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Bem-vindos à segunda parte da Vixi Soares, conosco temos o líder parlamentar e secretário geral do PSD, Hugo Soares. É inevitável começarmos pelo caso que é desta semana e já é de muitas semanas anteriores. Hugo Soares já disse que tem confiança no discernimento ético e político do Primeiro-Ministro, disse-o ontem à noite na Cinco Notícias. E também se percebe que faz uma avaliação positiva do trabalho do Luís Neves, já lá vamos, no ministério. Mas pode um dia vir a ser inevitável a saída do ministro, não pela razão daquilo que é o trabalho no ministério, mas por aquilo que é a pressão e até o impacto que a perceção daquilo que foram estes acontecimentos pode ter na imagem pública do governo e do próprio ministro?

Boa tarde, muito obrigado pelo convite. Cumprimentar quem nos ouve. Inevitável poderá ser sempre um dia, não creio que seja por estas razões, mas o mesmo aplica-se ao ministro Luís Neves como a qualquer outro. A inevitabilidade de um dia terem que sair do governo é, de resto, factual. Acontece assim, por exemplo, no final da legislatura. E, portanto, há sempre uma circunstância que dita a inevitabilidade de um ministro ter que abandonar o governo. Francamente, tenho dito, aqui repito, que não me parece que as circunstâncias que são conhecidas são de molde a que possa haver uma substituição do ministro da Administração Interna. Todas as circunstâncias foram explicadas pelo senhor ministro. Nós podemos gostar mais ou menos das explicações, aceitá-las mais ou menos, valorar mais ou menos os erros, porque efetivamente o próprio ministro assumiu alguns erros, que corrigiu, de resto, que são circunstâncias da vida normal de cada pessoa e nenhum desses erros ou nenhuma dessas circunstâncias se deu, já agora, por força ou no exercício das funções do ministro da Administração Interna. E importa avaliar o quê? Importa avaliar a idoneidade do ministro? Parece-me que isso está sempre em cima da mesa. Eu julgo que ninguém tem dúvidas sobre o caráter, a seriedade e a idoneidade do ministro Luís Neves ou, se quiser, da pessoa do doutor Luís Neves.

O André Ventura está há muitos anos-

Deixe-me só terminar esta ideia, ninguém tem? Não. O André Ventura tem dúvidas sobre o caráter de toda a gente. O André Ventura é o único homem sério que há no mundo. E depois olhamos à volta e vemos tudo o que vai acontecendo. O André Ventura nunca fala de políticas, fala de políticos, fala de pessoas. Portanto, eu excluo desta minha análise política o Chega e o André Ventura. E como creio, o dizia, também ninguém tem dúvidas das capacidades políticas, agora sim, enquanto ministro, do ministro Luís Neves, que tem sido, tenho aqui que repetir, como já tive ocasião de dizer, e repito aqui, um extraordinário ministro da Administração Interna, quer no que diz respeito à preparação da época dos incêndios no verão, quer no relacionamento que tem tido com as forças e serviços da autoridade, quer pela forma como respondeu e resolveu um problema que o país tinha, que era um problema grave, que afetava a nossa economia e a nossa reputação internacional, que tinha a ver com as entradas no aeroporto de Lisboa, que como sabe, é uma situação que nós já não vemos atualizada há muito tempo. E não vemos precisamente porque foi o ministro Luís Neves que resolveu. E estes créditos políticos e a forma, designadamente a forma, como o ministro Luís Neves tem conseguido atuar junto das forças e serviços de segurança, motiva provavelmente todas estas reações, muitas delas espúrias, devo dizer, do líder do partido Chega, deputado André Ventura. Só terminando mesmo, Rui, quando nós vemos o André Ventura associar Luís Neves ao tráfico de droga, tudo o resto que ele disser perde a credibilidade toda, mas perde mesmo. Luís Neves pode ser associado ao combate ao tráfico de droga, que de resto combateu durante muitos anos como líder da Polícia Judiciária. Agora, por Luís Neves usar um carro apreendido, que tem direito nos termos da lei, que pertencia, antes de ser apreendido, a um traficante de droga, a pergunta que eu faço, porque depois mistura-se tudo, é: mas queriam que o Luís Neves andasse com carro apreendido a quem? A um empresário sério deste país que não cometeu nenhum crime que fossem roubar o carro a casa pro ministro andar? É evidente que o Estado pode e deve utilizar bens apreendidos porque isso faz, evidentemente, poupar recursos ao erário público. Ora, misturar tudo como se está a fazer no espaço público é manifestamente espúrio e é assim que eu classifico a atuação do deputado André Ventura.

Tem muitos anos disto e não há um bocado da informalidade por parte do ministro da Administração Interna. O que eu lhe digo é: talvez o fato de nunca ter ocupado cargos políticos nota-se de ter alguma ingenuidade e depois também alguma informalidade. O que ele considera que é normal e que é aceitável muitas vezes não é quando são outras pessoas a avaliar.

