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Obrigada por teres vindo. Por que trouxeste este Paixão Branco de 2022?

Olá, antes de mais. O Paixão Branco nós costumamos dizer que é um vinho que não acontece todos os dias. É uma homenagem a alguém muito especial, que era o meu avô, Rui Nabeiro. Paixão, neste caso, lê-se com paixão, era um homem apaixonado pela vida, pela sua terra, mas, por outro lado, também tem este duplo sentido. Que é a palavra pai e chão, porque ele era um pai, era um pai para muita gente. O chão era a sua terra. E este vinho, sendo um vinho que vem das nossas vinhas mais especiais, acabou por ser eleito pela Revista de Vinhos o melhor vinho de Portugal, o melhor vinho branco. Mas o facto de ser um nome curioso e que, na altura, quando estávamos a decidir este nome, não era óbvio, estava ali na dúvida, mas depois deixei a garrafa em cima da minha secretária, todas as pessoas que passavam achavam graça ao nome. E eu, que já estava a rejeitar o nome, disse: "Não, o nome tem que ficar este". Foi um nome muito democrático e é o nosso topo de gama e uma homenagem bonita ao meu avô, Rui Nabeiro.

Bem-vindos ao Tinto no Branco, um podcast observador. Todas as semanas brindamos com um convidado diferente, sempre uma história de vida, uma vida com história e ainda algumas dicas úteis para a hora de abrir uma garrafa. O mundo do vinho português, Tinto no Branco. Eu sou a Ana Sofia Fonseca e comigo está a Rita Nabeiro. Na vida pessoal e profissional, arrisca e sobe montanhas. Do Kilimanjaro à administração da Delta, dos Himalaias à presidência do Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável, do Pico à liderança da Adega Mayor. Cresceu a andar de bicicleta por entre a fábrica de café e as lições de um avô que partilha com o país inteiro, Rui Nabeiro. Rita, o que te passa pela cabeça quando estás quase a chegar ao topo, mas as pernas ameaçam parar e o ar escasseia?

É curioso que eu não pensava que ia subir montanhas, neste caso, o Kilimanjaro, que é um dos sete summits a nível mundial, a montanha mais alta de África, com quase 6 mil metros de altitude. Antes tinha subido o Pico, era a montanha mais alta, o ponto mais alto de Portugal, e depois quase ir para o triplo. Quase, era uma loucura. Mas quando nós estamos a chegar ao topo, para já, há muito trabalho invisível de preparação que antecede a subida. É uma preparação que é física, mas depois temos que estar com a preparação psicológica, é um trabalho de resiliência. E uma das coisas que é fundamental, isso tudo no Kilimanjaro, nós dizíamos: "Pole, pole". Pole é devagar. É um passo atrás do outro, devagar, de forma consistente. Não estamos a pensar já quando é que estamos a chegar, mas sabemos que cada passo nos coloca mais perto do topo. E se formos assim, com essa resiliência, com essa capacidade de superação, quando damos por nós, estamos lá. E aí, obviamente, é uma explosão de alegria. Foi emocionante, porque foram muitos dias já a caminhar.

Quantos dias?

Tinham sido já quatro e meio, ou seja, nós nessa madrugada saímos às 11 da noite, mal dormimos e às 6 da manhã chegamos à parte de cima do topo de um vulcão adormecido. E duas horas depois é que chegamos mesmo ao topo e depois temos que voltar tudo para trás. Foram muitas horas, mais de oito horas a caminhar. E depois está muito frio, a altitude retira-nos grande parte da capacidade de oxigenação, porque os nossos pulmões estão comprimidos pela pressão atmosférica e por isso há muita gente que mesmo que tenha muita preparação física, não consegue chegar lá em cima, porque o corpo cede. E às vezes o corpo cede e temos que o ouvir.

Sentiste a ceder?

