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Não há saída possível. Disso o agente secreto alemão tem a certeza. A mansão de paredes cor-de-rosa fica num sítio isolado. Por esta altura, é ainda a única casa na estrada da Boca do Inferno, em Cascais. Está cercada por montados e vegetação. Tem um pinhal nas traseiras e poucos metros à frente, escarpas que dão para o mar. O alemão confirma que a propriedade é fortemente vigiada por elementos da polícia política portuguesa e embora não os veja, sabe que o espaço também está a ser controlado pelos serviços secretos britânicos. A mansão pertence a um banqueiro poderoso chamado Ricardo Espírito Santo, mas quem está a ser vigiado é um hóspede dele. Esse hóspede não é nenhum prisioneiro, embora muitas vezes diga que se sente exatamente assim. Pode sair quando quiser, mas sempre sob proteção. Ainda para mais, nos últimos dias, a segurança foi reforçada, como se soubessem que algo estava a ser preparado. A missão dele é chegar ao homem hospedado na casa sem que alguém o veja. Mas isso não seria fácil. No verão de 1940, esta é a casa mais vigiada do país, mesmo que isso não tenha feito manchetes de jornais, porque a censura se encarregou de abafar todas as notícias sobre o que estava a acontecer. O hóspede é um dos homens mais famosos do mundo. Em plena Segunda Guerra Mundial, com a Alemanha ainda em vantagem e a parecer invencível, Hitler acha que conta com este homem para dominar a Europa. Por isso, enviou um agente a Lisboa com a única missão de o convencer a alinhar no plano. Se ele não quisesse colaborar, então a ordem era implacável: o espião teria de o raptar. O hóspede da casa cor-de-rosa já foi rei. Anos antes de chegar a Cascais, era nele que estavam centradas todas as esperanças de renovação da monarquia britânica. Até ao dia em que apanhou o país de surpresa quando decidiu abdicar do trono por causa de uma mulher. É uma das maiores histórias de amor de todos os tempos, mas é também uma história de espiões e de conspirações, de intrigas que dividem a família real, atravessam o governo britânico e chegam até Berlim e ao coração do regime nazi. Hitler pensa que pode ter um aliado em Eduardo. Ficou com o título de Duque de Windsor depois de abdicar. Quer voltar a pô-lo no trono e através dele controlar o Império Britânico. Parecia um plano perfeito, mas Hitler vai ser traído por quem menos espera. E essa traição vai acontecer em Portugal. Este é "Um Rei na Boca do Inferno", uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Soraia Chaves, com banda sonora original de Cláudio Pascoal. Episódio um: O hóspede da casa cor-de-rosa.

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Três de julho de 1940. A meio da manhã, dois carros atravessam a fronteira com Espanha e entram em Portugal. Os guardas já tinham sido informados da importância dos ocupantes. As formalidades são breves. Os carros têm como destino Lisboa, mas os condutores não conhecem bem o caminho. Em vez de contornarem Elvas, entram na vila e percebem rapidamente que as ruas são demasiado estreitas para conseguirem fazer algumas manobras. Não demora até ficarem parados Alguns dos habitantes reconhecem os ocupantes. Reagem com entusiasmo. Afinal, para surpresa de todos, dentro de um daqueles carros perdidos no Alentejo, estava o casal mais famoso do mundo. Com a força dos próprios braços, os populares conseguem desbloquear as viaturas, que seguem finalmente o caminho para a capital. Em Lisboa, Salazar é logo informado. O Duque de Windsor e a mulher já estão em território português.

Uma coisa é certa, quando de repente eles chegam à fronteira de Elvas, de repente Salazar tem um problema para gerir. E ele desejaria rapidamente que eles fossem embora. E quando chega de facto este personagem controverso, cercado de paparazzis, já com uma fama derivada do casamento com esta senhora, Wallis Simpson, portanto tudo isto e saído sobretudo das funções militares que desempenhava em França, claro, colocas um problema complicado.