A ingenuidade e a informalidade não são nem crimes, nem ilegalidades. A ingenuidade e a informalidade são traços de personalidade. Enfim, podemos valorar mais ou menos a informalidade e a ingenuidade. Não me parece que isso seja de modo a que possamos fazer um juízo político sobre alguém. Portanto, se me disser que naquilo que foi alguns comportamentos que nós olhamos pra trás, que são hoje conhecidos do então presidente ou diretor da Polícia Judiciária, que parecem ter sido decisões que provavelmente acertadas do ponto de vista do juízo funcional, profissional, mas provavelmente mais informais do que seria suposto, talvez. A pergunta que se faz é: cometeu alguma ilegalidade? Aparentemente, não. Resolveu o problema que tinha em cima da mesa para resolver? Resolveu. Sabe, Rui, muitas vezes nós não somos capazes, é humano diria, mas temos dificuldade em calçar os sapatos dos outros no momento em que os outros têm que tomar uma decisão, designadamente decisões de quem lidera, por exemplo, uma Polícia Judiciária, que tem que o fazer com uma pressão, um grau de exigência, de risco, muitas vezes, que nós não conhecemos. Por isso que eu tenho muita dificuldade em julgar dessa forma aquilo que veio a público e por isso não me parece, termino assim a resposta, que quer uma ingenuidade, quer uma informalidade, sejam características que possam valorar negativamente para o exercício da função do Ministro da Administração Interna.

Há várias avaliações em curso, uma que ainda não começou, que digamos que é uma política, que é da Comissão Parlamentar de Inquérito. Enfim, também há umas confissões, José Pedro Aguiar Branco já quer que o objeto seja mais definido pra aceitar. Com o calendário em curso haverá pelo menos audições até dezembro, se depois ela avançar. Disse em julho o Hugo Soares que provavelmente a composição do governo era a mesma em setembro. Conseguiria repetir isso pra dizer que provavelmente será a mesma em janeiro, em fevereiro, em março?

Não sei, não faço ideia. O que eu disse sobre a composição do governo em setembro, olhe, nós estamos no dia 3, 4 de setembro.

Confirmo, por isso é que estou a perguntar.

Acertei. Em janeiro não sei se acertarei, porque não sei o que vai acontecer daqui até janeiro. A afirmação que eu fiz foi precisamente na avaliação política que eu, Hugo Soares, fazia da composição do governo em julho e que não vi motivos naquela altura para que a composição se alterasse em setembro. Mas essa é sempre uma avaliação estritamente pessoal do primeiro-ministro.

Mas não há razão para uma remodelação?

No atual momento político, da minha análise, não vejo razão para remodelação, mas esse, repito, é sempre um juízo do primeiro-ministro. Agora, é evidente que nós estamos a pôr a questão quase no planitério, mas a pergunta que o Rui me faz tem uma direção, o que o Rui me está a perguntar é se eu entendo, eu, Hugo Soares, se entendo, como em julho me fizeram essa pergunta, se o ministro da Administração Interna deveria continuar no exercício das funções e eu respondo sim, entendo que sim. Face aquilo que é conhecido, face aquilo que é a sua atuação como ministro, sim, eu acho que sim. Agora, diz-me assim, em janeiro, o ministro da Administração Interna ou outro qualquer, por qualquer razão, seja de exercício das funções, seja outra qualquer que ninguém possa antever, pode ou não continuar como ministro, não faço ideia. Isso é um exercício de futurologia que creio que é demasiado ambicioso até pra mim.

O Soares já fez um paralelismo com a saída do ministro Miguel Macedo. Disse na altura, por considerar que não tinha condições políticas, o país acabou por perder um extraordinário ministro. Com a saída de Luís Neves, o país também perdia um extraordinário ministro?

Vamos lá ver, o doutor Luís Neves não é ministro há tanto tempo, mas aquilo que eu conheço do exercício das funções, creio que o país pode estar satisfeito, tranquilo e seguro com o ministro da Administração Interna que tem. É alguém que conhece, como poucos, os serviços e as forças de segurança e tem uma relação de proximidade e de autoridade muito forte junto às forças e os serviços de autoridade. É alguém que tem demonstrado, quer na preparação do combate aos fogos de verão, uma proximidade e uma capacidade política muito grande. É alguém que no terreno, como temos tido ocasião de ver, tem gerido de forma absolutamente exímia os meios e as operações. E ele gosta disso, e ele faz isso. Resolveu um problema que o país tinha há uns anos grandes a esta parte, que tinha a ver com o aeroporto de Lisboa. E tudo o resto que está a fazer, leva-me a dizer que ele tem sido um muito bom ministro da Administração Interna. Portanto, se ele saísse, eu creio que o país perdia um bom ministro da Administração Interna, sobre isso eu não tenho dúvida.

O Presidente da República já devia, em nome da normalidade democrática, ter vindo desmentir aquela notícia que dava conta de que tinha dado um prazo ao governo para resolver o caso?

Eu já disse, repito, eu não comento notícias que não estão assinadas. Acho até de muito mau gosto, devo dizer, não quero avaliar critérios jornalísticos, quem sou eu? Agora, uma notícia com uma dimensão como essa, que o Presidente da República dá um prazo ao primeiro-ministro e depois não há ninguém que ponha lá o nome na notícia, é absolutamente extraordinário, não é? E, portanto, aquilo que eu tenho a dizer sobre isso é que a relação entre o primeiro-ministro e o Presidente da República é uma relação entre os dois. Parece-me, daquilo que vou acompanhando, que é uma relação institucional e inatacável. E, portanto, não estou nada preocupado com isso. Preocupa-me outra coisa, com franqueza. Preocupa-me quando muitas vezes se fala do senhor Presidente da República, nós associamos depois, em consequência, ao funcionamento e ao regular funcionamento das instituições. Isso preocupa-me manifestamente. Preocupa-me porque eu acho que nós temos mesmo um problema de funcionamento das instituições do ponto de vista em que nós as estamos a querer colocar. Vamos lá ver. Todos os dias se repete, por alguns protagonistas, no espaço público, todo este caso à volta do ministro Luís Neves. E quer-se passar uma perceção generalizada de que o ministro não dá explicações. O ministro não falou sobre as circunstâncias e os casos que lhe foram sendo apresentados. Isso é manifestamente mentira. E custa-me por uma razão, porque nós, ao irmos no engodo daqueles que querem levar as instituições para o lodo mentindo, falseando, nós estamos mesmo a caminhar para uma degradação das instituições que não é saudável pra democracia, do meu ponto de vista. E nós temos que dizer: "Pára, parou, acabou!" O senhor pode não gostar das explicações. O senhor pode concordar mais ou menos e aceitá-las mais ou menos, ou achar que são mais verdade ou são mais mentira. Todos somos capazes de fazer esse juízo. Agora, nós não podemos dizer repetidamente: "Não há explicações. Ele esconde-se, ele não respondeu, ele não disse porque é que o outro lado foi, ele não disse porque é que usou o carro." Isso é mentira! Isso é falso e é preciso dizer isto com esta clareza.

