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Uma vez mais, bom dia, Júlio. Começo eu o Três Toques. Diz?

Vamos lá, temos uma surpresa. Podes começar tu.

Uma surpresa?

Vamos lá.

Mas não é para mim.

Não, é para todos, para vocês.

Começo eu porque estamos em Aveiro e eu quero recuar ao dia 7 de janeiro de 1977.

Ainda não era nascida.

Nem eu. Era uma quarta-feira, pelo menos assim diz o calendário, o cenário era o mítico Estádio Mário Duarte e nesse dia jogavam para o campeonato o Beira-Mar e o Benfica. Eu, como ainda não era nascido, deixo a tarefa de explicares aos nossos ouvintes.

Mas força, Carla, podes continuar.

Eu continuo porque aparentemente era só mais um jogo do campeonato, mas não era mesmo só mais um jogo. No Beira-Mar, além de outras grandes figuras do nosso futebol, estavam, vejam lá o que eu sei, mesmo sem estar nascida nessa altura, Eusébio. E não era um Eusébio qualquer, era mesmo o Eusébio da Silva Ferreira.

E porque não era só mais um jogo, porque era a primeira vez que o Eusébio ia jogar contra o seu clube do coração, o Benfica. Eu não quero brilhar muito mais e aliás, ofuscar o vosso brilho todo, basicamente. Digo-vos só que esse jogo terminou empatado 2 x 2. Júlio, o resto é história, conto contigo.

Pois é, muito bem. Foi um jogo mítico esse. Eu vim ver esse jogo. Vejam lá as vantagens de ser mais velho.

7 de janeiro de 1977. Desculpa, tenho que perguntar, que idade é que tinhas?

De 63 pra 77, tinha 14. E tinha um casal amigo meu, ele era muito benfiquista, vinha o Eusébio jogar a Aveiro e comprou bilhetes. Chegar aqui ao Mário Duarte, isto cheio, foi enfim. Mas quem estava mesmo nesse jogo foi uma das maiores figuras do futebol português, como jogador e como treinador. De resto, é um treinador mundialmente conhecido e que tem um grande cartaz. Já vamos falar deste, que é o Manuel José, que mora aqui em Espinho, um algarvio que mora em Espinho há muitos anos e que jogou no Beira-Mar e estava nesse jogo, jogou com o Eusébio e que está aqui ao telefone agora conosco. Manuel José, muito bom dia. É verdade. Acho que está ao telefone já, não está?

Está. Bom dia, Manuel José.

Bom dia.

Manuel José, bom dia. Muito obrigado por estar a esta hora aqui conosco. Recorda-se esse momento do Eusébio? O Eusébio contou mais tarde que treinava em Lisboa e só vinha jogar a Aveiro. Era assim?

De princípio, ele fez isso, mas depois não. Depois ficava em Aveiro toda a semana. E, portanto, ele treinava juntamente conosco e jogava comigo, jogava sempre. O Eusébio foi uma das razões porque eu fui jogar para o Beira-Mar. Eu já tinha tudo praticamente acertado com o Braga para ir jogar para Braga, tinha o treinador famosíssimo, que foi um jogador famosíssimo da Argentina, o Mario Belloni.

Mario Belloni.

E ele tinha me quase convencido a ir para Braga. E de repente, eu leio que o Eusébio vai jogar para o Beira-Mar. Ele tinha vindo dos Estados Unidos, tinha sido campeão e tinha sido o melhor marcador. Ele tinha, naquela altura, 36 anos. E foi o que motivou, porque eu estive no Benfica com o Eusébio dois anos. No meu primeiro ano de sénior, fui júnior dois anos no Benfica e claro que não joguei jogo nenhum. Fui para lá em 1962, o Benfica tinha acabado de pagar e vir campeão europeu. Mas depois andei três anos emprestado e quando voltei, lembro-me que joguei 30 minutos contra a Académica. O Eusébio nesse ano fez uma época muito má, apesar de nós termos sido campeões e foi o Manuel António da Académica o melhor marcador com 19 gols e o Eusébio foi operado ao joelho no final da época e na época seguinte marcou 46 gols, foi o melhor marcador da Europa outra vez. E então, para mim era uma oportunidade de poder jogar permanentemente com o Eusébio, porque aquele jogo em que eu joguei só meia hora contra a Académica e ganhámos.

Entrou aos 59, não foi?

O que acontece é que nós fomos campeões, quando foi para receber a medalha, eu não fui receber a medalha porque eu achei que não merecia medalha nenhuma e então não fui, não tenho a medalha.

Não tem medalha.

Mas eu tive o prazer de treinar todos os dias com o Eusébio no Benfica.

No Beira-Mar. No Benfica e no Beira-Mar.

Exatamente.