José António Barreiros é advogado e tem vários livros publicados sobre a espionagem em Portugal durante a Segunda Guerra Mundial. Recorda como esta era uma situação diplomática difícil de gerir, por duas razões. Primeiro, porque depois da invasão alemã, o Duque tinha fugido de Paris, abandonando o cargo de oficial de ligação com o exército francês. Depois, porque Eduardo estava em guerra aberta com a família, por ter abdicado do trono mais de três anos antes, para se casar com a americana Wallis Simpson, que já tinha passado por dois divórcios. Ao final da tarde, a comitiva apanha o cacilheiro e atravessa o Tejo. Já há vários jornalistas à espera no Cais do Sodré. Será a única notícia que vão publicar sobre o caso. No dia seguinte, os jornais escrevem como a Duquesa elogiou a beleza do país e as estradas ornamentadas com flores. Mas os repórteres notam também como o Duque parece preocupado. Mesmo que não se veja o olhar por trás dos óculos de sol, mostra sinais de cansaço. Eduardo fala aos jornalistas, mas as hesitações no discurso denunciam ansiedade. Não, não pode dizer ao certo quanto tempo irão ficar. Sim, confirma que serão hóspedes do doutor Ricardo Espírito Santo. O governo britânico não perde tempo. Já tem dois aviões a postos para os levar de volta para a Inglaterra o mais depressa possível. Só que os duques nunca vão chegar a embarcar. No verão de 1940, o Duque de Windsor e a mulher, Wallis Simpson, não são os únicos a chegar a Portugal. Os nazis continuam a avançar pela Europa. O exército de Hitler tomou Paris há pouco mais de duas semanas e parece imparável. Fugir para sul é uma das poucas alternativas possíveis, explica a historiadora Margarida Magalhães Ramalho.

O que é facto é que Portugal é dos poucos portos livres da Europa e daqueles onde mais ou menos barcos de todo o lado chegam e que podem levar as pessoas daqui para fora. Portanto, é a porta de saída mais ou menos óbvia. É para sul que todos os que fogem, sobretudo depois da queda de Paris. E a queda de Paris é um choque enorme, até para os franceses. Vai ser um contraste brutal para quem chega. Um país em festa, a comemorar o seu duplo centenário da nacionalidade e da independência, com luzes, com comida, com tudo. Luzes pelas ruas à noite, enquanto eles vinham do blackout. E de repente, chegam aqui, isto é um oásis, é um paraíso.

Salazar não perdeu tempo a declarar a neutralidade do país. Aconteceu logo no primeiro dia da guerra, a 1 de setembro de 1939, mas anunciou-o de forma a deixar tudo em aberto, explica José António Barreiros.

Foi curiosamente através de uma nota à imprensa e não de diploma legal. Salazar, quem o conhece, sabe que é um jurista e é um legalista. Portanto, o normal seria que fosse elaborada uma lei que definisse a posição de neutralidade portuguesa. Salazar não o fez, claramente por habilidade política, porque nota à imprensa podia a posição portuguesa mudar a cada instante e não estaria vinculado por nenhuma lei.

Isso faz com que, mesmo já existindo censura, a propaganda circule livremente e para os dois lados.

Havia lojas ou táxis. Nós temos referências de que até os táxis poderiam ter a bandeira dos aliados ou a bandeira do Eixo, consoante as preferências. O Em Guarda, ou o Sinal do Eixo, ou depois a Voz da América, enfim, tudo isso era uma luta titânica pela propaganda, que passava nos cinemas, que passava em sessões mais ou menos privadas. Mesmo dentro do governo e aparentemente dentro da polícia política, também havia os pró-aliados e os pró-eixo.

Entre 1939 e o fim da guerra, milhares de refugiados passam por Portugal. Os duques de Windsor são os primeiros membros da realeza a chegar, mas muitos outros reis e príncipes se vão seguir. O rei Carol da Roménia, a grande duquesa do Luxemburgo, os filhos do rei da Bélgica ou mesmo primeiros-ministros e ministros. Instalam-se na linha entre Lisboa, o Estoril e Cascais. Em Lisboa, as mulheres estrangeiras escandalizam quem passa na rua. Sentam-se nas esplanadas do Rossio a fumar. Não usam luvas ou chapéus e vestem saias acima do joelho que vão contra os bons costumes nacionais. E nenhuma é tão ousada como Peggy Guggenheim, a colecionadora de arte milionária e boémia, que passou cinco semanas em Lisboa à espera de um avião para Nova York.