Por isso que fala demais. Mas relativamente ao André Ventura, que eu creio que é a quem se está a referir, na verdade é-

E depois muitos comentadores, mas não engolo, deixa-me dizer-lhe

Essa avaliação do presidente da República, por exemplo, sobre o regular funcionamento das instituições, normalmente até é para um escrutínio sobre o próprio governo e não das oposições, embora ele também pudesse, com a sua palavra, chamar a atenção a isso. Só concentrando aqui na questão do presidente da República. Hoje o primeiro-ministro em São Tomé disse: "Eu não mando recados a ninguém e por ninguém." Também disse ontem o Hugo Soares que não acredita que o presidente da República esteja a enviar recados pelos jornais. Faz parte da coordenação política e em virtude até de ser líder parlamentar, está em permanente contacto com o primeiro-ministro. Alguma vez percebeu ou comunicou, não só a si, mas aos outros que fazem parte da coordenação, que o presidente alguma vez tinha feito um ultimato deste género? Porque isto é uma informação relevante para a coordenação política.

Devo dizer que em momento algum, em qualquer reunião ou conversa que tive com o primeiro-ministro de Portugal, ele sequer tocou nessa ou noutra conversa que tivesse tido com o senhor presidente da República. Em primeiro lugar, o primeiro-ministro de Portugal é alguém muito institucionalista. Já tive ocasião de dizer e é mesmo verdade. No exercício das funções de primeiro-ministro, é alguém que acomoda o exercício das funções e que as investe também nessa figura da instituição do exercício da função de primeiro-ministro. E, portanto, era incapaz, do que conheço do primeiro-ministro de Portugal e da experiência que tenho tido de relacionamento no exercício dessas funções por parte do doutor Luís Montenegro, de sequer partilhar uma conversa que tivesse tido com o presidente. Portanto, não tenho nenhuma informação sobre isso.

Ele teve uma informação e disse: "Olha, atenção que o chefe de Estado acabou de me dizer que nós temos um mês para resolver isto."

Não, era mesmo incapaz de o fazer.

Aqui também era um cumprimento da sua função institucional comunicar.

Ainda assim, não seria. Honestamente creio que não seria, porque era partilhar uma conversa que deve ser reservada. A questão é outra, se me permite, Rui. A questão é saber se é legítimo, no espaço público, olhar-se para dois ou três comentadores ou duas ou três notícias de jornais e achar-se que o presidente da República manda recados ao país através de amigos ou de jornais. Eu devo lhe dizer que o doutor António José Seguro é do Partido Socialista, não é do meu partido, mas eu tenho que o dizer de forma muito clara. Eu tenho a certeza absoluta que isso é falso. Eu tenho a certeza absoluta que não é concebível. E depois faço ainda outro passo. Do conhecimento da pessoa e da persona política de António José Seguro, ele era incapaz de enviar recados ao primeiro-ministro, ao governo e ao país, através de amigos. O que seria, em que país viveríamos, se o presidente da República mandasse recados ao país por amigos? Nós vivemos a um tempo em que, eu vou dizer mesmo. Enfim, o espaço público e noticioso tem que ser ocupado. Nós temos, para o país que somos, quatro ou cinco canais de notícias e de comentário político a toda hora. Enfim, e o tempo tem que ser ocupado. E depois diz-se tudo, diz-se mesmo tudo, muitas vezes com uma leviandade, outras vezes com ignorância, outras vezes com maldade. Enfim, agora não esperem é que eu vá atrás ou que o governo vá atrás de tudo que é dito e tudo que é escrito, porque isso seria manifestamente distrair-nos daquilo que é essencial e o essencial é viver entre pessoas.

O Adalberto Campos Fernandes é o coordenador do pacto para a saúde do presidente e tem um gabinete numa das instalações da Presidência da República. Não é só um amigo que está a falar por ele. E isso devia lhe dar um peso de responsabilidade, sabendo que aquilo que diz o associa e compromete de alguma forma o presidente da República.

Essa pergunta devia ser feita ao professor Adalberto Campos Fernandes e perguntar-lhe: "Olhe, o senhor está a falar por si ou pelo presidente da República?" E depois creio que acreditaríamos todos na palavra dele. Eu não acredito, manifestamente, que possa sequer haver a conceção de que um presidente da República manda recados pelos amigos. Isso não existe. Não existe aqui e espero que não exista em lado nenhum.

Mas passemos então ao que é público, saindo aqui dos bastidores. Quando António José Seguro disse, e na última vez que falou sobre o caso, se não me engano, que aquilo que desejava é que cada um assumisse as suas responsabilidades, estava a falar sobre quem? Era um recado para o governo?

