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Então à nossa! Muito obrigada por teres vindo. Por que trouxeste este Guru Vinha da Calçada?

Obrigada eu pelo convite, Ana Sofia. É um prazer enorme estar aqui. O Guru Vinha da Calçada é um vinho muito especial para nós. É mais uma vinha velha que nós descobrimos e que estamos a recuperá-la. São vinhas centenárias nas zonas mais altas do Douro, a cerca de 650 metros de altitude, em solos 100% graníticos. São vinhas centenárias lindíssimas que, graças a Deus, estamos a conseguir recuperar e fazer um vinho único de vinhas velhas com mistura de castas, fermentado num fudre, e depois esteve dois anos em contato com as borras finas. É um vinho super delicado e mineral que eu aconselho a provar.

Bem-vindos ao "Tinto no Branco", um podcast observador. Todas as semanas brindamos com um convidado diferente, sempre uma história de vida, uma vida com história. E ainda algumas dicas úteis para a hora de abrir uma garrafa. O mundo do vinho português, "Tinto no Branco". Eu sou a Ana Sofia Fonseca e comigo está Sandra Tavares da Silva. Foi jogadora de vôlei e brilhou nas passarelas, mas o campo foi sempre a sua paixão. Considerada pela "Financial Times" uma das melhores 24 enólogas do mundo, divide a vida entre o Douro e Alenquer, na região de Lisboa. Sandra, ser eleita uma das 24 melhores enólogas do mundo pela "Financial Times", ainda mais pela guruda crítica de vinhos Jancis Robinson, é uma distinção e tanto. Como é que se lida com isso?

Naturalmente, foi uma surpresa enorme e uma alegria enorme ser reconhecida pela Jancis e especialmente pela "Financial Times" entre as 24 melhores enólogas. Mas vivo naturalmente, não mudou praticamente nada na minha forma de estar. Claro que deixa mais responsabilidade.

Como é que recebeste a notícia? Ainda te lembras onde é que estavas?

Sim, eu estava a viajar, já não me recordo bem onde é que estava, mas sei que um distribuidor na Inglaterra, nosso importador da Inglaterra, me informou e eu fiquei sem acreditar. Não queria acreditar no que estava a acontecer e especialmente vendo no meio da lista das enólogas tão conhecidas e com projetos incríveis em todo o mundo.

O que fizeste? Pegaste no telefone e ligaste para alguém? Quem é que foi?

Liguei logo ao Jorge. Sim, claro, tinha que partilhar com ele e depois com os meus pais e irmãs. Fiquei feliz, superfeliz, acho que foi um marco grande pra mim.

Estavas à espera?

Não, de todo.

No meio do vinho, essa distinção trouxe-te mais aplausos ou mais uma certa inveja?

Eu tento afastar um bocadinho tudo que seja reações negativas ou energias negativas. Tento lidar bem com elas e não dar grande importância. Fico feliz quando me dão os parabéns, mas também não fico triste se não mencionam, porque acho que é uma coisa natural.

Estamos em outubro, no rescaldo das vindimas. Como é que correu a vindima?

No final, correu muito bem, mas foi uma vindima estressante, principalmente o pré-vindima, os meses e semanas que antecederam a vindima, porque foi um ano desafiador. Eu acho que nós estamos cada vez mais habituados, todos os anos são cada vez mais desafiantes e imprevisíveis. E no caso de 2025, foi um ano em que tivemos muita chuva, o que foi ótimo, até o final da primavera, mas a partir de maio, zero d'água, uma grande seca, que no início do verão não se sentia muito, porque ainda havia bastante reservas hídricas no solo. Mas a partir daí começaram a surgir vagas de calor, principalmente três que foram mais fortes, principalmente a última, já em agosto, em que foram quase 10 dias seguidos acima dos 40 graus e noites também muito quentes, o que não é normal. E isso principalmente no Douro. Em Lisboa foi mais fresco, não tivemos esse impacto tão forte. Mas graças a Deus, temos muitas vinhas velhas que são muito resilientes. E também a partir de, eu já não me recordo bem, mas a segunda semana de setembro, começaram as noites a ficar muito frescas, o que ajudou bastante ao equilíbrio das plantas.

