A Pixar foi criada em 1986 e desde então transformou-se numa empresa que não para de levar famílias inteiras para o cinema. Em todos os seus filmes parece haver mais do que uma mensagem, a maioria adaptadas ao espírito inocente das crianças. Mas há outras mais direcionadas para a complexidade do pensamento dos adultos, esquecendo que há crianças na sala de cinema. Eis oito exemplos que o El País sublinhou:
Ratatouille (2007): o bullying
Em 2007, a Pixar lançou o filme sobre o rato de paladar apurado que torna um humano num grande chef de cozinha. Se são as artimanhas entre o roedor e o jovem cozinheiro que enchem o imaginário das crianças, a produtora de animações vai mais longe nas lições de vida e torna o vilão numa vítima.
Quando o temido crítico gastronómico chega ao restaurante e prova o Ratatouille do restaurante onde o rato trabalha, recorda-se dos tempos de infância em que os colegas de escola o incomodavam. Era quando chegava a casa e a mãe lhe dava precisamente um Ratatouille para comer que o crítico se sentia protegido e mais sossegado.
O carinho da mãe não foi suficiente para manter a amabilidade do crítico, mas se as crianças o veem como um vilão, os adultos conseguem aperceber-se que também ele é uma vítima das circunstâncias: foi o bullying que o tornou assim.
https://www.youtube.com/watch?v=pbJw1hNCc24
Up Altamente (2009): amor e morte em dez minutos
Ellie e Carl são as duas primeiras personagens que conhecemos em “Up Altamente”, mas nunca foi tão rápido interromper um ciclo de vida num filme de animação: os dois conhecem-se em crianças, acabam por se apaixonar, casam sem conseguir ter filhos nem concretizar o sonho de visitar as Cataratas do Paraíso, porque Ellie morre nos primeiros dez minutos.
O início de Up Altamente, lançado em 2009, não foi feito para meninos: esses primeiros dez minutos evocam sentimentos de uma complexidade pouco percetível para as crianças, que ainda não parecem entender a intensidade dos acontecimentos. As que deixam cair uma pequena lágrima, logo a secam quando vêem uma casa sai da cidade voando à conta de balões.
https://www.youtube.com/watch?v=1G371JiLJ7A&feature=youtu.be
Toy Story 3 (2010): a morte inevitável
São muitas as lições de vida presentes em Toy Story, mas uma delas destaca-se pela profundidade da decisão: morrer. Um fim inevitável a certa altura da vida. Falamos da cena em que os bonecos estão a escorregar por um monte de lixo em combustão. Todos tentam correr contra a corrente, para fugir da morte. Até que, a certa altura, se dão conta que o destino deles está mesmo naquele monte de brinquedos em combustão e se deixam levar.
Um momento angustiante para todos – crianças e adultos -, porque aprender a viver com a presença inadiável da morte não é fácil. Acontece é que os momentos de alívio que se seguem varrem da memória das crianças estas sensações de aperto no coração, enquanto os adultos ficam presos à ideia de ver os pequenos heróis a desistir da vida.
Os Incríveis (2004): a traição
Bob, Helen e os três filhos são os heróis do filme apresentado pela Pixar em 2004. São enredos naturais para um filme de animação para crianças, mas é o passado do pai de família que torna o enredo mais complicado: Bob era um herói, mas o governo quis terminar com os programas heróicos e ordenou-lhes que levasse uma vida normal.
Um dia, Bob entra em desacordo com um chefe que não quer ajudar uma vítima de assalto e deixa a personalidade heróica revelar-se. Entra numa vida dupla, dividida entre a vida familiar pacata e os feitos que salvam vidas na cidade. Helen apercebe-se que o marido está estranho e desconfia que anda a ser traída.
O filme desenrola-se e a desconfiança de Helen nem sequer se torna central no enredo, mas se esse aspeto passa ao lado das crianças, muitos adultos podem rever-se naquelas preocupações. É típico: algo estranho altera a vida de um casal e a suspeita é quase sempre de uma terceira pessoa se intrometeu na relação. Claro que tudo acaba bem nos desenhos animados: Bob é um homem exemplar, mas até que Helen se aperceba disso muitos adultos na sala de cinema veem a vida refletida no ecrã. As crianças nem tanto.
https://www.youtube.com/watch?v=eZbzbC9285I
À Procura de Nemo (2003): transtorno de personalidade múltipla
Dory sofre de amnésia, mas isso toda a gente sabe. Na verdade, é algo de que todos os peixes parecem sofrer – com uma memória extremamente curta.
