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Então à nossa. Obrigada por teres vindo. Por que trouxeste este Moscatel Roxo Heritage 2008?

Obrigado pelo convite. Fiquei muito satisfeito por teres lembrado de mim, dos moscatéis e da família Horácio Simões. Por que eu decidi trazer este vinho? Uma coisa tão simples quanto isto: porque quando lancei este vinho, seria e será sempre para homenagear dois entes queridos, a minha avó e o meu avô. Um deles, a minha avó, devido à propriedade e uma propriedade muito específica onde nós temos esta variedade, e ao meu avô, pela decisão e pela teimosia de querer plantar esta casta e desenvolver esta casta na nossa casa e depois impulsionar a nossa região também a reconhecer mais uma casta.

Bem-vindos ao "Tinto no Branco", um podcast observador. Todas as semanas brindamos com um convidado diferente. Sempre uma história de vida, uma vida com história e ainda algumas dicas úteis para a hora de abrir uma garrafa. O mundo do vinho português, "Tinto no Branco". Eu sou a Ana Sofia Fonseca e comigo está Pedro Camacho Simões, da Casa Agrícola Horácio Simões. Com raízes na Quinta do Anjo, uma aldeia a meio caminho entre Palmela e Azeitão, representa a quarta geração da família no vinho. Por entre tintos e brancos, a joia da coroa é mesmo o Moscatel de Setúbal. Pedro, acho incrível terem encontrado 300 litros de Moscatel debaixo de um alçapão. Conta-me essa história.

É uma história engraçada, que tem a sua piada, tem muito a ver comigo e tem uma grande ligação a mim próprio, porque o avô, na altura que vinificou este Moscatel, um Moscatel Roxo de 1974, um bocadinho no reconhecimento do primeiro neto, que depois muito devido ao ano.

Então esse Moscatel foi feito no ano em que tu nasceste?

Sim.

Nasceste em que ano?

Em 74. Nasci em outubro, na altura ainda a vindima estava a decorrer. Eu com um dia de vida, a minha mãe lembrou-se de ir mostrar aos empregados e eu com um ano de vida caí na adega e ainda lá estou. Com 51 anos ainda lá ando diariamente. E o avô lembrou-se nesse mesmo ano ter feito uma pinga de Moscatel e que a guardou, que a escondeu por dois motivos. Um deles, por causa da revolução, das confusões que estavam inerentes àquele ano.

Estamos a falar de um Moscatel feito no ano do 25 de Abril.

Isso mesmo. Que depois ficou lá e serviu para continuar lá guardado para nós não termos a lembrança de o pôr mais cedo no mercado.

O teu avô, com medo de alguma possível expropriação, decide esconder o vinho.

Sim. Inicialmente, no primeiro ano, logo pós-vindima, a ideia inicial foi essa. Depois, estava tudo já na paz do Senhor, mas decidiu aí não o ir mexer e deixá-lo envelhecer. Vamos ver. Só uma salvaguarda, não estava todo em barril, estava uma parte dentro de barris de castanho, os barris que serviam para a venda de vinho normalíssimo e outra parte em garrafões de vidro, quase meio por meio. Por isso é que o Moscatel estava tão diferenciador, porque tinha uma parte com uma evolução muito significativa, outra parte com uma evolução muito mais retraída devido a estar guardada em vidro.

E ele nunca vos contou que tinha aquele Moscatel.

Contou mais tarde, já quando o Moscatel tinha 30 e muitos anos, quando ele nos contou que tinha ali aquele Moscatel guardado para um dia lançar. Ele aparece depois, por uma brincadeira tão simples quanto isto, que eu lembrei-me num dia de Natal. É fácil perceber no mundo dos vinhos e nas famílias de vitivinicultores, muitas das conversas rodam à volta do vinho e estamos sentados à mesa e mais uma volta, menos uma volta, depois de falarmos do tempo, começamos a falar de vinho. E eu lembrei-me e fui buscar uma pinga dos dois moscatéis, do vidro e do barril, pus em cima da mesa da ceia de Natal e toda a gente ficou fascinada. E decidimos lançar quando o avô fez 90 anos de idade e lançámos para o mercado para mostrar também o potencial de envelhecimento e de alguns vinhos diferenciadores que nós poderíamos ter ainda em casa.

Ficou conhecido como Moscatel da Revolução. Ainda têm alguma garrafa?