Falavas-me agora das vinhas velhas. De onde é que vem essa paixão pelas vinhas velhas?

Foi uma paixão que foi crescendo a partir do momento em que comecei a trabalhar no Douro e observá-las e ver a imensidão e a identidade incrível e diversidade que existe nas vinhas velhas, que temos a sorte de ter muitas no Douro e também em muitas outras regiões, mas principalmente no Douro é fascinante ver a quantidade de vinhas velhas incríveis que existem, com a diversidade, e depois acompanhá-las ao longo dos anos e ver quão leais elas são para conosco em termos de produção, de resiliência, na produção de vinhos incríveis e principalmente na genuinidade e identidade dos vinhos que produzem.

Trabalhas entre dois lugares muito diferentes, o Douro e a Quinta de Chocapalha, em Alenquer. São projetos muito pessoais, muito emocionais. Como é que os descreves? Comecemos por Chocapalha. É um projeto de família.

Sim, Chocapalha é a menina dos olhos dos meus pais e nossa também. Foi um projeto de família em que realmente temos memórias incríveis, porque os meus pais decidiram naquela altura mudar de vida e sair de Lisboa. Nós vivíamos em Lisboa, em Oeiras, e abraçar um projeto No campo. Isto porque o meu pai era oficial da Marinha e durante muitos anos e quase toda a nossa infância e até grande parte da adolescência, estava sempre embarcado em missões, nós passávamos meses sem o ver. Eu acho que ele a certa altura decidiu que gostaria de voltar às raízes, porque nós já tínhamos uma quinta em família, nós passávamos grande parte das nossas férias, fins de semanas, numa quinta em Alcochete.

Já lá vamos a essa parte.

A essa altura, o meu pai decidiu sair da Marinha, reformar-se da Marinha e falou na família o que é que gostávamos de fazer. E nós dissemos: "Ter um projeto numa quinta, criar raízes numa quinta". Não foi possível na quinta de família, então andámos dois anos à procura de uma quinta perto de Lisboa. Isto foi imposto pela minha mãe para conseguir gerir também a família e parte dos estudos, e que acho que foi bastante acertado da parte da minha mãe. E encontrámos a Chocapalha, que é uma quinta lindíssima, com imensa história e na altura não conhecíamos bem o potencial daquela região, mas acreditávamos sempre que podia ser uma quinta com grande valor em termos de produção de vários tipos de culturas, pela história, pelas memórias que conseguimos ver naquela quinta, pelos edifícios, pelo solo. E foi em 87 que os meus pais compraram a quinta e desde aí foi sempre um amor à primeira vista, em que começámos a plantar tudo, a reconstruir tudo.

Lembras-te da primeira vez que lá foste?

Completamente. Sim, tenho isso sempre na memória. Foram dois anos muito intensos. O meu pai queria comprar uma quinta e o pai levava-nos a todas as quintas, ou projetos, ou terrenos onde podíamos construir a nossa quinta e eu lembro de vir sempre a chorar, de todo lado. E eu era miúda ainda, e o meu pai olhava para mim: "Mas por que estás a chorar? Isto não diz nada, esta casa não diz nada ou este terreno não diz nada". E o momento em que chegámos a Chocapalha, é uma travessa da Aldeia Galega da Merceana e começa-se a subir uma rua em terra batida, mas rodeada por carvalhos lindíssimos, centenários e com muita floresta e com muito verde. E logo o meu pai: "É esta". E nunca mais. E depois, claro, fomos vendo a quinta e foi um processo longo, porque foi um processo difícil de compra, mas o meu pai percebeu logo na minha cara, acho eu, que tinha que ser aquela quinta.

Vocês são três irmãs.

Sim, somos três irmãs.

Todas apaixonadas pelo campo?

Acho que sim, mas se calhar eu desde mais pequenina sempre tive o fascínio pela terra. Lembro de irmos para a quinta do meu avô e eu andava sempre com a mão na terra a plantar coisas, a apanhar sementes. Foi sempre o meu encanto, a terra.

São muito diferentes umas das outras.

Somos muito diferentes as três. Só eu é que estudei agronomia. A minha irmã mais velha tirou medicina, e depois medicina dentária, e a irmã do meio tirou economia, mas o bichinho da terra veio mais tarde. Trabalhamos juntas na Quinta de Chocapalha.