Acho que era um recado para toda a gente. Não tenho dúvida. Claro que sim, para o governo também, para as oposições, para os jornalistas, para a Polícia Judiciária, para toda a gente, não tenho dúvida nenhuma.

Mas daqui se depreende que considerava que não estava a haver esse assumir de responsabilidades.

Não me parece. Depois cada um faz a sua leitura e eu percebo a sua, mas não foi a minha. A minha foi a de que cada um deve assumir mesmo a sua responsabilidade. Assumi-la significa, na verdadeira acepção da palavra, comportar-se como quem tem uma responsabilidade para exercer. O ministro da Administração Interna deve assumir a sua responsabilidade e exercer o seu mandato. E bem, o primeiro-ministro deve conduzir e chefiar o governo. A oposição deve escrutinar o governo e ter, ao mesmo tempo, um comportamento, eu vou usar a mesma palavra, digno do exercício das funções de oposição, que é altamente também responsabilizar o lugar de líder da oposição. Portanto, eu creio que foi um recado geral e generalizado, mas não foi no sentido de que assumam lá a responsabilidade que não estão a assumir até agora.

E não lhe parece que seria, de alguma forma, um abuso do poder constitucional o presidente pedir a saída de um ministro, ainda por cima com prazo? A acontecer

Eu não vou fazer esse comentário, porque então eu estou a dar um salto para aceitar que tudo aquilo que algumas pessoas têm dito na praça pública é verdade, portanto, não sou capaz de fazer essa análise.

De quem é que foi a escolha de pôr o Ministro da Administração Interna a responder a André Ventura, a defender-se politicamente numa cerimónia da PSP? E o teor dessa intervenção acha que foi falado previamente com o Primeiro-Ministro?

Não sei.

Não sabe?

Não sei uma, não sei duas. Não sei a primeira pergunta, não sei a resposta à segunda pergunta.

Mas concorda que pode ter sido uma escolha despropositada fazer essa reação naquele local?

Eu sei uma coisa. Sei que se o Ministro da Administração Interna não tivesse respondido naquele dia, o que estávamos hoje a dizer é que ele perdeu uma oportunidade de responder. É sempre assim. O ministro falou, não devia ter falado. O ministro não falou, devia ter falado. Eu vou lhe dar um exemplo. Agora no encerramento da Universidade de Verão do PSD, o Primeiro-Ministro optou por fazer um discurso sobre apenas um tema, dando nota de todas as transformações estruturais que o sistema educativo está a ter e a projetar as transformações que queremos continuar a fazer na educação em Portugal. Não falou sobre nenhum dos casos da atualidade do jogo político, se quiser. E eu vi, por acaso não trouxe, esqueci-me, mas vi jornalistas que são depois também comentadores, dizerem o seguinte: o Primeiro-Ministro parecia que estava nos gastos fedorentos. Como é que o Primeiro-Ministro não falou sobre que importância tem aquilo que o Primeiro-Ministro falou face ao que está a acontecer? Devo lhe dizer, é realmente extraordinário que pessoas que ocupam com responsabilidade o espaço público, desvalorizem assim aquilo que é as transformações que todo o sistema educativo estão a ter. Mas estou convencido que se o Primeiro-Ministro tivesse utilizado o espaço de encerramento da Universidade de Verão para falar sobre o caso do Luís Neves ou outro qualquer, que diriam: "Estão a ver, o Primeiro-Ministro não fala de temas que importam à sociedade e às pessoas, porque está a perder tempo com os casos e os casinhos que o governo dele tem trazido à lume." Ou mesmo para o doutor Luís Neves. Se ele não tivesse falado é porque não tinha falado. Falou, não devia ter falado ali. É assim.

Mas a forma nestas coisas interessa.

Claro.

Ou seja, não pode ter havido aqui uma confusão dos papéis, até porque o ministro depois falou à margem aos jornalistas e isso não poderia ter sido feito depois?

Não, tudo o que ele disse está relacionado com o exercício das funções de ministro da Administração Interna.

A resposta a André Ventura.

Sim, então o ministro não pode falar para o líder da oposição, depois do líder da oposição o ter atacado fortemente? Não vejo nisso problema nenhum, num cenário em que ainda por cima, vejam bem, os ataques que o deputado André Ventura tem feito a Luís Neves não são ataques políticos. São insinuações, são maledicência. Eu vou mais longe, são ofensas. Chamar gângster ao ministro da Administração Interna, alguém que foi diretor da Polícia Judiciária com os resultados que nós conhecemos. Alguém acha isto normal? É que eu não acho. E portanto, o que seria se o ministro da Administração Interna não respondesse? Então se eu tivesse alguém que me chamasse gângster, que me chamasse Al Capone ou coisa assim, que o valha.

Só já falta o Al Capone estar no governo.

Associar-me ao tráfico de droga. Eu provavelmente iria mais longe do que foi o ministro da Administração Interna, confesso, mas bem mais longe.

A moção de censura vai ser chumbada. Está mais do que óbvio que é isso que vai acontecer, porque não tem força nem apoio para ser aprovada. Teme que com sondagens positivas para o Partido Socialista, a legislatura venha a ser encurtada por um momento em que os dois partidos decidem aprovar uma moção de censura ao governo?

Mais uma vez, é futurologia. O que sinto é o seguinte: eu não sei se a moção de censura vai ser chumbada ou não. Todos acreditamos que sim, até pelas posições já conhecidas dos partidos da oposição.

Acho que pode elogiar, se calhar, a postura de José Luís Carneiro, não? Logo nesse dia, antes ainda de ser apresentada, vir dizer que não contavam com ele para ela. Já outros fizeram dramas até o final.