O Eusébio era essa referência, imagino para um jogador mais novo, que devia ser até difícil dirigir-se ao Eusébio. Como é que ele era com os miúdos que estavam a começar, como o Manuel José? Era muito ensinador, que dava conselhos ou era mais vedeta?

Não, vedeta nunca foi. O Eusébio era um ser humano acima da média. Aquilo que era como jogador, era como pessoa, era uma pessoa extraordinária. Eu já tinha vivido no lar do Benfica com ele, que é onde viviam os solteiros, e portanto eu tinha uma relação muito boa com ele. Foi, de facto, isso que me convenceu a ir para o Beira-Mar. E o Eusébio era, de facto, uma personagem extraordinária. Era de uma humildade muito grande, incrível. E foi, para mim, um prazer muito grande jogar com ele.

Recorda-se concretamente este jogo? Contra o Benfica, 7 de janeiro de 77.

Está mais presente desse jogo, sabe, eu tenho 77 anos, a memória já não é o que era.

E foram muitos jogos. Exatamente. Mas Manuel José, eu estou a olhar aqui para a ficha do jogo. Houve dois amarelos, um ao minuto 43 e um ao minuto 69. Amarelos atribuídos a jogadores do Beira-Mar. Foi um jogo durinho? Fizeram vida negra ao Benfica?

Tinha que ser. O jogo contra o Benfica Contra o Porto, contra o Sporting, aquilo nós tínhamos que nos superarmos se não, éramos goleados.

Estava Nenê, Shehu e Chalana.

Sim, mas eu lembro-me mais desse jogo, não tenho grandes memórias desse jogo. Tenho, sim, do jogo contra o Sporting, em que nós empatamos 1x1 com o Sporting e o gol do Beira-Mar, tivemos a ganhar 1x0, foi o Eusébio que marcou. E o Sporting, naquela altura, tinha uma vedeta que era o Sálio Espincá, que foi um jogador extraordinário. E nós fizemos um jogo excelente contra o Sporting. Contra o Benfica, tenho muito poucas memórias desse jogo, porque também foram tantos anos e a memória também, como já disse, não é o que era.

Manuel José, só para terminar, tem memórias do Beira-Mar? Jogou aqui quantos anos e tem pena de ver o Beira-Mar hoje não estar entre os grandes do futebol português? Só para terminar mesmo.

Claro, eu joguei um ano e houve outro jogador, que foi depois um jogador extraordinário e de quem eu fui treinador no Sporting, que foi o António Sousa.

Não, o Sousa, que é daqui, claro.

É, jogávamos com o Eusébio. O Sousa tinha 19 anos na época.

O Sousa, que foi jogador do Porto depois.

Do Porto, exatamente.

Foi, foi jogador do Porto. E do Sporting, eu fui treinador dele mais tarde no Sporting.

O Manuel José foi treinador do Sporting.

Pois foi.

De facto, esse percurso que tivemos ao longo da vida como jogador e como treinador, eu fui jogador 19 anos, fui treinador 36 anos, ver um clube como o Beira-Mar, que era o grande representante da Associação de Futebol de Aveiro, na situação em que está, pronto, no mínimo, causa tristeza. Mas a vida é assim mesmo.

A vida é mesmo assim.

É. E não há que fazer dramas.

Claro que não. Manuel José, foi uma honra tê-lo aqui hoje de manhã. Muito obrigado pela sua disponibilidade.

Obrigado. É um prazer.

O Manuel José teve um percurso extraordinário como treinador e é um ídolo no Egito, treinou o Al-Ahly.

Pois foi.

No Egito é um deus, quase, para os adeptos egípcios.

Muito bem.

E pronto, era só para recordar esta efeméride, este jogo, que ficou marcado na história aqui em Aveiro, entre o Beira-Mar e o Benfica. Ficou 2x2 esse jogo. O Eusébio nem o livro queria marcar contra o Benfica na altura. Só poucos minutos antes do jogo é que decidiu que jogava com o Benfica, que ele não queria jogar contra o Benfica.

Muito bem, boa citação.

Notas de autora: seleção feminina já chegaram à Nova Zelândia 26 horas depois. Na Champions, o Olimpia de Liubliana ganhou ontem, 2x1. Curiosidade, é treinado pelo João Henriques, ex-treinador do Marítimo, que começou ontem a Liga dos Campeões. E mais nada. No Tour, tudo na mesma. Ontem ganhou o Pello Bilbao. Foi em linha, Marella mantém-se na mesma, vêm aí etapas agora a partir de amanhã mais duras. Pronto. Estamos em Aveiro. Vamos recordando aqui coisas de Aveiro. Tem aí um manancial enorme no desporto.

Tem, sim senhor. Foi o Três Toques com o Júlio Magalhães no fecho do Jornal das 8.