Viajemos até à tua infância. Nasceste nos Açores.

Eu nasci nos Açores porque o meu pai era oficial da Marinha e estava colocado na Rádio Naval em São Miguel, em Ponta Delgada. E nasci lá, só estive lá dois anos, depois voltei várias vezes.

Lembras-te dos navios? Lembras-te do teu pai vos levar aos barcos?

Sim, isso era um fascínio imenso quando nós podíamos ir visitar o nosso pai, principalmente por ele estar meses fora ou semanas fora, e podermos ir vê-lo ao navio era incrível. Até todo o ritual de entrar num navio de guerra é lindíssimo, quando entra a família do comandante do navio, é giríssimo. Adorávamos.

Vocês deviam ser as princesas.

Sim, éramos, mas tínhamos que nos portar muito bem, porque o meu pai olhava para nós, estávamos sempre ali a portar muito bem.

Aos 10 anos já tinhas um metro e 70. Eras sempre a mais alta da turma?

Sempre fui a mais alta e isso não era fácil, principalmente naquela altura em que eu me destacava muito, porque eu era altíssima, era horrível. Era sempre a grua ou a girafa. Sofria um bocadinho pela altura, detestava ser alta, mas depois percebi que não podia fazer nada contra isso. Eu lembro-me de miúda querer fazer dieta para não crescer mais e a minha mãe olhava para mim e dizia: "Não há dieta para não crescer".

Como dizias, chamavam-te girafa, grua.

Sim, era horrível.

Mas o que tu mais detestavas era grua?

Grua, odiava. Porque girafa até achava graça ou havia outros nomes, mas grua achava mesmo feio e impessoal. Ficava mesmo furiosa.

Olhando para trás, sentes que sofreste bullying?

Sim, sofri. Claro que não se dizia.

Não se usava a palavra.

Não se usava a palavra, mas sim, sentia, as pessoas não brincavam comigo. Até me lembro da engraçadíssima que a minha irmã ficava furiosa quando me via na escola sozinha, a brincar sozinha. Eu sempre fui muito mais tímida e por isso também, se calhar, derivado a isso, isolava-me muito, porque como era diferente, as outras crianças não queriam brincar comigo. E eu sentia isso, que estava sempre muito isolada e a minha irmã Beca, que trabalha comigo em Chocapalha, quando me via sozinha, ficava furiosa. Então ia até com as miúdas da minha turma e dizia assim: "Se vocês não brincam com a minha irmã, levas uma chapada". E sempre a proteger-me. E isso acho que foi importante para mim, mas também acho que eu ganhei resiliência e ganhei força para lutar contra estas adversidades, porque quando se é criança não é fácil lidar com este tipo de coisas.

Tens três filhos. Sentes que isso faz com que sejas mais atenta às questões de bullying?

Sim Sim, fui, porque senti na pele e não é nada bom. Acho que hoje em dia ainda é mais difícil, porque há muita coisa que nós não observamos e os miúdos ainda se fecham mais. É muito importante estar-se super atento a todos os pormenores nas crianças.

Foste aprendendo a lidar com a tua altura.

Sim.

É isso que te leva para o vólei?

Foi exatamente isso. Eu quando percebi que não havia nada a fazer, ia ser alta, ia.

Não havia dietas.

Não havia dieta. Uma das coisas que eu gostava era desporto e acho que fazia bem, até porque eu era muito curva, estava-me a tentar encolher para ser mais baixa e a forma de lidar era, no fundo, fazer desporto. Andei dividida entre o basquete e o vólei, mas depois preferi o vólei. Achei que o vólei era o desporto mais indicado para mim, para a minha forma de estar, e mais feminino. Adorei, foram anos incríveis.

Fizeste parte da Seleção Nacional.

Sim, fiz parte da Seleção Nacional nos anos 90. Já foi há bastante tempo.

Uau! Há algum jogo que não esqueces?

Houve vários. Mas eu acho que o espírito de equipa que se cria é tão bom, se calhar não foi só um jogo, foram vários jogos e são as épocas todas que a pessoa cria amizades e fortalecem-se amizades e relações incríveis.