Felizmente, nunca foi apanhada, senão teria sido um escândalo desgraçado, porque ela escreve também numa espécie de livro de memórias que um dia resolveu ir tomar banho nua na praia de Cascais à noite. Teria sido lindo se ela tivesse sido apanhada num país em que havia os homens que andavam na praia a medir os fatos de banho das senhoras e a multar os homens que não tinham a parte de cima. Imagino o que seria se ela tivesse sido apanhada a tomar banho nua numa noite de luar na praia de Cascais.

O escritor Santas du Perrier, os pintores Salvador Dalí ou Marc Chagall, todos passam por cá durante a guerra. Os jornais internacionais escrevem que Portugal é uma espécie de nova Hollywood. E isso faz com que, naquele tempo, Lisboa seja também um ninho de espiões.

Ao longo das várias fases da história, nós sempre tivemos espiões, mas a espionagem na Segunda Guerra Mundial é absolutamente fascinante. Aquela frase que é um bocadinho clichê de que a realidade ultrapassa a ficção é claramente Portugal em 1939, 40 até 46.

Marisa Filip estuda há anos a espionagem em Portugal. Está a fazer um doutoramento sobre o tema e promove também visitas guiadas em Lisboa com o percurso dos espiões mais famosos que passaram pelo país. Explica como em 1940, Lisboa tinha tudo para se tornar um centro de espionagem internacional durante a guerra.

E se estavam cá todos, se estavam cá muitos refugiados, vão estar cá muitos políticos que saem da Alemanha, que saem da Polónia, que saem da França, é também aqui que vamos ter uma terra franca pra espionagem, porque está cá toda a gente, está cá a elite, estão cá os políticos, está cá a resistência e está aqui um país neutral que de certa forma vai dançando para os dois lados da guerra.

Os espiões estão em todo o lado. Nas embaixadas, sob a capa de adidos ou funcionários administrativos, mas sobretudo nos grandes hotéis, como o Palácio e o Atlântico no Estoril ou o Avenida e o Tivoli em Lisboa. Por isso mesmo, assim que o Duque de Windsor chega a Cascais, todos os olhos de todos os serviços secretos caem em cima dele. Os portugueses, os alemães, os britânicos. Não que seja a primeira vez que Eduardo está sob vigilância. Há anos que as secretas desconfiam dele. Dezembro de 1936. Três anos e meio antes de os Windsor chegarem a Portugal. É uma noite gelada de inverno. Um homem vagueia pelo Green Park em Londres. Segue encolhido, a tremer de frio, os olhos postos no chão. Aparentemente, é só mais uma pessoa a atravessar os jardins separados do Palácio de Buckingham apenas por uma estrada. Mas na verdade, Thomas Robertson, de 27 anos, é um jovem recruta dos serviços secretos internos, o MI5. Naquela noite, o agente está ali com uma missão: localizar a caixa de ligações telefónicas mais próxima de Buckingham. Assim que o faz, ativa um dispositivo que lhe permite intercetar as chamadas do palácio. Os serviços secretos querem espiar as conversas do rei. É o início de uma das operações de vigilância mais controversas da história do Reino Unido. Até há bem pouco tempo, os serviços secretos continuavam a garantir que nunca tinham espiado nenhum membro da família real, muito menos o próprio monarca. Foram precisas oito décadas para que a verdade sobre aquela noite de dezembro fosse conhecida. Há cerca de 10 anos, os documentos que provam que a operação existiu mesmo foram finalmente desclassificados. Tudo começou por causa de uma mulher. Eduardo ainda era o príncipe herdeiro. Em 1935, o rei Jorge V foi alertado para o fato de o filho estar a gastar fortunas em joias. Mais precisamente 110 mil libras, que aos dias de hoje equivalem a quase sete milhões e meio de euros. As joias destinavam-se a uma mulher misteriosa. O rei temia que o príncipe pudesse estar a ser chantageado e pediu que o caso fosse investigado. No início, o diretor do MI5 recusou o pedido do primeiro-ministro. A vida íntima da família real não era um caso de segurança nacional, mas acabou por ser pressionado a autorizar a investigação. O agente a quem foi atribuído o caso confirmou. Era verdade que Eduardo passava muito tempo com uma americana casada. Quem era esta mulher? Como é que tinha conseguido atrair o príncipe? O agente descreve Wallis Simpson como uma sedutora, que adora gastar fortunas em joias e eventos e não dispensa a companhia de outros homens. Os relatórios indicam que, nesta fase, a americana tem vários casos em simultâneo, incluindo com um vendedor de carros. Mas a relação entre o príncipe e aquela mulher casada mantém-se e as escutas continuam.

