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Eu não sei se este foi o primeiro filme de Ralph Fiennes. Na altura, dizia-se Ralph Fiennes, mas foi o primeiro em que foi impossível não reparar nele. Em a Lista de Schindler, Fiennes fazia o papel do sádico Amon Göth, um funcionário austríaco das SS, que foi o responsável pelo campo de concentração de Plaszów.

Sim, Amon Göth não era uma personagem de ficção, existiu mesmo, embora ao vermos o filme de Steven Spielberg, possamos pensar que uma personagem tão malévola não poderia ser inspirada numa pessoa real. Mas era.

Göth supervisionou a construção do campo de concentração e quando este foi inaugurado, recebeu os prisioneiros com um discurso em que disse: "Eu sou o vosso Deus". O tipo de megalomania comum em funcionários que, na sua maioria, vinham de meios pequenos e pobres e nunca tinham tido qualquer cargo de poder na vida.

Göth não tinha qualquer problema em executar prisioneiros que contrabandeavam comida ou executar um grupo inteiro se um deles tentasse fugir. O papel foi desempenhado de forma tão poderosa por Ralph Fiennes que, durante algum tempo, era impossível vê-lo no cinema e não pensar nos crimes do nazismo.

E deve ter sido por isso que, em parte, ele surgiu quase irreconhecível no filme O Paciente Inglês, uma adaptação do romance de Michael Ondaatje, realizada por Anthony Minghella e com Juliette Binoche e Kristin Scott Thomas.

E não é que esses dois filmes ganharam o Oscar de melhor filme e de melhor realizador nos respectivos anos e que Ralph Fiennes esteve nomeado, num como melhor ator secundário e no outro como melhor ator principal. E não ganhou. Aliás, essas foram as únicas nomeações do ator aos Oscars. Coitado, não ganhou.

Pois não. E sabem quem é que também não ganhou? Peter O'Toole. E o que os dois têm em comum, além disso?

A cor dos olhos?

A cor do cabelo?

Podia ser isso, perfeitamente. Mas esta música talvez vos ajude a chegar lá. O que os dois têm em comum é que fizeram de T. E. Lawrence nos seus primeiros papéis de destaque, Peter O'Toole no clássico Lawrence da Arábia e Ralph Fiennes numa série televisiva de 1992, ainda antes de se estrear no cinema. Portanto, jovens atores ingleses que sonham um dia ganhar o Oscar, já sabem, nunca se metam em aventuras das Arábias. No início, eu disse que não sabia qual tinha sido o primeiro filme de Ralph Fiennes, mas é claro que sabia, que eu preparo estas coisas muito bem preparadas. Foi no papel de Heathcliff.

Quem? O gato?

"Heathcliff, Heathcliff é um gato bem disposto e educado."

Não é esse, não, mas eu vou acrescentar uma coisa: quem está a cantar esta música da série de desenhos animados Heathcliff é Paulo Brissos, que entre outras coisas, participou no Festival da Canção em 1993.

"No dia seguinte, nasceu um sol igual."

Esta música acabou em sexto lugar. Eu estava a falar de sol, mas a música que ganhou foi a da noite, Até Ser Dia, da Anabela. Mas o Heathcliff é outro, não é o gato, é o Heathcliff do romance O Monte dos Vendavais, de Emily Brontë. E só por causa disso, vamos lá ouvir Kate Bush.

"Out on the winding, windy moors we'd roll and fall in green."

O romance já tinha sido adaptado ao cinema em 1939, com Laurence Olivier no papel de Heathcliff, papel que lhe valeu uma nomeação para os Oscars, a primeira, um prémio que viria a ganhar pela única vez com Hamlet, filme de 1949.

Ralph Fiennes não teve tanta sorte com esse filme, mas deu nas vistas e contracenou pela primeira vez com Juliette Binoche, que depois reencontraria em O Paciente Inglês.

Dois dos outros papéis mais marcantes da carreira do ator, e vamos excluir daqui os filmes do Harry Potter, foram também adaptações de romances de autores consagrados, O Fim da Aventura, de Graham Greene e O Fiel Jardineiro, de John le Carré. Para mim, são duas das melhores coisas que o ator fez em cinema, em papéis que podemos classificar de Fiennesianos ou buéda Fiennes.

Buéda Fiennes, parece-me que encaixa melhor. E esta conversa toda sobre Ralph Fiennes vem a propósito do aniversário. O ator comemora hoje 60 anos.

É verdade, é aquela idade fatídica em que a notícia do atropelamento de um homem numa avenida de Gaia passa a ser: "Sexagenário atropelado em avenida de Gaia".

Verdade.

Embora não pareça que o Ralph Fiennes corra esse risco.

Mas qual? O de ser identificado como sexagenário ou o de ser atropelado em Gaia?

As duas, mas nunca se sabe, a vida dá muitas voltas. E porque a vida dá tantas voltas, que vamos dar mais uma voltinha com destino a uma canção de James Bond. Mas calminha, que hoje também faria anos o artista norte-americano Jean-Michel Basquiat, um dos artistas mais populares do final do século XX.

O artista nova-iorquino, que hoje faria 62 anos, começou a dar nas vistas no início da década de 1980, na movida nova-iorquina, onde conviveu com artistas como Andy Warhol e de outras áreas, como Debbie Harry, dos Blondie, que foi a primeira pessoa a comprar um quadro de Basquiat, Cadillac Moon, por $200. Fica a história.

Não sabia.

Basquiat morreu aos 27 anos, mais um para o clube dos 27, com uma overdose de heroína, mais um para o clube das overdoses de heroína. Em 1996, saiu o filme biográfico Basquiat, realizado pelo também artista Julian Schnabel e com Jeffrey Wright no papel de Basquiat.

E aqui chegamos ao que nos interessa. Quer Ralph Fiennes, quer Jeffrey Wright fazem parte da família Bond, mas só coincidiram mesmo no último, No Time to Die, Sem Tempo para Morrer. Wright desempenhou o papel de Felix Leiter nos filmes Casino Royale e Quantum of Solace, enquanto Fiennes substituiu Judi Dench nos filmes Skyfall e Spectre, filmes em que não apareceu Felix Leiter.

Finalmente, os dois apareceram no último filme, na despedida de James Bond, ou pelo menos do James Bond de Daniel Craig.

E porque isto anda tudo ligado, sabiam que Timothy Dalton, no 007 dos anos 80, fez de Heathcliff na adaptação de O Monte dos Vendavais de 1970? Pois é, é verdade. Mas agora o que queremos ouvir é Billie Eilish com No Time to Die, que ganhou mesmo o Oscar.

Olha, podia tê-lo dado ao Ralph Fiennes.

Era bem dado.

I'd leave alone. Just goes to show that the blood you bleed is just the blood you own. We were a pair. But I saw you there. Too much to bear. You were my life, but life is far away from fair. Was I stupid to love you? Was I reckless to help? Was it obvious to everybody else that I'd fallen for a lie? You were never on my side. Fool me once, fool me twice. How you died of paradise. Now you'll never see me cry. There's just no time to die. I let it burn. You're no longer my concern. Faces from my past return. Another lesson yet to learn that I fell for a lie. You were never on my side.