A altura foi também passaporte para o mundo da moda. Como é que te encantaste pelas passarelas?

Por acaso é engraçado que eu desde muito pequenina, minha mãe diz, já não me lembro de muitas coisas, mas que desde muito nova adorava roupa e era muito mais preocupada com roupa que as minhas irmãs, se calhar, na altura eu era muito pequenina.

Tinhas aquelas bonecas de cartão que se vestia?

Exatamente. Sim, tinha, adorava. E fazia as próprias roupas para as bonecas. E depois ao longo do tempo fui-me encantando pela moda e também porque tinha altura. E entretanto uma faxineira às passarelas.

É verdade que foste descoberta por um caça talentos na rua?

Sim, houve um amigo nosso que me viu, foi em Cascais, e me perguntou se eu queria fazer fotografias. Até foi o Carlos Piçarra. E depois eu fiz ainda umas campanhas e depois mais tarde é que fui fazer o curso de modelos.

Como é que os teus pais viram essa tua paixão pela moda?

Super preocupados. Porque também a moda na altura era muito diferente do que é hoje em dia e muitas vezes não tão bem conotada. Os meus pais tinham medo que eu me perdesse na moda, que é o que acontece a muita gente, e que ficasse deslumbrada e que deixasse de estudar, mas nunca foi isso. Claro que demorei mais tempo a tirar o meu curso, mas que não vejo isso mal nenhum.

Tu chegaste a fazer uma carreira.

Sim, cheguei. Cheguei, mas nunca a 100%. Eu nunca deixei de estudar, estive sempre par e par.

Mas, por exemplo, desfilaste nas principais capitais da moda, Paris, Milão e Nova Iorque. Conta-me um bocadinho uma história desses tempos, como é que era?

Não é assim tão glamoroso como as pessoas pensam. O mundo da moda é duro, é super duro. A pessoa tem que fazer imensos sacrifícios, aceitar a rejeição, que eu acho que hoje em dia a maior parte das pessoas não sabe o que isso é e eu acho que é fundamental para a estrutura das pessoas conseguir aceitar um não. "Não, não serves, não és boa o suficiente." E conseguir lutar e manter o foco ou manter o sonho e não desistir. Acho que isso me ajudou para o resto da vida. Eu, graças a Deus, como tinha boa estrutura familiar, não dependia da moda, consegui conciliar os dois mundos, tanto de estudante como de familiar e da moda e do trabalho. Não tive os sacrifícios que eu vi outras modelos terem, de passarem fome, de terem que ir comer a discotecas, de terem que fazer coisas que não queriam fazer, mas para conseguirem ser aceites, para terem trabalho.

Ouvimos histórias de mulheres que acabam por ser vítimas até de assédio.

Exatamente.

Para desfilar é preciso equilíbrio e foco. Trouxeste alguma lição da passarela para a adega?

Para além do que estava a falar de resiliência, do tal foco, a precisão, todo o detalhe é importante e isso eu trouxe para a adega também. E também a presença, o saber estar, o saber comunicar, eu acho que é fundamental para a vida.

E assim chegamos ao final da primeira parte. Regressamos já de seguida para continuar a conversar com Sandra Tavares da Silva, que já foi considerada uma das melhores 24 enólogas do mundo. Haverá ainda tempo para saca-dúvidas, momento certo para conhecer o que precisa para brilhar na hora de sacar a rolha. Até já. Bem-vindos de volta ao Tinto no Branco, um podcast Observador. Eu sou a Ana Sofia Fonseca e aqui comigo está Sandra Tavares da Silva, que já foi considerada uma das melhores 24 enólogas do mundo pelo Financial Times, depois de integrar a Seleção Nacional de Vólei e de ser modelo. Daqui a pouco teremos saca-dúvidas, o espaço em que todas as semanas partilhamos dicas úteis para a hora de abrir uma garrafa. Mas antes, vamos começar pelo vinho que nos trouxeste. Assim, de repente, qual é a comida perfeita para este Guru Vinha da Calçada?

Eu acho que este vinho é tão complexo e tão mineral que funciona lindamente com muitos pratos.

Estamos a falar de um vinho branco.