Shortly after midnight, the world heard the broadcast announcement. Death has come peacefully to the king at 11:55, on Monday, the 20th of January, 1936.

Depois da morte de George V, os serviços secretos não param de espiar o novo rei, por indicação e com o aval do primeiro-ministro. O governo não confia em Eduardo VIII. Quer saber se ele está, por exemplo, a passar informações sensíveis à amante. E se Wallis for uma agente ao serviço dos nazis? As próprias ligações do rei a elementos fascistas no país são consideradas suspeitas, diz Andrew Lownie, autor do livro "O Rei Traidor".

Esta era uma das grandes preocupações nos círculos governamentais, o fato de ambos serem muito pronazis. Foram ambos colocados sob vigilância pelos serviços secretos para registrar com quem se encontravam e o que diziam.

Wallis é considerada indiscreta e muito próxima de Lady Cunard, também ela nascida nos Estados Unidos e uma das mais célebres anfitriãs da alta sociedade londrina. O problema não será tanto a amiga, mas as ligações que ela tem, ou melhor, uma ligação em particular. Um alemão chamado Joachim von Ribbentrop. Outubro de 1936. São 11h30 da manhã. As portas da sala de audiências no Palácio de Buckingham abrem-se. O rei vê avançar um homem alto, casaca impecavelmente ajustada, gravata branca. Move-se de uma maneira formal, pouco espontânea, como se todos os gestos, mesmo que pequenos, fossem estudados. Von Ribbentrop é o novo embaixador da Alemanha em Londres e vem apresentar as credenciais ao rei. Quando escrever as memórias, Eduardo há de recordar este primeiro encontro. Ribbentrop disse-lhe apenas que o Führer desejava a paz e, em troca, o rei desejou-lhe uma boa missão no país. Mas Ribbentrop vinha mandatado por Hitler para uma missão muito concreta. E a missão era o próprio rei, explica o historiador Alexander Larman.

Hitler disse a Ribbentrop, antes de Ribbentrop ir pra Alemanha como embaixador britânico: "Ribbentrop, traz-me a aliança britânica". Porque Hitler tinha a ideia, uma ideia completamente errada, de que o papel do rei era mais ou menos como o papel do presidente na América, que é a pessoa responsável pela maioria das coisas e que a responsabilidade recai sobre ele. Ele não compreendia que o papel do monarca era, nessa altura, em grande medida, um papel cerimonial, e não um papel que tivesse impacto no dia a dia.

Hitler e Ribbentrop têm uma certeza: o novo rei vai alinhar num pacto com Berlim. Esse é um plano que os nazis nunca vão deixar cair, nem mesmo depois da abdicação. E é um plano que vai estar no centro de todas as intrigas quando, anos depois, os duques chegarem em Lisboa. É uma situação indesejável e tem de ser resolvida rapidamente. Assim que se sabe que os duques vêm a caminho de Portugal, é urgente encontrar um sítio onde possam ficar. A embaixada britânica não é opção. O governo proibiu todas as embaixadas de receberem oficialmente o casal. A escolha acaba por recair na mansão cor-de-rosa na Boca do Inferno, em Cascais, propriedade do banqueiro Ricardo Espírito Santo. A partir de aqui, há duas versões sobre o que poderá ter acontecido. Na primeira versão, tudo terá sido combinado previamente entre a embaixada inglesa e o governo português. Carlos Alberto Damas, investigador e antigo responsável pelo Centro de História do Banco Espírito Santo, diz que é impensável que Salazar não tenha estado também a par de tudo.