É a postura responsável de quem tem noção de que isto é absolutamente ridículo. Não tenho problema nenhum em dizê-lo. Esta moção de censura é ridícula. Uma moção de censura visa derrubar um governo e provocar eleições antecipadas. Nós olhamos para o país e o país tem muitos problemas que estão a ser resolvidos e que demoram tempo a ser resolvidos. Mas olhamos para o país e o que nós vemos? Nós vemos os impostos a descerem, mas a descerem substancialmente, os salários a crescerem. Eu sei que isto dito assim, mas isto é factual e as pessoas pararem para pensarem, a esmagadora maioria das pessoas, o país real sente isso no seu dia a dia. Portugal é dos países onde o salário médio mais tem crescido e portanto, as pessoas têm mais rendimento. Um país onde ainda agora se entregou mais de 31 mil casas com uma execução de 100 % PRR. Um país que tem o maior crescimento no último trimestre de toda a Europa e de toda a zona euro. Um país que, como ainda ontem se soube e se viu, dos melhores preparados do ponto de vista daquilo que é o seu rácio da dívida pública para enfrentar qualquer crise internacional que possa haver. Um país cujo desemprego tem níveis históricos e o emprego níveis máximos históricos. Um país com transformações como estamos a fazer no combate à burocracia, na digitalização, na saúde, na educação, na habitação. Um país com programa de investimentos públicos como há muito não se via. Um país em que se regulou de forma humanista a imigração, que era um problema efetivo, que colocava uma pressão gigante nos serviços públicos. Enfim.

É isso que vai ser a estratégia na moção de censura, apresentar os resultados que o país tem.

Um país com estes resultados é o país real. E esta moção de censura é uma moção de censura deslocada da realidade, deslocada daquilo que é o sentir e o sentimento das pessoas. E, portanto, a estabilidade política, respondendo por fim à sua pergunta, é mesmo um bem em si. E é também uma responsabilidade de cada um Poder cumpri-la. É minha profunda convicção que a legislatura chegará até o fim e todos os sinais do ponto de vista daquilo que é a condução do país e os resultados do governo, e até se quiser, a postura de alguma oposição, me leva a acreditar que isso vai acontecer.

Confie em José Luís Carneiro para não aprovar uma moção de censura ou suscitá-la. Por falar em censura, e agora ia lhe dar essa oportunidade, já tinha vontade de ir aí, e a censura moderna que o primeiro-ministro falou no Pontal, e esta quinta-feira em São Tomé, disse, e vou citar: "Deus me livre de governar para os comentadores." Os comentadores perturbam a ação do governo?

Não. Não perturbam a ação do governo, nem há por parte nem do governo, creio, não falo pelo governo, mas da minha parte, nenhuma antipatia, nenhum ataque que queira diminuir.

Até porque também tem os que elogiam o governo.

Diminuir os comentadores. Sejam os que elogiam ou criticam o governo. Ô, Pedro, a questão não está, de todo, na posição de mais agrada ou menos agrada das políticas do governo.

Mas incomoda-vos a forma, não é?

Não, a mim não me incomoda a forma, a mim incomoda-me a ignorância ou a maldade. Vamos lá ver. A censura moderna, que é uma expressão que o primeiro-ministro usou no Pontal, tem a ver com isto. Eu acho que nós podíamos parar todos pra pensar assim: "Mas este primeiro-ministro será maluco?" Não é propriamente maluco.

Isso também nunca ninguém o acusou.

Pois, e podíamos então fazer o passo seguinte da análise, que é: se ele diz isto, o que o primeiro-ministro quer dizer? Vamos pensar um bocadinho e deixem-me perder algum tempo com isso. Eu acho que é mesmo uma questão de regime, vale a pena pensarmos sobre isto. Nos últimos três meses, a inflação em Portugal desceu. Nunca foi notícia de abertura de nenhum telejornal. A inflação este mês subiu, foi notícia de abertura dos telejornais. Há duas ou três semanas aconteceu o que aconteceu em Ceuta, com a invasão, vamos dizer assim, por parte de imigrantes ilegais da região de Ceuta, uma região espanhola. Eu recebo o alinhamento dos telejornais noticiosos das 15 primeiras notícias que os telejornais, seja ele qual for, eu chamo telejornais, mas estamos a falar dos espaços noticiosos das 20h, dos canais generalistas. As primeiras 15 notícias, 20 notícias, durante quase quatro dias foram sobre Ceuta. Eu não quero meter-me nos critérios editoriais de ninguém, mas a minha pergunta pra nossa reflexão é: mas não estava acontecendo mais nada no país? O país Portugal, embora solidário, com atuação, atento ao que estava a acontecer em Ceuta, não estava a acontecer mais nada em Portugal, nem no mundo? Vou lhe dar outro exemplo. O governo encomendou um estudo sobre a Segurança Social. Esse estudo foi publicado.

Isso foi muito debatido na semana da Segurança Social.

Tal e qual. E bem, e muito bem. E eu vi uma comentadora, que comenta em televisão e em espaços noticiosos nas redes sociais, com uma propriedade, como sempre fazem, uma espécie de tudólogos, que sabem de tudo, dizer o seguinte: "O governo estudou e encomendou um estudo que veio demonstrar que há riscos na sustentabilidade da Segurança Social. Isto é um paradoxo, porque é o mesmo governo que não se importa de pôr em causa a sustentabilidade da Segurança Social, atribuindo, como já fez duas vezes, e provavelmente, se calhar ou não, se prepara pra fazer este ano, atribuir um bônus extra aos pensionistas."

