Cultura

Designers sonham construir museu do neón, com histórias de pessoas e lugares

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Dois designers gráficos estão há mais de um ano a recolher letreiros em Lisboa, especialmente em néon, e querem criar um museu, da história da cidade mas também de histórias de pessoas e de lugares.

Tiago Petinga/LUSA

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  • Agência Lusa
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Dois designers gráficos estão há mais de um ano a recolher letreiros em Lisboa, especialmente em néon, e querem criar um museu, da história da cidade mas também de histórias de pessoas e de lugares.

Influenciados pela formação profissional, Rita Múrias e Paulo Barata começaram há cerca de um ano e meio a fotografar os letreiros de fachadas antigas de estabelecimentos comerciais, a maior parte com néon preenchendo letras de várias formas. Aos dois interessava-lhes os tipos de letra, diferentes e que marcaram épocas.

“Como designers sempre achámos muita piada ver os letreiros e sempre os comentámos ao andar a pé, especialmente na baixa, e a observação de que eles estavam a desparecer criou essa ideia de que temos de fazer alguma coisa, porque é uma pena que esse espólio, esse património cultural, desapareça”, diz Paulo Barata.

É que tiravam uma fotografia a um letreiro e “uns tempos depois ele já não estava lá”. É Rita quem o recorda, no armazém de um familiar agora transformado em depósito de letreiros, em néon mas não só, do Estado Novo aos anos 70, dos anos 90 à atualidade.

A coleção começou em junho passado e hoje são já dezenas os letreiros que juntaram, de prédios devolutos, de pessoas que se queriam desfazer do que consideravam um traste, de casas que sofreram obras.

Rita e Paulo, explicam à Lusa, não compram os letreiros nem cobram por os tirar das fachadas. Porque o objetivo não é comercial mas sim preservar uma parte da história da cidade e criar se possível um museu, como Berlim e Varsóvia já têm, assim arranjem um espaço digno.

“Conversámos com a Câmara de Lisboa, o departamento de Cultura, e estamos a debater a ideia de fazer uma exposição temporária em 2016”, diz Paulo. É uma boa base, admite. E conta que com outro apoio, da empresa de reclamos luminosos Neolux, estão a conseguir datar os letreiros com precisão, e ainda perceberam que 70 por cento deles estão prontos a funcionar.

A ideia principal, acrescenta, “é evitar que vá para o lixo o maior número de letreiros possível”. E depois “catalogar as letras” e perceber as suas épocas a nível tipográfico e de publicidade. Paulo não tem dúvidas de que com a Rita estão a construir uma “aula viva” para os estudantes, onde “se pode encontrar um bocadinho de cada época do século passado”.

Mas vão mais longe. Porque há letreiros com “pessoas” dentro, associados a histórias de vida, os dois querem também contar “a vida de 50 anos de lojista”, a vida dos que entraram aos 12 numa casa onde viram ser erguido aquele néon luminoso, florescente e bem visível, que “aquecia” a rua e se calhar todo o bairro.

Rita aponta na parede do armazém o néon “A.NETO RAPOSO LDA”, de uma casa de lãs que durante décadas recebeu correspondência para “António Raposo” ou “Alberto Raposo”. E recorda a conversa com Alice, a dona da casa, que toda uma vida recebeu cartas para “Antónios” e “Albertos” inexistentes. A loja fechou, algumas lãs por lá se mantêm ainda.

É também Rita que fala da urgência em recolher aqueles pedaços de história, uns apagados há muito, agarrados em silêncio a memórias de lojas inexistentes, outros luminosos ainda, às vezes os que mais brilham em ruas mal iluminadas, e aquele som surdo e baixo que Rita gosta. “Com a crise os letreiros estão desparecer”, diz, explicando que a Câmara cobra um imposto por cada um.

É um trabalho difícil. Por vezes são precisos meses até encontrar o dono do prédio, o antigo lojista, e pedir autorização. E de repente começam umas obras, surge uma loja nova, e o letreiro desaparece no lixo e dá lugar a uma placa de plástico. “O LED acabou com o néon”, sentencia Rita.

E é pena que se esteja a perder “a memória gráfica”. É nessa memória que investem nos tempos livres, agora na de Lisboa, no futuro se possível na de Portugal inteiro.

Paulo acredita que as pessoas preferem que os letreiros façam parte de um museu a irem para o lixo ou para uma loja de produtos “retro”. E Rita também. E porque acreditam aproveitam todos os tempos livres para percorrer a cidade a pé.

É preciso tempo, disponibilidade e paciência. Mas há amigos que os começaram a ajudar, e amigos de amigos. Rita e Paulo caminham, aos poucos, para uma legião de seguidores de narizes no ar.

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