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Belém despediu-se de um professor catedrático, crítico gastronómico de pastelaria, nadador-salvador, comentador político, telefonista noturno, praticante de taekwondo, viajador, cabeleireiro, calceteiro, dançarino e presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, obviamente. E disse olá a um professor universitário, produtor de vinho e de azeite, António José Seguro. Contas feitas, a partir de agora, orçamento chumbado não dá dissolução e a política, imagine-se, vai deixar de ser um frenesim.
A experiência do passado recente de ciclos eleitorais de dois anos não é desejável. Tudo farei pra estancar esse frenesim eleitoral. A rejeição da proposta de lei do Orçamento de Estado não implica automaticamente a dissolução da Assembleia da República. O país precisa de um acordo equilibrado em matéria de legislação laboral e das informações que recolhi, nada está fechado. E por isso o meu apelo, renovo-o aqui, é que os representantes dos trabalhadores, os representantes dos empresários e o governo voltem rapidamente a sentar-se para encontrarem uma solução. E sobretudo quando se fazem promessas de apoio, é importante que essas promessas sejam concretizadas. Eu serei um presidente exigente. Renovo essa exigência neste momento aqui em Maurícia, para que de facto as palavras na política possam valer.
Muito bem, eu sou o Rui Pedro Antunes, sou editor de política do Observador. Comigo tenho o Vasco Maldonado Correia da Rádio Observador e também as jornalistas da seção de política, Rita Tavares e a Mariana Lima Cunha. Vai começar a vici suaze. Vou começar por uma sopa de peixe. Rita e Vasco, vocês estiveram na tomada de posse.
Mas não comemos sopa de peixe.
Não.
Nem cabrito.
Eu ouvi dizer que nem sandes havia em Belém, isto é verdade?
Nada.
Não havia sandes, mas quem lá esteve comeu bem.
Isto é uma nova era austera.
Foi quem lá esteve.
Não sei se comeu bem. Sei que também houve o vinho.
Sabes que comeu.
Sei que comeu. Sei que houve o vinho da produção do senhor presidente, o Serra P. Passe a publicidade.
Já provaram?
Não nos foi oferecido.
Eu já.
Para efeitos de investigação jornalística.
Claro, evidente, tem que estar informada.
Eu quero só esclarecer os nossos ouvintes que muitas vezes quando vamos a Belém e passamos lá o dia todo, por exemplo, costumava haver, até agora pelo menos, sandes disponibilizadas às jornalistas e quando Marcelo Rebelo de Sousa estava num dia melhor, pastéis de Belém, dos verdadeiros.
Às vezes até no fim das reuniões eram os que sobravam.
Exato. Portanto, daqui a minha pergunta sobre se a Rita e Vasco deram comê algo.
Se Belém estiverem a ouvir.
Fica daqui o apelo.
Fica a nota. Nota negativa, neste caso.
Até houve críticas públicas por estar a promover o próprio vinho. Mas enfim, é uma questão de percentagem.
Eram os interesses que ficavam à porta de Belém e o vinho não ficou.
Pode haver uma comissão de inquérito especialmente sobre isto.
In vino veritas. Portanto, vamos ver se o vinho traz a verdade. Rita, sopa de peixe. Este novo presidente, há mudanças de estilo. Li num artigo que escreveste que os jornalistas ficam ao longe.
Foi de carne pra peixe ou de peixe pra carne, pelo Santo Antão. Os estilos são, de facto, muito diferentes, mas assim à primeira vista, também estamos a comparar 48 horas com 10 anos e às vezes isso também pode não ser inteiramente justo, mas parece-me que houve ali uma vontade de António José Seguro de dizer: "Habituem-se que isto agora mudou." Fazendo lembrar outro socialista que não se candidatou à Presidência da República, António Vitorino, noutros tempos. Mas de facto, houve aqui essa necessidade de mostrar, se calhar, um perfil mais institucionalista, um perfil mais sóbrio e mais sério em Belém, marcando a diferença praquilo que foram estes 10 anos de Marcelo Rebelo de Sousa, em que estávamos habituados a estar muito mais próximos, nós jornalistas e consequentemente as pessoas que nos leem e ouvem, a estarem muito mais próximas do presidente da República. Nós com mais facilidade fazíamos, se imaginássemos Marcelo Rebelo de Sousa na tomada de posse de segunda-feira, não imaginaríamos que os jornalistas ficavam a 200 metros do sítio onde estaria Marcelo Rebelo de Sousa. Isso era uma coisa que não acontecia com esse presidente. São pequenas diferenças nestas relações que eu acho que têm essa necessidade e essa vontade de António José Seguro de marcar que ele tem um estilo diferente, o que é legítimo, e que esse estilo é mais recatado Cauteloso e mais pensado para criar uma imagem de um presidente que é institucional e que está próximo, mas não demasiado próximo. Uma coisa é estar próximo, outra coisa é estar a mergulhar no Tejo.