Garrafas tenho. E também tenho em granel. Tenho um pequeno barril, pequenino, de 30 litros, ainda com uma pinga, que há de ser para lançar num dia que eu me lembre, uma ocasião qualquer que eu me lembre, ou se calhar, quiçá, para o meu filho ou meu sobrinho mais tarde, para brilharem, para irem para o mercado com aquilo quando tiver, por exemplo, 80 anos, 70 anos. Não sei, há de ser qualquer coisa, ainda não está pensado.

Mas já está a pensar na sucessão, na quinta geração.

Sim, estamos sempre a pensar. Nós sendo vitivinicultores, onde temos as vinhas, produzimos os nossos vinhos. Eu nunca fui obrigado, nem o meu irmão foi obrigado, nem a minha irmã a ir para o mundo dos vinhos. Cada um fez o seu caminho, fez as suas decisões, mas conforme estava a dizer há bocadinho, as conversas à volta da mesa, mais uma volta, menos uma volta, vão dar ao vinho e a paixão instalou-se e nós decidimos, tanto eu como o meu irmão, enveredar por esta profissão, por esta paixão.

Só sua irmã escapou.

A minha irmã prova muito bem, mas decidiu fazer outro caminho. E depois os meus sobrinhos e o meu filho, os meus três sobrinhos e o meu filho, nenhum deles sendo obrigados a continuar Pelo menos temos dois que têm uma paixão muito grande pela uva e pelo vinho. Deixa ver, o futuro há de trazer alguma coisa.

Lá em casa tem uma alcunha?

Tenho. Se calhar devo ter mais que uma, mas tenho uma alcunha.

Qual é?

Nesta área é o lixado, porque nesta área temos que ser nós para tudo. Fazemos um bocadinho de tudo.

O que isso significa, fazer um bocadinho de tudo?

Fazer um bocadinho de tudo é desde a parte do campo, da viticultura, quando há necessidade, agarrar-se às ferramentas e fazê-lo. E na adega a mesma coisa. E depois, sendo a cara da família Horácio Simões em relação à produção dos seus vinhos para fora, tanto cá como no estrangeiro, será sempre a minha cara a estar presente. E o dia só tem 24 horas, algumas vezes deveria ter mais. O ano também devia ter um bocadinho mais de 365 dias, mas estamos cá para tentar fazer o nosso máximo diariamente.

Mas, por exemplo, se faltar o adegueiro?

Eu tenho que me agarrar às bombas e às mangueiras, se for dia de enchimento ou se for dia de lavagens. Tenho que ir para dentro de um depósito lavar, tenho que ir para a linha de enchimento pôr garrafas. É o que for para fazer, tem que ser feito. Se a mulher da limpeza falhar, eu também vou lavar a casa de banho, não me cai nada ao chão e faço com todo o gosto e sem problemas nenhuns.

É preciso saber fazer um pouco de tudo.

Sim, isto foi um dos grandes ensinamentos que o meu avô me passou quando acabei a escola. Vinha com a paixão da parte pecuária. Fiz uma exploração pecuária com ovelhas da raça Saloia. Fui um dos grandes dinamizadores de uma raça autóctone nacional. Porque o meu projeto, na minha mente, seria ter uma raça autóctone para produzir o queijo de Azeitão certificado. Depois, entretanto, o meu avô chamou-me para as vinhas para fazer a parte agrícola e depois mais tarde chamou-me para a adega e eu não tive como dizer que não. E a única coisa que tive que dizer que não foi o meu projeto pessoal, que tinha em mente quando saí da escola agrícola, ficar para trás, porque o negócio da família passava por cima de tudo e peguei naquilo e comecei depois a estar dedicado aos vinhos dia e noite.

Como é que nasceu a Casa Horácio Simões?

A fundação dela está registada em 1910 pelo meu bisavô, mas temos registos de vinhas e já da produção do vinho muito mais antigo. Mas escolheu-se esta data por um motivo. Foi na altura que o bisavô decidiu começar a produzir vinhos e a separar depois a produção entre os vários filhos. O José Carvalho Simões fez uma casa agrícola, porque na altura não era só de vinhos. Eu até tenho lá os carimbos e acho muita graça que diz "produtor de vinhos e seus derivados". E eu lembro-me ainda das carrinhas saírem com ginja, azeite, aguardante, vinagre. Na parte da frente, encostado ao balhal, encostada à cabine, tínhamos barris maiores que estavam sempre em cima do carro e depois chegávamos às tabernas e punha-se a mangueira: "Queres um garrafão de vinagre?" "Bora, ok, toma". E depois a parte de trás continuava a ser do vinho. Por isso éramos produtores um bocadinho de tudo o que estava ligado à parte agrícola da nossa região.

