O litoral alentejano tem falta de médicos, de diferentes especialidades, e, sobretudo, de dezenas de enfermeiros, situação que se pode agravar este ano se o Governo não autorizar a contratação de mais profissionais. Além de clínicos, faltam administrativos, assistentes técnicos e operacionais e mais de 60 enfermeiros na Unidade Local de Saúde do Litoral Alentejano (ULSLA), que inclui um hospital e os centros de saúde de Santiago do Cacém, Alcácer do Sal, Grândola, Sines (Setúbal) e Odemira (Beja).

Em outubro do ano passado, as camas disponíveis na Unidade de Convalescença foram reduzidas de 25 para 12 e a Unidade de Cuidados Paliativos foi deslocada dentro do Hospital do Litoral Alentejano (HLA), por falta de recursos humanos. “No imediato necessitaríamos de 68 enfermeiros para colmatar as falhas”, diz à agência Lusa Luís Matos, dirigente do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP), que exerce na ULSLA.

O sindicalista estima que, a partir de julho, com o horário dos enfermeiros a passar de 40 para 35 horas semanais, as necessidades vão aumentar e que, até ao final do ano, com a conclusão da obra de ampliação da urgência do hospital, serão precisos ainda mais profissionais de enfermagem.

“A partir de julho, com a entrada das 35 horas, necessitaríamos de mais 20 enfermeiros a juntar aos 68 que já estão em falta e que não estão a ser contratados e após a conclusão da obra do serviço de urgência provavelmente de mais dez”, afirma.

O presidente do conselho de administração da ULSLA, Luís Matias, aponta números semelhantes, indicando a necessidade atual de 64 enfermeiros, número que estima aumentar até ao final deste ano para 90. A contratação de mais profissionais, segundo diz à Lusa, está, no entanto, dependente de autorização do Governo.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

As condições para novas contratações, sublinha, são “haver dinheiro” e “não haver aumento de despesa”, “mas depois é preciso haver vagas no mapa de pessoal”. “E isso nós não temos, porque o mapa está desadequado [à realidade atual]”, reconhece o administrador.

Luís Matias assegura que já foi remetida uma proposta à Administração Central do Sistema de Saúde para aumentar o mapa de pessoal que contempla as necessidades atuais de recursos humanos, mas que tem também de ser posteriormente aprovada pelo Ministério das Finanças. “Tudo isto tem de ser validado e provavelmente ou terá uma sequência extemporânea ou então será integrado no próximo orçamento [de 2019]”, diz.

Segundo o administrador, para este ano, apenas foi permitido “inscrever 4% sobre o orçamento do ano anterior em rubricas de recursos humanos”, o que não é suficiente para conseguir mais enfermeiros, tendo o valor sido absorvido “pelas reposições remuneratórias”.

Luís Matias argumenta ainda que há outras questões, que afetam “o país todo”, como as dificuldades em zonas periféricas de fixação de profissionais, sobretudo “pessoal técnico altamente especializado”, como enfermeiros e médicos.

“Temos falta de médicos, sim, mas não há médicos disponíveis em alguns casos, e noutros casos temos de os partilhar com outras instituições”, relata, referindo terem já decorrido concursos públicos sem candidatos.

Urologia, gastroenterologia, pediatria, fisiatria e análises clínicas são algumas das áreas com apenas um especialista no quadro da ULSLA, sendo que algumas contam com reforço de prestadores de serviços.

A contratação de mais médicos tem sido uma das reivindicações da comissão de utentes, que aponta como consequência da falta de especialistas o aumento do tempo de espera por consultas e cirurgias.

“Existe uma grande lista de espera em cirurgias, mas também em consultas”, afirma à Lusa o porta-voz da comissão de utentes, Dinis Silva, que exemplificou com os casos de otorrinolaringologia, em que disse existir atualmente “450 dias de espera”, e de oftalmologia, com uma lista de mais de 200 dias.

O presidente da Câmara Municipal de Santiago do Cacém, Álvaro Beijinha, classifica a falta de profissionais como “um problema crónico”, que se arrasta desde a abertura do HLA, em 2004.

O autarca defende ser “essencial” o aumento de recursos humanos e também do financiamento dos serviços, argumentando que, além dos cerca de 97 mil residentes no litoral alentejano, os setores do turismo e da indústria estão em crescimento e deslocam para a região mais pessoas que recorrem aos serviços locais de saúde.