Este ano vai ter um segundo a mais. Chama-se “segundo intercalar” e a sua aplicação é definida pela International Earth Rotation Service (IERS), entidade que estuda a rotação precisa do planeta. Não é nada demais, de tempos a tempos acontece: os cientistas precisam de acertar o relógio do Homem com o da Terra.

A “hora oficial” é definida por relógios atómicos de alta precisão que estão espalhados por todo o mundo. Eles coordenam as horas entre si, trata-se de um mecanismo complexo que regula tudo: a hora oficial de um país, a abertura e o fecho das bolsas de valores, as partidas e chegadas dos aviões e todo o sistema de comunicação por satélite. Se equacionarmos apenas estes exemplos à escala global, atrasos de segundos transformam-se em horas, num efeito em cadeia com implicações importantes, um dominó que ninguém quer jogar. E todos estes sistemas partilham uma plataforma global: a internet.

Por este motivo, o “segundo intercalar” é uma grande dor de cabeça para os engenheiros e especialistas que garantem que o mundo inteiro se gere pelo mesmo segundo. Isto porque não existe “um” relógio mas muitos, que se controlam numa determinada cadeia e hierarquia. Por isso corre-se o risco que este “acerto” baralhe as contas da comunicação (global) entre os computadores.

Não é a primeira vez que acontece. Este vai ser o 26º “acerto” (foram introduzidos em 1972), mas a evolução tecnológica e a dependência dos sistemas de computação tornam estas alterações complexas. Isto porque, para um computador, um dia tem 86.400 segundos, nem mais nem menos. Um segundo extra não encaixa no formato das máquinas e alguns sistemas não são capazes de o entender, em especial os baseados no sistema Unix.

Para se ter uma ideia das consequências práticas deste acerto, o “segundo intercalar” de 2012 provocou atrasos em 400 voos na Austrália, porque os computadores deixaram de funcionar, obrigando à verificação manual dos sistemas. Páginas tais como o LinkedIn, Reddit, Yelp e Foursquare, também sofreram problemas.

Este ano não se esperam repercussões graves, muito menos se prevê que se repita o fenómeno Y2K (o “bug do milénio” que ameaçou a passagem do ano 1999 para 2000), mas porque o número de pessoas ligadas à internet aumenta de ano para ano, aumenta também a hipótese de que pequenos problemas atinjam mais utilizadores.

A sincronização da rotação real do planeta com as voltas do relógio é um processo complexo. Estes atrasos são praticamente impercetíveis, porque um dia não tem 24 horas certas, medidas ao milissegundo. Por um lado a Terra está a desacelerar, por outro existem variações gravitacionais que alteram a rotação da Terra, por isso de vez em quando é preciso acrescentar ou subtrair um segundo ao nosso relógio. Uma nota publicada pelo Observatório Astronómico de Lisboa explica este “acerto” com mais detalhe.

Já agora, ficou definido que este “avanço” está marcado para o último segundo do último minuto da última hora do dia 30 de junho. Às 23:59:59 os relógios do mundo vão parar por um segundo. Será que a internet também?