É verdade que ele fundou três casas, uma com o nome de cada filho?

Sim, ele fundou a casa, depois quando fez a divisão, cada um dos filhos enverdou pela sua casa agrícola, Dinis Simões, Virgílio Simões e Horácio Simões, só levantando paredes dentro das adegas. Levantando as paredes conseguiu dividir e deixar adegas para três filhos. De momento, a nossa é a única que ainda está, os meus tios-avós e depois os meus primos deixaram de produzir uvas e de produzir vinhos.

O teu avô Horácio Simões, que faleceu com quase 100 anos.

Sim, faleceu com 97 anos.

É um grande pilar na tua vida?

É.

Aprendeste muito com ele?

Aprendi tudo o que sei.

É verdade que ele gostava de comandar tudo, de estar sempre presente?

Ele gostava e ele estava sempre presente. Eu lembro-me como se fosse hoje. Na parte da vinha, ainda sob a alçada dele, nós contratámos um rancho para vir podar. E eu cheguei lá e disse: "Oh, seu António, você começa a podar e eu quero a poda assim, assim e assim". Peguei no avô, fui a outras vinhas, fomos ver. Quando lá cheguei, tudo o que eu tinha pedido não estava a ser feito, estava a fazer à maneira dele. Eu disse: "Seu António, mas não foi nada disto que eu disse". "Ah, mas mostre lá". E eu agarro na tesoura e começo a podar. "Olha, quero isto assim". "Ah, mas você sabe fazer?" "Pois sei. Sei porque o meu avô me ensinou". Isto foi um dos casos, tenho mais, mas foi um dos casos que me fez ouvir sempre o que o avô tinha para me dizer.

Ouvi dizer que ele às vezes subia ao telhado.

Ele subia a todo o lado. Ele subia a todo o lado porque ele não parava. Mesmo já nos últimos anos de vida, eu deparava-me com ele. A última vez foi pendurado num diospiro, com o escadote e ele agarrado no ramo. Se partisse o ramo, caía de costas. A apanhar os diospiros porque ele tinha chamado alguém para o ajudar. Não lhe passaram cartão ou deram do tipo: "Vou já". Não me lembro quem foi, mas quando reparei Estava pendurado nos dióspiros, a apanhar os dióspiros, porque ele lembrou-se que tinha que ser naquele momento, àquela hora. Subia acima dos depósitos para retificar se a gente tinha os depósitos cheios, atestados, ver se tinham algumas flores. Nos últimos momentos já andava pela adega diariamente. Tinha que ir à adega diariamente, tinha que ver o que é que nós andávamos a fazer e opinava sempre. Mandava assim uma para o ar e a gente apanhava. Bastava para nós apercebermos se estávamos no caminho que ele estava a idealizar ou não.

Os netos trazem uma visão mais moderna, mais atual. Como é que ele encarou isso? Houve aqui um confronto de gerações ou como é que vocês geriram isso?

Não. O que aconteceu é o que acontece hoje em dia. À altura da vindima, eu e o meu irmão nem dormíamos para a vindima. Levantávamos cedo. Para nós e para a nossa visão, íamos ajudar. Para a visão dele, íamos empatar. Ainda hoje em dia, eu digo isto na brincadeira aos meus sobrinhos: "Então, Vicente, vens ajudar o tio ou vens empatar o tio?" Mas é uma benção andarmos lá. Tudo isto serviu de aprendizagem. Nunca houve um choque, nunca houve uma discussão em relação a uma visão do vinho. Por quê? O mundo dos vinhos chega ao dia de hoje por algum motivo. E todas as pessoas que levaram o mundo dos vinhos a chegar ao dia de hoje, têm o seu valor. Quem é que pode sair de uma universidade e dizer: "Eu sei tudo e os nossos antepassados não sabem nada"? Não. A minha forma de estar no mundo dos vinhos foi sempre tentar conjugar o que o avô me ensinou, o que os antepassados do meu avô fizeram, tentar perceber o que é que eles fizeram, tentar conjugar com o que eu aprendi na escola ou com as novas tecnologias que vão saindo. Continuo a ser uma pessoa informada, vou lendo, vou percebendo o que é que vai aparecendo no mundo dos vinhos e vou tentar conjugar com a minha realidade, com o meu acreditar e com as ferramentas que eu tenho para fazer acontecer. Eu não sendo um radical dos vinhos naturais, tento sempre que seja a própria natureza a fazer as coisas acontecer, mas se as coisas tiveram alguma coisa, eu tenho as ferramentas, tenho os produtos, tenho os conhecimentos para ir ao encontro de. Porque não andamos lá a tocar o violino a pensar que a natureza faz tudo. Faz grande parte. Mas aí sou mesmo contra, porque será que eu agora vou apanhar umas uvas, vou pô-las a uma temperatura, vou fazer um pé de cuva, nem deixo as próprias uvas arrancarem uma fermentação, porque eu quero controlar o processo todo. Não, isso aí não. Não acontece lá em casa. Somos sempre interventivos e não de intervenção. E tentamos procurar sempre, tanto nas vinhas como nos vinhos, que seja a própria natureza a dizer-me o que fazer.