Há menos viciçoas, infelizmente para nós.
Antes de ir a ti, Mariana, Vasco, não sei se da tua sopa de peixe tens alguma coisa a registar.
Sim, passou de carne para peixe, mas não em tudo. Houve coisas de Marcelo que ficaram. Se calhar Seguro não estava à espera disso, ou até seguramente estaria, mas quando chegou a Mourisia, houve pessoas a pedir-lhe selfies e por isso houve traços da personalidade de Marcelo que vão obrigar Seguro a continuar a ser um presidente dos afetos durante a campanha e também nestes primeiros dias.
Sim, e no contacto com a população é próximo.
Sim, é próximo e ele mostrou que está à vontade nesse papel e por isso nem tudo é de carne para peixe ou de peixe para carne. Mas ficou óbvio que quer um novo estilo, mais contido, mais previsível do que Marcelo, se calhar, mas também já a querer pressionar o governo na reforma laboral, nos apoios às vítimas do mau tempo e neste caso até vítimas do mau tempo do ano passado, dos incêndios do ano passado. Acho que isso também se pode chamar mau tempo.
Ele disse menos palavras, mais atos, não é?
Sim.
Porque outra expressão que existe para isso é palavras leva aos ventos e talvez não fosse bem aplicada neste caso.
E esse é um tipo de mensagem que até se costuma ouvir mais de Paulo Raimundo. Creio que foi a última pessoa a dizer menos palavras, mais ação.
Achas que não foi Pedro Passos Coelho?
É verdade. Mas ipse dixit verbis creio que foi Paulo Raimundo.
Pronto, está bem. É justo.
E especialmente nesta semana em que começam os encontros semanais com o primeiro-ministro, é também interessante perceber como é que Luís Montenegro vai receber este tipo de pressões, este tipo de recados, e se valoriza mais os 67% de votos que António José Seguro conseguiu na segunda volta ou os 31% que são, na realidade, a verdadeira base eleitoral de António José Seguro. E se já não mostrava respeitinho no trato com Marcelo Rebelo de Sousa, na relação institucional com o Palácio de Belém, com a votação de Marcelo Rebelo de Sousa, vamos ver como é que isso funciona com António José Seguro. A verdade é que, para já, o presidente da República pediu ao governo para voltar à mesa com os parceiros sociais na reforma laboral, e isso vai acontecer. Por isso pode ser bom sinal, mas também pode ser só fase da lua de mel.
Está marcado já para a próxima semana. Mariana, queres dizer qualquer coisa desta sopa de peixe?
Sim, lá está, saudades viciçoas, acho que vai haver menos com António José Seguro. Eu acho que há uma parte, e é como a Rita e o Vasco estavam a dizer, não vamos passar de Marcelo para Cavaco. António José Seguro, por exemplo, no contacto com as pessoas, do que eu tenho visto e do que se viu na campanha, é de facto uma pessoa próxima. E eu não acho que ele beneficie em cortar com tudo o que era Marcelo, ou que nós associamos agora a Marcelo, até porque eu não acho que, enfim, agora é difícil fazer uma avaliação justa dos 10 anos de Marcelo. O Marcelo também teve um segundo mandato bastante mais complicado até a nível da avaliação.
Mas tem uma taxa de popularidade altíssima.
Exatamente. Era esse o meu ponto. Eu acho que nos habituamos. Olha, a bolha, como diria Luís Montenegro. A ser um pouquinho mais críticos de Marcelo ou também a ver que nós vamos avaliando jogo a jogo estas personalidades, mas não me parece que no país, no que é o chamado país real, tenha ficado uma impressão assim tão negativa, aliás, acho que ficou positiva, de Marcelo Rebelo de Sousa e não me parece.
E essa proximidade foi valorizada.
É isso, eu acho que essa proximidade até é dos melhores pontos. Se calhar, há pontos piores em relação a decisões políticas que ele tomou do que propriamente em relação a ser muito próximo das pessoas.
Eu acho que também há uma imprevisibilidade que é associada a Marcelo e que é justa, porque de facto ele é imprevisível e vai muito de improviso em improviso, e nós vimos isso durante estes 10 anos, que muitas vezes é associada a decisões políticas de Marcelo.
Eu acho que ele não teve controlo sobre muita coisa que não podia ter tido.
Não foi assim, e acho que essa mistura é feita e acho que as pessoas também valorizam essa parte de improviso de Marcelo e até um pouco aquela coisa do nosso presidente vai às compras.
Sim.
Ou vai à praia tomar banho.