Curiosamente, havia momentos que parecia que nunca mais. E eu acho que isso é um ensinamento de vida, que é vamos continuando. Parece que não chega e que não estamos a caminhar lá. E depois há um aspeto que é fundamental, que é o espírito de grupo e a capacidade de nos motivarmos uns aos outros. Tínhamos uns guias fantásticos, mas também todo o grupo. Vivemos coisas que só quem está na montanha consegue, de facto, perceber, sobretudo nesse ambiente que não é bem extremo, mas para mim, na altura, foi o mais extremo que eu tinha feito. Depois disso, já fiz outras, nomeadamente o Nepal este ano e o Toubkal em Marrocos. Mas é isso, cada montanha é diferente, cada desafio é diferente. E aquela frase do Nelson Mandela, que o topo de uma montanha é só a base da próxima, é muito aplicada na vida, como em tudo. Os desafios vão aumentando. Não têm que ser mais intensos, não têm que ser necessariamente mais altos, mas são desafios diferentes e convém é que tenhamos montanhas para continuar a ter objetivos.

É isso que te fascina, o desafio?

Sim, sobretudo um desafio que é muito pessoal, mas também ali o que acontece é que é uma atividade que não seria a mesma coisa ir sozinha. Eu gosto muito dos provérbios africanos . Se quiseres ir rápido, vai sozinho, se quiseres ir longe, vai acompanhado. E é mesmo verdade.

Aliás, há uns anos ofereceste ao meu filho um livro sobre as fábulas preferidas do Nelson Mandela. É uma das figuras que mais admiras.

É. Continua a ser. Ainda mais nos tempos que correm hoje em dia, em que o mundo está tão dividido, polarizado E seria muito fácil ele ir por esse caminho quando aconteceu da prisão, de passado quase 30 anos, de estar preso em várias formas de injustiças. Mas, de facto, ele fez o contrário, foi chamar para unir em torno do seu país, em torno daquilo que ele acreditava e dos valores que ele acreditava. E ele conseguiu, de facto, ainda que obviamente, há os seus desafios. E isto é um desafio contínuo, nunca termina. E eu acho que ele deixa-nos um ensinamento muito forte e precisamos de líderes. Precisávamos de líderes como o Nelson Mandela, mais humanos.

Talvez fizesse mais sentido dizer que precisamos de três Nelson Mandelas.

Vários. Mas já era bom termos um.

Subir ao cume de uma montanha tem te ajudado a ser melhor profissional?

Olha, eu acho que me deu mais autoconfiança para terminar as coisas. O que eu gosto nas montanhas, mais do que a montanha em si, é todo o caminho, como eu dizia há pouco, é essa capacidade de superação. E, por outro lado, alguma coisa que eu tenho vindo a descobrir cada vez mais, é este contacto com a natureza. É desporto, obviamente, e para mim é fundamental este equilíbrio entre o corpo. Os budistas têm uma frase que eu gravei quando estive no Butão, que é Excel in mind, body and spirit. Excelência na mente, no corpo e no espírito. E tem a ver com esta parte da componente intelectual, a componente física, a componente espiritual. E eu acho que na montanha vejo um pouco das três, sobretudo duas, mas são fundamentais para termos este equilíbrio, sobretudo quando vivemos, hoje em dia vivemos em cidades, às vezes esquecemos do contato com a natureza e isto volta-nos ao nosso lugar original.

Às vezes esquecemos até de nós próprios, no ruído dos dias. Vamos então ao início. Cresceste entre Lisboa e Campo Maior. Quando eras miúda, onde é que preferias estar?

Essa era aquela pergunta que me faziam quando era miúda, que era: "Preferes Campo Maior ou Lisboa?" E eu respondia: "Depende". E as pessoas ficavam supersurprendidas, porque eu, na verdade, nasci já em Lisboa e grande parte do tempo vivi em Lisboa. E então os meus amigos estavam cá. Eu acho que sou sortuda por ter o bom dos dois mundos. Tenho um mundo que é o Alentejo, tem este lado da componente da natureza, desaceleração, não quer dizer que não haja também velocidade, mas vivemos as coisas de uma forma diferente. E por outro lado, a cidade que tem uma oferta, uma dinâmica, continua a ter grande parte dos meus amigos.

Tens estas duas geografias muito dentro de ti. Quem te ouve falar aqui, não acredita que és capaz de falar com um sotaque perfeito de Campo Maior.

É verdade. É Campo Maior, é falar assim. É belo.

Andavas de bicicleta por entre a fábrica de café. De que é que te lembras melhor desses momentos?