Vocês são de uma região e de uma casa muito conhecida pelo Moscatel.

Sim.

O que é que te fala mais ao coração? O Moscatel ou o tinto e o branco?

O que me fala mais ao coração são duas situações bastante distantes, mas muito bem interligadas. Uma delas é o território onde estão implementadas as nossas vinhas e depois às castas nacionais. Nós só trabalhamos castas nacionais e com uma grande vertente nas castas regionais já recuperadas pela casa e com mais algumas que temos em carteira. Porque acreditamos piamente que quando falam Península de Setúbal, terrenos arenosos, não é 100% verdade, porque nós temos duas realidades bastante distintas. Temos de Palmela, e Palmela costuma ser um pin de marcação muito fácil de compreender, que nós para sul temos terrenos arenosos, sim, mas para Poente temos uns terrenos argilocalcários, devido à influência da Serra da Arrábida, que marcam pela diferença os vinhos daquela região. Por isso acho que não devemos pôr tudo debaixo do mesmo guarda-chuva. Tem que haver dois guarda-chuvas, um maior e outro mais pequeno. Nós estamos inseridos no mais pequeno e eu sou um defensor mesmo focado, 200%, que aquela região pode ser, e é, uma região ou sub-região, chamem-lhe o que quiserem, da Península de Setúbal, que faz vinhos diferenciadores, muito devido à influência da Serra da Arrábida e do Oceano Atlântico. E aí é que o Moscatel faz a diferença.

E assim chegamos ao final da primeira parte. Regressamos já de seguida para continuar a conversar com Pedro Camacho Simões, que com o pai e com o irmão, dirige a Casa Agrícola Horácio Simões, à beira da Serra da Arrábida. Haverá ainda tempo para saca-dúvidas, momento certo para conhecer o que precisa para brilhar na hora de sacar a rolha. Até já. Bem-vindos de volta ao "Tinto no Branco", um podcast observador. Eu sou a Ana Sofia Fonseca e aqui comigo está Pedro Camacho Simões, a quarta geração da família ao leme da Casa Agrícola Horácio Simões. Daqui a pouco teremos saca-dúvidas, o espaço em que todas as semanas partilhamos dicas úteis para a hora de abrir uma garrafa. Antes, vamos começar pelo vinho que nos trouxeste. Pedro, assim de repente, qual é o melhor momento para beber um Moscatel?

Quando uma pessoa quiser. Estou a brincar. O Moscatel, no meu ponto de vista, é das bebidas mais versáteis que há, onde podemos conjugar Brincando com temperaturas, brincando com copos, conseguimos conjugar para o welcome drink durante a refeição, ou pós prato principal e antes da sobremesa, ou no final, com um bom charuto, uma boa conversa e um bom grupo de amigos. Há Moscatéis um bocadinho para tudo, caem bem em vários momentos.

Menos com a sobremesa.