Presumo que um negócio destes nunca poderia ser tratado com o conhecimento que o Salazar tinha, que o Windsor venha para Lisboa. E o Salazar aqui era Ministro dos Negócios Estrangeiros também, creio que na altura, e dominava completamente tudo isto. E as relações entre a parte internacional do Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico com Portugal era através de Salazar, nada lhe escaparia, certamente. Isto é uma dedução. E o Ricardo terá sido contactado para receber em sua casa o Duque do Windsor. Seria o local mais privilegiado para manter a recato um ex-rei britânico

A segunda versão da história é a que dá azo às teorias da conspiração. A embaixada terá tentado marcar um quarto no Hotel Palácio, no Estoril, uma vez que a estadia se previa curta. O gerente terá respondido à última hora que não podia receber o casal por falta de espaço e por não poder garantir a segurança, e terá encaminhado os hóspedes para a casa de Ricardo Espírito Santo. E isso, explica Margarida Magalhães Ramalho, foi um problema para os ingleses.

A ideia de que ele iria para casa do Espírito Santo também é uma coisa que deixa um bocadinho preocupada a Inglaterra, a Grã-Bretanha, pela simples razão de que mais ou menos era sabido que Espírito Santo era um homem da confiança dos alemães.

Ricardo Espírito Santo era amigo pessoal do embaixador alemão em Lisboa, mas também tinha relações muito próximas com os britânicos. Dava-se bem com os dois lados. Certo é que ao final do dia 3 de julho de 1940, quando os Windsors chegam à mansão cor-de-rosa de Cascais, já têm à espera à porta para os receber, o banqueiro e a mulher. E Ricardo Espírito Santo será uma figura essencial para compreender toda esta história. Ainda nem sequer tinha 40 anos, mas há muito que já era um dos homens mais ricos e poderosos do país. Ricardo Espírito Santo tornou-se presidente do banco fundado pelo pai quando o irmão, José, decidiu abdicar do cargo por causa de um escândalo amoroso. Tal como o Duque do Windsor, apaixonou-se por uma mulher casada. Mas neste caso era a irmã da mulher do irmão. No fim de 1932, José Espírito Santo enviou-lhe um bilhete: "Faz a mala que eu vou mandar-te raptar." Partiram para Paris. A história é contada por José Maria Ricciardi, um dos netos de Ricardo.

Aquela altura foi um escândalo, porque hoje em dia já não ligaria nada. Um escândalo. Veio ter com o meu avô Ricardo, isto tem 30 anos, e diz-lhe: "Olha, Ricardo", e o meu avô tinha 33 anos. "Olha, eu vou-me embora para Paris, porque eu não aguento aqui a pressão desta gente toda. Vou com a tua tia Vera e não tenho dinheiro suficiente para viver em Paris, portanto, vou te vender a minha posição no banco."

Ricardo Espírito Santo fica à frente do banco, faz crescer o negócio e torna-o internacional. Visita frequentemente o Reino Unido e é amigo de grandes banqueiros britânicos. Na véspera da Segunda Guerra Mundial, o Banco Espírito Santo é já considerado o principal banco português. Mas Ricardo era muito mais do que um simples homem de negócios, recorda Carlos Alberto Damas.

Ele era o chamado bon vivant, quase ao arrepio da personalidade de Salazar. Até às vezes estranha-se da sua ligação afetiva e intensa que tiveram. O Ricardo era um homem muito ligado à mundivivência. Tinha um contacto social intenso. Era já um homem com grande poder também económico. Era aquilo a que chamavam o verdadeiro banqueiro.