Branco, sim. Mas se assim de repente, eu gostaria de um arroz de lagosta, um arroz caldoso.

Se tiveres de organizar um jantar, pensas primeiro na comida ou no vinho?

No vinho. Sempre. Porque depende. É um exercício giro de fazer, mediante quem vamos ter em casa e escolhemos os vinhos que queremos mostrar e depois a partir daí começamos a construir o jantar.

És casada com um enólogo, também ele bastante conhecido, Jorge Serôdio Borges. Lá em casa, quem é que cozinha e quem é que abre os vinhos?

Nós dividimos, mas hoje em dia, o Jorge tem apurado muito a cozinha. Eu agora já até tenho medo do que cozinhar à frente do Jorge, porque ele adora cozinhar. É giro, foi uma paixão que foi ganhando e quando nos casámos, ele não cozinhava nada, zero. E estes últimos anos ele tem cada vez aprimorado e adora cozinhar. É certo que não temos muito tempo, mas principalmente nas férias ou nos fins de semana, ou quando temos convidados especiais. Dividimos um bocadinho as tarefas, mas geralmente até sou eu que abro os vinhos e o Jorge prepara o jantar.

Vocês fizeram do Douro a vossa casa. Há pouco falávamos que te divides entre dois projetos, entre duas regiões, o Douro e Alenquer. Conta-me um bocadinho do teu projeto no Douro.

O projeto no Douro foi uma paixão enorme que criámos. Eu cheguei ao Douro em 99 para fazer um estágio de vindima. Eu não conhecia o Douro de todo, quando acabei o curso de Agronomia e depois Enologia, e fiquei completamente deslumbrada pelo Douro. O Douro é uma região lindíssima e incrível e quando comecei a trabalhar lá, achei que tinha um potencial incrível para fazer grandes vinhos. E quando conheci o Jorge, também sendo ele enólogo e sendo do Douro, fez-me descobrir outros lados do Douro que eu não conhecia. A pouco e pouco fomos conhecendo coisas ainda mais incríveis que eram diamantes brutos.

Foram crescendo juntos.

Fomos crescendo juntos. Claro que ele com muito mais experiência e legado de família no Douro. Eu não, eu era de Lisboa, conhecia muito pouco da região. E no ano em que decidimos casar, em 2001, também decidimos que era bom começarmos a crescer juntos e fazer um projeto juntos. Tínhamos ambos coisas em família, projetos de família, ambos trabalhávamos noutras empresas, mas achámos que era a forma de nós crescermos mais rápido e conseguirmos criar um projeto só nosso, arriscarmos e aprendermos mais rápido, que eu acho que é fundamental. Com o fascínio das vinhas velhas, decidimos partir à procura de uma vinha velha e o projeto tem vindo a crescer.

É assim que nasce o Wine and Soul.

É assim que nasce o Wine and Soul em 2001.

Como é que vocês se conheceram?

Conhecemo-nos na vindima de 99. Eu fui fazer o tal estágio na Quinta Vale Dona Maria, com o Cristiano van Zeller, que estava a começar o projeto. E era muito natural na altura da vindima. Ainda é, mas na altura, juntávamo-nos muito, porque o Douro era muito diferente do que é hoje em dia. Havia sempre jantares entre as quintas e houve um dia que houve um jantar lá na Quinta Vale Dona Maria e o Cristiano convidou outros produtores, nomeadamente o Dirk Niepoort, e o Jorge trabalhava com o Dirk, vieram e foi assim que o conheci.

O vosso vinho Pintas tem sido um filho pródigo. Quais é que são os prêmios ou pontuações que mais te orgulham?

Claro que houve uma que foi realmente marcante, que foi a pontuação, que ainda hoje em dia é a pontuação mais alta que um vinho português obteve na Wine Spectator.

98.

Foi 98 pontos com o Pintas 2011. E também com o Robert Parker, que consistentemente teve pontuações acima de 95, 97 pontos, que nos orgulha imenso. E a Jancis Robinson também pontuou 18,5, 19 pontos, já várias colheitas. Mas eu acho que para nós, o mais importante não é uma pontuação, é a consistência no projeto. Eu acho que é fundamental conseguirmos garantir que essas pontuações sejam prolongadas ao longo das várias colheitas. Claro que pode não ser a mais alta, mas que esteja nos melhores. E isso para nós é fundamental.

