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"Non, rien de rien. Non, je ne regrette rien".
E não é preciso dizer mais nada. Hoje o programa começa a pretexto da data de nascimento de Édith Giovanna Gassion, conhecida no mundo inteiro como Édith Piaf, a voz francesa mais conhecida do século XX. Há dias lembrámos Frank Sinatra, a voz. Hoje é a vez de outra das vozes do século.
Édith Piaf nasceu a 19 de dezembro de 1915, em Paris. Curiosamente, poucos dias após o nascimento de Francis Albert Sinatra. Em entrevistas posteriores, a mãe diria que a menina tinha nascido em casa, mas confirmou-se que era uma lenda. Édith Piaf nasceu na maternidade.
Na maternidade e na pobreza. Descendia de uma família de saltimbancos, artistas circenses, acrobatas e contorcionistas, e a avó materna era madame de uma casa de meninas de bem fazer.
Isso.
O nome de Édith foi-lhe dado em homenagem a uma enfermeira inglesa, que na Primeira Guerra Mundial ajudou a salvar a vida de prisioneiros de guerra aliados, capturados pelos alemães, e em consequência desses atos foi acusada de traição e condenada à morte. Foi executada por um pelotão de fuzilamento no dia 12 de outubro de 1915 e chamava-se Edith Cavell.
Desde muito cedo, Édith começou a acompanhar o pai na sua vida de artista itinerante. Após os números de contorcionismo do pai, a pequena Édith, então com apenas nove anos, cantava para o público.
Aos 15 anos, seguiu, por assim dizer, a carreira a solo. Cantava nas ruas e em bares, onde também atuava a mãe, Line Marsa. Aos 19 anos e com uma bebê nos braços, Édith continuava a calcorrear as ruas de Paris a cantar para ganhar a vida. A bebê não resistiu a estas condições difíceis de vida e morreu de uma meningite tuberculosa com 28 meses. Piaf mais tarde confessou que se prostituiu para pagar o funeral da filha.
A partir daí, a Édith abandona as ruas, começa a cantar em estabelecimentos de reputação menos duvidosa e grava então o seu primeiro disco.
E o sucesso é imediato, embora se aproximassem anos difíceis com a Segunda Guerra Mundial, anos difíceis para o mundo, mas a nível pessoal e romântico, não foram para Édith Piaf, porque em 1944 conheceu Yves Montand, um jovem cantor por quem se apaixonou e com quem viveu durante algum tempo.
Mas o seu grande amor viria com o grande sucesso já depois da guerra. Foi em 1947 que gravou "La Vie en Rose", a canção mais conhecida de Édith Piaf.
E foi em 1947, enquanto fazia uma digressão pelos Estados Unidos, que se apaixonou pelo pugilista Marcel Cerdan, aquele que viria a ser o grande amor da sua vida.
Cerdan estava no auge da carreira, campeão mundial de pesos médios, um título que viria a perder poucos meses antes da morte para o pugilista norte-americano Jake LaMotta, o Touro Em Raiva City.
E o fim trágico de Cerdan teve uma ligação a Portugal. O pugilista estava em França enquanto Piaf prosseguia a digressão nos Estados Unidos. E Cerdan deveria juntar-se à cantora e os planos era para atravessar o Atlântico de barco, mas Piaf instou a ir de avião, era mais rápido. O voo 209 da Air France descolou de Paris a 27 de outubro de 1949, às 20h, e tinha uma escala prevista no aeroporto de Santa Maria, nos Açores. Só que o piloto enganou-se na ilha e dirigiu-se para São Miguel, a uma altitude que seria boa para aterrar em Santa Maria, mas que levou a aeronave a embater no Pico Redondo a 1150 metros de altitude. No acidente, morreram todos os passageiros e a tripulação num total de 48 vítimas.
E mais tarde, Édith, destroçada pela tragédia, sentindo-se culpada, dedicou a canção "Mon Dieu" à memória de Marcel Cerdan.
Em 1952, já depois de ter casado com o cantor Jacques Pills, esta apresentou ao pianista Gilbert Bécaud, que viria a escrever-lhe várias canções, sendo esta uma das primeiras.
Isto podia ser o "I've Got You Under My Skin". Na década de 50, a corte de admiradores e colaboradores, incluindo Charles Aznavour e Georges Moustaki, foi aumentando, assim como foi aumentando o sucesso de Édith Piaf nos Estados Unidos e aumentando também a sua dependência de morfina e vários problemas de saúde.
Depois de se separar de Pills e de embarcar noutras relações tumultuosas, cantou no Olympia, em 1961, uma das canções que definiram a sua carreira e que era quase uma confissão e um testamento, que foi a canção, aliás, com que começamos este programa, "Non, je ne regrette rien".
Em 1962, ainda muito nova, tinha apenas 46 anos, mas bastante debilitada pelas doenças e pelos vícios, Piaf casou-se com o cabeleireiro Theo Sarapo, 20 anos mais novo do que ela, e que a cantora quis apadrinhar na vida artística.
Sarapo tornou-se manager, secretário, motorista e também cantor. O casal interpretou "À quoi ça sert l'amour?" e perguntavam: "Bem, de que é que serve o amor?"
"À quoi ça sert l'amour? On raconte toujours des histoires insensées. À quoi ça sert d'aimer?"
Edith Piaf morreu a 10 de outubro de 1963, com apenas 47 anos, de uma ruptura de um aneurisma, devido a uma insuficiência hepática e a uma série de problemas de saúde que a tinham afetado ao longo dos anos.
Apesar de todo o sucesso, a vida de Piaf ficou marcada pela tragédia, sobretudo pela morte da filha e de Marcel Cerdan, da qual nunca recuperou por completo.
Uma vida tão trágica e tão grandiosa tinha de acabar no cinema. E foi mais do que uma vez. Em 1983, Claude Lelouch realizou o filme "Edith et Marcel", que contava a história de amor entre a cantora e o pugilista, com a curiosidade do papel de Marcel ter sido interpretado pelo seu filho, Marcel Cerdan Jr.
No entanto, o filme mais famoso sobre Piaf saiu em 2007, "La Môme", em francês, e "La Vie en Rose", nos restantes países. O filme, realizado por Olivier Dahan, deu o Oscar de Melhor Atriz a Marion Cotillard, a primeira vez que uma atriz francesa ganhou um Oscar num filme originalmente falado em francês.
Pois, lá tínhamos nós de terminar nos Oscars.
Mas por acaso não vamos acabar nos Oscars. Há pouco falávamos da canção "À quoi ça sert l'amour?" "Para que serve essa coisa do amor?" Que Piaf depois dizia que servia para dar alegria, que era coisa triste e maravilhosa. E para terminarmos na mesma nota, trazemos o "Hino do Amor", "L'Hymne à l'amour", música de Marguerite Monnot e letra da própria Piaf, com Marcel Cerdan no pensamento.