O banqueiro era também um ávido colecionador de arte, desde que comprou a primeira tapeçaria aos 16 anos. Juntou tantas peças, entre quadros, esculturas, móveis antigos e azulejos, que de cada vez que casava uma das quatro filhas, era ele que lhes decorava a casa. Era também um amante de desporto. Foi campeão de esgrima, de golfe, jogava ténis e praticava vela, natação, remo e hipismo. Tudo isto associado ao facto de conhecer os meios da alta sociedade, fazia de Ricardo Espírito Santo o anfitrião ideal para um homem que desde cedo estava habituado a ser o centro de todas as atenções. Mais de 10 anos antes de chegar a Lisboa, Eduardo já era seguido pelos fotógrafos por todo lado. Ele era jovem, bonito, vestia-se bem e acima de tudo, era um príncipe. Mas o que fazia a diferença era o olhar. Era a forma como olhava diretamente para as câmaras, com os olhos muito grandes, magnéticos e azuis, com um à vontade desarmante para as objetivas. O filho mais velho do rei Jorge V, herdeiro do trono britânico, era de longe o membro mais popular da família real.

Não se pode subestimar a popularidade dele na Grã-Bretanha como Príncipe de Gales. Se Diana, a Princesa Diana, era a princesa do povo, Eduardo era o príncipe do povo. Era bem parecido, tinha aquela star quality de Hollywood, antes dos atores de Hollywood sequer estarem na berra. Tinha, tal como a Princesa Diana, quase aquele toque comum, na medida em que o próprio povo o adorava.

A jornalista e autora Anna Pasternak conta como Eduardo foi o primeiro a tornar a família real britânica numa marca global.

Thousands lined the road and their cheers for His Royal Highness were full of the enthusiasm and warmth of the North.

O jovem príncipe de Gales viajou por todo o mundo, enviado como embaixador da Coroa aos vários pontos do império. Eduardo era um homem moderno. Prometia um corte com o passado, trazer ar fresco à monarquia. As expectativas para o que viria a ser o reinado no futuro eram enormes, explica o historiador Alexander Larman, autor de três livros sobre a família real britânica e Eduardo VIII.

Na década de 1930, havia também uma grande sensação de que o país queria glamour, e o que o príncipe de Gales simbolizava era o glamour, porque ele tinha roupas fantásticas, era sempre visto em bares e coisas do gênero. Muitas pessoas, como Jorge V e a rainha Maria, seus pais, eram membros muito mais tradicionais da família real, muito mais austeros. Inicialmente, havia uma enorme esperança de que ele iria trazer uma nova monarquia, que iria dar ao rei um glamour e um entusiasmo que não tinha havido antes.

Só havia um problema que punha em causa a linha de sucessão. Os anos passavam e apesar de todas as pressões da mãe, a rainha Mary, Eduardo não queria casar. Adeava constantemente o assunto. Recusava, acima de tudo, um casamento por mera conveniência. O príncipe dizia que estava à espera de conhecer a mulher perfeita. E aos 38 anos, era o solteiro mais desejado do mundo. E isso não o impedia de ter várias amantes, normalmente com duas características: mulheres casadas e americanas. E é numa festa organizada pela própria amante, que conhece a mulher que lhe vai mudar a vida, e a monarquia. Wallis Simpson era casada com Ernest, um empresário com dupla nacionalidade, americana e britânica. Ia já no segundo casamento. A relação com o herdeiro ao trono não começa de imediato, mas em 1934 já é evidente. Dois anos depois, quando Eduardo se torna rei, o casamento com Wallis passa a ser uma obsessão. Entra em guerra com o governo e a família real, mas acaba por perder. Na noite de 11 de dezembro de 1936, os britânicos ligam a rádio para ouvir um anúncio que, para muitos, era inimaginável.

"At long last, I am able to say a few words of my own. I have never wanted to withhold anything."

Finalmente, posso dizer algumas palavras minhas. Eu nunca quis esconder-vos nada. Eduardo explica que já não é rei. Vai ser sucedido pelo irmão, o duque de York, ao qual deve agora obediência. E não deixa dúvidas quanto ao motivo da abdicação.