Esse bônus não é uma coisa estrutural, é casuística.

Não, e é do Orçamento do Estado, não tem nada a ver com a Segurança Social. Veja bem, isto é de uma ignorância ou de uma maldade atroz. E eu queria que as pessoas tivessem espírito crítico. Eu vou lhe dizer, eu vou contar aqui uma coisa que tem a ver com isto, porque era este espírito crítico que eu gostava que tivéssemos. Ontem vi uma publicação, ela não me levará a mal, de certeza absoluta, de uma pessoa com quem eu tenho uma admiração brutal, que é uma professora de Português, que foi minha professora, das pessoas a quem eu mais devo, é uma extraordinária linguística, uma pessoa extraordinária, a quem eu devo muito. E vi uma publicação em que ela replicava um texto daquele senhor que é lá da não sei o quê, transparência, como é que se chama? Não sei, qualquer coisa Batalha.

João Paulo Batalha.

Pronto, o senhor João Paulo Batalha, que escreve um texto a dizer que tudo isto está a acontecer ao Luís Neves e esta proteção do governo ao Luís Neves é porque há ministros que têm um complô com sociedades de advogados, dizendo que os ministros pertencem a sociedades de advogados, às grandes sociedades de advogados de Portugal, e por isso têm interesse, por causa do Rui Pinto e de não sei o que Elix, no fundo, proteger o Luís Neves para, por essa via, serem também protegidos. E dizia expressamente o João Paulo Batalha que o Paulo Rangel era uma dessas pessoas. Diz-se isto com uma impunidade. O Paulo Rangel, o ministro Paulo Rangel, não é sócio de nenhuma sociedade de advogados, provavelmente há mais de uma década. Isto não é admissível. E eu telefonei a essa professora, com quem já não falava há muito tempo, e disse: "Professora, pá!" Porque nós vamos no engodo, quer dizer, o João Paulo Batalha escreve e a malta acha que o João Paulo Batalha, tudo que diz é certo e é lei. É mentira, é falso! Nós temos que ser mais rigorosos, todos nós. Os políticos também, certamente. Nós estamos abertos a todo esse escrutínio, era só o que faltava, mas eu acho que há manifestamente uma errada priorização ou hierarquização daquilo que realmente importa pras pessoas. Não sei se nós hoje hierarquizamos o espaço público por aquilo que vende ou por aquilo que achamos que é atrativo, ou se manifestamente posso ser eu que esteja enganado. Mas eu gostava de fazer esta reflexão. Eu disse-lhe há pouco, eu vi escreverem esta semana que um primeiro-ministro que falou durante 45 minutos sobre educação, não há tema mais relevante do que a educação. Não há mesmo. É o principal elevador social, é aquilo que pode transformar a sociedade Do ponto de vista dos valores e dos princípios, transformar uma sociedade, mas também do ponto de vista da competitividade econômica, dizer-se que o primeiro-ministro parecia que podia ser os gatos fedorentos porque passou 45 minutos a falar sobre educação. É isto.

Mas o governo foi apanhado de surpresa. A última vez que estiveram no governo, e o Hugo também teve particulares responsabilidades como vice-presidente e depois como líder da bancada, já na oposição, mas durante esses períodos não existia tanto comentariado ou tanto espaço de comentário. Foram apanhados de surpresa com este escrutínio permanente. É que isso parece mesmo ser uma coisa que levam a peito.

Rui, eu não diria que fomos apanhados de surpresa ou que isso incomoda. Não é esse o ponto. O problema é que eu gostava que o país fizesse essa reflexão, porque eu acho que isto tem um problema para as instituições, para a democracia. Nós não podemos ter comentadores, como eu dizia há pouco, daria vários exemplos, a dizerem este tipo de coisas que são mentiras, são erros, demonstra ignorância, impreparação, e a induzir as pessoas. Vamos lá ver, no fundo, nós estamos todos a querer, muitas vezes, fazer o mesmo que faz André Ventura. Deixe-me dizer assim. Que é deturpar factos, é mentir de forma espúria como se nada fosse. E as pessoas acreditam nisto. Eu ontem, numa entrevista que dei ou num debate em que participei na Sic Notícias, quis colocar propositadamente um tema que a mim me parece de maior relevância. Nós falamos todos estes casinhos à volta da governação e das instituições e deixamos cair aquilo que para mim foi o maior ataque às instituições.

Era a próxima pergunta do Vasco.

Vasco, adivinhei. Então eu espero pela pergunta e respondo.

Então eu pergunto-lhe: disse que acha estranho que André Ventura não ande a falar sobre o assalto ao gabinete do Chega no Parlamento. Desconfia que esse assalto tenha sido fabricado?

Vamos começar pelo princípio. Dizia que, para mim, o maior ataque às instituições que eu vi nos últimos anos, talvez nas últimas décadas, foi mesmo um assalto a um gabinete do líder da oposição na Assembleia da República. Se isto fosse noutro país, nós que valorizamos, e muito bem, aquilo que aconteceu no Capitólio, nos Estados Unidos, é evidente que não é na mesma proporção, mas desculpem, nós estamos a falar de um assalto com atos de vandalismo expresso, de destruição a um gabinete do líder da oposição. Líder da oposição esse, qual é um dos seus principais temas? A segurança, ou nas palavras dele, a falta dela. Eu acho extraordinário.

Aí partilha da ideia do Carlos Moedas.