Lembro, para já, quando a fábrica começou a ser construída nos anos 80. Aquilo era um antigo monte alentejano, com tudo que era animais, as vacas, as galinhas, os patos. E então nós miúdos andávamos a brincar por ali. Mas depois começa a fábrica a ser construída, era terra batida ainda, os tijolos, não é nada do que é hoje, é uma coisa muito mais simples, e por isso é uma memória que vai sendo construída. Aliás, a casa que está no meio, é a casa do meu pai, porque era o tal monte. Ele depois foi viver pra lá, mas a fábrica começou a circundar a casa e ele decidiu continuar lá. Por isso, havia muito essa componente. Às vezes, a dada altura, brincávamos com o segurança lá da fábrica, escondíamo-nos nos caminhões, depois entretanto havia algumas diabruras lá dentro da fábrica, subíamos às sacas de café. Quer dizer, o meu avô não sabia. Às vezes, depois vinha a saber mais tarde.

E zangava-se?

Mais ou menos, nunca muito, mas meninos, isso não é sítio pra irem brincar.

Tinhas o teu irmão e os teus primos. Eram quase sempre só rapazes. Eram mauzinhos para ti?

Não. Nada. Aliás, é engraçado, porque tenho os meus primos, mas depois eu costumo dizer que tenho duas primas emprestadas, que são as sobrinhas da Amélia, que é a mulher do meu pai, e nós crescemos também juntas, são duas raparigas, por isso é que equilibrava a coisa. E elas também fizeram muito parte da minha infância, mas nunca senti isso, até porque era o contrário, eu era a rapariga, eles tinham respeito.

Na vida profissional também é assim ou ser mulher ainda é um assunto?

Felizmente, não tenho tido situações demasiado marcantes, mas eu acho que as diferenças que nós notamos nunca são já tanto nas grandes coisas. São muito nos pequenos detalhes e às vezes é na forma como se tomam as decisões, é a forma como se incluem as mulheres, é por que escolhemos às vezes um homem em vez de uma mulher. E vi episódios, claro, em determinadas geografias, quase não nos olharem. Quer dizer, se tiverem vários homens, a mulher nem sequer é considerada. Até mesmo sendo eu a diretora-geral da empresa, eles só olhavam pro homem que estava comigo. Cresci numa empresa que hoje tem muito mais diversidade, mas no início era uma empresa muito masculina, com muitos homens, em que eu era a única mulher. Nunca me quis colocar na posição de pensar que Que era diferente, mas efetivamente há diferenças. Que às vezes também pode ser uma vantagem, verdade seja dita. E no mundo vinha, até ao início, acho que era uma vantagem que éramos muito menos mulheres. Hoje em dia já há muitas mais, desde que eu comecei a trabalhar, que já levam quase 20 anos neste setor. Agora, era um ambiente predominantemente masculino. Era e continua a ser.

O teu avô materno tinha uma loja. Ajudavas atrás do balcão?

Pouco. Ajudava a desarrumar. Ele primeiro tinha uma loja de pronto a vestir, que era das maiores lojas de pronto a vestir de Campo Maior, na altura ainda antes de abrirem as fronteiras. Eu lembro-me de ir para lá brincar, ser miúda e andar a brincar no meio dos fatos, que me escondia ali no meio da roupa e dos cabides. Mas ele depois acabou por ter uma loja mais pequenina e ajudámo-lo mais na parte do negócio quando numa determinada fase da vida que ele já tinha 80 e queria continuar a trabalhar. Por isso eu tenho sempre esse exemplo de dois avós que trabalharam uma vida inteira. O meu avô, neste caso, Zé, ainda tenho esse avô, tem 98 anos, se tudo correr bem, no início de janeiro fará 99. Todos os dias bebe o seu copo de vinho ao almoço e ao jantar. E quando acaba a garrafa, liga-me e diz: "Olha, Rita, só para dizer que eu hoje abri a última garrafa." Basicamente é o código que é para mandar mais garrafas de vinho. Juro.

Tens uns bons exemplos de longevidade e de vida e de qualidade de vida.

Sim. Já não tenho dois avós, mas os dois avós já partiram com mais de 90 anos, dois avós que já partiram, que era a minha avó Rita e o meu avô Rui. E ainda tenho a minha avó Alice e o meu avô Zé, de um lado da mãe e do lado do pai.

Administradora, presidente, diretora, vogal, como é que te divides entre tantos cargos?

