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Tiago Rodrigues não perdoa. O encenador da Mundo Perfeito atira-se ao texto fundador do realismo, a Bovary de Flaubert, cruzando-o com o julgamento do autor e da sua personagem. Em troca dá-nos, num fôlego só, mais um desafio ao modo como vivemos a arte, como sentimos as palavras e como entendemos as luzes e as sombras da vida e as liberdades que nos permitimos.

A moral perturbada da Paris de 1856 dificilmente se poderia transportar para os dias de hoje, mas não é isso que interessa a Tiago Rodrigues. Não, isso é apenas o pretexto. O que interessa é que 150 anos depois o não-dito ainda é intenso, a mulher que deseja ainda é estranha, a arte é ainda perigosa. Por isso é que a peça é uma orgia de palavras. Parte dos discursos originais dos advogados que abriram o julgamento de Gustave Flaubert e, com mestria, mostra como quem estava em julgamento não era o autor, mas a personagem: Bovary, a provinciana adúltera, pouco cristã, má esposa, fraca mãe. Com a realidade a fundir-se na ficção as datas pouco importam, a espessura das personagens vai tomando conta do palco e Flaubert dilui-se na moral da figura imortal que criou.

Desta vez a vedeta é Carla Maciel, numa genial Bovary cuja dinâmica confirma o brilhantismo. Mas o que mais se destaca são as marcas já típica de uma peça da Mundo Perfeito: a liberdade dos atores, para quem o palco não é nunca um espaço confinado; e a utilização rica da língua para garantir o ritmo e a qualidade da obra teatral. O resultado é teatro moderno, ritmado e desafiador que merece ser vista.

A peça Bovary está no Teatro São Luiz, em Lisboa, até dia 15 de junho, de sexta a domingo às 21h00 e no dia 15 às 17h30. Os bilhetes custam entre 12 e 15 euros.

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