Há pouco dizias-me que estavas a viajar quando recebeste a notícia de estares incluída nas 24 melhores enólogas do mundo. Se eu bem me recordo, recebeste a notícia dos 98 pontos na Wine Spectator quando estavas na Noruega.

Sim. Foi, também. E eu lembro que estava sozinha e comecei a receber chamadas, nomeadamente do nosso importador do Brasil, a querer encomendar mais e nós não estávamos a perceber o porquê. E depois recebemos a notícia que era a pontuação muito alta e que realmente começaram a cair imensas encomendas rapidamente.

Vocês são os dois enólogos e trabalham juntos, fazem vinhos juntos. Como é que se concilia adega e casa? As discussões andam entre um lado e outro?

Sim, mas acho que não são bem discussões, são as conversas, as preocupações e os sonhos. Muitas vezes é difícil chegar a casa e esquecer a empresa. É quase impossível. Nós tentamos parar um bocadinho de falar sobre trabalho, mas é quase impossível, porque no fundo a nossa vida é a nossa empresa também, está tudo interligado, mesmo a nível familiar. Os miúdos estão sempre a perguntar sobre a empresa e gostam de estar em conhecimento do que se está a passar.

Vocês têm três filhos. Achas que algum deles vai seguir as vossas pisadas?

Não sei se na enologia. Acho que na enologia ou viticultura é preciso ter realmente uma paixão enorme e não sei se eles terão ou se querem seguir esse caminho. Mas, por exemplo, o nosso filho mais velho, o Francisco, está a tirar Gestão e diz que quer seguir as nossas pisadas, mas mais na área de gestão e área comercial, que é fundamental também. No caso dos gêmeos, ainda não sabemos. Eles têm 15 anos, ainda são muito novos, claro que ficaríamos felizes, mas acho que eles têm que seguir a vida deles. Acho que qualquer decisão será sempre apoiada por nós.

É verdade que provar um vinho mudou a tua vida?

Sim, eu acho que nunca pensei ser enóloga. Realmente, desde miúda gostava muito da terra, de agricultura, de campo, mas nem de todo estava virada para enologia. Nem sabia bem o que fazia um enólogo. Mas realmente foi quando entrei na faculdade e comecei a estudar, a especializar-me mais em viticultura. Na faculdade começámos a provar vinhos, houve um vinho que me marcou, que foi o Duas Quintas. Lembro-me que foi o primeiro vinho que eu provei, que disse: "Isto é espetacular". Já não me recordo bem o ano, mas penso que foi 1994.

E pensaste: "Eu quero fazer isto".

Gostava muito, porque eu acho que é a realização de um sonho para quem tem vinhas. No fundo, cuidar delas ao longo de todo o ciclo e depois imortalizar aquelas uvas. Imortalizar não é bem assim, mas conseguir partilhar o produto final é incrível. No fundo, é um produto que mexe com tanta gente, é supersociável, conseguimos juntar as pessoas e partilhar. Acho que é uma vida, não é só uma vida, é cultura, é família.

É uma mensagem que segue numa garrafa.

Exatamente.

Voltemos ao princípio. Cresceste entre Oeiras e a casa dos teus avós em Alcochete. Que memórias guardas de Alcochete?

De Alcochete são memórias incríveis, porque é a quinta do nosso avô. Foi o nosso bisavô que comprou aquela quinta para abastecer as várias mercearias que ele tinha em Lisboa, que é um conceito muito giro e muito à frente para a altura. Ele produzia de tudo lá, desde leite, carne, azeite, vinho, aguardente. Era uma quinta lindíssima. Nós passávamos lá a família toda. O meu pai é um de cinco irmãos, passávamos lá os fins de semana e férias com imensos primos e tenho memórias incríveis. Foi sempre uma alegria quando íamos para Alcochete.

Gostavas de andar a brincar no campo.

Sim, eu adorava. Estava sempre a inventar, a plantar coisas.

É verdade que gostavas muito de andar a cavalo.

Mais ou menos. Gostava, mas eu tinha um bocadinho de respeito. Sim, mas gostava. Adorava. Mas adorava mais até tomar conta do gado.