Para o meu gosto pessoal, eu não sou muito adepto de doce com doce e tento fugir dos Moscatéis com o doce. Acredito mais no Moscatel com uma graduação alcoólica mais baixa, com uma acidificação, com um vinagrinho um bocadinho mais elevado, conseguia enquadrar-se entre o prato principal, como os franceses fazem tão bem. Eu acho que nós, em Portugal, tínhamos capacidade, com nossos produtos primos autóctones da nossa região, enquadrar ali uma tábua com queijo ou com enchidos antes da sobremesa, um pré-sobremesa. Depois deixávamos, se calhar, um tinto mais velho para a sobremesa e para o café, que é uma coisa que me dá um prazer monstruoso, beber café e depois beber o último gole de vinho. Hã, hã, hã. Hã, fico. Por quê? Tão simples quanto isto: os Moscatéis, mesmo os mais novos, primam, e um dos designativos em termos aromáticos dos Moscatéis é a flor de laranjeira, é as partes cítricas. Eu, nos Moscatéis da casa e em grande parte dos Moscatéis de hoje em dia da nossa região, não há necessidade de pôr essa raspa de limão ou de lima, ou a casca, ou duas gotas. Não há necessidade disso. Por quê? Porque o próprio Moscatel já tem isso.

Quando te convidei para vires ao Tinto no Branco, disseste logo: "Epá, Sofia, mas eu sou um agricultor". Um agricultor que vive em Lisboa. Como é que te adaptaste?

Tem prós e contras. O trânsito, azar é que há de se estacionar o carro, que é uma coisa horrível, mas depois a parte positiva da história é a proximidade de restaurantes, de gente, de onde as coisas acontecem, que eu faço questão de estar e de ir. Eu até há pouco tempo atrás, todas as quintas-feiras ia jantar fora. Clientes, novos clientes, novidades que apareciam no mercado, tentava estar mais ativo. Agora estou menos, se calhar a idade também já está a pesar. Não, mas estar in loco de onde as coisas acontecem, claro, é cansativo. Faço muitos quilômetros.

Passas a vida a atravessar a ponte.

Sim, também. Mas dá para trabalhar, dá para pensar.

Viajemos até ao início. Como é que foi a tua infância?

Ui. Toda a minha vida almocei sempre na adega. A minha avó fazia o almoço e a gente passava todos os dias íamos à adega, todos os dias almoçávamos. Andei na Quinta do Anjo, na escola primária, e na altura se tinha aulas manhã, se tinha tarde e depois passava o resto do dia na adega. Acompanhava o avô, ia ao campo, andava com ele em cima do trator, fora do trator, na carrinho, buscar os empregados, levar. Acompanhei isso desde sempre. Depois quando fui para Palmela, as coisas não correram assim tão bem, porque um bicho de capoeira a capoeira abriu-se, as coisas soltaram-se e depois fui para o colégio interno, para o Colégio de São Andrade Corvo em Torres Novas, interno dois anos.

Por quê? Portavas-te muito mal?

Não, precisava de um acompanhamento. Não é portar mal, nem nada de parvoíces. Era só porque a minha mãe trabalhava fora, o meu pai tinha a vida dele, o meu avô já não podia tomar conta de nós. Éramos três filhos. A minha mãe saía de manhã muito cedo, chegava muito tarde e andávamos ali um bocadinho na aldeia e assim tivemos uma educação mais cuidada e mais acompanhada.

Guardas muitas memórias do colégio?

Sim, muitas.

Não deve ter sido fácil.

Só custou o primeiro dia. Não é fácil, é que não custa nada. Arranja-se logo um grupo de amigos logo ao fim de cinco minutos. Só aquele momento que fui lá largado no primeiro dia, eu disse: "Ok, uma realidade nova, vamos nos aperceber." Mas foi espetacular e ganhei amigos e aprendizagens para a vida toda. Depois dali fui para a Escola Agrícola, para Vendas Novas, para Dom Carlos I, mais três anos. E depois dali fui para a tropa. E cheguei à Quinta do Anjo ao fim de seis anos. Mas todos os fins de semanas, sem exceção, ia à Quinta do Anjo, ia ver os meus avós e acompanhar e pôr o nariz no que é que se estava a fazer, na realidade daquilo, do dia a dia de lá.

As vindimas eram uma festa?

As vindimas são uma festa. Muito trabalhosa, mas apaixonante. Eu hoje ainda, já estamos em outubro, já vai por aí afora, ainda lançaram-me um desafio, já com a adega limpa, lançaram-me um desafio que tinha umas uvas porreiras para fazer uma pinga de vinho, assim embora, traz. "Ah, tu mas não pensas?" "Não, não penso. As uvas não vão ficar no campo, as uvas é para transformar em vinho. Traz isso". E ainda hoje fui lá pôr o nariz dentro dos lagares, não fiz mais nada. Parei o carro, com o carro a trabalhar, puxei o travão de mão, cheguei lá, olhei para os três lagares, pus o nariz, ok, está fixe, está porreiro, a fermentação está a correr, pus-me no carro outra vez, vim-me embora, aqui estou contigo.