Não sei. Não, consigo. Felizmente, eu acho que as coisas são evolutivas. Estive durante muitos anos, como sabes, na direção geral da Adega Mayor, com uma função mais operacional. A dada altura também queria abraçar outros desafios, queria montar a área de sustentabilidade também no grupo, ou seja, já fazíamos algum tipo de práticas dentro da Adega Mayor. Pareceu-me que fazia sentido estender aquilo que também já estava a praticar na Adega Mayor, quer dizer, que já fazíamos no grupo, mas muito mais focado na dimensão social, a componente ambiental também, mas não com ênfase, isso tudo de uma forma mais transversal, mais sistemática e estruturada. E para isso precisava de ir aprender, de me reinventar e estudar e outras coisas, e foi isso que fui fazer. Acabei por fazer um MBA na Austrália, que é um Master in Business and Empathy, que no fundo é muito uma dimensão da sustentabilidade aplicada, como se tivéssemos a fazer um curso de gestão, aplicado com esta lente da sustentabilidade. E por isso, quando temos boas equipas, torna-se mais fácil. E também ao mesmo tempo é importante não acharmos que somos insubstituíveis, porque não somos. Podemos é ter um outro papel de olhar mais de fora, desafiar as equipas no bom sentido, e era aquilo que a dada altura o meu avô também fazia comigo. Depois, esses outros convites foram surgindo. A alguns tive que dizer que não, mas outros também digo que sim, porque também é uma forma de aprender noutros contextos. Neste caso, também, por exemplo, faço parte do conselho diretivo do CCB e é uma dimensão cultural que também me interessa.

Que tem muito a ver contigo.

E que também tem a ver com a minha base de formação. E também aprendo, obviamente, também quero dar o meu contributo e às vezes não custa darmos um bocadinho do nosso tempo. Às vezes saio, desculpa a expressão, do pelo, mas também acredito que ganhamos com isso. E também temos essa responsabilidade ou esse dever de retribuir aquilo que recebemos.

Ter uma agenda caótica dá-te uma outra noção do tempo.

Mais do que caótica, preenchida, mas acredito que quando nós temos uma agenda mais complexa, também tentamos aproveitar melhor o tempo e sermos mais eficientes. É sempre uma aprendizagem contínua. Porque depois eu acho que libertando de umas coisas, consigo ganhar tempo para outras e às vezes consigo meter mais coisas. E no final do dia não é necessariamente mau, mas é um desafio.

E assim chegamos ao final da primeira parte. Regressamos já de seguida para continuar a conversar com Rita Nabeiro, produtora dos vinhos Adega Mayor, que conta com marcas como Paixão, Reserva do Comendador e Caiado. Haverá ainda tempo para saca-dúvidas, momento certo para conhecer o que precisa, para brilhar na hora de sacar a rolha. Até já. Bem-vindos de volta ao Tinto no Branco, um podcast observador. Eu sou a Ana Sofia Fonseca e aqui comigo está Rita Nabeiro. Membro do conselho de administração do Grupo Delta, dedica-se com paixão à área da sustentabilidade. Já subiu o Kilimanjaro e não fecha os olhos às voltas do mundo. Daqui a pouco teremos saca-dúvidas, o espaço em que todas as semanas partilhamos dicas úteis para a hora de abrir uma garrafa. Antes, vamos começar pelo vinho que a Rita Nabeiro nos trouxe. Assim, de repente, qual é a comida perfeita para este Paixão Branco de 2022?

Este Paixão Branco é um vinho bastante especial, que foi feito com duas castas, nomeadamente o Arinto e o Sercial. O Sercial é uma casta que não é assim tão comum, particularmente no Alentejo, mas que lhe traz alguma acidez. Aliás, são duas castas com uma boa acidez, o Arinto também. Também não é uma casta típica do Alentejo, mas na nossa vinha tinha uvas muito interessantes. E ele, como tem uma grande complexidade, porque teve a estágio em madeira, por isso tem um aroma bastante intenso. Eu gosto de dizer que é um vinho de inverno, é um vinho que pede comida. Pode ser umas carnes brancas, mas com algum condimento. Mas também pode haver criatividade. Por exemplo, este vinho, e nós temos que falar sempre do nosso bacalhau, porque é um prato típico, é um peixe com alguma gordura. É um vinho que tem uma intensidade não só aromática, mas também a nível de boca, bastante grande. E tem volume, por isso temos que escolher pratos que combinem bem com isso. Eu digo sempre ou um peixe no forno, as carnes brancas também pode ser, ou um peixe ou uma carne, por exemplo. Eu acho que este vinho até pode aguentar um pato com carne vermelha, mas que se calhar não é das mais fortes. Agora é como tudo. Acho que o vinho temos que beber da forma que acharmos melhor. Se nos apetecer abrir uma garrafa, neste caso de um Paixão Branco, porque sim, porque é o vinho que fala por si.

