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Correr à hora de almoço, jogar pádel às 3 da tarde ou fazer um treino intenso quando o termômetro marca 35 graus. Há quem diga que assim se transpira mais e até se queimam mais calorias, mas será que treinar com muito calor é realmente uma boa ideia? Doutora Vanessa Mendes, bom dia.

Bom dia.

Até que ponto o nosso organismo tolera fazer exercício nestas condições?

Durante o exercício físico, os nossos músculos produzem uma grande quantidade de calor. E quando treinamos num ambiente muito quente, o organismo enfrenta aqui um duplo desafio. Ou seja, por um lado, precisamos dissipar o calor produzido pelo exercício e, ao mesmo tempo, temos que estar a lidar com a temperatura elevada que nos rodeia. Para conseguir arrefecer o corpo, aumenta a transpiração e desvia mais sangue para a pele. Isso significa que sobra menos sangue disponível para os músculos e para alguns órgãos, o que naturalmente faz com que aumente o esforço cardiovascular.

Isso quer dizer que o coração também sente esse esforço, não é?

Sem dúvida alguma. Em dias de muito calor, para manter o mesmo ritmo de corrida ou de treino, o coração precisa de bater mais depressa. Além disso, perdemos mais água e eletrólitos através da transpiração. O resultado é uma maior sensação de esforço, cansaço mais precoce e até uma diminuição do rendimento físico. Ou seja, o treino parece mais difícil, porque do ponto de vista fisiológico é mesmo mais exigente.

E há uma temperatura a partir da qual devemos evitar fazer exercício?

Não existe um valor único.

Sim.

Exatamente. Que seja igual para todas as pessoas. Aqui o risco depende da temperatura, mas também da própria umidade, da intensidade do exercício, da hidratação, da idade também da pessoa e da existência de outras comorbilidades, outras doenças. No entanto, quando as temperaturas ultrapassam, por exemplo, os 35 graus, sobretudo se associadas à elevada umidade, o risco de doença relacionada com o calor aumenta significativamente. Nestes dias, o ideal é mesmo evitar o exercício intenso nas horas de maior calor e privilegiar o início da manhã, por exemplo, ou então o final da tarde.

E como é que percebemos que o organismo já não está a conseguir lidar com o calor?

Existem vários sinais que não devem ser ignorados, nomeadamente tonturas, náuseas ou vômitos, dores de cabeça intensas, cãibras que persistem. Por exemplo, também ficar muito confuso, até desorientado e com dificuldade em falar. E também quando percebemos que deixamos de transpirar, apesar de estar tanto calor. Estes podem ser sinais de que efetivamente entramos em exaustão pelo calor, ou até que haja um golpe de calor, como também já aqui falámos, que é uma verdadeira emergência médica. E nestes casos, o exercício deve ser interrompido de imediato e a pessoa deve ser arrefecida rapidamente e observada por uma equipa médica.

Quem gosta de treinar nestas alturas, no verão, com calor, deve fazer o quê?

Não precisa de deixar de fazer exercício. Isso é um ponto importantíssimo. Mas deve adaptar o treino às condições ambientais e, portanto, manter uma boa hidratação antes, durante e após o exercício. Nomeadamente evitar as horas de maior calor, reduzir a intensidade sempre que necessário, utilizar roupa leve e que seja respirável. Isto também é um ponto importante. E acima de tudo, respeitar os sinais que o corpo nos vai dando. Porque o objetivo do treino é melhorar a saúde e não colocar o nosso corpo em risco.

Portanto, treinar no verão continua a ser saudável, desde que o façamos com bom senso.

Exatamente, é isso mesmo. Aqui o bom senso impera sempre. O exercício físico continua a ser um dos pilares da saúde, mesmo durante o verão, mas quando as temperaturas são efetivamente muito elevadas, o nosso organismo trabalha muito mais para manter a temperatura corporal estável. Adaptar o horário, a intensidade, a hidratação, não significa treinar menos, significa treinar de forma mais inteligente e mais segura, porque na medicina do exercício há uma regra simples: não é o calor que temos de vencer, é ao calor que nos temos de adaptar. E, portanto, o melhor treino não é o mais intenso, é aquele que desafia o corpo sem ultrapassar os nossos limites.

Pois, imagino que sim. Foi mais um Tratado da Saúde com a doutora Vanessa Mendes. Até amanhã, doutora.

Até amanhã. Obrigada.