Ainda te lembras da primeira bebedeira?

Não. Lembro-me muito bem. Não foi bebedeira, mas foi a primeira vez. Na altura da caldeira, na altura que nós queimávamos o bagaço pra fazer a aguardente bagaceira e o fogareiro ligava-se às 08h e desligava-se às 20h quando eles iam embora. E havia sempre um chouriço de sangue, uma linguiça, uma orelha.

Naquelas brasas do alambique.

Tal e qual. Sempre. Depois vinham os coiratos, depois vinha isto e vinha aquilo, depois vinha outro, trazia um petisco. E foi aí que eu me lembro a primeira vez. Foi molhar o dedo na aguardente a sair.

Naquele fiozinho antes de cair.

O fiozinho, molhava o dedo, provar e depois já não era só o coiso, já era com uma caninha. "É, pá, isto é mesmo bom". E são aromas e são sabores que ficam até o dia de hoje. E foi aí, se calhar, engaiato, que bebi as primeiras e se calhar até já fiquei mais contente, porque depois passava lá o dia inteiro. Eles tinham uma mesa de pedra, logo à entrada da caldeira do lado esquerdo, e eu sentava-me lá, era capaz de estar lá todo o dia.

Aquele fio que corre para o pendurinho.

Isso mesmo.

Na adolescência, levavas os amigos às escondidas pra adega?

Levava. E fazíamos competições. Ligava a mangueira lá nos depósitos e vê quem conseguia estar mais tempo com a mangueira dentro da boca, vê quem conseguia beber mais Moscatel. Não tem graça nenhuma e hoje em dia, se o meu filho ou os meus sobrinhos fizessem, repreendia, mas também não era nada que já não tivesse feito. Tinha a sua piada, essa parte perigosa, por saber, o meu avô morava ali. Vamos entrar devagarinho, não fazemos barulho. Mas para irmos beber, se a gente fosse quatro ou cinco, se a gente bebesse meio litro ou nem isso, mas ficou para o registro histórico da nossa vida.

A transgressão. Para manter o negócio e vender vinho, o teu avô ia abrindo tabernas. Chegaram a ter quantas?

Eu só me lembro de quatro.

Tu ias às tabernas?

Eu ia sempre no verão, que era quando estava de férias. Ia à segunda-feira pra zona de Sesimbra, porque de inverno só íamos à quinta-feira pra zona de Sesimbra e à sexta-feira pra zona da Baixa da Banheira. Segunda-feira era trabalhos de adega, terça-feira o meu pai passava o dia todo no escritório na Via Telemóveis a receber as encomendas e algumas encomendas eram trazidas de uma semana pra outra. Na quarta-feira faturava, na quinta e na sexta entregava. E vendia-se mais vinho do que se vende hoje em dia. Lembro como se fosse hoje. O Cheado ardeu numa quinta-feira. Eu ia num carro. Quando chegamos a Santana, numa Bedford muito velha, com um rádio daqueles com quatro botões que andava aos saltos de um lado pro outro, a gente ao ouvir na rádio que o Cheado estava a arder e a gente olhou pra Lisboa quando estávamos a chegar a Santana e estava o Cheado a arder.

Esse fumo.

O fumo. Na altura já fazíamos a transição, íamos pra Sesimbra com um carro e depois o meu avô vinha ter a Santana com outro carro pra gente ir pra zona do campo, pra zona de Alfaria, Aldeia do Meco, Samojal, Lagoa de Albufeira.

E levavam o vinho na carrinha.

Levávamos vinhos em barril, sempre em barris de 30 e de 50 litros.

Quando é que decidiram começar a engarrafar?

Foi há cerca de 30 e poucos anos atrás, quando o consumo de vinho em barril nas tabernas, as tabernas começaram a baixar a venda e tínhamos que procurar uma solução.

Imagino que tenha sido difícil.

Não foi fácil, não foi nada fácil, por dois motivos: a nossa área de negócio não estava vocacionada pro vinho engarrafado e tínhamos que ir à procura de outra forma de comercializar os vinhos engarrafados. No caso dos Moscatéis, foi fácil. No caso dos vinhos, não foi fácil. Já havia no mercado algumas marcas com muito dinamismo e não basta ter a qualidade. Temos que ter também algum renome, algum dinamismo.