Vem do teu avô o sonho de fazer vinho em Campo Maior. Achas que tem a ver com aquela sua vontade de criar? A vida inteira no café e nunca plantou um grão. Esta era a possibilidade de fazer a terra dar.

Sim, ele contava sempre da história das sortes da Godinha, que foram terras que foram sorteadas, neste caso, pela população. E tanto que a nossa primeira vinha é a Vinha da Godinha, temos 10 hectares, é muito próxima de Espanha. Foi a nossa primeira vinha a produzir em modo biológico também. E ele tinha sempre o hábito de oferecer garrafas de vinho aos clientes. "Porque não fazer o meu próprio vinho? Porque não criar postos de trabalho?" Ele tinha esta memória do passado, que se tinha perdido esta tradição de produção de vinho. Porque não a recuperar? E por isso foi na Godinha que ele plantou as primeiras vinhas. A partir daí é sempre importante perceber se há potencial ou não de produção de uvas para depois produzir o vinho. Imaginemos, aquilo não dava certo, as uvas eram horríveis, que não havia de ser o caso. Não valia a pena estarmos a fazer uma adega de raiz e depois não haver um vinho de qualidade. Mas não foi o caso. E depois sonhar com um projeto mais ambicioso, uma casa para podermos produzir os nossos vinhos e porque não fazer um projeto diferenciador. E por isso mesmo, acabaria por desafiar o arquiteto Siza Vieira para desenhar a Adega Mayor, que é um marco arquitetônico também na região.

Uma vez conversei com o teu avô e com o arquiteto Siza Vieira sobre vida e sobre o projeto da Adega. Aquilo foi uma aventura que começou com um desenho num guardanapo e meteu uma viagem de avião apanhada por um temporal em Badajoz.

Não estava a trabalhar na altura ainda com a minha família. Formada em Design de Comunicação, ainda trabalhei na área e curiosamente, na fase em que esse projeto está a ser desenhado, não estava ainda nos meus planos ir trabalhar com a minha família. Longe. Curiosamente, como antes de ser designer, pensava em estudar arquitetura, quando o projeto começa a ganhar os tais contornos, eu proponho a criação da identidade da marca Adega Mayor e depois começo a me envolver aos poucos no projeto, muito pela dimensão da marca, da comunicação. E quando dei por mim, já estava o projeto quase concluído. Mas eu recordo-me de algumas das conversas e ainda hoje temos esses esquiços. Alguns que têm data de 2004 e 2005, em que foram uma conversa. O arquiteto Siza Vieira depois foi visitar o local, olhou mais ou menos para o espaço e disse: "Olha, vai ser ali. Gostava que fosse ali", que é no alto, que fica próximo da fábrica do café e tem um entorno belíssimo.

Estudaste design e ainda exerceste, como me disseste, sei que te ficou a paixão. Ficas chateada quando vês um rótulo ou um material de comunicação pouco inspirado?

Chateada não. Depende. Se for o meu, não gosto. Os outros são mais indiferentes. Mas eu gosto, pelo menos para o meu gosto. O gosto é discutível, há uns que se aproveitam, outros que não, como se costuma dizer. Mas daquilo que nós fazemos, eu gosto de coisas bem feitas. Gosto que as marcas comuniquem bem e por isso, se for uma coisa nossa, eu não gosto que não esteja bem feito. Agora, é como tudo, às vezes também não podemos ser perfeitos e às vezes temos que ir corrigindo e melhorando de exercício para exercício. Como eu costumo dizer, eu sou uma designer que meteu a reforma antecipada.

