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Festival Eurovisão da Canção

“Música não é fogo de artifício”. O que Salvador disse na noite em que ganhou a Eurovisão

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Sobral agradeceu o apoio mas fez da indústria da música a grande protagonista. "Eu sei que estas coisas são muito efémeras, mas sinto que é um bom passo as pessoas terem gostado da música."

GENYA SAVILOV/AFP/Getty Images

“Vivemos num mundo de música descartável, de música fast food sem qualquer conteúdo. Música não é fogo de artifício, são sentimentos. Vamos tentar mudar isto e trazer a música de volta, que é o que realmente importa.” Esta foi a primeira mensagem de Salvador Sobral, mas não a única. A partir deste sábado, Salvador é o primeiro português a levar para casa o prémio, em forma de microfone, da Eurovisão.

Depois de ter cantado em palco na companhia da irmã, já o festival se tinha rendido a seus pés, o artista dizia, em declarações à RTP, que esta era “uma vitória para a música em geral”:

Eu sei que estas coisas são muito efémeras, amanhã já ninguém se lembra, mas sinto que é um bom passo as pessoas terem gostado desta música que tem tanto conteúdo emocional, lírico e melódico.”

“Acho que isto pode ajudar, de alguma maneira, a Europa a trazer músicas com um pouco mais de significado a todos os níveis”, continuou Salvador Sobral, fazendo da música (e do seu futuro) a grande protagonista da noite.

Questionado sobre se algum dia achava que tal pudesse acontecer, Sobral atirou os créditos à irmã, a compositora da música que, entretanto, ganhou vida própria: “A minha irmã tem um talento incrível, nunca duvidei. Agora acho que a Europa pode ver que, qualquer canção que ela faça, a Europa toda gosta”. “Vou vender isto no eBay”, brincou.

“O Caetano Veloso fez um vídeo a dizer que queria que eu ganhasse a Eurovisão. Esse vídeo vale mil vezes mais mais do que essa coisa”, disse ainda, apontado para o prémio do Festival da Eurovisão da Canção.

Sobral, que garantiu que não voltaria a concorrer no festival, deixou ficar um simples “obrigado” a quem o apoiou.

“Campeão da Europa? Quem sabe o que vai acontecer”

“Salvador, Salvador, Salvador.” Pode não parecer, mas este foi mesmo o início da conferência de imprensa no final da 62ª edição do Festival Eurovisão da Canção. Entre as muitas perguntas, feitas num inglês mais e menos perfeito, estas são as declarações de Sobral que mais se destacaram:

  • “Não percebi os votos, acho que são difíceis de entender. É preciso ser-se um matemático. Alguém da nossa equipa disse que ganhámos. Foi uma surpresa, foi bom”;
  • Sobre os planos para o futuro: “Não será diferente. Vou ter uma tour de verão em Portugal e vou continuar a fazer a minha vida. Acho que nada vai mudar”;
  • “Nunca escrevi uma música para passar na rádio. Lancei o meu álbum em 2016 e ninguém ligou nenhuma. Depois deste festival, e desta música linda, as pessoas começaram a conhecer-me e a comprar o álbum. Acho que é assim que funciona”;
  • “Mandei a mensagem sobre os refugiados porque pensei que este era o maior problema que a Europa tem. Fui proibido de usar a T-shirt depois disso, não querem que passemos mensagens políticas ou comerciais… Esta não era uma mensagem política, apenas humanitária. Acho que não devia pressionar o mesmo botão, já disse tudo”;
  • Sobre o futuro da música: “Não sei se está a mudar, espero que isto possa trazer uma mudança, não só para este concurso mas para a música. Seria a minha maior alegria. Esta é uma musica linda, com uma mensagem lírica linda. As pessoas já não estão habituadas a ouvir isto porque só ouvem rádio. Se puder ajudar a trazer alguma mudança à música, vou ficar muito feliz”;
  • Sobre o momento em que percebeu que tinha ganho o festival: “Pensei que isto é de doidos, tal como acho que ter quatro guarda-costas para me levar ao meu camarim é de doidos, mas acho que isto vai passar”;
  • “Estou muito grato a todos os que apoiaram a canção. Tenho recebido mensagens de casa e de toda a Europa. Quem não gosta de sentir o amor?”;
  • Sobre ser um herói de Portugal: “Acho que o verdadeiro herói é o Ronaldo e fico feliz que ele tenha esse papel. Isto é espetacular, mas só quero viver uma vida pacifica, espero que isso possa acontecer. Se pensar em mim como herói nacional será um pouco estranho”;
  • “Para uma música como esta ganhar, isto é definitivamente celebrar a diversidade”;
  • “Nunca me importei com os votos, pelo que nunca vou fazer uma música em inglês. Não quero saber dos votos”;
  • “Campeão da Europa? Quem sabe o que vai acontecer…”;
  • “Porque todos sabemos que a Eurovisão dá imenso dinheiro…”;
  • “Não sou muito espiritual. Penso que todos os dias seriam o nosso dia porque a música é linda. Se fosse amanhã, acho que também teríamos feito um bom trabalho”.
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