comigo e com os meus colegas de enologia.
É um segredo bem guardado até o almoço.
É um segredo bem guardado.
Já sei que não vale a pena perguntar-lhe, mas qual é que vai ser o próximo ano de Barca Velha?
Tenho umas ideias sobre o próximo vinho. Já falei com o Fernando, disse que já tenho uma decisão, agora vamos ter que ter o almoço pra comunicar e como deve compreender, será o Fernando a primeira pessoa a saber.
Agora teremos vários anos aqui na calha bons. 2016 não.
2016 não engarrafamos, temos 2017, 2018 e 2019. São os três próximos no forno. Provavelmente o 17 será o próximo no qual irei ter uma decisão. Depois 20 e 21 não há nada. Temos 22 e 23 e estamos muito otimistas. 2024 também achamos que vamos engarrafar, com certeza vamos engarrafar. E 2025 foi uma vindima extraordinária.
E 2017 foi um grande ano.
2017 foi um ano muitíssimo bom.
Vamos então ficar à espera de boas notícias. Quantos Barcas Velhas acha que vai lançar ainda?
Não faço ideia. Enquanto me quiserem, eu estou por cá.
O que é que quer fazer depois da Salgrape?
Herdei uma propriedade de família, do meu pai, que é na região dos Vinhos Verdes, mas é na zona de transição, é no concelho de Baião. Estamos a poucos quilômetros da região demarcada do Douro. Tenho uma vinha, aliás, vou fazer uma reestruturação nessa vinha. É uma vinha muito pequena. São dois hectares, pra daqui por quatro, cinco anos, quando chegar à idade da reforma, se quiserem que eu me reforme, volto a dizer, essa vinha estará em plena produção e poderei então nessa altura começar a produzir um vinho noutra região e um branco, que estou a plantar é uvas brancas, o que não quer dizer que no futuro não possa vir a plantar uvas tintas pra também depois começar a fazer um vinho.
O tempo passa a correr e o nosso está a chegar ao fim. Já a seguir, o momento que nos ajuda a saber o que fazer na hora de sacar a rolha. Saca-dúvidas. Luís, quantos anos vive um Barca Velha?
O 52, que eu provei em 2019, se eu voltar a provar agora, de certeza que ele ainda está vivo, ainda dá prazer à mesa. Cinquenta e dois, neste momento, já é um vinho com 73 anos. Por isso, no mínimo, 73 anos.
Como é que deve ser servido o Barca Velha?
É um vinho que quando vem pro mercado, já tem de certeza sedimentos. Tem que ser posto ao alto, deve ser com alguma antecedência, pelo menos 24 horas, e ser decantado. Eu normalmente gosto de decantar uma, duas horas antes de beber e gosto de fazer aquilo que se chama a dupla decantação, que é passá-lo primeiro pra um decanter, lavar a garrafa e voltar a pôr o vinho na garrafa. O vinho também gosta de voltar à casa.
E assim chegamos ao fim deste "Tinto no Branco" com Luís Sottomayor, diretor de enologia da Salgrape. Cabe-lhe a responsabilidade dos vinhos do Porto e do Douro, entre os quais o mítico Barca Velha, Quinta da Leda, Legado, Papa Figos, Planalto e Esteva. Eu sou a Ana Sofia Fonseca e todas as semanas trago-vos uma pessoa, uma história do mundo do vinho. Tinto no Branco passa na Rádio Observador às quintas-feiras, depois das 11 da noite, e está sempre disponível em podcast. Siga, partilhe, esteja e brinde conosco. Obrigada, Luís.
Obrigado.