Eu acho que são os políticos que gostam menos disso, não são as pessoas.
Isso foi frisado por José Pedro Figueiredo Branco também.
A bolha gosta pouco, as pessoas gostam e eu acho que se calhar Seguro está a cortar demasiado. Mas isso quer dizer, tem a ver com o perfil também, António José Seguro não é assim.
Sim, quem não é assim não vale a pena fingir que é.
Exato, era como dizia Marcelo, senão não fica carne nem peixe.
Exato, fica falso.
No encontro com Luís Montenegro, que tinha decidido ser igual a ele mesmo logo quando foi para a Assembleia da República no dia da tomada de posse, fez aquele percurso.
Passou a pé
Nós jornalistas, sobretudo, vamos ter saudades de algumas coisas, Marcela.
Mas porque nós também alimentamos de outro tipo de coisa.
Exatamente.
Não é carne, é peixe.
Nos tais dias de audiências longas em Belém, por exemplo, quando há os pastéis de Belém ocasionais. Normalmente acabávamos esses dias com textos, eu diria, divertidos, com as mais variadas opiniões que Marcelo Rebelo de Sousa tinha expressado lá dentro e que algumas fontes acabavam por partilhar conosco, que tinham a ver com todo o pensamento político e não só.
Sobre o país.
Sobre o país e o mundo, as avaliações, cada líder partidário de cada partido. Eu acho que é muito improvável que vejamos António José Seguro a fazer exatamente o mesmo papel. Portanto, há coisas em Marcelo Rebelo de Sousa que, de facto, eram muito positivas pra ele na relação com a população, e há coisas em que eu percebo que António José Seguro queira dar uma imagem um bocadinho mais institucional e um bocadinho mais reservada.
Acho que os dois são, pelo menos parece, por conter mais de 3 milhões e meio de votos, que podem ser mais amados pelo próprio povo do que propriamente pelas elites.
A bolha é difícil, vou admitir.
Um emergiu da elite, o outro vem de fora dela.
Sim, exatamente.
De uma zona mais do interior, pra ser justo na definição do termo. E passo pra repetida e agora inverti, Mariana, começava por ti. Repetida porque o PSD está outra vez efervescente, as jornadas parlamentares já vêm numa fase final dessa efervescência, mas numa tentativa de estancar um bocadinho essa repetição daquilo que é sempre o ciclo do PSD em termos.
Sim, eu achei graça porque eu estava precisamente nas jornadas parlamentares em Caminha e tinha acabado de ouvir Hugo Soares e Luís Montenegro, quando Pedro Passos Coelho esteve em Viseu e fez aquele não comentário dizendo que não pode andar sempre a fazer comentário político. O que tem graça, porque Pedro Passos Coelho tem escolhido fazer repetidamente comentário político e é isso que anda a enervar ou a animar partes do PSD diferentes, embora a linha dominante do PSD, de facto, acredite que Passos pode estar um bocadinho sobrevalorizado. Voltamos à bolha, ou seja, quando avaliamos o que é a opinião da bolha, que de facto tem Passos em altíssima consideração e tem muita atenção a tudo que o Passos diz, e depois há o que é a população, a população que votou, de facto, é Luís Montenegro, população que tem as suas memórias da troika, algumas pessoas com mais respeito pelo que Pedro Passos Coelho fez, outras com péssimas recordações. E há alguma convicção na linha dominante do PSD de que não seria assim tão, quando se dá quase por adquirido que Passos chegava e limpava o PSD e o país. Não se dá isso por adquirido, mas é óbvio que mexe com o PSD e que, sobretudo, faz uma coisa que a direção não queria que acontecesse agora, que era criar uma impressão de que há brechas no partido, de que não há uma uniformidade, que normalmente o poder até ajuda que haja. Quando o partido está no poder, há uma cola automática. E as jornadas foram dedicadas a tentar, até num tom um bocadinho justificativo, diria eu, a tentar explicar o que o governo anda a fazer. Ou seja, a grande crítica de Passos tem sido a questão das reformas e de não estarem a acontecer ou a acontecer ao ritmo que ele gostaria, que parte da eleitorado dele gostaria, e acredito que esse diagnóstico até seja partilhado por muita gente. E basicamente, sem nunca se referir, aquele cujo nome não deve ser pronunciado, lembrando o Harry Potter, Passos, o seu nome não é pronunciado diretamente, mas é impossível deixar de ler nas entrelinhas das intervenções quando temos ministros, uma parte do governo muito significativa, foram seis ministros, mais o primeiro-ministro, pra uma jornadas parlamentares. Temos ministros a defender, como Miguel Pinto Luz, que podem andar a dizer o que quiserem, andar a dizer que nós governamos com PowerPoints, que é precisamente uma das críticas de Passos à reforma do Estado, que nós temos um PTR que é o programa do governo em esteroides. Tivemos Hugo Soares a adotar um slogan novo, que é a mudança tranquila, precisamente pra justificar que nem sempre as mudanças se veem ou que são chocantes ou que são superideológicas, mas que se vão fazendo e que se vão fazendo talvez de forma um bocadinho mais discreta. O Soares até dizia que se calhar devia propagandear mais as ações do governo. E o que tivemos foi uma defesa muito alinhada do governo, do que tem feito, no fundo pedindo que se espere por resultados e dizendo sempre: "Nós temos a adesão do povo". No fundo, pra dizer: "Podemos não ter a adesão de Passos e dos passistas, mas temos a adesão do povo e isso é que interessa, vamos ver."