Já nos contaste porque é que foste parar à Adega Mayor. Mas houve também ali um momento decisivo.

Mais do que o momento decisivo foi eu trabalhar numa agência E a forma como sempre aprendi a crescer, ver como se envolvia os colaboradores, as famílias. No Natal era uma festa, lembro perfeitamente que entregávamos os presentes de Natal às equipes, mas os filhos dos colaboradores também iam e recebiam uma prenda. Eu me lembro de ser criança e aquilo me marcar, da alegria, era mesmo uma grande família. E não é que eu não fosse feliz no sítio onde eu estava, gostava do sítio onde eu estava, tinha ótimos colegas, mas essa parte dessa cultura não a tinha da mesma maneira. Mas senti: "Ok, se calhar o tempo está a passar e posso não ter a oportunidade de poder aprender com o meu avô", que era certamente alguém que muita gente gostaria de ter a oportunidade de trabalhar com ele. Mas pronto, e quando estamos de fora, nós somos muito bons a dar sugestões, ideias. Quando estamos dentro é diferente, a execução é diferente. E eu, como estava de fora, dizia muitas vezes: "Por que não fazemos isto? Por que não fazemos de outra forma?" E, neste caso, até muito para a marca Delta. E o meu pai, a dada altura, vira-se pra mim: "Ah, mas estás só a falar, por que ao invés de falares, fazes?" E começou com esta provocação. E a verdade é que comecei a fazer, comecei a dar passos e a me meter um bocadinho mais dentro do que era a primeira marca Delta e depois não passou muito tempo quando a inauguração da marca Adega Mayor estava para breve e acompanhei todo esse processo e quando dei por mim estava completamente envolvida com o projeto Adega Mayor.

Parece que o verbo fazer tem uma importância muito grande na vossa família. Há uma história do teu avô, em miúdo, que me parece quase premonitória. Começou de pequeno a trabalhar na mercearia dos pais, Alimentação e Salsicharia Senhora Maria Azinhais, e disse-me, o teu avô, uma vez, que o que mais se ouvia era a mãe atrás do balcão a garantir aos fregueses: "O Rui faz". E ele fez a vida inteira. Há alguma lição dele que não esqueças?

Ui. Faço por me lembrar. E de facto era isso, ele dizia sempre: "Quem não fizer hoje, amanhã é tarde". Isso aplica-se a tanta coisa. O fazer, eu acredito, é que é importante isso que fazermos, executarmos. Por outro lado, também é importante pensarmos no que queremos. Quando estava na Austrália, uma das pessoas que conheci falava muito de colocarmos a nossa sabedoria em ação. Porque também podemos ser muito esperançosos, mas se não agirmos, seja de que forma, acaba por ser um desperdício. Então essa sabedoria em ação tem a ver com isso. O contrário pode dar muita asneira, que é a ação sem sabedoria, e vimos isso também hoje em dia no mundo, que há pessoas que querem fazer, mas que não sabem porque é que estão a fazer. Vemos isso em líderes mundiais com egos muito grandes. E essa sabedoria transformada em ação tem o poder de mudar muita coisa. E às vezes não têm que ser coisas megalômanas, é cada um fazer dentro da sua possibilidade, pode até ser pequenas coisas, mas essas pequenas coisas depois já vão crescendo e vão dando origem a outras, mobilizando outras, inspirando-nos a nós próprios e quando olhamos pra trás, já fizemos imensa coisa. E por isso, essa parte do fazer foi sempre uma coisa que eu aprendi com ele e não ter medo de errar, também.

Já te disseram que és muito parecida com o teu avô?

Já, fisicamente, em parte, mas também noutras coisas. Isso é um elogio, mas obviamente que ele era um ser muito especial e por isso já ter um pedacinho, já fico feliz.

Falavas agora da Austrália. Estavas na Austrália quando ele piorou assustadoramente. É uma viagem de avião de algumas 20 horas. Como é que foi essa viagem?