Ainda por cima, um líder da oposição, que é o mais vocal dos vocais que alguma vez tivemos, tenha falado uma vez disso e nunca mais tenha falado. Eu acho extraordinário mesmo. E eu acho que eu tenho a obrigação, enquanto responsável político, de não deixar cair este caso, porque é de uma gravidade extrema. Nós temos que saber quem é que assaltou a Assembleia da República. Eu devo-lhe dizer, se fosse ao meu gabinete que isto tivesse acontecido, eu não me calava um só dia até ter respostas. Não é que me fizesse mal alguns dias. Mas o ponto é: eu acho estranho. Acho mesmo estranho. E gostava que o país também achasse.

Mas fazendo a pergunta então-

E falasse mais vezes disto, já agora.

Fazendo a pergunta de outra maneira. Já não lhe pergunto se acha que foi fabricado, pergunto-lhe por que acha que André Ventura não tem falado sobre o tema?

Gostava que lhe perguntassem. Eu não tenho que fazer juízos de valor.

Temos resultados dessas investigações.

Se eu tenho?

Não, ele.

Não faço ideia. O que eu sei é que ninguém acha estranho, só sou eu neste país, que acha estranho que o André Ventura tenha largado um tema como este? E depois diz que lhe roubaram documentos importantíssimos que tinha para isto e para aquilo, sobre o doutor Luís Neves. Eu já disse, e sobre o primeiro-ministro, também disse que era sobre o primeiro-ministro, já tive ocasiões de dizer alguns sobre o primeiro-ministro, se ele queria quais eram, que nós mandamos outra vez. Ouçam, nós atingimos um grau na nossa vida política e pública que desvalorizamos uma coisa como esta e não pode ser desvalorizada, é um assalto a um órgão de soberania. Imaginem que assaltavam o Palácio de Belém e entravam no gabinete do Presidente da República e furtavam documentos. Eu acho que o país não podia largar um tema como este. Um líder da oposição, num órgão de soberania que é a Assembleia da República, eu acho que nós também não podemos largar. Eu não faço isto de forma capciosa ou maldosa. Confesso. Eu sei que a análise, o Vasco está a sorrir, o Rui Pedro também. O Rui Pedro agora está mais chizudo. Creio que estão a sorrir pensando: "Bem, o que o Soares está querendo insinuar é que o André Ventura largou o tema porque o Hugo Soares acha que tudo aquilo foi uma encenação." Eu quero ser claro. É evidente que olhando para aquilo que aconteceu, para as imagens que nós vimos, das fotografias no chão caídas direitinhas, viradas para cima, com o terço em cima de Nossa Senhora, as circunstâncias que nós conhecemos, dos registros que são oficiais da Assembleia da República, ninguém entrou. As únicas pessoas que estiveram na Assembleia da República durante aquele espaço de tempo foi o deputado André Ventura e depois dois deputados do Chega. É tudo muito estranho.

Há uma coisa por explicar aí.

Mas eu não estou a querer insinuar nada, é isso que eu quero dizer. Eu quero dizer que acho muito grave as duas coisas, já agora. Porque se viesse a demonstrar, que eu não a quero acreditar, que um assalto a um órgão de soberania foi encenado por aqueles que se dizem vítimas desse assalto, eu honestamente julgo que a partir desse momento-

Tinha que se demitir o André Ventura.

Eu não sei se o deputado André Ventura se tinha que demitir ou não da presidência do Chega, isso é uma questão com o Chega. O que eu sei é uma coisa: eu nunca mais encarei nenhuma conversa, nem nenhum debate parlamentar, e julgo que como eu, o país, com o partido Chega e o deputado André Ventura, com a mínima das noções de que aquilo que está à minha frente é algo em que eu posso sequer acreditar num bom dia Ou num bom tarde. Acho que temos todos essa consciência. Agora, eu não estou a pôr isso nesse plano, estou só a dizer que acho demasiado grave, acho um ataque às instituições que tem que ser levado até às últimas consequências.

O antigo líder do PSD, Luís Marques Mendes, esteve na Universidade de Verão e lá disse que a revisão constitucional não é prioritária nem necessária. Defendeu que fosse, isso sim, cirúrgica. Concorda com os termos com que foi posta essa questão?

Peço desculpa. Importa-se de repetir a pergunta?

Vou repetir. Marques Mendes disse que a revisão constitucional não é prioritária, não é necessária, tem que ser cirúrgica a acontecer. Concorda?

Acho que não é a prioridade nacional. Desse ponto de vista, concordo com o doutor Marques Mendes. Não creio que seja uma questão de prioridade em que se não se fizer a revisão constitucional, o país não anda pra frente ou não se consegue resolver os problemas das pessoas. Não acho isso. Acho que nós temos convivido e vivido com esta Constituição e temos conseguido fazer coisas importantes para o país, mas também acho que não há também, ao contrário, problema absolutamente nenhum em rever a Constituição. A própria Constituição prevê a sua revisão com regularidade, como sabem, e acho que a acontecer ela deve ser mais do que cirúrgica e creio que se pode fazer um debate amplo sobre o texto constitucional, sem drama, sem complexo ideológico.

Sem tabus.

Com total abertura, sim.

Só porque enquanto estávamos a ter esta entrevista, que deverá ter que ser cortada na sua versão FM, mas que irá na íntegra para podcast, o presidente da República disse em declarações à SIC que não manda recados por ninguém. Suspeito que está satisfeito com isso. Ou seja, valida que aqueles prazos que foram ditos pelas pessoas que falávamos há pouco, na verdade, acabaram de ser desautorizados pelo presidente da República. Foi importante o presidente vir dizer isto publicamente?

