Na era em que telefones, os carros, até as casas, são cada vez mais inteligentes, o cinema de indústria americano está cada vez mais burro. Em dramática recessão criativa e na retranca financeira, Hollywood deixou quase totalmente de fazer filmes originais, surpreendentes, arriscados, fora dos moldes que por agora garantem bilheteiras, desfazendo-se em fitas de super-heróis mastodônticas fotocopiadas umas das outras e toxicodependentes dos efeitos digitais, em superproduções de ficção científica (FC) arrasa-olhos e estoira-tímpanos realizadas por software, blockbusters de acção violentamente broncos, comédias de adolescentes boçais, produções familiares de carregar pela boca.

A sofisticação tecnológica destes filmes é directamente proporcional ao seu factor de embrutecimento. Por isso, é tanto mais de saudar o feito conseguido por Christopher Nolan em Interstellar (estreia-se hoje), uma superprodução de ficção científica cinematograficamente de pasmar, com altíssimo poder de entretenimento, intelectualmente estimulante, cientificamente plausível e profundamente humana.

Escorado na sua reputação de cineasta consistentemente lucrativo (só nos EUA, os seus três últimos filmes, O Cavaleiro das Trevas, A Origem e O Cavaleiro das Trevas Renasce, renderam cerca de 1,5 mil milhões de dólares), rigorosíssimo a trabalhar (costuma acabar os filmes antes do previsto) e com aceitação quer entre o grande público, quer entre a crítica e a intelligentsia, Nolan conseguiu pegar num projecto que, apesar de escrito pelo seu irmão Jonathan, nem era seu (Steven Spielberg ia realizá-lo inicialmente) e convencer duas majors de Hollywood, a Paramount e a Warner Bros. a investir 200 milhões de dólares e, facto inédito, a transgredirem as regras económicas de Hollywood e a negociarem entre si os direitos de franchises que possuem, caso de Sexta Feira, 13 ou South Park, para terem direito a uma maior parte dos lucros de Interstellar.

Isto é: o realizador de Memento e Insónia conseguiu com que dois dos maiores estúdios americanos fizessem o que agora raramente fazem: investir pesadamente num filme arriscado, original, visionário, que não se baseia num best-seller de FC nem num jogo de vídeo, mas sim nos trabalhos de um físico, Kip Thorne (consultor e co-produtor de Interstellar), sobre mecânica quântica, viagens no tempo, wormholes e manipulação do espaço-tempo. É obra.

 

Mais 2001: Odisseia no Espaço do que Guerra das Estrelas

É que Interstellar não é um jogo de vídeo gigante passado no cosmos, nem uma space opera sobre invasões alienígenas da Terra ou batalhas espaciais entre naves descomunais e soldados high tech. É um filme muito mais Stephen Hawking que Steven Spielberg, mais 2001: Odisseia no Espaço do que Guerra das Estrelas, mais para estimular os neurónios do que bombardear a vista e os ouvidos, mais para quem se interessa por exploração do cosmos e pelo destino último do homem no universo, do que quem gosta de ver astronautas a alvejarem-se com lasers e planetas a explodir, para quem acredita que a ciência e a tecnologia são a nossa salvação e não a nossa perdição. (Grande defensor do celulóide, o cineasta rodou o filme em IMAX combinando fita de 35 mm e de 70 mm, e insistiu que tivesse antestreia nos EUA em cópias em celulóide nos cinemas ainda equipados com projecção tradicional, dois dias antes da estreia em digital à escala nacional).

Em Interstellar, Christopher Nolan vai à procura do verdadeiro caminho das estrelas. Sem naves espaciais falantes, computadores rebeldes, robôs engraçadinhos ou extraterrestres façanhudos, mas com engenheiros e cientistas de espírito pioneiro, que arriscam destemidamente as suas vidas por um bem maior. Combinando efeitos digitais de ponta, alguns criados de propósito para o filme, com trucagens fotográficas clássicas, miniaturas, cenários de estúdio e exteriores reais, Nolan, aliado ao seu director de fotografia Hoyte van Hoytema, filmou uma epopeia intergaláctica realista (não se ouve um único som no espaço, tal como em 2001, que é aqui por várias vezes homenageado, por imagens e por música, mas a cuja longa sombra o realizador se subtrai), uma celebração visual da majestade esmagadora das paisagens espaciais, um compêndio de especulações científicas expostas aos leigos com a plausibilidade possível , uma empolgante aventura humana e um drama familiar em vertigem de paradoxos temporais.

O elenco alinha frequentadores de filmes anteriores do realizador (Anne Hathaway, Michael Caine) com novas estrelas do firmamento do cinema americano (Matthew McConaughey, Jessica Chastain) e caras conhecidas de várias gerações (Matt Damon, Ellen Burstyn, John Lithgow, Casey Affleck). Tudo começa num futuro próximo, numa Terra castigado por alterações climáticas que levaram as nações à beira da ruína, comprometeram o progresso técnico, condicionaram o dia-a-dia das pessoas, afectaram a produção de comida e causaram pragas que estão a matar as colheitas. O planeta está moribundo e a única esperança encontra-se no espaço.

Trabalhando em segredo, o que resta da NASA, estimulada por aquilo que parece ser uma intrigante oferta posta perto de Saturno por uma entidade extraterrestre indefinida mas benéfica, mandou três missões em busca de um planeta habitável algures no cosmos. O director do projecto, um velho físico (Michael Caine), recruta um piloto e engenheiro reconvertido em agricultor (Matthew McConaughey), e mete-o numa nave, a Endurance, com a sua filha cientista (Anne Hathaway) e dois outros colegas, para descobrirem o que aconteceu às missões anteriores e saber se há mesmo um planeta onde o que resta da humanidade – ou pelo menos parte dela – possa instalar-se e começar de novo.

Os astronautas descobrem que a Via Láctea não é o limite, que o espaço pode dobrar-se como um contorcionista do circo, o tempo pode correr muito depressa para alguns e muito devagar para outros, os buracos negros têm portas das traseiras e o muito longe pode ser contíguo ao muito perto. E que as relações familiares e sentimentais podem ser angustiada e dolorosamente afectadas pelos ditâmes da física quântica. Apesar de rumar  ao infinito, e para lá dele, Interstellar nunca perde de vista aquilo que nos faz humanos, vulneravelmente humanos. É uma epopeia de FC hard tech com vistas cinematográficas larguíssimas, onde Christopher Nolan dá que pensar ao cérebro e que sentir ao coração.