Na verdade, 20 horas, mas com duas horas de escala, foram 24. Foram mesmo 24 horas. Essa viagem foi difícil porque eu sabia que o meu avô tinha sido internado. Curiosamente, por uma videochamada poucos dias antes com ele, tivemos uma hora à conversa e o meu irmão nessa manhã telefona-me, na minha manhã, que era noite aqui em Portugal, havia na altura umas 11 horas de diferença, e o meu irmão diz: "Olha, já te comprei o bilhete, já te antecipei a viagem, o avô não está bem, volta". Então é metermo-nos no avião durante 24 horas, sem saber bem quando vamos ligar o telefone, se temos alguma má notícia ou não. De facto, cheguei no sábado a tempo de me despedir, porque ele partia no dia seguinte, no dia 19 de março, Dia do Pai, domingo, pela manhã.

Em que momentos a saudade é maior?

É naqueles momentos em que muitas vezes achamos que é preciso aquele conselho sábio. Pode não ser um colo físico, mas aquele colo de alguém que nos dá aquela tranquilidade. Mas, ao mesmo tempo, acho que o que tenho vindo a aprender ao longo destes últimos anos, sem ele, é que ele passa a estar, eles passam, não é ele. Ou seja, neste caso, é o meu avô, mas os avós passam a estar conosco de uma forma diferente. E quer queiramos, quer não, nós pensamos: "Ok, o que ele faria neste momento?" E depois adicionamos o que é a nossa visão, o que é a nossa forma de estar. Às tantas também não é só pensar naquelas pessoas, mas sobretudo quando são decisões difíceis ou quando há momentos mais duros, é aí que nós nos lembramos. E no outro dia ainda revisitei o vídeo quando ele ganha um Globo de Ouro, que foi entregue pelo Tupã Paulsão, na altura, também dois homens emblemáticos. E é um discurso marcante. É um discurso marcante que ele dizia: "Se todos quiséssemos, o mundo era maravilhoso, o mundo era extraordinário". E é lembrar-me às vezes dessas pequenas coisas que nos dá força para continuar, porque todos nós temos desafios. Cada um tinha os seus desafios à época.

Há muita gente que não quer que o mundo seja um lugar melhor.

É, o mundo está muito negativo, as pessoas estão muito crispadas. Parece que estamos a desumanizar-nos e que isso é normal, que isso até é correto. Perdemos o que é o nosso sentido, o que é o valor de uma vida, independentemente do lugar onde nós nascemos, onde crescemos, e esquecemos das histórias de vida que estão por trás dessas pessoas e que podia ser conosco.

E da história.

E a história, exatamente.

Viajas bastante e estás sempre a conhecer pessoas. Qual a pessoa mais inspiradora que já conheceste?

O meu avô era para mim uma referência brutal, por isso obviamente que ele seria um dos. Mas conheci uma pessoa fantástica na Austrália, a Roni Kahn, que é uma empreendedora social, uma mulher com 70 anos, e quando eu fui ao Butão ela foi comigo e já a tinha conhecido antes na Austrália. E ela criou uma ONG para evitar o desperdício alimentar. Era uma fulana supercriativa, com os seus 70 anos, com um espírito quase invencível, com uma alegria de viver e sempre a pensar o que pode fazer. E ela começa a sua ONG já aos 50 anos, porque tinha uma empresa de eventos, via o desperdício alimentar que havia nos caterings e aproveita isso para começar a criar uma empresa que hoje em dia deu origem a outras associações como a Re-Food, que nós conhecemos. E eu olhava para ela e dizia: "Parece que vejo em ti um pouco de um eco do meu avô". Mas também, por exemplo, eu conheci em São Tomé uma irmã que montou uma escola. Este ano voltei lá depois de nove anos de ter lá estado a fazer voluntariado e ver aquela obra daquela mulher franzina, muito baixinha e o que ela construiu. Neste momento tem mais de mil alunos, desde o pré-escolar aos cursos profissionais. Mil alunos só no pré-escolar.

Isso é realmente inspirador.

É incrível. E do nada. E eu acho que esses são os exemplos que às vezes me fazem me sentir inspirada, que são aquelas pessoas que do nada conseguem fazer muito e têm uma fé, não necessariamente a questão religiosa, mas uma fé na bondade das pessoas, na generosidade.

No outro.

E conseguem mobilizar pessoas para entregar aos outros. E isso para mim, cada vez que tenho dose de contacto com essas pessoas, queremos realmente fazer muito mais e sentimo-nos até pequenos.

Rita, és uma mulher com uma consciência social enorme. Alguma vez te imaginaste na política?