É difícil para uma casa mais pequena entrar no mercado?

Se formos de frente a frente, de choque, é impossível. Não conseguimos. Temos que ir pela diferença. E é por aí um bocadinho o meu caminho, o caminho lá da casa, o nosso caminho tem sido sempre tentar procurar, eu digo na brincadeira, fazer o que os outros não querem fazer. Eu quando me foco desde o início na produção só de castas regionais, incentivar os agricultores a não arrancarem as vinhas velhas, tentar procurar recuperar algumas castas da nossa região que estavam praticamente desaparecidas. Depois se os outros vêm aqui e fazem, porreiro, fixe. Hoje em dia é mais fácil porque conseguimos já ter massa crítica para conseguir mostrar o que estamos a fazer e as coisas começam a acontecer com mais velocidade. Há uns anos atrás era mais difícil. Claro, depois há sortes e azares no meio disso tudo. Tivemos a sorte de entrar para um distribuidor a nível nacional focado nesse tipo de vinhos, a Decante Vinhos ajudou-nos muito.

Há pouco falavas de castas autóctones e de castas da região. Quais são as que mais te apaixonam?

Ao dia de hoje, o Bastardo. Foi uma casta que fui buscar as varas em 2006, fiz um enxertamento de borbulha numa vinha de Aragonês que eu nunca gostei do que saiu de lá. Sendo uma casta da nossa região, da Península de Setúbal.

Uma região que é muito conhecida pelo Periquita.

Sim, que vem mais tarde, porque antigamente o que havia aqui, encostado ao rio Tejo, era o Bastardo, que depois quando da transição pro rio Sado, se perdeu um bocadinho Em detrimento do castelão, do periquita. Mas sempre se fez grandes generosos da casta bastardo. E eu reparei que estava praticamente a diminuir, porque na Lavradio, no Barreiro, na Charneca já não havia vinhas nenhumas, porque as grandes quintas que tinham as vinhas, todas elas estavam dizimadas, porque a especulação imobiliária assim o obrigava. E eu fui buscá-la sempre na vertente do vinho generoso. E não é aquela de me apaixono de uma tal maneira que eu estou a fazer já vinho tranquilo com a casta bastardo há mais de 10 anos.

Em Azeitão, em Palmela, em Setúbal, é normal entrar num café e ver pessoas a beber um moscatel. No resto do país não é assim tanto.

Mais ou menos, as coisas já vão mudando. Tirando em Braga, que Braga é o segundo maior distrito de consumo de moscatel de Setúbal. Preferem Setúbal por causa da briga com a rapaziada do Porto e do Douro. E depois tem uma coisa, está muito perto da Galiza e os espanhóis adoram o moscatel. Hoje em dia, eu se calhar vendo mais na zona norte do que vendo cá em baixo.

O moscatel está mais na moda.

O moscatel não é estar na moda, o moscatel está a ser bem trabalhado hoje em dia, o que não acontecia aqui há uns anos. É fácil de reconhecer as mais-valias do moscatel. Se meter um moscatel de €10 e um Porto de €10, 90% do consumidor, se não estiver focado ao mundo dos vinhos, mais facilmente vai compreender o moscatel em detrimento do vinho do Porto. Mas isso é pelas particularidades da casta, porque é mais floral, é mais aromática, mais facilmente se envolve com o álcool, onde não fica tão presente, e um consumidor descontraído consegue perceber mais facilmente um moscatel do que um vinho do Porto.

O vinho do Porto é uma referência para vocês, produtores de moscatel?

O vinho do Porto é sempre uma referência para todos os produtores de vinhos nacionais. E há de ser sempre um abre portas a nível internacional. Nós, portugueses, parece que temos um bocadinho de vergonha. Nós temos cinco regiões, temos cinco generosos tão diferenciadores a nível nacional, estamos a falar do Madeira, do Carcavelos, do Porto Madeira, mesmo da Ilha do Pico, que podem ir em combate para o mundo inteiro, que não há um país com tanta diversidade e tanta qualidade nos vinhos generosos. E nós continuamos aqui, no nosso cantinho, a debater-nos uns com os outros, "um é melhor, o outro é pior". Não, cada um para as suas realidades. Eu gosto muito de Madeiras, gosto muito de Carcavelos. Também estou agora a perceber os vinhos licorosos do Pico, há coisas tão bem feitas. E há lugar para tudo, e há lugar para todos. Agora, temos que os saber trabalhar. Hoje em dia é mais fácil, com a quantidade de sommeliers e de restaurantes a trabalhar com aconselhamento vínico, é muito mais fácil do que era há uns anos. Temos é que fazer uma coisa, que é o que eu me debato desde sempre. Se não formos nós reconhecer o que fazemos, ninguém o faz por nós. E temos que ir para o mundo com uma garrafinha debaixo do braço e mostrar o que fazemos.