Portanto, Passos pede reformas e, na verdade, Montenegro preferia a reforma de Passos. Rita, está antes. Só uma repetida antes de ir ali ao Vasco, pra saber como é que se sentiu aí fazer seis horas de carro até Viseu pra ouvir Passos a dizer que já não comenta.
Não comenta.
Custou eu um som de nove segundos pra rádio.
Rita, tens alguma sopa repetida? O PS também vem em diretas.
Jornalista é muito ingrato.
Pois, a minha sopa repetida é mais virada pro Partido Socialista e para nove meses depois estarmos novamente com diretas, com eleições internas do Partido Socialista e outra vez com José Luís Carneiro, que tinha empurrado isto pra aqui, pra esta altura, pra depois de encerrado o ciclo eleitoral e é um bocadinho, às vezes, criticado até dentro do partido por ter ido rapidamente pra eleições diretas. Logo na noite em que António José Seguro ganhou a primeira volta, ele fez saber que era recandidato, mas havia ali um calendário interno que já estava pré-definido e que ele no fundo cumpriu, mas ao mesmo tempo não deixa de soar um líder que está sempre acossado. É um líder de um partido, do Partido Socialista, na oposição, e que por isso sabe que Pode não chegar lá. Até tem agora uma pessoa que é presidente da República e que o deve ter feito lembrar isso todos os dias em que apareceu nestes últimos meses, que é como esteve lá tanto tempo a fazer oposição e num período particularmente duro, e depois não foi ele que foi a eleições legislativas. E Mariana Vieira da Silva, que é uma das figuras do Partido Socialista, que tem sido crítica de José Luís Carneiro, e acho que se pode falar um pouquinho, se não de oposição interna, pelo menos de vozes contrárias internas no Partido Socialista, deu uma entrevista, não sei se foi nesta semana ou foi na semana passada, já não tenho a certeza absoluta, mas em que diz uma coisa curiosa, que é José Luís Carneiro que deve ir às próximas legislativas, mas ao mesmo tempo diz: "Se não houver uma corrida à liderança antes." Portanto, passamos todos à estaca zero e José Luís Carneiro sabe que vai ter sempre este problema às costas e que a sua liderança pode não chegar a significar que concorra às legislativas.
Vasco, queres ainda dizer alguma coisa sobre esta sopa repetida no pouco tempo que nos resta?
Sim, mas respondendo à tua pergunta de há bocadinho, depende como é que me vou sentir em relação a Pedro Passos Coelho e essa viagem longa que eu fiz até Viseu. Se Passos Coelho para a semana aparecer a fazer comentários, vou me sentir um pouco traído.
Aí vais poder cobrar a Pedro Passos Coelho até uma entrevista a ti.
E a gasolina que eu gastei.
E as portagens.
Quando as pessoas andavam a pôr as refeições no NIF de Passos, lembram-se? Durante a crise houve essa tendência. Agora estava a me lembrar que o Vasco podia recuperar isso.
Aliás, ele deduziu despesas em IRS por esse ano.
Fica esse recado.
Se calhar foi chamado às finanças.
Temos pouco tempo, não é?
Eu calo-me, Vasco. Desculpa, Vasco.
Que foi interessante também Passos Coelho aparecer e dizer que não vai fazer comentários e logo a seguir, uns minutos depois, Montenegro a aparecer quase triunfante, a puxar mais uma vez as orelhas a quem duvida do caminho do partido e, por isso, talvez o primeiro-ministro sinta que ganhou este primeiro round, mas tenho algumas dúvidas que seja o último.
Mas é engraçado que ele deu uma tirada para Pedro Passos Coelho nessa intervenção que teve, que foi o reformismo de boca.
E é com radiofonia de boca, por dizer assim, que terminamos a primeira parte da Vixi & Suave. Acho que não há outra forma de fazer radiofonia, nem fazer rádio sem ser de boca.
Do que inventar termos.
Formas de escrita. Voltamos já a seguir, na segunda parte com a Joceni Simões.