"Believe me when I tell you that I have found it impossible to carry the heavy burden of responsibility and to discharge my duties as King, as I would wish to do, without the help and support of the woman I love."

Acreditem em mim quando vos digo que percebi que é impossível carregar o pesado fardo da responsabilidade e desempenhar os meus deveres como rei, sem a ajuda e o apoio da mulher que eu amo. Até hoje, as opiniões dividem-se sobre este momento histórico e sobre a decisão de Eduardo VIII. O historiador Andrew Lownie acha que a abdicação serviu a todos, a começar pelo próprio rei.

Penso que um dos grandes mitos da abdicação é que ele abdicou do trono por amor a uma mulher. E ele abdicou, de fato, do trono por amor a Wallis. Mas penso que isso convinha a toda a gente. Convinha ao governo britânico, que não achava que ele fosse um rei adequado, não só devido às suas opiniões pró-alemãs, mas também porque era preguiçoso e não era muito bom ao lidar com a segurança. E isso também convinha. Isso safou-o. Ele usou a Wallis como eles fizeram, como uma forma de o afastar do trono.

Mas Eduardo podia ter recusado sair. Bastava que mantivesse Wallis como amante. Não o ter feito, diz Anna Pasternak, mostra não só um sacrifício pessoal, mas também o valor que dava ao trono.

O que é interessante é que ele é visto como alguém que teve uma das maiores negligências de dever na história ao abdicar. Mas ele disse no final do seu livro de memórias: "Não foi por dar pouco valor ao trono que eu abdiquei, mas porque o levei tão a sério que sabia que não poderia ser o rei que queria ser, se não tivesse a duquesa Wallis Simpson ao meu lado".

Eduardo VIII foi rei, mas na prática nunca chegou a ser coroado. O reinado durou apenas 325 dias.

And His Majesty King George VI is acclaimed.

Sucedeu-lhe o irmão Albert, que assumiu a coroa como George VI e que era o pai de Isabel, a futura rainha Isabel II. Ribbentrop fica furioso. O embaixador alemão em Londres nem quer acreditar quando ouve o anúncio da abdicação. Era inconcebível que o rei pudesse renunciar a todo o poder que tinha e apenas por causa de uma mulher. Para além de tudo, aquele ato impensável e infantil comprometia os planos alemães. Ribbentrop informa Berlim de que a abdicação tinha sido causada por uma conspiração para depor o rei. Um plano levado a cabo por um grupo de antialemães, maçons, judeus e reacionários, que queriam apenas afastar o monarca por este ser amigo dos alemães. Mas nem tudo está perdido. A mudança de rumo na monarquia britânica não faz com que Hitler desista da ideia de usar Eduardo como peão de uma jogada que acabe de vez com a guerra. Poderá colocá-lo de novo no trono quando a Alemanha vencer ou, quem sabe, torná-lo o primeiro presidente de uma nova república britânica. O plano só há de culminar em julho de 1940, durante a estadia de Eduardo e Wallace na Casa de Cascais. Mas essa é uma história para o próximo episódio. No próximo episódio. O carro sai de manhã da Casa da Boca do Inferno, em Cascais. O duque dirige-se à Embaixada Britânica em Lisboa. Vai comunicar a decisão de abandonar o país naquele mesmo dia, às 11h40 da noite. Está finalmente resignado. Perante a ameaça de Churchill, deixa cair todas as exigências. Mas assim que chega à embaixada, um palacete na Rua São Francisco de Borja, Eduardo recebe um novo telegrama inesperado. E essa notícia vai mudar tudo. "Um Rei na Boca do Inferno" é uma série em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Soraia Chaves, e tem banda sonora original de Cláudia Pascoal. O guião e as entrevistas são de João Santos Duarte. A sonoplastia deste episódio é de Beatriz Martelo Garcia. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de Tânia Pereirinha e João Santos Duarte. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube. Podcast Plus, do Observador, é mais do que um podcast. Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Kia.