Numa altura em que as bebidas com maior grau de álcool parecem encontrar menos consumidores, como é que vês o futuro do moscatel?

Vamos dividir isto aqui em duas partes. O moscatel de entrada de gama para os welcome drinks dos casamentos e para as discotecas, cheio de gelo, vejo um mercado difícil e vejo uma necessidade de ser repensado o posicionamento destes moscatéis. Para os moscatéis de um patamar médio-alto, vejo um futuro promissor. Por quê? Tem vindo a haver um dinamismo no mundo dos moscatéis que não existia aqui há uns anos. Tirando duas casas, a procura do moscatel era um moscatel de entrada. Não havia a coragem de guardar algumas coisas, não havia a vontade de fazer diferente. Por isso, ainda temos muito para crescer. Não tendo a ajuda dos ingleses como o Porto e os vinhos da Madeira têm, temos o mundo inteiro ao nosso alcance.

Pedro, temos estado a falar de trabalho. Mas eu sei que nos tempos livres tu trocas a terra pelo mar.

É verdade. Sou um gajo apaixonado pelo mar, sou um gajo apaixonado pelo fundo do mar e sempre que posso, vou para lá, porque lá o telefone não toca, ninguém me chateia. Meto a garrafa às costas e lá vou eu tirar umas fotografias aos peixinhos e a tudo o que mexe lá embaixo, porque é a minha maluquice, o meu escape para fugir um bocadinho aqui da correria do dia a dia.

O tempo passa a correr e o nosso está a chegar ao fim. Já a seguir, o espaço que nos ajuda a saber o que fazer na hora de sacar a rolha. Saca-dúvidas. Pedro, a que temperatura se deve consumir um vinho moscatel?

Para mim, o moscatel tem que ser guardado no climatizador a 12 graus, nos climatizadores dos brancos, porque rapidamente enquanto se vai buscar, tira-se a rolha e serve-se, ele sobe dois graus. Para mim, a temperatura ideal de consumo será os 14 graus. Sempre com um cuidado, que é não deixar os moscatéis passar dos 20 graus centígrados.

Qual é o melhor copo para servir um moscatel?

Um copo que dê a dignidade a um moscatel será sempre um copo fino, que tenha uma ligeira barriga. No dia a dia, sem grandes pretensões, um copo para vinho branco é o ideal para os moscatéis, para ficar um pouco fechado, para não deixar que os aromas mais voláteis desapareçam e consiga haver ali uma concentração em termos aromáticos.

Abres uma garrafa de moscatel hoje e não se bebe todo. Quanto tempo é que ela pode ficar aberta no frigorífico?

Pode ficar toda a vida, se nós pretendermos, se nós não ficarmos preocupados com a cor ou a precipitação que poderá acontecer. 90 e muitos por cento, quase 100% dos moscatéis, aguentam estabilizados em garrafa cerca de um ano a um ano e meio. A estabilização, as proteínas não são mortas, continuam a se desenvolver e vai acontecer uma precipitação, uma decantação, um cair no fundo da garrafa, da cor ou da própria proteína aglutinada com as partículas suspensas. Se nós não nos preocuparmos com isto, se nós tivermos uma boa rolha, pode ficar toda a vida. Por quê? Porque o moscatel é uma bebida oxidativa, é uma bebida que gosta do contato com o ar. Vai ficar feio? Vai. Vamos perder os aromas e os sabores? Não, vamos ganhar.

E assim chegamos ao fim deste "Tinto no Branco", com Pedro Camacho Simões, que dirige a Casa Agrícola Horácio Simões, na Quinta do Anjo, região da Península de Setúbal. Eu sou a Ana Sofia Fonseca e todas as semanas trago-vos uma pessoa, uma história do mundo do vinho. "Tinto no Branco" passa na Rádio Observador às quintas-feiras, depois das 11 da noite, e está sempre disponível em podcast. Siga, partilhe, esteja e brinde conosco. Obrigada, Pedro.

Obrigado eu.