Ter os pés na terra.

Sim, sempre.

E lembras-te das mercearias?

Sim, lembro-me. Na altura, no fim da minha infância, muitas das mercearias já tinham sido vendidas, já não estavam na família. Mas lembro de ir com os pais, mostrarem as mercearias e são incríveis. Eu ficava fascinada com tudo, os cheiros. Adorava ir lá ver as mercearias.

Onde é que fizeste o liceu?

No Liceu de Oeiras, que foi muito giro porque tive a possibilidade de entrar logo na área de agropecuária, que poucos liceus tinham. Acho que hoje em dia já nem existe essa área. Mas eu desde sempre, como gostava imenso de agricultura, no nono ano fui para a agropecuária. Era giríssimo, porque no Liceu de Oeiras havia os betos, os surfistas e os agricultores, que era o nosso caso. Era muito engraçado. É um liceu espetacular.

Nessa altura já pensavas: "Eu vou trabalhar no campo".

Sim, estava decidido. Depois foi uma alegria enorme conseguir entrar em Agronomia, no ISA, que era o meu sonho, apesar de na altura as médias eram altíssimas. Eu tinha medo de não conseguir entrar. Quando eu vi o meu nome na pauta que tinha entrado, foi uma alegria enorme.

Como é que os teus colegas de agronomia lidavam com a tua vida dupla, ou seja, com o facto de seres modelo?

Sim Eu tentava esconder ao máximo, não queria que as pessoas soubessem, porque eu vivia aquilo com total naturalidade. Mas eu lembro-me perfeitamente de quando era caloira e no primeiro dia das aulas, a minha fotografia estava em todas as portas do ISA.

Como assim?

Fizeram fotocópias, souberam. Porque eu tinha feito uma campanha para um carro, na altura, e puseram as fotografias, mas enormes, em todas as portas e eu envergonhadíssima, com o Totó a esconder-me. Mas não foi possível esconder mais.

Ainda por cima são dois mundos aparentemente muito diferentes.

Muito diferentes, mas eu sempre vivi de uma forma super natural.

Ganhaste alguma alcunha no ISA à conta disso?

Não, acho que não. Por acaso, acho que não. Só foi esse episódio. Depois tive mais um episódio com um professor que me chumbava constantemente porque achava que eu tinha que desistir de agronomia. Um professor de química orgânica.

Por seres modelo?

Por ser modelo. Porque achava que uma modelo não podia ser agrónoma, que não batia certo. Fez parte da minha passagem pelo ISA, mas que não vejo com rancor nenhum.

Imagina que para as tuas colegas modelos também fosse caricato ter uma.

Sim, era. Elas achavam imensa graça. Eu ia sempre com os livros para os desfiles e para a Moda Lisboa, Portugal Fashion, todos os desfiles. Ia sempre com os livros atrás de mim e escondia-me sempre num cantinho quando estava nos ensaios e que podia estudar, estava sempre a estudar. Mas toda a gente respeitava imenso e achava imensa graça o porquê de agronomia.

O que é que tu respondias?

Porque eu gostava era de campo.

Sim, devia ser desconcertante.

Sim, era. Mas acho que era natural. Depois achavam graça quando eu explicava o que é que eu estava a estudar, por exemplo, estava a estudar os tratores ou a estudar parte pecuária, e eu mostrava-lhes e elas achavam imensa graça. Acho que quando eu acabei o curso, toda a gente ficou superfeliz.

Nessa altura já gostavas de beber um copo de vinho?

Na faculdade, sim. Era engraçado, porque eu também nunca gostei de cerveja. E então, sempre que saíamos ou quando íamos jantar fora, se alguém me acompanhava, pedíamos uma garrafa de vinho e sim, graças a Deus tínhamos sempre amigos prontos para me acompanhar.

Mais tarde, já emenóloga, ser mulher e uma mulher bonita trouxe-te mais obstáculos.