Mas existe uma personagem para que vale a pena olhar com outra atenção: trata-se de Deb, um peixe azul às riscas brancas que vive no aquário do dentista onde Nemo cai depois de ser pescado. Apesar de todos aqueles peixes terem problemas mentais por estarem trancados tanto tempo, Deb parece sofrer de um transtorno de personalidade múltipla: no reflexo, aquele peixe vê uma suposta irmã gémea insuportável chamada Flo. Se o aquário fica sujo, Flo “desaparece” e Deb entra em desespero.
O cenário não passa de um momento bem passado para as crianças, que veem Deb como um simples peixe idiota. Para os adultos a realidade é outra: a falta de liberdade traz consequências dramáticas para os prisioneiros e Deb é apenas mais uma vítima.
Wall-E (2008): descobrir o amor
Desde que chegou às salas de cinema que é a ternura por detrás da história da destruição do amor que sobressai no enredo da Pixar. Para as crianças também, mas o sentimento que une Eva e Wall-E não passa para elas de uma amizade muito forte.
No mundo dos adultos, a visão é outra: aquela chama que Eva acende não mente e Wall-E está decididamente a apaixonar-se. Tenta até alcançar a mão da robô, embora sem sucesso. E a atrapalhação que se segue não deixa enganar: é amor, com certeza.
A Vida de um Insecto (1998): o colonialismo e a escravatura
As trabalhadoras formigas continuam incessantemente a agarrar em comida para poderem passar o inverno descansadas. Mas vivem sob a censura de uns insetos nómadas que lhes atormentam a sua vida e destroem todas as construções das pequenas formigas. Para as crianças, é uma típica história entre o bem e o mal. Para os adultos, a história é algo mais complexa: é antes uma metáfora sobre o sofrimento das classes inferiores perante a supremacia das elites. E ao longo do filme há vários exemplos disso:
Rei Leão (1994): a morte, o amor, a desilusão…tudo!
Por onde começar… o Rei Leão é um dos filmes com mais mensagens, cujo conteúdo parece mais direcionado para os maiores de 18 anos do que para os miúdos de seis. Uma das situações mais dramáticas é a morte de Mufasa, pai de Simba, às mãos do ambicioso irmão que quer o trono e que culpa o sobrinho, que passará anos a ser apontado como o responsável pela morte do próprio pai e a ser somado pelas dúvidas de que o possa mesmo ter feito.
O Hakuna Matata, o espírito alegre do filme, consegue ajudar as crianças a ultrapassar o momento, mas os adultos ficam presos àqueles sentimentos. Uns porque lidar com o desaparecimento de um pai não é fácil, outros porque realmente família não se escolhe.
https://www.youtube.com/watch?v=bytxvmisJ-g
Por falar em coração, este deve ser o alvo que os criadores de Rei Leão mais conseguem atingir: basta que se avance para o reencontro de Simba com a amiga de infância – vá, todos os adultos sabem que era uma namorada – Nala. Mesmo as crianças percebem que é mais que uma simples amizade de escola.
https://www.youtube.com/watch?v=1dXxwi7S2N8
Há uma mensagem que atravessa toda a saga Rei Leão: deve viver-se a vida em plenitude. Hakuna Matata significa “não te preocupes”, “os teus problemas são para esquecer, para sobreviver tens de aprender”.
Mais tarde, o mesmo conselho chega por parte de Rafiki, o sábio macaco com poderes sobrenaturais que aconselha os animais a seguir determinados caminhos na vida. Depois de Simba ter visto o pai no céu – outro momento estranho para um adulto, que se vê confrontado com questões como a vida depois da morte e espiritismo -, Rafiki aproxima-se de Simba e acerta-lhe com o bastão na cabeça, depois de lhe dizer que “mudar é bom”.
Podíamos continuar a encontrar mensagens onde a Pixar não se esqueceu da presença dos adultos na sala de cinema. É de recordar a ganância imodesta de McQueen em Carros (2006), o dano causado pelos preconceitos em Monstros e Companhia (2001), a relativa importância das aparências em Dumbo (1941), as consequências da mentira em Pinóquio (1940), e por aí além.
Mas já reparou em algum aspeto comum à maioria dos filmes do universo Disney Pixar? O código “A 113” é uma constante nas produções das duas empresas. Aparece em várias situações, embora provavelmente não tenha reparado. Ora veja:
Os conspiradores adoraram este pormenor: o que seria aquele número? Uma manobra de lavagem cerebral? Um símbolo de uma sociedade secreta por desvendar? Não, garantem os trabalhadores da Disney e da Pixar: apenas o número da sala onde todos se juntam para produzir os filmes.
Texto editado por Filomena Martins