A diferença entre ver e entender um um filme está no esforço em perceber a importância da imagem na história, a sua composição, a relação com os personagens e as suas motivações, como a sequência foi filmada e o que diz sobre o estilo visual do seu realizador. Difícil?

O realizador coreano Kogonada resolveu ajudar todos os cinéfilos do mundo e fez uma série de vídeos que ajuda a entender o principal traço visual que caracteriza o trabalho de alguns dos principais realizadores da história. Nascido em Seul, na Coréia do Sul, Kogonada é conhecido por seus vídeo-ensaios sobre cinema para a Internet e colabora para a revista Sight & Sound. A página do Vimeo de Kogonada traz os seus melhores vídeos, muitos deles escolhidos como destaque pela equipa do site.

Um dos seus vídeos mais famosos é sobre Wes Anderson, realizador conhecido pelos filmes Os Tenenbaums – Uma comédia genial, Fantastic Mr. Fox, Moonrise Kingdom e Grand Budapest Hotel, nomeado para o Globo de Ouro deste ano como melhor filme de comédia. Para ilustrar a preferência de Wes Anderson por planos simétricos onde o ponto principal de atenção está no meio do ecrã, Kogonada traçou uma linha reta no centro do vídeo. O resultado impressiona.

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Já no vídeo sobre o trabalho de Quentin Tarantino, o realizador coreano reúne planos que ele identifica como “From Below”. Em filmes como Kill Bill, Pulp Fiction e Sacanas sem Lei, Tarantino utiliza com expressão os chamados planos contra-picados, quando a câmara é colocada abaixo do objeto de atenção para que o espectador veja a cena de baixo para cima. O recurso é utilizado quando Tarantino quer mostra o ponto de vista dos mais fracos e perdedores nas suas narrativas.

Outro caso é o do realizador Stanley Kubrick, conhecido pelo uso frequente da perspetiva de ponto de fuga como forma de atrair a atenção para dentro da sua narrativa visual. Kogonada desenha uma grelha no começo do vídeo e, a seguir, mostra uma séries de imagens de filmes como 2001: Odisseia no Espaço, The Shining e Laranja Mecânica para ilustrar a representação do mundo a partir de um ponto de vista fixo central. A profundidade de campo e o foco dão a ideia de amplitude, como se as imagens ultrapassassem os limites do ecrã.

Para o próximo vídeo, vai querer aumentar o volume do seu computador ou telemóvel. Nos filmes de Darren Aronofsky, como Requiem for a Dream, O Lutador e Cisne Negro, o realizador utiliza sons agudos para quebrar a parede invisível que separa espectador e obra com o intuito de incomodar, assustar, inquietar e gerar expectativas, de modo a estreitar a relação entre o público e o filme.

Para representar o conflito entre o fogo e a água na obra de Terrence Malick, Kogonada dividiu o ecrã em duas partes: de um lado o fogo como símbolo de destruição e redenção em filmes como Badlands e Days of Heaven, e de outro lado a água como recurso para a passagem do tempo em The Thin Red Line, The New World e A Árvore da Vida.

Kogonada também recorre aos realizadores mais clássicos. No vídeo “Hands of Bresson”, o realizador utiliza diversas cenas de obras do francês Robert Bresson, como Diário dum Pároco de Aldeia, O carteirista e Uma mulher delicada, para evidenciar uma da suas obsessões visuais: as mãos. Elas eram utilizadas nas suas obras para ilustrar a descoberta de sensações e a representação do objeto de desejo dos seus personagens.

Um dos realizadores favoritos de Kogonada é o japonês Yasujiro Ozu, conhecido pelos filmes Primavera Prematura, Primavera Tardia e Viagem a Tóquio. Nos seus filmes, a câmara raramente se move e a ação acontece quase como se estivéssemos a ver uma obra teatral. Esta representação visual é evidente, sobretudo, no uso de planos de corredores em seus filmes, quando a câmara estática mostra de longe os personagens a moverem-se. Kogonada separa o ecrã em dois para mostrar como estes planos de corredores se cruzam e se encontram nas suas obras.