Acho que sim. Tentei sempre viver de uma forma natural e nunca dar grande importância às tais rejeições ou maus comentários. Mas sim, eu lembro-me, por exemplo, quando quis fazer o estágio no Douro. Eu quando estava a estudar fiz vários estágios em várias regiões, mais no Sul, como é óbvio, Bairrada, Dão, Alentejo e Ribatejo. Mas quando quis ir para o Douro, eu conhecia o Cristiano Van Zeller e pedi-lhe se ele arranjava uma adega para eu fazer um estágio. Não era preciso ser remunerado, só queria ter mesmo uma experiência no Douro. E ele, passado umas semanas, nunca mais me dizia nada, depois eu liguei-lhe e disse: " Cristiano, não consegues arranjar-me o estágio?" "Não está fácil, mas tenho o meu projeto." E eu disse: "Acho ótimo." E fui fazer o estágio com o Cristiano. Mas depois ele mais tarde contou-me o porquê. As pessoas tinham dificuldade em quererem me aceitar como estagiária por ser rapariga, por ser mulher, e por ser de Lisboa e também modelo. Eram três fatores que eles achavam que não ia funcionar. E depois foi engraçado que durante a vindima, toda a gente veio dizer ao Cristiano: "Que pena não teres mandado o currículo". Quem sequer queria ver o currículo. Isso foi triste por um lado, saber isso, mas também rapidamente andei para a frente e as oportunidades foram surgindo.

O nariz tem um papel muito importante na tua vida.

Sim.

É verdade que até as pessoas distingues pelo odor.

Sim, eu estou sempre a cheirar tudo, é horrível, é uma mania. Mas sim, o olfato é super importante na nossa profissão. Mas sempre foi para mim, por acaso desde muito pequenina, lembro-me de estar sempre a cheirar tudo, a cheirar o cabelo, a cheirar a roupa, a cheirar a almofada, a cheirar tudo e mais alguma coisa. Foi um sentido que foi muito apurado, por esta curiosidade de ir cheirando tudo.

Uma vez, há bastantes anos, disseste-me uma frase que me ficou no pensamento: "A terra fica-nos no sangue".

A terra é tão forte, por isso eu acho que deve ser tão dramático ter que vender uma terra. Porque eu senti também isso na pele quando houve aquela questão da quinta dos nossos avós em Alcochete e nós termos que vender, que não ficou para nós. Isso foi para mim, se calhar das experiências mais traumáticas que me lembro da infância. E percebo porquê, porque no fundo nós damos tanto à terra, mas a terra dá-nos também tanto, que o passar dos anos, a pessoa ter que vender ou ter que se desfazer de uma quinta ou de uma vinha, é terrível.

O tempo passa a correr e o nosso está a chegar ao fim. Já a seguir, o momento que nos ajuda a saber o que fazer na hora de sacar a rolha. "Saca dúvidas". Sandra, que vinhos precisam de ser decantados?

Não há regra de que vinhos é que têm que ser decantados, mas por norma vinhos com alguma idade, que já estão num meio muito redutor, com muito pouco oxigénio, e até no caso de, nomeadamente os tintos, em que possam criar algum depósito no fundo da garrafa, é conveniente decantá-los com muito cuidado, até para eles arejarem e para conseguirmos separar dessas partes sólidas que podem existir no fundo da garrafa.

Um vinho deve ser decantado quanto tempo antes de chegar à mesa?

Depende muito da idade do vinho, é exatamente isso. Mas se for um vinho com mais 10 anos, 15 anos, eu acho que umas duas horas, pelo menos, devia-se decantar.

Um vinho novo?

Um vinho novo nós também devemos decantar, especialmente se for um vinho que foi engarrafado há pouco tempo, para conseguir facilitar que os aromas sejam mais expressivos. E não é preciso ser decantado tanto tempo, basta muitas vezes meia hora antes e fazemos decantação rápida.

E assim chegamos ao fim deste "Tinto no Branco", com Sandra Tavares da Silva, a enóloga portuguesa que foi considerada pelo Financial Times uma das 24 melhores enólogas do mundo. Eu sou a Ana Sofia Fonseca e todas as semanas trago-vos uma pessoa, uma história do mundo do vinho. "Tinto no Branco" passa na Rádio Observador às quintas-feiras, depois das 11 da noite, e está sempre disponível em podcast. Siga, partilhe, esteja e brinde conosco. Obrigada, Sandra.

Obrigada eu.