Eu não tinha dúvidas sobre isso. Eu já tinha dito, eu não tinha dúvidas sobre isso. E, portanto, creio que o presidente da República, quando entendeu e na primeira oportunidade que teve, e bem, não andou atrás e a reboque de ninguém também, na primeira oportunidade que teve, disse o que tinha a dizer. Só posso cumprimentar o senhor presidente da República por, em primeiro lugar, não ter andado a correr, a desmentir e atrás de ninguém. E em segundo lugar, pela primeira oportunidade, ter feito uma afirmação com a qual eu concordo em absoluto.

Só uma última pergunta, até porque poderia ser feita em qualquer altura, mas o que também não vem à Vixi Suave muitas vezes, embora seja talvez o convidado que veio mais vezes. Pedro Passos Coelho tem sido pouco solidário com o governo ou se quiser, vou lhe perguntar de outra maneira. Olhando para os dois ex-líderes do PSD, tem sido menos solidário do que até, por exemplo, Rui Rio?

Não consigo fazer essa avaliação. Não tenho estado atento ao que o doutor Rui Rio tem dito ultimamente.

Não vai ao Twitter?

Não, manifestamente não. E também ultimamente não tenho ouvido o doutor Pedro Passos Coelho. O doutor Pedro Passos Coelho houve uma fase em que provocou efetivamente o governo, dizendo bem de algumas coisas e provocando a governação noutras, incentivando, se quiser, que houvesse um grau de maior velocidade naquilo que ele chama reformas estruturais. Eu gosto mais da expressão nas transformações estruturais, mas não me parece que o governo sinta falta da solidariedade do doutor Pedro Passo Coelho.

Também acho que não se deve sentir falta dessas conferências que ele dá. Enquanto não existe, estará mais contente.

Sobretudo porque depois o espaço de imediato que é inundado com comentários à volta daquilo que o doutor Pedro Passos Coelho disse, como se isso fosse o alfa e o ômega da política em Portugal.

Vamos então avançar para o cardápio. Hugo Soares, quem convidaria para almoçar no restaurante Maçã Verde, André Ventura ou Miguel Relvas?

O Miguel Relvas.

Quem é que convidava para ir ao Bom Jesus de Braga, Marcelo Rebelo de Sousa ou António Gedes Seguro?

O Marcelo Rebelo de Sousa já conhece muito bem o Bom Jesus de Braga, iria agora com o António Gedes Seguro.

Tendo em conta a informação que tem hoje, e esta é uma pergunta que uma vez nos criticou por não ter feito no Cardal Peixe, eu aproveito para lhe dar essa oportunidade. Se tivesse votado nas eleições dos Estados Unidos, em quem é que teria votado? Kamala Harris ou Donald Trump?

Essa é muito boa e é altamente capciosa, porque essa tem a ver com o fato de eu uma vez ter dado uma entrevista e ter dito que não sabia em quem é que votava. É muito curioso, porque nós não conseguíamos, e fui altamente criticado, creio que fui o único em Portugal que disse exatamente isso. Eu estava nas antípodas de Kamala como estou nas antípodas de Trump. É curioso. Agora, não vou dizer em quem é que votava porque eu não sei como é que Kamala teria sido como presidente dos Estados Unidos e, portanto, não é possível fazer essa avaliação. Se me perguntasse se estou desconfortável com muito daquilo que tem sido também a atuação do Trump, acho que é tão evidente que escuso-me sequer estar a enumerar as vezes em que estou não só desconfortável, mas também em total desacordo com algumas das decisões do presidente Trump.

E pra terminar este Carne ou Peixe, quem é que levaria ao Estádio do Dragão? José Luís Carneiro ou Duarte Cordeiro?

De que clube é o Duarte Cordeiro?

É do Sporting.

É do Sporting.

Então levava o José Luís Carneiro, valha-me Deus. O José Luís Carneiro, creio eu que tem uma costela portista e no Dragão não entra qualquer um. Portanto, entraria o deputado José Luís Carneiro.

Muito bem, vamos então agora à fase da sobremesa, que é a música que encerra o programa.

Talvez como estamos numa fase em que nos estamos a aproximar do Orçamento do Estado, e é uma música que eu gosto, com grau de provocação, mas também de ironia, mas a música é manifestamente bonita, pode ser o "Encosta-te a Mim", de Jorge Palma.

Muito bem, Hugo Soares termina aqui a Vixi Suave e regressamos, como sempre, na próxima semana.

Encosta-te a mim. Nós já vivemos cem mil anos. Encosta-te a mim. Talvez eu esteja a exagerar. Encosta-te a mim. Dá cabo dos teus desenganos. Não queiras ver quem eu não sou. Deixa-me chegar. Chegado da guerra. Fiz tudo para sobreviver. Em nome da terra. No fundo, para te merecer. Recebe-me bem. Não desencantes os meus passos. Faz de mim o teu herói. Não quero adormecer. Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo. O que não vivi, hei de inventar contigo. Sei que não sei, às vezes, entender o teu olhar, mas quero-te bem. Encosta-te a mim. Encosta-te a mim. Desatinamos tantas vezes. Vizinha de mim. Deixa ser meu o teu quintal. Recebe esta pomba. Que não está armadilhada. Foi comprada, foi roubada. Seja como for. Eu venho do nada. Porque arrasei o que não quis. Em nome da estrada. Onde só quero ser feliz. Enrosca-te a mim. Vai desarmar a flor queimada. Vai beijar o homem-bomba. Quero adormecer. Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo. E o que não vivi, um dia hei de inventar contigo. Sei que não sei, às vezes, entender o teu olhar, mas quero-te bem. Encosta-te a mim. Encosta-te a mim. Quero-te bem. Encosta-te a mim.