Por um lado, sim. Por outro lado, acho que hoje em dia precisamos de estar mais ativos, se calhar, do que já estávamos. Não podemos estar à parte. Mas não se calhar na política tão tradicional, da forma como vemos às vezes os partidos. O que eu sinto é que são não é mecanismos, mas são máquinas tão pesadas, tão complexas, que às vezes deixamos de perceber por que estamos a fazer isto. Eu, por exemplo, detesto aquela expressão "oposição". Não gosto. Por quê? Nós não temos que estar em oposição a tudo. A oposição pode concordar com coisas. E logo aí estamos a criar uma fratura. No final do dia, se o nosso país ou se os governos fossem uma empresa, podemos discordar, mas queremos todos o melhor.

Temos uma visão mais construtiva.

Mais construtiva e participativa, porque há projetos de longo prazo e os governos mudam. Agora sinto que cada vez mais temos que nos envolver, porque senão corremos o risco de as nossas democracias começarem a delapidar-se, que é o que está a acontecer. Os populismos também não nos trazem a solução.

Pelo contrário.

Pelo contrário, vão agravá-la.

Voltemos ao vinho. O teu avô, Rui Nabeiro, dizia que o vinho tinha muito que ver com o café. Um e outro devem ter bom aroma e melhor fim de boca para ficarem na memória. Pensas assim?

Claro, é fundamental. E tudo começa pela terra. Nós esquecemos que quer o café, quer o vinho, são um produto agrícola. Temos que tratar bem da terra para depois ter boas uvas. Depois há uma arte, que é escolher saber apanhar na altura certa, sabê-las fermentar da melhor maneira, e nós isso na Adega Mayor, não sendo vinhos naturais, são vinhos o mais natural possível. E depois é a arte do blend. No caso do café, as origens vêm de várias partes do mundo. No caso do vinho, estão à nossa porta e é essa arte de saber fazer esse blend, saber perceber como é que ele vai evoluir em garrafa. Primeiro a estagiar, se for o caso, em madeira. Isso é a parte que é mágica. No café é igual.

Às vezes parece-me que transportas os saberes da adega e da fábrica do café para a tua vida, porque tu também fazes um blend.

Sim. Sempre me movimentei entre universos de pessoas e de viagens diferentes, e isso enriquece-me. Tenho a certeza que me enriquece porque me abre a minha cabeça, me abre a minha perspectiva e tenho diversidade até nos meus amigos.

Daí o lema "À mesa cabe sempre mais um".

Também tem que ver com a componente de família, que era alguém que chegava à casa dos avós, havia sempre lugar para mais um, comida para mais um. Mas também pode ser uma dimensão social. Acho que nós também temos que estender a nossa mesa para mais alguém, sempre que podemos. E é essa dupla visão dessa frase, que é simples, mas bonita.

O tempo passa a correr e o nosso está a chegar ao fim. Já a seguir, o momento que nos ajuda a saber o que fazer na hora de sacar a rolha. Saca-dúvidas. Rita, um vinho branco. É melhor beber o do ano ou um vinho mais velho?

Um corrente, eu acho que o ideal é a colheita mais recente, porque o vinho está mais fresco, os aromas estão mais vivos.

O rosé vem de que uvas?

Há muita gente que acha que o rosé é uma mistura de branco e tinto e não quer dizer que não possa levar umas gotinhas de tinto. Mas na verdade, o rosé é feito de uvas tintas. A cor vem da pele da uva. Então o que acontece? Temos o vinho tinto, temos que macerar, por isso é que é pisar a pé, que no fundo esmagar a uva durante vários dias e ficam em contacto com as películas da uva. No rosé basta poucas horas.

E assim chegamos ao fim deste Tinto no Branco, com Rita Nabeiro, produtora dos vinhos da Adega Mayor, que nascem em Campo Maior, junto à fábrica de café da Delta. Eu sou a Ana Sofia Fonseca e todas as semanas trago-vos uma pessoa, uma história do mundo do vinho. Tinto no Branco passa na Rádio Observador às quintas-feiras depois das 11 da noite e está sempre disponível em podcast. Chegamos assim ao último episódio desta série, pelo que é hora de dizer até breve. Muito obrigada a todos os que têm seguido e partilhado. Esteja e brinde conosco, sempre.