O corpo humano é a matéria-prima dos filmes do canadiano David Cronenberg. Mas o corpo humano repetidamente alterado, deformado, transmutado, metamorfoseado por mutações, vírus, aberrações carnais, fisiológicas ou mentais, induzidas científica e tecnologicamente (“A Mosca”, “eXistenZ”) ou auto-induzidas (“A Ninhada”, “Scanners”, “Crash”), utilizado como uma metáfora ambulante das doenças. Como o próprio disse: “Todos temos a doença – a doença de sermos finitos. A morte é a base de todo o horror”. Até em “The Nest”, uma modesta curta-metragem rodada expressamente para o YouTube este ano, apenas com uma atriz e a sua própria voz “off”, o realizador faz uma variação sobre os seus temas recorrentes, usando o seu material de eleição.
“The Nest”, curta de David Croneberg
“Mapa para as Estrelas”, o novo filme de David Cronenberg (estreia-se hoje), é (também) um filme de monstros, mas as suas deformidades são interiores, morais, de carácter, porque se trata dos grandes, médios e pequenos monstros que formam a cadeia alimentar do planeta Hollywood. Desde os atores, realizadores e produtores lá no topo, até aos que os servem e aturam no dia-a-dia, passando pelos agentes e pelos que exercem as funções de seus suportes mentais, satisfazem os caprichos e fazem a manutenção dos egos.
http://youtu.be/Zd5EM7Z0MS8
“Trailer” de “Mapa para as Estrelas”
O filme em que Hollywood se fustiga a si mesma, expõe os seus podres, faz o seu ato de contrição, é já um subgénero do cinema norte-americano, de “Crepúsculo dos Deuses”, de Billy Wilder, a “O Jogador”, de Robert Altman, de “No Reino da Calúnia”, de Robert Aldrich, a “Tudo Boa Gente”, de Blake Edwards, e ao mais recente “The Canyons”, de Paul Schrader. “Mapa para as Estrelas” é a mais recente contribuição para este património, desta vez feita por um “outsider”. É que além de ser canadiano, Cronenberg nunca tinha antes filmado nos EUA. Esta é a sua primeira visita a Hollywood, rodando um argumento com elementos autobiográficos escrito por Bruce Wagner (autor, entre outros, da série “Wild Palms”, de Oliver Stone).
Entrevista com David Cronenberg
Filme de monstros com rosto humano, sátira negra, macabra e decapante do funcionamento da indústria cinematográfica e das taras, hipocrisias, desequilíbrios, e deformidades morais dos seus protagonistas, história trágica de uma família incestuosa, “Mapa para as Estrelas” é também um filme de fantasmas, reais e metafóricos. Eles aparecem nas banheiras das casas de luxo da sua descendência, a nadar em piscinas iguais àquelas em que se afogaram, às janelas dos quartos exibindo os sinais das doenças que os tiraram do mundo dos vivos, figurando os terrores íntimos daqueles que assombram.
Mas estes espetros são infinitivamente menos aterradores do que os monstros de carne e osso de “Mapa para as Estrelas”. É o caso de Havana Segrand (uma fabulosa Julianne Moore, premiada este ano em Cannes), estrela de cinema em declínio, mental e emocionalmente a funcionar entre o 8 e o 80, que procura, em frenesim, conseguir o papel da sua falecida mãe, uma lenda de Hollywood, na nova versão do filme de maior sucesso desta, e que é totalmente dependente do seu massagista e “assistente espiritual”, Stafford Weiss (John Cusack), todo ele mãos relaxantes e falinhas mansas de “poder pessoal” e “dores mentais que radicam nas dores físicas”.
http://youtu.be/nJdImhFDO2k
Entrevista com Julianne Moore
Stafford e a mulher Christina (Olivia Williams) são também os implacáveis mentores da carreira do seu filho e principal fonte de rendimento, Benji (Evan Bird) , um menino-prodígio da tela, mimado, desbocado e arrogante, que trata como lixo todos os que os rodeiam e está à beira de assinar um novo contrato milionário, desde que se mantenha limpo das drogas e do álcool que lhe compraram uma estadia numa clínica de desintoxicação. Há ainda a jovem e algo arrepiante Agatha (Mia Wasikowska), recém-chegada a Hollywood, que consegue o lugar de assistente pessoal de Havana por ter feito amizade na Internet com Carrie Fisher (que aparece a interpretar-se a si própria) e tem a cara, os braços e o corpo parcialmente desfigurados por queimaduras.
Cena de “Mapa para as Estrelas”
No cinema, e em especial nos filmes americanos, as personagens enigmáticas que chegam de fora não são portadoras de bons augúrios, e Agatha é a depositária de um terrível segredo familiar que vai meter combustível no enredo, dar mais espessura às personagens e evitar que o filme se fique pela denúncia caricatural. (A única figura mais “humana” e decente do filme é Jerome, o motorista de limusinas e aspirante a argumentista interpretado por Robert Pattinson. Ele é o “alter ego” do argumentista Bruce Wagner, que se baseou nas suas experiências no mesmo emprego da personagem de Pattinson em Hollywood para escrever o argumento de “Mapa para as Estrelas”, e tem uma breve aparição a guiar o carro de Benji).
Entrevistas com Robert Pattinson e John Cusack
Os gregos antigos definiam a tragédia como “aquilo que é inescapável”. E enquanto orienta as personagens para que o destino que os pais traçaram pela sua falha moral original se cumpra pela mão dos filhos, David Cronenberg leva tudo à sua frente com uma câmara imperturbável e sardónica, entre vedetas histéricas e agentes desapiedados, produtores gananciosos e realizadores dissolutos, atores boçais com namoradas para todo o serviço e afagadores de egos profissionais. E que no final se vai instalar sob o letreiro gigante de uma Hollywood onde as estrelas afinal podem ser buracos negros.